Archive for the 'Gente da Bahia' Category


DESAGRAVO A MARIA BETHÂNIA

posted by Jary Cardoso @ 11:02 PM
6 de abril de 2011

Reúno neste post textos de desagravo a Maria Bethânia – e, por extensão, à Bahia e aos baianos – que chegaram ao meu e-mail de editor de Opinião do jornal A Tarde.

MÃOS POÉTICAS DE MARIA BETHÂNIA – por GENTIL

SOBRE BAIANADAS

E INDELICADEZAS


texto de Zédejesusbarreto*


Manifestações recentes que ganharam espaço na grande mídia e renderam comentários nas redes internéticas demonstram que, ao invés de diminuir, alarga-se e aprofunda-se o fosso do preconceito racial, espacial e cultural contra os nordestinos, sobretudo os baianos, a partir de uma parcela da população do chamado ‘sul maravilha’ que se julga formadora de opinião, notadamente a paulistada. Pior, acham respaldo pelas bandas de cá.

O alvo mais recente foi Maria Bethânia, espinafrada por ter obtido aprovação do Ministério da Cultura para conseguir financiamento privado isento de impostos, garantido pela Lei Rouanet, e poder viabilizar um projeto cultural e educativo de um recital de poesias de qualidade através de um blog. Pronto.

Daí, não se trata da justeza dos valores e nem se discute a originalidade ou o alcance social do projeto. Caem de pau porque é Bethânia, irmã de Caetano, amigo de Chico, sogro de Brown, irmão de Ana de Hollanda, atual ministra da Cultura, sucessora de Gil, marido de Flora, amiga de Andrucha, da patota da Ivete que ‘é assim’ do Parangolé, tudo Axé… tudo uma baianada só, essa renca de nordestinos, restos do atraso, todos metidos a besta, periculosos integrantes da chamada ‘máfia do dendê’.

E assim rolam as maledicências, o linchamento, a absoluta falta de respeito. Claro, tudo isso bem acomodado, revestido, envernizado na mentalidade nazi-stalinista-neo liberal, ora vigente e dominante em certos círculos privilegiados deste patropi. E não me venham questionar essa tal mistura, pois o mais estranho é a indecente postura. Lá deles!

Mas não é só Bethânia, Caetano, Canô… O preconceito salta os muros da produção artística. Dias passados, a vítima foi o Esporte Clube Bahia, primeiro Campeão Brasileiro de Futebol e um dos fundadores do chamado Clube dos 13, entidade que agrega/desagrega os principais clubes do país e organiza, negocia com CBF e TVs a tabela, regulamento e transmissões do Campeonato Brasileiro.

Pois bastou o Bahia fechar negócio com a Rede Globo visando a veiculação de seus jogos na Primeira Divisão do Campeonato de 2011 para que a mídia escrita, falada, televisiva e digitalizada caísse de pau, taxando os baianos de traidores, pelo rompimento com o tal Clube dos 13, e que tal traição provocaria a adesão de outros clubes nordestinos, todos indignos de confiança, afinal.

Muito bem, só que antes de o Bahia comunicar ao Clube dos 13 que estava negociando com a emissora em pauta outras dez agremiações, integrantes da patota, já haviam feito o mesmo, sem que fossem por isso malhadas. Sim, eles lá podem tudo, mas nós, os nordestinos… é tudo baiano, pereba, paraíba… Pau neles!

Aliás, logo que a presidenta Dilma foi eleita, os sites, blogs e redes virtuais atolaram-se de acusações contra os nordestinos, responsabilizando-os pelo secular atraso do Brasil, e que por causa de nossa ignorância histórica e irremediável Dilma fora eleita a primeira presidenta do país. Como isso fosse a perpetuação de nossa desgraceira! Pois bem, a nossa presidenta está aí firme, com mais de surpreendentes 70% de aprovação popular nestes primeiros meses de governo. Eis a resposta política.

Quanto ao projeto de Bethânia, que é uma pessoa decente, não se trata de encher o rabo com o dinheiro público, como outros tantos projetos inscritos e aprovados pela mesma Lei Rouanet que, aliás, merece ser rediscutida, revista e adequada às novas exigências do tempo, conjuntura social e das mídias, em vorazes mudanças.

O projeto de Bethânia, uma artista das palavras que vem há algum tempo usando da música e da poesia no resgate de valores da cultura popular, contextualizando seu trabalho com a educação, chegando às escolas… tem a ver com a percepção de mundo mais humana. Ela acredita nisso. É com a palavra bem dita que se afia a sensibilidade das pessoas. O mundo precisa de poesia, sim. A vida carece de delicadezas. Mas essa gente, que se alimenta de preconceitos, vive a urdir intrigas e espalhar maledicências, crê em alguma coisa acima dos atropelos de ‘se dar bem’ a qualquer custo?

*Zédejesusbarreto, jornalista e escrevinhador

abril/2011

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OH BETHÂNIA, PERDOE-NOS!


texto de HUGO PASSOS*


É revoltante o linchamento virtual absurdamente injusto da qual está sendo vítima a cantora Maria Bethânia na internet. Uma nota maldosa divulgou de maneira distorcida a aprovação por parte do Ministério da Cultura, da possibilidade de captar recursos privados através da Lei Rouanet (que permite ao mecenas abater o investido no imposto de renda), de um projeto para a criação de um vídeo-blog da qual a cantora participaria chamado “O Mundo Precisa de Poesia”. E isso foi o suficiente para iniciar uma onda de protestos despropositados.

Criado a partir do convencimento de Bethânia pelo antropólogo Hermano Vianna, o blog realizaria e disporia gratuitamente 365 vídeos com poemas escolhidos pela cantora e por ela recitados. Milhares de internautas mal informados puseram-se a postar textos, notas e vídeos na internet com infâmias e ofensas desprovidas de qualquer verdade, justiça ou nexo. O apedrejamento mais errado que se possa imaginar. Aprovado em R$ 1,3 mil, o valor do projeto impressionou muita gente acostumada a ver a internet como um veículo de segunda classe, destinado a transmissão de conteúdo gratuito e feitura amadora.

Muitos repudiaram o cachê da cantora. Mas o valor econômico da arte é mensurado de um modo muito mais complexo do que imagina a mente de um linchador. O que está previsto é que Betânia receba algo em torno de R$ 1.600 referentes a cada um dos 365 vídeos que gravaria. Quem trabalha no meio sabe o quão simbólico é um cachê nesse valor para um artista consagrado. Os vídeos poderiam ser vistos gratuitamente, baixados e até exibidos: 365 pedaços de arco íris para embelezar cada um de nossos dias do ano, como frases bonitas no rodapé do calendário.

Poesia recitada é um afago ao cérebro e uma homenagem à lindeza da língua portuguesa. E ninguém no país recita melhor do que Bethânia. Aliás, talvez possa até ser dito, pouca gente no Brasil lançou mais compositores do que ela. Os clássicos também podem ser ouvidos através de sua voz. Procure no youtube por Fernando Pessoa e já no segundo resultado aparecerá o nome de Bethânia. São trechos capturados em shows por fãs. O blog seria a possibilidade de termos toda essa beleza encapsulada pela lente talentosa do Andrucha Waddington e disposta para todos, e para sempre.

Mas talvez não as tenhamos mais. Temo que Bethânia tenha já se assustado, arisca que é, com o linchamento virtual, praga moderna da qual foi vítima (logo ela?).

Os cegos quixotes, donos da verdade-equivocada destroem sonhos e vidas. Estimulados por irresponsáveis como Lobão que para variar, disse equívocos aviltantes. Nisso dá o analfabetismo político-científico. Que, misturada com autoconfiança intelectual, vira nitroglicerina. A lei é mais utilizada pelos estados onde há maior concentração de projetos requeridos e essa é uma das vantagens que ela tem. É usada para permitir a existência de obras como: CDs e DVDs musicais de todos os gêneros, espetáculos teatrais, fanfarras do interior, turnês de artistas nacionais e até estrangeiros. Financia tanto filmes campeões de bilheteria como também outros mais restritos.

Graças à Lei Rouanet temos um público crescente para o cinema nacional, por exemplo. O governo financiar cultura é tão importante quanto financiar ciência e educação. Sem ela o ser humano além de não amadurecer, apodrece.

Há pontos questionáveis que podem e devem ser revistos. Mas “O Mundo precisa de poesia” não podia ser um exemplo de equívoco porque se trata de um projeto deslumbrantemente lindo e generoso e que deveria ser usado justamente como exemplo das maravilhas que uma cultura, um artista e uma lei podem nos dar.

Mas agora já não sabemos se Bethânia será capaz de se deixar filmar declamando outra vez. A motivação do verdadeiro artista é muito frágil (saibam!). Como disse o genial Jorge Furtado: “O governo deveria lhe mandar o financiamento com um buquê de flores e um cartão com pedido de desculpas”. E finalizo com Hermano Vianna: “Agora vejo mais do que nunca o quanto o mundo precisa de poesia”. Oh Bethânia, perdoe-nos!

*Hugo Passos – Cineasta e diretor de TV

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REVELAÇÕES

QUE UMA VOZ TRAZ


texto de MARLON MARCOS*


Ninguém está acima do bem e do mal em nossas relações sociais; ninguém deve escapar da crítica e do controle sociopolítico que defenda os interesses coletivos de um povo, de um país. Todavia, qualquer defensor dos interesses sociais e da receita que sustenta o andamento econômico de uma nação não pode viabilizar, em nome de uma fiscalização estapafúrdia e daninha, o linchamento midiático, público e privado, de nomes que consagram a nossa cultura e que, do lugar que ocupam, fazem nascer possibilidades de um destino melhor para grande parcela da sofrida população brasileira.

Penso em Maria Bethânia. 46 anos de carreira impecável, se impondo contra os padrões da mídia que a ajudou a se consagrar como um mito contemporâneo brasileiro. Uma mulher que estudou só até a antiga oitava série ginasial, e é considerada por intelectuais, como o baiano Paulo César Souza, tradutor de Nietzsche e Freud no Brasil, como um “gênio brasileiro”.

Uma artista voltada a registrar em sua obra a poética popular de nossa inventividade e nos levar para o esquecido interior deste extenso continente, pautando a favor da beleza e da dignificação social: o negro e o índio, o caipira nordestino e os violeiros dos sertões; traz na voz a sonoridade genial de Roberto Mendes e as canções primorosas de Roque Ferreira.

Ressignifica, ao adorar a memória de uma iyalorixá, a pluralidade sacerdotal neste país de tantas etnias e matrizes culturais diversas. Uma mulher comum no seu jeito cotidiano de ser e rara quando sobe num palco.

Uma militante da palavra feito poesia. Aquela que, desde os 19 anos, mistura a aridez do sertão nordestino às águas salgadas do poeta Fernando Pessoa; a que espalha a genialidade em expressão feminina de Clarice Lispector à de expressão masculina de Guimarães Rosa. A que puxa um ponto de caboclo e sai com melodia sentimental, de Villa-Lobos, sem adulterar nada nem ninguém. A cantora, no Brasil, que melhor singra os mares de qualquer poeta em língua portuguesa e canta a beleza como razão de ser.

Consagrada e bem paga como deve ser. Menos que Ivete Sangalo, Cláudia Leitte, Xuxa. Maria Bethânia é corpo integrante desta sociedade capitalista, que rima qualidade com valor de mercado, e para sobreviver, do alto da sua exigência artística, altivez existencial e ares de diva, tem que “saber cobrar, lucrar” para continuar no mainstream da Música Popular Brasileira e ter poder de captar recursos para espalhar a tal poesia que todos esquecem todo dia; lembram hoje, porque o belo projeto “O mundo precisa de poesia”, que reúne outros monstros como Andrucha Waddington e Hermano Vianna, poderá custar 1 milhão e trezentos mil reais.

O subtexto mais profundo é o de que poesia é das praças, dos bares, das ruas; que os poetas de verdade morrem como Castro Alves, Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Ana Cristina Cesar; ou seja, dão à poesia o lugar da miserabilidade, do tipo: Caio Fernando Abreu, em Londres, lavando prato, e na livraria em frente, seu livro Morangos mofados traduzido em destaque, e ele bem poético, sentindo fome e frio, em nome do tal heroísmo brasileiro.

Ou então, culpam Maria Bethânia por seu poder de barganha acima dos possíveis defeitos da Lei Rouanet; satirizam com projetos de outros blogs menos “caros”; ofendem, cretinamente, a artista como gananciosa e desonesta. Provando que, os fiscais desse Brasil não têm memória histórica e sensibilidade poética para alcançar as sutilezas deste projeto que são bem maiores que a quantia que poderá ser captada.

Sou fã de Maria Bethânia, me impressiono com sua entrega artística, a voz incomum, o trabalho de pesquisa, a beleza rascante antipadrão, os ensinamentos antropológicos que me chegam a partir dos seus trabalhos e mais que tudo, me desequilibro com suas récitas louvando a língua portuguesa e que me ensinaram muito da poesia que me acompanha todo dia.

Maria Bethânia se ergue das grandes epifanias que a literatura lhe faz e as trazem na voz para este mundo cada vez menos poético.

*Marlon Marcos – Poeta, jornalista, antropólogo

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O MUNDO

PRECISA DE POESIA


texto de CLAUDIO CARVALHO*


Em conversa com Damário Dacruz, no Pouso da Palavra, escutei do nosso poeta ausente que foi de um poema numa campanha publicitária para uma escola de Salvador que germinou a possibilidade em realizar o sonho de ofertar uma casa de cultura à cidade de Cachoeira e à Bahia. Damário pensava grande e desejava perfazer um total de dezenove rebentos. Não perguntei por que dezenove e não terei mais a possibilidade de obter a resposta.

A poesia foi inventada exatamente para isso: diante da falta de respostas, cotejamos as palavras em combinações para tangenciar o indizível. Ao me despedir e voltar para Salvador, não imaginava que o amigo poeta num alvorecer próximo sairia de cena com seu último verso.

Nascer é quase um milagre; morrer é a certeza esquecida. E é no intervalo entre a chegada e a hora incerta de sairmos de cena que, olvidados, inventamos a narrativa de nossas vidas. A cultura é o depósito de narrativas dos que feneceram. Por isso, todas as vezes em que formos discutir a melhor forma de manejar esse tesouro, temos a obrigação de respeitar a memória dos nossos mortos, sob pena de nos parecermos mesquinhos, menores do que somos e nos avizinharmos demais da vulgaridade.

Penso nessas coisas quando estou diante de discursos burocráticos a questionarem as cifras empregadas em educação e cultura; da falta de dinheiro para remunerar dignamente os professores às suspeições frente a iniciativas fomentadoras da criação artística. Exemplo recente foi a forma vulgar e maledicente com que parte da imprensa noticiou a autorização do Ministério da Cultura para captação de recursos, via Lei Rouanet, com a finalidade de criar um blog, idealizado por Maria Bethânia, para disseminar poesia.

A sofisticação singela da artista ao entoar as palavras é o avesso da indigência cultural dos promotores da opinião publicada ao tentar confundir a opinião pública. Cotejando as palavras em combinações bárbaras, esses “velhos bárbaros” precipitam respostas falsas a questões mal formuladas – e sem querer, atestam que o mundo precisa de poesia, escorrendo da boca de Maria Bethânia.

*Claudio Carvalho – Psicanalista

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O MUNDO

TAMBÉM LUTA COM POESIA


texto de CARLOS PRONZATO*


Tenho acompanhado o grande debate nacional a raiz dos recursos milionários autorizados pelo MinC para serem captados pela cantora Maria Bethânia para o projeto do seu blog denominado: “O mundo precisa de poesia”, onde a diva declamaria grandes autores. Para além de tudo que já foi dito a favor e contra desde todos os ângulos possíveis, principalmente em termos éticos, financeiros e legais – inclusive familiares! –, chama a atenção, pelo menos a mim e não sei se a alguém mais interessado no poético nome do blog, o patamar quase subterrâneo e desprezado reservado à poesia na avaliação das colocações dos leitores, internautas, blogueiros e afins.

Das criações humanas a arte poética ocuparia, analisando a maioria dos discursos daqueles que comentaram o assunto, o recôndito subsolo da mais nímia atividade social.Já alimentação digna, saúde e educação são apontadas pela volumosa crítica como o escopo principal desses recursos destinados aqui à fútil declamação num blog. Verdade, embora se trate neste caso específico de recursos destinados à cultura.

Mas a poesia é um amplo mar onde tudo pode navegar. Ela não se realiza apenas em sonetos alexandrinos, malabarismos gongóricos ou rebuscado cultismo. A beleza, a emoção, o deleite estético, em suma, a arte convivem também com a pulsão social transformadora.

No infinito e agitado mar da poesia também sopra o vento da liberdade e do compromisso político e este pode trazer Castro Alves, Neruda, Drummond, Pasolini – magníficas interpretações da inigualável cantora baiana – e tantos outros poetas que, com suas palavras – e os seus posicionamentos públicos – livres geralmente de couraças acadêmicas, orientam desde sempre os caminhos da humanidade frente a tanta barbárie e impunidade, desde a ocupação criminal de longínquos países em prol de recursos naturais, até o nosso doméstico destino de ver o dinheiro público repartido entre os poucos – amigos – de sempre, através de leis, pasmem! e em nome da poesia. O mundo precisa de poesia sim, mas não assim!

*Carlos Pronzato – Poeta e cineasta/documentarista


ROBERTO MENDES LANÇA LIVRO E DVD SOBRE A CHULA

posted by Jary Cardoso @ 5:07 PM
31 de março de 2011

ROBERTO MENDES RESGATA

A CHULA DO RECÔNCAVO BAIANO

PARA REAPRESENTÁ-LA AO MUNDO

Pesquisa de mais de três décadas do cantor e compositor vira livro com DVD que será lançado hoje, dia 31 de março, em Salvador

(veja o endereço no final deste post)

Durante três décadas de intensa pesquisa, o compositor Roberto Mendes imergiu em suas raízes, fincadas no Recôncavo baiano, para estudar e resgatar a chula, mãe do samba de roda e base dos outros sambas. O resultado é o livro com DVD intitulado Sotaque em Pauta – Chula: o canto do Recôncavo, com o objetivo de reapresentar o ritmo ao mundo que será lançado em Salvador, no dia 31 de março, a partir das 20h30, no B23 Lounge Music Bar (Rua Anísio Teixeira, 161, Boulevard 161, Itaigara).

Após apresentar seu novo trabalho no Rio de Janeiro e São Paulo, Roberto Mendes recebe os amigos em Salvador para divulgar a chula, a verdadeira origem do samba. O compositor receberá os convidados para autógrafos e, na sequência, presenteará o público com um show de chula.

Popularização da chula

Compositor cujas músicas ecoam por todo o Brasil e estão eternizadas na voz da conterrânea Maria Bethânia, Roberto Mendes presenteia o público com uma obra cuja intenção é popularizar a chula, definida por ele “como um belíssimo canto português com letras compostas organicamente em redondilhas menor e maior”, ou seja, em versos de cinco e sete sílabas.

Presente apenas no Recôncavo baiano e no norte de Portugal, a chula – canto violado do Recôncavo – foi declarada obra-prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade em 25 de novembro de 2005. O livro possibilita o estudo dos fenômenos lingUísticos ocorrentes na letra das músicas e, o DVD, mostra o modo peculiar como a chula é tocada. O trabalho foi apresentado no Rio de Janeiro e São Paulo.

Sobre o livro

Fortemente influenciado por Guimarães Rosa e Mário de Andrade, o livro nasce do encontro entre Roberto Mendes – natural de Santo Amaro da Purificação, cidade do Recôncavo baiano banhada pelo Rio Subaé – e Nizaldo Costa – natural de Xique-Xique, cidade às margens do Rio São Francisco. Juntando os sotaques, as lembranças e as histórias contadas à beira das águas “doces como a cana” dos dois rios, eles compuseram músicas e escreveram o texto povoado de personagens reais e fictícios.

A obra, ricamente ilustrada por fotografias de Marcelo Bruzzi, traz um estudo sobre versificação e análise dos fenômenos verificados na letra das canções compostas por Roberto Mendes, tais como crase poética, anadiplose (repetição da última palavra ou expressão de uma oração) entre outros. Traz, ainda, as letras e as partituras elaboradas por Marcos Bezerra.

Bilíngue (português e inglês), o livro vem acompanhado de um DVD no qual Roberto Mendes apresenta um verdadeiro show de chula com violão e voz e, ainda, ensina a técnica do ritmo por meio de imagens concentradas em suas mãos. O material também traz entrevistas de antropólogos, músicos e poetas, além de imagens dos locais e das pessoas que serviram de fonte para a pesquisa.

Sobre a chula

Os mais antigos registros sobre uma música típica do Recôncavo Baiano remontam ao século XVIII e são depoimentos de viajantes que descreveram uma manifestação musical na qual homens negros tocavam instrumentos de percussão e cantavam, num ritmo que remontava às raízes africanas.

A chula é sempre ritualística. Homens e mulheres têm os seus papéis definidos. Na roda que se abre para as apresentações, somente homens em pé tocam e um deles puxa o canto que soa como uma declamação. As mulheres só entram na roda quando o “comandante” da chula concede a permissão. Assim, começa a roda de dança, na qual apenas as mulheres podem entrar, uma de cada vez, reverenciando os tocadores até que tudo se transforme em uma grande festa.

A parte litúrgica tem os homens como protagonistas exclusivos, que cantam nos desafios das duas parelhas (formada cada uma por duas pessoas), na qual uma canta e a outra responde. Às mulheres cabe apenas observar e se deixar levar pelo canto e pela harmonia envolvente da viola.

Sobre Roberto Mendes

Natural de Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo baiano, Roberto Mendes nasceu em 22 de novembro de 1952. Com mais de 30 anos de carreira, tem suas composições gravadas pelos conterrâneos Maria Bethânia e Caetano Veloso, por Gilberto Gil, Gal Costa e tantos outros. É, inclusive, quem mais compôs para Maria Bethânia depois de Caetano e Gil.

Entre os sucessos gravados por Bethânia estão: A Beira e o Mar, Esse sonho vai dar, Resto de mim, Vila do adeus, Iluminada, Saudade dela, O nunca mais, Massemba, Filosofia pura, Lua, Beira-Mar, Memória das águas, Francisco, Francisco, Yorubahia, Sino da minha aldeia, Quadrinhas, Ofá, Noite de Estrelas, Vida vã, Louvação a Oxum, Búzio e O nunca mais.

Discografia de Roberto Mendes:

Cidade e rio (2008)

Tempos Quase Modernos (2005)

Flor da Memória (2003)

Tradução – Roberto Mendes & Convidados (2000)

Minha História (1999)

Voz Guia (1996)

Roberto Mendes (1994)

Roberto Mendes & Baianos Luz (1994)

Matriz (1992)

Flama (1988)

Salvador

Data: 31 de março

Local: B-23 Lounge Music Bar

Rua Anísio Teixeira, Boulevard 161, Loja 23 S, Itaigara

Horário: 20h30


RESSACA DA PERCUSSÃO

posted by Jary Cardoso @ 9:46 PM
17 de março de 2011

 

Grande saque tiveram este ano os organizadores do Carnaval de Salvador com a ideia de homenagear os percussionistas. Foi uma catarse coletiva, de altíssimo astral, que afagou o coração de milhões de nós, os órfãos de Neguinho do Samba, o criador do samba reggae, falecido em 31.10.2009. Pudemos assim saudar não só Neguinho do Samba como todos os grandes percussionistas do passado e do presente, não só os famosos como também os anônimos geniais que garantem a pulsação enebriante da música baiana.

NEGUINHO DO SAMBA – Foto de MARGARIDA NEIDE | Agência A Tarde, em 10.5.2005

Este post contém três textos que exaltam essa gente dos tambores, um especial para o Jeito Baiano escrito por zédejesusBarrêto e dois publicados durante o Carnaval na página de Opinião do jornal A Tarde, um de autoria de Jaime Sodré e o outro de Walter Queiroz Jr.

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BATUQUES DO UNIVERSO

 

texto de zédejesusBarrêto*

 

Da tenra infância vivida numa avenida aos fundos da Igreja dos Mares e que dava para a Rua do Imperador, restaram ecos de batucadas de rua que saiam de dia com mascarados e fantasiados bagunçando alegrias pelas ruas do Uruguai e outros bairros pobres da cidade nos carnavais espontâneos dos anos 1950.

Um pouco mais tarde, já morando no Subúrbio Ferroviário – Baixa do Cacau, à beira da linha do trem, na rua Voluntários da Pátria, antes de chegar no Lobato –, as batucadas de rua continuaram carnavalescando a infância.

Mas os tambores suburbanos que marcaram ouvidos e alma de criança foram os batucajés da noite, os baticuns das festas nos terreiros de Caboclo e de Angola que alumiaram minha escuridão com a fagulha da curiosidade e do medo do desconhecido…

Foi o chamamento dos batuques para a minha baianidade.

Já com o pé fora de casa, na rua Chile e na avenida Sete de olhos arregalados para ver o desfile da folia com a mão pequena suada grudada na mão enorme do Pai Zé, impressionava-me com a figura do Cavaleiro de Bagdá, um negão forte, enorme, de cabeça raspada e torso nu em cima de um belo carro alegórico, carregando e fazendo ecoar avenida afora um enoooorme tambor.

NELSON MALEIRO – Foto de ARLINDO FÉLIX | Arquivo A Tarde

NELSON MALEIRO – Arquivo A Tarde

Era Nelson Maleiro que enchia os olhos e os ouvidos de todos naqueles carnavais antigos de préstitos, fantasias, mascarados, lança-perfume, bailes noturnos nos clubes e cadeiras amarradas de cordas e arames pelas calçadas, onde as ‘famílias de bem’ se sentavam com roupa domingueira pra ver o carnaval passar.

Jovens e rueiros, sentávamos na Barraca de Juvená (um grande amigo, colega dos tempos de seminário de padre e faculdade no Terreiro de Jesus) tomando cuba libre, embasbacados com as loucuras do grande Fia Luna arrebentando com seu atabaque, em cima de uma mesa. Um espetáculo! Fia Luna era um preto baixo e troncudo, de cara grande e riso imensos, peito e braços reluzentes, sempre de calça de algodão cru e mãos avassaladoras batendo no couro. Quebradeira pura. Um semi-deus negro!

Daí, vi e ouvi alabês mágicos, conheci Naná Vasconcelos, apreciei Djalma Corrêa, curti o berimbau de Camafeu e depois as artes de Pintado do Bongô, a suingueira dos Apaches na avenida, as invencionices de Neguinho do Samba, chorei nas arquibancadas acompanhando a levada do Ijexá na palma das mãos a ecoar na Fonte Nova Nova, dique do Tororó afora com o meu Tricolor em campo, e Mestre Prego, Olodum, Muzenza, Malê Debalê, Ilê Aiyê…

E o extraordinário Carlinhos Brown, hoje a agora nosso músico maior!

Nesse carnaval 2011, os baianos homenageiam a percussão, os tambores, os grandes mestres do ritmo… baticuns da felicidade. Viva Emília Biancardi, Viva Bahia!

Axé !!!

*

Um dia, a pretexto de um projeto que não foi adiante (como tantos em nossas vidas) escrevi e passo agora adiante … porque vem a calhar:

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TAMBORES

Enganam-se os que dizem que tambor é uma invenção humana.

O tum-tum-tum do tambor precede à razão humana.

É o pulsar da vida… no Universo.

Pulsar que ecoa e que vibra no bater do coração, por todo o corpo,

numa prece rítmica e contínua ao Criador.

O tambor é arte de Deus.

O homem, apenas, iluminado, captou o baticum da vida no cosmos

e o transformou em canto, louvor, rito, sinal de alegria ou dor …

signo de comunicação entre os seres, elo sonoro do finito com o eterno, Ilê-Orum.

Deus e homem, Criador e criatura a partilhar da magia da música.

Depois do próprio corpo – a pulsação, a voz, o assovio, as palmas –,

o tambor é o mais antigo dos instrumentos musicais.

Primitivos tambores. Africanos, asiáticos, eurobárbaros, ameríndios, oceânicos…

Eco do mundo.

Tambores de louvores, tambores dançantes, tambores de guerra, tambores de santo.

Tribais tambores sinfônicos, zabumbas, latas, cabaças, couro, madeira, fibras… caixas sonoras…

Senhor das trovas, forrós, sambas, pagodes, axés, afoxés…

canto-chão do barro, do asfalto, repinique dos morros,

rumpilés de terreiros, batuque das matas, timbaus de rua,

bateras rockabiles, bumbos, bundas dançantes, suspiros da vida…

Fogo e ar, chão e águas…

pele, madeira, ferro, mãos, baquetas, sapateados…

Ruídos humanos, barulhos urbanos, ronco do mato, estalos da caatinga, ronrono do mar, das águas que rolam e levam, limam as pedras do mundo …

mantra sideral…

Big-band, alfa e ômega, “após-calipse”.

São Salvador da Bahia de Todos os Santos, Caboclos e Orixás, tambor do planeta.

Que os tambores, todos, ecoem o fazer (a cultura, as artes)

e o pensar dessa gente baiana, síntese/mistura de todas as cores, de todas as sonoridades, de todo o movimento… caldeirão de todas as crenças

mandala, mosaico de toda a diversidade e tendências dessa grande arte que é

o viver.

Que os tambores baianos nunca parem de tocar, criar… em celebração à vida.

E que assim seja.

Axé!

*

*zédejesusBarrêto, jornalista e escrevinhador

(março 2011- é carnaval)

***

A REVOLUÇÃO

DOS TAMBORES

 

texto de JAIME SODRÉ

 

Homenagens são bem vindas, no caso da percussão homenageada neste Carnaval, soa como reparação frente à longa história de resistência, não ocultando uma trajetória dolorosa. Pensando nesta odisseia, compomos, eu e o brilhante parceiro Saul Barbosa, uma canção que intitulamos de Nobre Guerreiro: “Agora posso compreender toda mediocridade, das coisas que acontecem em nossa cidade, o negro que toca tambor, pra combater nossa dor, deve ser mais respeitado, ele é um nobre guerreiro, é um batalhador…” era a desconstrução do estigma negativo de “nego batuqueiro”.

Soavam nas savanas, nas costas africanas, nas florestas os tambores, cumprindo variadas funções, desde atividades guerreiras, lúdicas, de rituais, “telégrafo” ou “tambores de léguas”, estes definiam o espaço geográfico de uma determinada tribo, até onde o seu som chegasse. Tínhamos o “tambor do rei”, pelo qual todos os outros deveriam ser afinados. Escravizados, atravessaram o mar com as suas memórias rítmicas, apesar de passar pela “Árvore do Esquecimento”, e no novo solo não poderiam exercer a “arte dos compassos”. Enquanto o Kalundu se fazia com as palmas (paô), o Conde dos Arcos liberou aos domingos, para o descontentamento de muitos outros, os tambores, criando o Batucagé, se era audácia soar os tambores mexendo o corpo, imagine convocar os “santos”. A vigilância era intensa. Por volta de 1896, os “Batucagé” eram alertados pelos jornais sobre esta prática no Engenho Velho, informavam que: “com estrondos de atabaques e chocalhos e vozeria dos devotos… concorrem às desordens que não são raros surgem às questões de ciúmes aguardentados dos ogans… inquestionavelmente este é um caso de que a polícia deve contar” nos informa Kátia Silva em sua dissertação de Mestrado. Era preciso, diz o Diário da Bahia, “extirpá-lo da sociedade”.

Entramos nos tempos do Pândega Africana e da Embaixada Africana, entidades carnavalescas negras de 1895, e proibidas em 1905. Nas proximidades dos terreiros, era a vez dos afoxés que vieram às ruas, os blocos, as batucadas, artesãos de instrumentos e tocadores preservavam os rítmicos africanos. Blocos de índios eram africanizados, com os seus ritmos próprios, vieram as escolas de sambas, redutos de excelentes passistas e ritmistas. A negritude pede mais espaço, e vêm o Ilê Aiyê, Olodum, Muzenza, Malê e outros. O primeiro, na década de setenta, foi vigorosamente criticado. Alegavam pela imprensa, típico nos moldes de outrora, que aqueles estavam estimulando o racismo por “saírem” apenas com negros, e a polícia estava vigilante. As mulheres, prematuramente excluídas dos tambores pela repressão policial, têm a sua história percussiva nas artes das Filhas de Gandhy, que comemoram 32 anos, no início com a percussão de Mônica Millet, pérola do Gantuá. O bloco de mulheres da Aurora, Lá Vem Elas, as fabulosas percussionistas da Banda Didá – criação de Neguinho do Samba (justa homenagem) –, tendo por maestrina Adriana e Vivian. Tem a Mulherada da divina Mônica Kalili, esta iniciada com o maestro Carcará, e 25 meninas de 9 a 14 anos com o nome de Kalundetes, percutindo enxadas, panelas, frigideiras (para trazer o agudo). A Didá, com o projeto “Sódomos”, ou seja, criar as crianças como se fossem o seu filho, grupo de excelentes “tocadoras” e ativistas, traz o feminino às ruas, audaciosas, não se limitam a tocar caixa, marcação ou repique, tocam tudo, cantam e encantam.

Salvem todos os mestres e maestrinas, em nome de Fia Luna, Pintado do Bongô, Emília Biancardi, Jorjão, Tata dos Negões, Memeu, Mário Pan, Marivaldo, Gatinha, Cacau, Ninha, Galo Cego do Bongô, Ramiro Munsoto, Mestre Prego, Bastola e Neguinho do Samba.

O Olodum escolheu a percussão como elemento da cidadania e combate ao racismo, o valoroso João Jorge sabe bem, os seus tambores ostentam as cores da unidade africana. Se querem homenagear, ouçam a sua voz que pleiteia “sair” no carnaval às 16 horas, horário apropriado por outros. Por antiguidade, somos os primeiros a fazer na rua o carnaval.

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NELSON MALEIRO com seu tambores e malas – Foto de SHIRLEY STOLZE

TRIBUTO A NELSON MALEIRO

 

texto de WALTER QUEIROZ JR.

 

Quando a televisão chegou nos anos 60, ainda éramos os inocentes em progresso. Durante a semana que antecedeu a inauguração da emissora, as pessoas ficavam horas defronte da telinha, hipnotizadas pela imagem padrão (um índio que não se mexia!), mas prometia uma nova era de grandes transformações.

Rapidamente, a TV Itapoan modificou os hábitos noturnos da cidade, formando o seu próprio “cast” e revelando novos artistas e personagens, como Nelson Maleiro, que encarnava a simpática e cultuada figura do gigante Itapoan, o homem que gongava os calouros com muito bom-humor num programa chamado a “Grande Chance” (Alô, Armandinho!).

Acontece que Nelson Maleiro foi muito mais que o seu personagem televisivo. O fundador dos Mercadores de Bagdá foi um inventor carnavalesco incrível para o seu tempo, sendo responsável pelas espetaculares alegorias dos préstitos, com seus carros imitando os carnavais venezianos com dragões soltando fogo e outras façanhas que tais.

Mais ainda, muito mais, Nelson Maleiro foi mestre de bateria, líder de comunidade, inventor de instrumentos, como o tamborim quadrado, e afinava o tarol com uma mestria invejável.

Tese de mestrado aprovada com louvor (alô, Leo), é inexplicável que um artista e carnavalesco da sua importância não tenha sido lembrado com o respeito e o devido reconhecimento, justo neste ano em que se homenageia a percussão.

Quando as avenidas forem outras vez devolvidas ao povo, sem cordas e sem camarotes, a talentosa “mão no couro” de Nelson será lembrada e ele, com toda a justiça, será nome de circuito, honrando a incansável luta de Ivan Lima pela causa, um deficiente visual que enxerga tudo com o seu lúcido coração.

É imperioso que se faça justiça à memória dos grandes carnavalescos, porque deles provém a paixão imprescindível ao vigor da grande festa.

Viva Renato Mendonça e Jairo Simões: “Saia rendada, colar de ouro…” Viva Armando Sá e Guilherme Brito: “…Colombina eu te amei…” Viva Walter Levita: “…Índio quer apito, se não der pau vai comer…” Feliz Carnaval!



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