Archive for the 'Capoeira' Category


LUCIA CORREIA LIMA E A CAPOEIRA

posted by Jary Cardoso @ 11:24 AM
5 de setembro de 2010
Em frente à antiga sede da Academia de Mestre Pastinha, hoje Restaurante do Senac, no Pelourinho, Salvador-BA, da esquerda para a direita: Lucia, Boa Gente, Boca Rica, Mala, Curió, Alfinete, Bigodinho, Bom Cabrito, Môa

O tema Capoeira precisa estar mais presente neste blog e homenageá-la é também uma questão de gratidão. Um dos três posts mais acessados do Jeito Baiano é o do dia 11 de julho de 2009, “Gente da Bahia – Mestre Bimba”:

http://jeitobaiano.atarde.uol.com.br/?p=636

Esse post reproduz a matéria do Caderno 2 de A Tarde “Mestre para toda a vida”, escrita pelo repórter Chico Castro Jr. a propósito do lançamento do livro Capoeira regional e a escola de Mestre Bimba, de autoria de um aluno de Bimba, Héllio Campos, o Mestre Xaréu. O post também reproduz desenhos escaneados do livro mostrando golpes da Capoeira Regional.

Quase um ano depois, esse post ainda permanecia nos primeiros lugares da estatística de acessos do blog, sucesso que me deixava intrigado até que minha amiga Lucia Correia Lima, mulher rétada – jornalista, fotógrafa, baiana e capoeirista –, esclareceu.

A maioria dos acessos deve vir de fora do Brasil, porque a capoeira está cada vez mais difundida por toda parte, explicou Lucia. Ela integra, na internet, um grupo de discussão sobre capoeira, coordenado por um brasileiro que mora na Austrália, e o bate-papo é acessado por gente do mundo todo.

E Lucia está por dentro dessa internacionalização, que conheceu de perto durante estadia, em Nova York, na prestigiada Escola de Mestre João Grande, um dos dois principais herdeiros do movimento cultural de Mestre Pastinha, o criador da Capoeira Angola – o outro herdeiro é Mestre João Pequeno, de quem Lucia também é amiga e recebeu ensinamentos.

Um dia Lucia teve a ideia de fazer um documentário sobre a internacionalização da capoeira com depoimentos dos grandes mestres. Ela escreveu o roteiro e o entregou ao diretor Lázaro Faria, que o produziu em 2005.

Agora Lucia está concluindo um livro que terá o mesmo título do documentário, Mandinga em Manhattan, com a intenção de aprofundar o tema da internacionalização da capoeira. Para isso, ela realizou um grande número de entrevistas. O livro será certamente um documento importante.

Resolvi, então, fazer uma entrevista com Lucia sobre todo esse envolvimento dela com a Capoeira. Antes revi o DVD do documentário, que mais uma vez me tocou e, no calor da emoção, escrevi para ela umas palavras que reproduzo abaixo como introdução à entrevista.

Com Mestre Bigodinho – maio 2009


LÚCIA CORREIA LIMA:

A CAPOEIRA, HOJE, É UMA REALIDADE

SEMELHANTE ÀS ARTES MARCIAIS

ORIENTAIS QUE GANHARAM O MUNDO

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Acabo de rever o DVD-documentário Mandinga em Manhattan – Como a Capoeira se espalhou pelo mundo e, igual à primeira vez, chorei gostoso. Que trabalho lindo e emocionante esse que resultou de um projeto e roteiro de Lucia Correia Lima! Emocionante porque através de depoimentos e imagens atuais e de arquivo a gente se orgulha de ser brasileiro ao ver a facilidade com que a capoeira ganhou o mundo. Hoje existem academias de capoeira espalhadas por tudo que é canto. Nos Estados Unidos, ela é estudada em universidades, e no documentário pode-se assistir a uma aula ministrada por um negão baiano de barba branca e cabelo rastafari, que toca um berimbau acompanhado com palmas pelos alunos brancos.

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JARY Qual é mesmo o nome desse mestre que aparece várias vezes no documentário?

LUCIACobrinha. Discípulo do polêmico Mestre Moraes. Ele tem grupos em alguns países e foi convidado por mim para ser consultor do documentário. Na verdade a condução da história, no meu roteiro que foi premiado, era um papel para Lázaro Ramos, que aceitou o convite, mas a ex-produtora Ex-Filmes…

O edital determinava que o autor deveria apresentar uma produtora, para administrar a verba de 100 mil do prêmio. Mandinga em Manhattan, o documentário, é um projeto do edital DOCTV 2004, do Ministério da Cultura, administrado pelo Irdeb [Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia].

Enfim, o diretor, acredito, para conter custos, botou o Cobrinha para conduzir a história. Com certeza Lázaro Ramos faria melhor. Ele daria um tom de imparcialidade, que Cobrinha tirou. Lázaro nasceu na Ilha do Paty, em São Francisco do Conde, onde foram filmadas, a meu pedido, as cenas no canavial.

Muitos pesquisadores acham que a capoeira surge nas terras férteis do Recôncavo baiano, que produziu o primeiro produto de exportação do Brasil Colônia, feito por mãos negras.

Claro que tivemos a Carmem Miranda, a música, o samba, o Zé Carioca, mas a capoeira é nosso produto de exportação cultural que encantou e ocupou espaços, tanto no Ocidente quanto no Oriente. É mais desejado que a caipirinha e a feijoada. Agora na Espanha está sendo aprovada para ensino nas escolas públicas. Até em pequenas cidades de interior de dezenas de países, a capoeira é praticada com perfeição e coordenada por professores e mestres brasileiros. É uma realidade semelhante às artes marciais orientais, que ganharam o mundo.

Com o presidente Lula e o então ministro da Cultura, Gilberto Gil, quando Mestre João Pequeno recebeu uma comenda, em 2003

JARY Dê a ficha técnica da obra (o documentário): nome do diretor e dos principais depoentes, como João Pequeno; o ano em que os depoimentos foram tomados; onde foram feitas as locações; quem bancou os trabalhos, etc. Como se desenvolveram as filmagens, a produção e a concepção do tema? E o livro com o mesmo título?

LUCIA Em 2005 o trabalho do documentário foi produzido. O diretor é Lázaro Faria da ex X-Filmes. O trabalho ficou bom, pois o tema é muito forte e, sem falsa modéstia, a forma como foi concebido não tinha como ficar ruim. Mas na edição e produção, muitos que têm substantivo valor no processo de expansão da capoeira ficaram de fora ou tiveram pouco espaço. Por isto ganhei o prêmio com o projeto Mandinga em Manhattan – O livro. Outro edital, chamado Capoeira Viva. Também do Ministério da Cultura e administrado pela Fundação Gregório de Mattos. Ambos com verba da mãe Petrobras.

Estou me inspirando um pouco no poeta Boca do Inferno [Gregório de Mattos] para aprofundar e corrigir estes erros do documentário; como prometido no projeto do livro. Foi o livro mais barato do edital. Ganhei nove mil, menos os impostos – imposto mesmo, pois trabalho cultural deveria ser isento. Fiquei com pouco mais de sete mil. Para entregar o livro em DVD. Mas a turma da Gregório viu sua importância e está reapresentando o projeto para edição em papel, junto com outros projetos excelentes, conto depois.

As entrevistas do documentário não foram conduzidas por um profissional de comunicação, como eu queria; por isto ficam longuíssimas. Pedi para que fossem feitas as transcrições e recebi quase 600 páginas! Estou enxugando; editando o que merece e já fiz ou refiz muitas outras, como Emilia Biancardi; entrevistei Negro Gato, pioneirismo e responsável pela ida de João Grande para Nova York; fui ao Rio para entrevistar Camisa, fiz Camisa Roxa; fui a São Paulo refazer Suassuna.

Entrevistei Lucia Palmares, uma mulher fantástica, que, aqui, estava ameaçada de morte pelo marido e a capoeira a levou a Paris. Lá está até hoje.

O trabalho está se aprofundando a cada dia, pois este é o papel dos livros. Estou estudando muito, porque sou a primeira mulher, não acadêmica, a escrever sobre o viril tema. Os dois livros que existem produzidos por mulheres são teses para universidades.

Mas, meu amigo Cobrinha no documentário, tenta valorizar os angoleiros, seu estilo. Consegue porque o diretor pouco sabia sobre capoeira. Ele, que deveria ser mais um entrevistado e consultor, leva, sutilmente, o trabalho para uma boba disputa entre os seguidores de Mestre Pastinha e Mestre Bimba. Isto é percebido claramente somente por quem conhece mesmo o assunto.

Bimba é genial e dá à capoeira um caráter de luta; atrai a classe média; é recebido no Palácio do egrégio interventor Juracy Magalhães e depois por Getúlio Vargas, que usa a capoeira em seu projeto de nacionalismo, Vargas, sabido, vê na marginalizada capoeira uma luta nacional e autoriza-a para a preparação de jovens militares, que seriam convocados para a Segunda Guerra. Bimba passa então a dar aulas, por exemplo, do quartel do Barbalho.

Pastinha, também um gênio, mantém a tradição da capoeira; tradição que valoriza a defesa. Atrai os intelectuais como Jorge Amado, Carybé, Mário Cravo. É indicado pelo Itamaraty para representar o Brasil no I Festival de Artes Negras do Senegal, em 1960.

Com Mestre João Grande no Aeroporto Dois de Julho, em Salvador

Os grandes responsáveis pela internacionalização da capoeira aparecem pouco no vídeo Mandinga em Manhattan: Jelon Vieira, que, como João Grande, foi também homenageado na Casa Branca por mérito cultural, vive em Nova York desde 1970 e viaja o mundo com seu grupo, foi filmado em Salvador, é pouco dito sobre ele; Mestre Camisa é um dos maiores, levou a capoeira até para a África, onde realmente não existia, já que, arte-luta, é uma soma de lutas e rituais vindos da África… Quase tive que brigar para colocá-lo no documentário.

Temos um detalhe importantíssimo que nunca foi comentado sobre estes rituais, que aqui deram a base para a criação da capoeira. Mas aguarde o livro. Camisa deu entrevista do Rio de Janeiro.

Temos outros mestres internacionais que falam pouco no vídeo, como Mestre Suassuna (de Ilhéus), primo de outro gênio, o Adriano Suassuna, gravado em São Paulo, meu primeiro mestre; Amém, que levou a capoeira para o cinema de Hollywood, desde a década de 1970, filmado em Los Angeles, também não tem o espaço que merece; Jelon, Camisa, João Grande, Amém, Alabama são importantes na expansão da capoeira, mas Camisa Roxa, Nego Gato, Loremil Machado e Nô são importantíssimos e nem estão no documentário. Todos da capoeira regional. Como disse, Cobrinha é angoleiro, um excelente angoleiro.

Entre eles somente João Grande é importante, sim – filmado em sua escola em Manhattan com roteiro escrito por mim; Moraes vem depois de João e também nem está no trabalho. Janja, uma estudiosa e mestra angoleira, está pouco no documentário. Sua entrevista é excelente.

Em Los Angeles quem apresenta a capoeira no cinema é um tal de Eric Marinho, que não é nada na capoeira, além de amigo do diretor. Mestre Amém é o cara que levou a capoeira para o cinema.

O vídeo é muito bom, mas tem essas falhas. O livro vai corrigir isto.

Essa condução de Cobrinha prejudicou os fundamentos do trabalho, porque ele puxou a brasa para a sardinha dele; e você sabe, eu tive que conduzir o roteiro como jornalista, não como capoeira… Tive problemas para exercer meu papel de roteirista… Inclusive, ou principalmente por ser mulher; mas o livro será a volta que a capoeira me ensinou a esperar. As filmagens foram feitas em Salvador, São Francisco do Conde, Nova York, Los Angeles, Rio de Janeiro e São Paulo.

João Pequeno é importante por sua história. Mas nunca se interessou em ensinar no exterior. Mestre João Pequeno já deu a volta ao mundo e tem dezenas de carimbos em seu passaporte; mas não é apaixonado por dar aulas no exterior, como podem ver no video; mas seu alunos Ciro Rasta, Jogo de Dentro e Eletricista são recebidos constantemente em todos os continentes e levam o método e filosofia do mestre, que é fundamental na preservação da capoeira tradicional.

No Pelô com Mestre João Pequeno e Mestre Mala

JARYComo e onde adquirir o DVD – e o preço?

LUCIA Hoje, eu posso vender. Está registrado na Biblioteca Nacional em meu nome, sou a única autora, só não fiz a capa do projeto que é uma pintura. Tenho enviado pelo correio e distribuído por poucas academias. Meu amigo mestre Boca Rica, no Forte de Santo Antônio está autorizado a vender. Tem muita pirataria, muita. Mas vou fazer cópias e colocar em algumas lojas. Devo relançar junto com o livro. Troquei a capa que era muito ruim. João Grande me autorizou a colocar suas fotos na nova capa, ele é o mandingueiro de Manhattan!

Escrevendo eu mando via correios, por 40 reais.

Às vezes faço doação para instituições ou mestres que não têm condições. Já doei muitos. Claro, foi feito com dinheiro público e respeito muito isto. Este é o problema do Brasil, a falta de seriedade com o dinheiro público!

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JARYE o seu livro, que terá o mesmo título Mandinga em Manhattan, será também uma reportagem contando a expansão internacional da capoeira?

LUCIA Veja, já falei do livro que é uma continuação e aprofundamento do documentário. Mas o tema surge originalmente como livro mesmo em 1994, quando me mudei para o Centro Histórico [de Salvador] e fui treinar com João Pequeno, nas ruínas do Forte do Santo Antônio.

Lá passei a fazer aulas com jovens de muitos países, uma surpresa para mim. Tinha uma menina de Israel, que apelidamos de Xuxa, era lourinha. Ela ficou três meses fazendo as aulas e quando fomos tomar uma cerveja na sua despedida, fiquei curiosa quando ela nos disse que em Israel uma roda de capoeira estaria lhe esperando no aeroporto. Era 1994!

Então convidei o sociólogo e jornalista Gustavo Falcón – que algum tempo antes, vendo minha tristeza quando me separei do meu primeiro companheiro, me disse: “Vai, comadre, fazer capoeira”. Fui e as dores se foram!

Era início dos anos 1990. Convidei também o maior pesquisador da capoeira, que ainda era um tema marginalizado pela Academia e pelos meios de comunicação, o Fred Abreu. Mas o projeto ficou engavetado, pois a cultura na Bahia era um jogo de cartas escolhidas.

Alguns anos depois convidei Lazaro Faria, que encontrei no barracão de Xangô, quando Mãe Stella estava ganhando uma comenda do MinC. Ele me chamou para redigir o projeto e elaborar o roteiro e fazer a assistência de direção, outros anos depois.

Com Mestre João Pequeno em sua escola e mais o escritor Jair Moura – meados da década de 1990

JARYO que a capoeira representa na sua vida, Lucia? É uma maneira de centrar/equilibrar você no cotidiano? É uma fonte de sabedoria prática de como levar bem a vida?

LUCIASim. A capoeira é um sábio estilo de vida, principalmente neste mundo sem ética, sem amor, onde o grande fundamentalismo é o consumo; como disse Milton Santos. A capoeira nos ensina a flexibilidade, a solidariedade, a espiritualidade, a alegria, a manha. E ativar os hormônios do prazer, claro.

Mas, meu profundo encontro com a cultura afro-brasileira veio bem antes, quando criança em Alagoinhas, meu pai, depois de sofrer várias prisões aqui em Salvador, uma delas no mesmo Forte onde anos depois fui jogar capoeira, foi viver lá e organizar o Partido Comunista. Era dirigente no município e o pai de Lidice, Aurélio da Mata, seu contemporâneo.

Lá, na clandestinidade, imagine, tínhamos reuniões em um terreiro de Candomblé, pois o marido da mãe-de-santo era militante. As crianças estavam sempre presentes para disfarçar.

Então recebi este conhecimento de uma forma natural e na forma mais profunda de se receber um conhecimento, pelos laços consanguíneos. Os Orixás eram nossos amigos e protetores, mesmo! Eles nos protegiam da polícia política, como sempre fizeram com os velhos capoeiras, somente por jogar capoeira nas ruas.

Outra coisa que me encantava ao me aproximar de uma manifestação negra, era tentar entender como um povo tão sofrido e tão pobre conseguia e consegue ser tão alegre e de bem com a vida! A capoeira é uma forma feliz de encontrar equilíbrio físico e desenvolver sua inteligência emocional, sim; é uma forma de sociabilidade, onde as classes sociais se encontram; e todos se respeitam independentemente da conta bancária.

É, na prática, o sonho de socialismo que meu pai e minha mãe me deram de herança. É uma busca do transe que desde criança encontrei nas reuniões clandestinas de minha infância. Como clandestinas eram as rodas de capoeira na sua origem. É o que o Jorge Saudoso Amado disse em outro documentário sobre capoeira: “Porque cultura é vida! E é com o povo que a gente aprende a vida, é que a gente se faz realmente culto.”

Com Mestre Ferreirinha, em Santo Amaro – meados dos anos 1990

JARYComo a capoeira surgiu para você? Por meio de quem? Como ela lhe conquistou?

LUCIA – Foi em plena ditadura em São Paulo, sua [a de Jary] primeira terra. Tivemos de mudar após o golpe. Fomos de Alagoinhas para São Paulo, em 64 mesmo. Logo depois, com 14, 15 anos, entrei para a militância do movimento estudantil secundarista. Tínhamos grupos de estudos com universitários e operários, como chamávamos na época. Um dos colegas de militância, negro e meu professor de marxismo-leninismo, me levou para a primeira escola de Mestre Suassuna, na Rua das Palmeiras. O mestre conta no livro sua prisão, só por ter alunos militantes. Este rapaz que me apresentou a capoeira em SP entrou para a estúpida luta armada; e, sem nada a ver, Mestre Suassuna foi preso, eu fui logo depois, mas isto é outra história.

Poucos anos depois, fui trabalhar na Editora Abril que fazia a revista Realidade, que foi fechada, pois incomodava… Enfim, pouco depois passei um tempo em Salvador com Hamilton Almeida Filho, meu primeiro companheiro e conhecemos Gustavo Falcón na Tribuna da Bahia, onde trabalhamos. Ele era da turma de Antonio Risério, que faz parte desta geração que, na década de 60, buscava na cultura popular nutrientes para seus ideias de esquerda.

Falcón me apresentou a um professor de capoeira, o Zé Luiz, do Campo da Pólvora, que havia frequentado a escola de Pastinha. Treinávamos no Dique Pequeno embaixo de mangueira, em um fundo de quintal com chão batido, da casa de Adilson Senzala… Li duzentas vezes Capitães da Areia de Jorge Amado. Pela primeira vez aos onze anos. Era aquele mundo, de gente verdadeira, que me encantava…

Depois de uma longa história, que está em parte no livro, deixei a capoeira, que não combinava com a boemia de minha geração de jornalistas. Porque capoeira é disciplina, sim! Voltei a treinar anos depois, quando meu filho Aylê me chamou para fotografar sua troca de cordel, em evento do Contramestre Sabiá, então discípulo de Mestre Camisa, que já citei acima. Foi neste período que retornei ao professor do Campo da Pólvora, que estava no Tororó. Ele havia mudado de nome e a forma de ensinar. Não gostei. Como já disse, logo depois disto fui viver no Centro Histórico, a poucos passos da escola de João Pequeno. Tive o privilégio de fazer suas últimas aulas.

Por alguns anos bebi na fonte de sabedoria e alegria e elegância de João Pequeno. Me afastei de sua escola muito depois dele deixar de fazer as aulas.

Mestre Cobrinha, um fotógrafo americano, o escritor Jair Moura, Mestre João Pequeno, Mestre Alfinete, Zé Luís, René, Virgílio e Lucia

Aguarde o livro. Ogun vai me ajudar, ele vai sair, espero, até o final do ano. A galera da Gregório de Mattos está se mexendo para isto. A nova administração vai resolver as pendências com o MinC para poder finalizar os projetos do Capoeira Viva. Com uma sobra da verba e a dedicação da turma que coordena os projetos, entre elas Franciane Figueiredo, que é também capoeirista.

Teremos também uma Enciclopédia com quatro volumes excelentes: um livro produzido por Fred Abreu, que editou antigas gravações feitas por Emilia Biancardi com Mestre Pastinhas e suas pesquisas para criar o Viva Bahia; o livro de Pedro Abib, capoeira de verdade e acadêmico também – foi ele quem batalhou para João Pequeno receber o honoris causa da UFBA. O outro volume será com jovens escritores de vários Estados e um catálogo mapeando as regiões onde se discute a capoeira. O livro de Jair Moura A Capoeira no Rio de Janeiro através dos séculos está pronto.

Junto com os livros, a turma fez um excelente trabalho com as músicas que receberam para o edital. Serão lançados em vários CDs; com a nata. Trata-se de uma coleção chamada Capoeira Viva com Boca Rica e Bigodinho, Zé do Lenço, meu amigo do peito, Baixinho, Olavo, Ivan de Santo Amaro, o maravilhoso Mestre Ananias e outros! Quer mais?

No Aeroporto Dois de Julho, Lucia recepciona Mestre João Pequeno de volta dos Estados Unidos

No Central Park, "quando me internei na Escola de Mestre João Grande, em Nova York" - diz Lucia Correia Lima

Lançando o documentário "Mandinga em Manhattan", na Universidade da Philadelphia (EUA)

No lançamento do documentário "Mandinga em Manhattan" numa universidade da Philadelphia

Conheço Lucia Correia Lima de outros carnavais:

Foto de LUCIA CORREIA LIMA: o repórter Jary Cardoso entrevista o maestro tropicalista Rogério Duprat no seu estúdio em São Paulo, no ano de 1985. A entrevista se destinava ao projeto de comemoração dos vinte anos de carreira de um dos líderes da Tropicália, Gilberto Gil, projeto esse denominado GIL 20 ANOS-LUZ

Lucia com os tropicalistas Caetano Veloso e Rogério Duarte em barraca de Carnaval na Praça Castro Alves, final dos anos 70

Mestre João Pequeno já deu a volta ao mundo e tem dezenas de carimbos em seu passaporte; mas não é apaixonado por dar aulas no exterior, como podem ver no video; mas seu alunos Ciro Rasta; Jogo de Dentro e Eletricista são recebidos constantemente em todos os continentes e levam o método e filosofia do mestre que é fundamental na preservação da capoeira tradicional


GINGA FUTEBOL ARTE

posted by Jary Cardoso @ 2:56 PM
9 de junho de 2010

Ilustração de GENTIL

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A recriação do futebol [no Brasil] começa com a participação do negro. Faz com que a linguagem do futebol seja envolvida por valores procedentes de culturas milenares

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texto de MARCO AURÉLIO LUZ*

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O célebre Mario Filho, autor do livro O negro e o futebol brasileiro, observa a reação dos jornais ingleses referindo-se à Seleção brasileira em excursão na Europa em 1956 as vésperas da conquista da Copa do Mundo de 1958: “O futebol brasileiro tinha tudo de um circo: o comedor de fogo, o engolidor de faca, os acrobatas, os trapezistas, até os palhaços. Só não tinha essa coisa elementar que era um time”.

Para muitos o futebol brasileiro é incompreensível. Isso porque a fonte de sua inspiração nasce da civilização africana que sofre de forte recalcamento pelos sistemas neocoloniais europocêntricos. Essa recriação do futebol começa com a participação do negro. Faz com que a linguagem do futebol seja envolvida por novos valores procedentes de culturas milenares.

O jogo que era uma elaboração das formas técnicas industriais de produção, a divisão de funções do trabalho a serem cumpridas da melhor maneira visando unicamente o gol, que significa objetivo, produtividade, tem agora uma nova pedra angular, isto é a noção de odara que em língua yoruba significa bom e bonito simultaneamente.

Nessa bacia semântica de formas e movimentos o técnico não se separa do estético é uma e mesma coisa. Então a ocupação do tempo e do espaço do jogo sofrerão mudanças radicais. A mesma indagação sobre a capoeira para os de fora da roda, se é dança, se é luta, se é religião, se é jogo, acontece com o que viemos a chamar de futebol arte.

Assim como a capoeira, a base do jogo é a ginga. A ginga é o movimento que incorpora a síncopa, o vazio que constrói a esquiva que torna o jogador invisível para o adversário. Esse movimento se faz ao sabor do ritmo do balanço, que os afro-americanos chamam de suingue. O nome ginga creio eu deriva como homenagem à Rainha Ginga Ngola Bandi Kiluanji. Ela que enfrentou os colonialistas escravistas de Portugal e é considerada a rainha invisível por suas táticas de deslocamentos, conseguindo manter o reino do Ndongo (Angola) independente, é lembrada nos autos de coroação dos reis de Congo nas congadas do Brasil.

Outra referência importante se desdobra da noção do espaço sagrado. Nas tradições cristãs o espaço celeste é o lugar do sagrado. Toda uma estética se constitui dessa noção, desde as narrativas celestiais às pinturas das igrejas e sua arquitetura se projetando para o alto. Assim como a dança “clássica” o ballet com seus saltos para o alto, o futebol inglês não foge desse valor, bola para cima e a cabeçada faz da cabeça o lugar onde o espírito se separa ou controla a matéria ou pecado de onde deve sair o gol.

Muito diferente é a noção do espaço sagrado nas culturas afro-brasileiras. Aqui é o interior da terra que guarda e contém o mistério da criação, de onde se celebra a ancestralidade. Então toda uma estética está voltada para baixo, em termos de rituais, complexas danças com gestos simbólicos, onde todo o corpo e os pés em contato com o solo sacralizado realizam a comunicação entre esse mundo e o além.

Assim como a capoeira original se faz ao rés do chão o futebol arte evolui rente ao gramado.

Por fim, tendo na origem o livro sagrado, a comunicação exigindo a concepção do corpo ascético, do corpo inerte, educado para obter conhecimento apenas através da leitura ou de imagens, exacerbando a relação olho cérebro, característica das culturas europeias, faz com que se desdobre na formação de jogadores de futebol o que chamamos de cintura dura.

Por outro lado, nas culturas afro-brasileiras o acesso ao saber faz um apelo a todos os sentidos, promovendo a sinergia entre eles e ao mesmo tempo exigindo uma comunicação direta intergrupal, onde se dá e se realiza o desejo de estar junto, em interação grupal se fortalecendo, podendo se divertir e manifestar a alegria. A música percussiva, a dramatização que envolve a estética do sagrado fazem do corpo em movimento um caminho de adoração de entidades ancestrais.

Daqui se desdobra também essa característica lúdica do nosso futebol arte, e através dela somos o país com mais conquistas da Copa do Mundo.

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*Marco Aurélio Luz – Doutor em Comunicação, licenciado em Filosofia, professor, escritor, escultor

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CAPOEIRA: LIVRO SOBRE MESTRE PASTINHA

posted by Jary Cardoso @ 2:35 PM
14 de dezembro de 2009

Capa do livro que traça o perfil de Mestre Pastinha, escrito por Otto Freitas e José de Jesus Barreto

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Novos perfis de

Gente da Bahia

O capoerista angoleiro Mestre Pastinha, o mestre das artes plásticas Juarez Paraíso, o abade beneditino Dom Timóteo, o deputado do divórcio Nelson Carneiro e o estudioso do afrobaiano Édison Carneiro: esse é o elenco de personalidades perfilados no novo pacote editorial da Coleção Gente da Bahia bancada pela Assembleia Legislativa do Estado da Bahia (ALB), com lançamento marcado para essa terça-feira, dia 15 de dezembro, a partir das 16h30 no saguão Deputado Nestor Duarte, da ALB.

O Mestre Pastinha, sem dúvida o menos ilustrado dessa turma, deixou uma herança angoleira que se espalhou pelos cinco continentes e também ensinamentos de um sábio mulato nascido e criado nas ruas e becos do centro histórico de Salvador. Sua academia de Capoeira Angola foi uma referência no Pelourinho:

Tudo o que penso da capoeira, um dia escrevi naquele quadro que está na porta da academia. Em cima só essas três palavras: Angola, Capoeira, Mãe. E embaixo, o pensamento: Mandinga de escravo em ânsia de liberdade; seu princípio não tem método; seu fim é inconcebível ao mais sábio capoeirista.

Os jornalistas Otto Freitas e José de Jesus Barreto traçaram o perfil do filósofo popular e mestre maior da capoeira angola da Bahia, Vicente Ferreira Pastinha.

O perfil do professor Juarez Paraíso, um ícone de inquietação e modernidade durante décadas no âmbito das Belas Artes baianas é de autoria do jornalista e escritor Claudius Portugal; Fabiano Viana Oliveira escreveu sobre o abade Dom Timóteo Amoroso Anastácio, figura corajosa, serena e marcante que dirigiu o mosteiro de São Bento de Salvador durante os anos mais duros da ditadura militar. O mesmo autor escreve o perfil do político Nelson Carneiro.

Em parceria com Luis Alberto Couceiro, o jornalista Biaggio Talento assina o perfil de Édison Carneiro, uma indispensável referência para os estudiosos das raízes africanas que forjaram a identidade baiana.

Dessa turma de personalidades – a grande maioria nascida e alguns adotados pela Mãe Preta Bahia –, todas marcantes dentro do mundo cultural baiano destas seis/sete últimas décadas, apenas Juarez Paraíso continua em plena atividade, pintando, criando, dando aulas, orientando gerações.

Ler esses perfis é mergulhar na compreensão da história dessa terra tão singular, sobretudo pela mistura de tantos signos culturais. Esses eleitos foram/são protagonistas, cada um no seu fazer, do cabedal baiano que tanto nos orgulha e diferencia.

OUTROS

A Coleção Gente da Bahia foi lançada em 2008, com os livros: Carybé – Um capeta cheio de arte, de José de Jesus Barreto e Otto Freitas; Gordurinha – Baiano burro nasce morto, de Roberto Torres; Riachão – O cronista do samba baiano, de Janaína Wanderley da Silva; Guido Guerra – O papagaio devasso na casa dos sem jeito, de Luiza Torres; e Mulher de Roxo – A dona da rua Chile, de Patrícia Sá Moura.

Já estão previstos os próximos lançamentos, para 2010: Calazans Neto – O gravador de Itapuã, Lindembergue Cardoso – Réquiem para o sol, Walter Spinelli – O alfaiate que Adão não conheceu, Carlos Lacerda – Um piano da Bahia e Milton Santos – Reflexões póstumas de um livre pensador.

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(zédejesusbarrreto – 15dez/2009.)

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