O poeta e jornalista Florisvaldo Mattos nasceu em Ilhéus, cursou o ginásio em Itabuna e formou-se em Direito pela Universidade da Bahia em 1958, mesmo ano em que integrava a primeira equipe do Jornal da Bahia. Glauber Rocha era o editor de polícia e foi quem mais apostou no talento do jovem grapiúna, levando-o a trocar a advocacia pelo jornalismo e pela poesia. Sob a liderança de Glauber, Florisvaldo participou do grupo literário que editava a revista Mapa.
No dia 11 de setembro de 2001, Florisvaldo viveu o atentado às Torres Gêmeas de Nova York como jornalista e como poeta. Nove dias depois ele gerou o poema Sísifo, o fogo e as essências, publicado então no suplemento semanal que ele editava magistralmente no jornal A Tarde, de Salvador, o A Tarde Cultural. Este blog republica o poema dez anos depois para marcar a data com um jeito baiano de ver o fato histórico.
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SÍSIFO, O FOGO E AS ESSÊNCIAS
Florisvaldo Mattos
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Aos mortos do World Trade Center de Nova York (Terça-feira, 11 set. 2001)
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Et par le pouvoir d’un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître
Pour te nommer
………………………………………….. Liberté.
(Paul Éluard, Poésie et Verité, Paris, 1942)
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Grandes e estranhos pensamentos
francamente trafegam pelas
rotundas da noite. Desperto
de longínquas esferas, ardo.
Propenso a inundar-me do ar da noite,
absorvo mapas de passado grávidos.
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Só a noite, sim, me recupera os tendões
nervosos que me amarram a almejadas
glórias, as que me faziam anjo
pairando sobre mantos estelares
e, súbito, perdi. Tateio entre ventres,
entre seios, flores murchas de olor sugado.
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Não estou nada feliz. No mar revolto
de sonhos desvanecidos, resta-me,
de meu posto, aguardar o êxtase tempestuoso.
Gêmeas torres sem alegrias, imponentes,
diáfanas: o orgulho traspassa constelações,
a enrijecer, petrificar corações em febre.
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Tudo se parece com o mar: profundidade
e sobressalto. Outrora eram desertos,
fecundas areias de canto e idílio
nostálgicas. Ou, antes, com céu propício
a viagens, ao sopro de ventos perenes,
navegações de alma, semblantes nômades.
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E, assim, marcho para a noite de estilhaços,
onde submerjo. Sobrevieram devastações.
Mal os pássaros acordavam, quando tudo
transmudou-se em frágua vertical, depois ruiu,
poeira e pedra no descambo caçando Sísifo,
solerte adubação, solo propenso a iras.
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Ó pranto hereditário de Velho Oeste
sem anjos, fogo de revólveres pedagógicos,
terras (disseram) de glorioso fundamento.
Metralhadoras em noites de ritos fumegantes,
ó didático pragmatismo do aço, sangue e balas,
moedas de fel sobre relva de surdos passos!
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Decididamente, perco-me entre grossas
cordilheiras de fumo, de caliça e ferro
retorcido; corpos de forma e cor nenhuma.
Decididamente, o caos se fez medo e escombros,
ante rostos atônitos, bocas empedernidas.
De novo Guernica? De novo Nagasaki?
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Pássaros cegos descreveram linhas rubras
no céu da manhã, refletidas na água verde
do rio que segue indiferente destino
sob grandes pontes. No chão, decididamente,
em letras de cimento e alumínio, a mão do anjo
escreve: “Humanidade, vergonha é o teu nome.”
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(Salvador, 20 set. 2001)
N. do Autor: poema constante do livro Poesia Reunida e Inéditos (São Paulo: Escrituras Editora, 2011, 352 págs.)
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[N. do Editor: veja mais informações sobre esse livro de Florisvaldo Mattos neste blog, no post http://jeitobaiano.atarde.uol.com.br/?p=2780]
Posso falar, cumpanhêro?
texto de zédejesusbarreto*
Não imaginem que escrevo com melancolia e sim com reconhecimento: com o advento consolidado da ‘era Lula’ e a comunização irreversível e crescente das redes digitais interativas a versão brasileira da língua de Camões não será a mesma. Corram os gramáticos, dicionaristas, escrevinhadores… porque os ‘famélicos’ globais avançaram na sintaxe, na concordância e na grafia das palavras sem pudores. E nóis tá antenado pq sñ a gente viramo dinossáurico e de direita.
O universo digital constrói aos poucos, e está bem próximo de conseguir, um novo código (sinais) de comunicação (relacionamento) único e universal. É uma meta, o amanhã. Mais por urgência do que por decisão ou experimento os internautas com seus tablets e celulares, em micro-papos de letrinhas e imagens rápidas estão usando e consolidando outros signos na comunicação à distância. Novos comportamentos humanos. Há uma revolução em curso. Urgente, comunitária, desembestada.
Algo tão marcante na história como foram o invento da escrita, os hieróglifos, Gutemberg, o telefone, o cérebro eletrônico… O mundo agora gira em megavelocidades. Jornalista do século passado, vivi o teletipo, o linotipo, a telefoto… já me considero uma traça da civilização do papel, era que se finda. Mas a escrita impressa resiste, há nela um certo lume de encantamento… bruxuleante.
Mutações globais de lado, o linguajar oral corriqueiro de uma população desprovida de escolaridade básica ganhou status – ‘modo politicamente correto de expressão’. Está nos livros didáticos do MEC distribuídos nas escolas. Diretrizes educacionais da nossa república sindicalista, dominante e empoderada na ‘era Lula’, em vigor. A politização ou ideologização da escrita rasgando a gramática. – O que seria a gramática senão a organizada chancela acadêmica do falar do povo? Argumentariam. É, mas não foram os petistas que descobriram o dizer popular. Patativa, Guimarães Rosa, Jorge Amado, João Ubaldo Ribeiro, Dias Gomes, Ordep Serra… A linguagem do povo sempre foi referência e inspiração na literatura, teatro, na TV…
Nas escolas é necessário ensinar às crianças a grafia, a pronúncia correta das palavras, a sintaxe, a concordância, a conjugação verbal… mesmo nos confins de Amazonas, na secura da caatinga, porque só se expressando clara e corretamente o jovem pode crescer, partilhar de um novo mundo que se abre, onde conhecimento é fundamental. Escrever e falar bem são requisitos para inclusão e respeito num mercado de trabalho que é competitivo, seletivo.
Ou vamos de vez estabelecer que a universidade, os melhores cargos e salários, os postos de comando e criação estejam sempre ocupados por alguns, os mesmos de sempre, brancos, ‘bem nascidos’ e aquinhoados, vindos de colégios particulares, de preferência dos grandes centros urbanos, do sul do país. A excelência, a inclusão global reservadas para eles, pronto.
Já para a periferia, os nordestino, os trabaiadô, a negrada, os curintiano… esses, com seu jeito próprio de falar e escrever – deixa lá, eles não vão querer aprender mesmo! –, para esses, de quem se quer apenas o voto e basta que tenham bolsa-família e feijão na panela, restam a lida doméstica, o lixo urbano, o ofício de pedreiro, cortador de cana, de peão de fábrica… É, quem sabe, um deles ainda algum dia chega de novo à Presidência da República? Ora, o povo quer falar decente no celular, quer escrever direito no computador… até para que o universo lhe compreenda.
*zédejesusbarreto – jornalista e escrevinhador.
(23/mai/2011)
Pesco estas informações no site da Fundação Casa de Jorge Amado:
JORGE VELLOSO LANÇA LIVRO NA
FUNDAÇÃO CASA DE JORGE AMADO
Hoje, dia 13 de maio, sexta-feira, das 18 horas às 21 horas, ocorre na Fundação Casa de Jorge Amado, no Pelourinho, o lançamento do livro-reportagem de Jorge Velloso, Candomblé de rua – O Bembé de Santo Amaro (195 páginas, Editora Casa de Palavras, Salvador), que busca retratar o Bembé do Mercado como um fenômeno social e religioso de relevância na cultura do Recôncavo Baiano. O lançamento também será comemorado dentro das celebrações do Bembé do Mercado, amanhã, dia 14, no Barracão do Bembé, Largo do Mercado, em Santo Amaro.
Através da criação da obra, Jorge Velloso teve como objetivo mostrar cada detalhe da festa, se baseando nos motivos históricos e culturais que são de fundamental importância para a realização deste movimento. O autor buscou ainda ir além da simples abordagem do ritual e o reconstruiu para o leitor.
Todos os anos, desde 1889, em Santo Amaro da Purificação, Recôncavo Baiano, os negros e mestiços da cidade se juntam para celebrar o fim de um triste período da história do nosso país. Treze de maio, Dia da Abolição da Escravatura, é dia de festa em Santo Amaro. É dia do Bembé do Mercado, manifestação cultural que tem como foco principal o Candomblé. Vale salientar que Santo Amaro da Purificação é o único lugar do Brasil, onde acontece Candomblé de rua.
O Bembé já se tornou uma festa tradicional do Recôncavo Baiano, mas ainda é inédita a publicação de um livro-reportagem a seu respeito. Jorge Velloso afirma que escolheu o tema devido à sua “proximidade com a religiosidade afro-descendente, cercada de símbolos que enchem ainda mais a cultura negra de beleza e magia”.
Jorge Velloso nasceu em Salvador, mas sempre esteve ligado aos movimentos culturais do Recôncavo Baiano, já que sua família é de Santo Amaro da Purificação. Formado em Comunicação Social/Jornalismo – pela Universidade Jorge Amado, ele havia escrito dois livros de poesia Menino da Arraia Azul e Dia com Menino na Janela aos 6 e 8 anos, respectivamente. Passou pelos jornais Tribuna da Bahia e Correio da Bahia e atualmente é assessor de imprensa no Rio de Janeiro.
No dia do evento, o livro será vendido por um preço promocional de R$ 20,00.


