Archive for the 'Jeito baiano de fazer música' Category


RESSACA DA PERCUSSÃO

posted by Jary Cardoso @ 9:46 PM
17 de março de 2011

 

Grande saque tiveram este ano os organizadores do Carnaval de Salvador com a ideia de homenagear os percussionistas. Foi uma catarse coletiva, de altíssimo astral, que afagou o coração de milhões de nós, os órfãos de Neguinho do Samba, o criador do samba reggae, falecido em 31.10.2009. Pudemos assim saudar não só Neguinho do Samba como todos os grandes percussionistas do passado e do presente, não só os famosos como também os anônimos geniais que garantem a pulsação enebriante da música baiana.

NEGUINHO DO SAMBA – Foto de MARGARIDA NEIDE | Agência A Tarde, em 10.5.2005

Este post contém três textos que exaltam essa gente dos tambores, um especial para o Jeito Baiano escrito por zédejesusBarrêto e dois publicados durante o Carnaval na página de Opinião do jornal A Tarde, um de autoria de Jaime Sodré e o outro de Walter Queiroz Jr.

***

BATUQUES DO UNIVERSO

 

texto de zédejesusBarrêto*

 

Da tenra infância vivida numa avenida aos fundos da Igreja dos Mares e que dava para a Rua do Imperador, restaram ecos de batucadas de rua que saiam de dia com mascarados e fantasiados bagunçando alegrias pelas ruas do Uruguai e outros bairros pobres da cidade nos carnavais espontâneos dos anos 1950.

Um pouco mais tarde, já morando no Subúrbio Ferroviário – Baixa do Cacau, à beira da linha do trem, na rua Voluntários da Pátria, antes de chegar no Lobato –, as batucadas de rua continuaram carnavalescando a infância.

Mas os tambores suburbanos que marcaram ouvidos e alma de criança foram os batucajés da noite, os baticuns das festas nos terreiros de Caboclo e de Angola que alumiaram minha escuridão com a fagulha da curiosidade e do medo do desconhecido…

Foi o chamamento dos batuques para a minha baianidade.

Já com o pé fora de casa, na rua Chile e na avenida Sete de olhos arregalados para ver o desfile da folia com a mão pequena suada grudada na mão enorme do Pai Zé, impressionava-me com a figura do Cavaleiro de Bagdá, um negão forte, enorme, de cabeça raspada e torso nu em cima de um belo carro alegórico, carregando e fazendo ecoar avenida afora um enoooorme tambor.

NELSON MALEIRO – Foto de ARLINDO FÉLIX | Arquivo A Tarde

NELSON MALEIRO – Arquivo A Tarde

Era Nelson Maleiro que enchia os olhos e os ouvidos de todos naqueles carnavais antigos de préstitos, fantasias, mascarados, lança-perfume, bailes noturnos nos clubes e cadeiras amarradas de cordas e arames pelas calçadas, onde as ‘famílias de bem’ se sentavam com roupa domingueira pra ver o carnaval passar.

Jovens e rueiros, sentávamos na Barraca de Juvená (um grande amigo, colega dos tempos de seminário de padre e faculdade no Terreiro de Jesus) tomando cuba libre, embasbacados com as loucuras do grande Fia Luna arrebentando com seu atabaque, em cima de uma mesa. Um espetáculo! Fia Luna era um preto baixo e troncudo, de cara grande e riso imensos, peito e braços reluzentes, sempre de calça de algodão cru e mãos avassaladoras batendo no couro. Quebradeira pura. Um semi-deus negro!

Daí, vi e ouvi alabês mágicos, conheci Naná Vasconcelos, apreciei Djalma Corrêa, curti o berimbau de Camafeu e depois as artes de Pintado do Bongô, a suingueira dos Apaches na avenida, as invencionices de Neguinho do Samba, chorei nas arquibancadas acompanhando a levada do Ijexá na palma das mãos a ecoar na Fonte Nova Nova, dique do Tororó afora com o meu Tricolor em campo, e Mestre Prego, Olodum, Muzenza, Malê Debalê, Ilê Aiyê…

E o extraordinário Carlinhos Brown, hoje a agora nosso músico maior!

Nesse carnaval 2011, os baianos homenageiam a percussão, os tambores, os grandes mestres do ritmo… baticuns da felicidade. Viva Emília Biancardi, Viva Bahia!

Axé !!!

*

Um dia, a pretexto de um projeto que não foi adiante (como tantos em nossas vidas) escrevi e passo agora adiante … porque vem a calhar:

**

TAMBORES

Enganam-se os que dizem que tambor é uma invenção humana.

O tum-tum-tum do tambor precede à razão humana.

É o pulsar da vida… no Universo.

Pulsar que ecoa e que vibra no bater do coração, por todo o corpo,

numa prece rítmica e contínua ao Criador.

O tambor é arte de Deus.

O homem, apenas, iluminado, captou o baticum da vida no cosmos

e o transformou em canto, louvor, rito, sinal de alegria ou dor …

signo de comunicação entre os seres, elo sonoro do finito com o eterno, Ilê-Orum.

Deus e homem, Criador e criatura a partilhar da magia da música.

Depois do próprio corpo – a pulsação, a voz, o assovio, as palmas –,

o tambor é o mais antigo dos instrumentos musicais.

Primitivos tambores. Africanos, asiáticos, eurobárbaros, ameríndios, oceânicos…

Eco do mundo.

Tambores de louvores, tambores dançantes, tambores de guerra, tambores de santo.

Tribais tambores sinfônicos, zabumbas, latas, cabaças, couro, madeira, fibras… caixas sonoras…

Senhor das trovas, forrós, sambas, pagodes, axés, afoxés…

canto-chão do barro, do asfalto, repinique dos morros,

rumpilés de terreiros, batuque das matas, timbaus de rua,

bateras rockabiles, bumbos, bundas dançantes, suspiros da vida…

Fogo e ar, chão e águas…

pele, madeira, ferro, mãos, baquetas, sapateados…

Ruídos humanos, barulhos urbanos, ronco do mato, estalos da caatinga, ronrono do mar, das águas que rolam e levam, limam as pedras do mundo …

mantra sideral…

Big-band, alfa e ômega, “após-calipse”.

São Salvador da Bahia de Todos os Santos, Caboclos e Orixás, tambor do planeta.

Que os tambores, todos, ecoem o fazer (a cultura, as artes)

e o pensar dessa gente baiana, síntese/mistura de todas as cores, de todas as sonoridades, de todo o movimento… caldeirão de todas as crenças

mandala, mosaico de toda a diversidade e tendências dessa grande arte que é

o viver.

Que os tambores baianos nunca parem de tocar, criar… em celebração à vida.

E que assim seja.

Axé!

*

*zédejesusBarrêto, jornalista e escrevinhador

(março 2011- é carnaval)

***

A REVOLUÇÃO

DOS TAMBORES

 

texto de JAIME SODRÉ

 

Homenagens são bem vindas, no caso da percussão homenageada neste Carnaval, soa como reparação frente à longa história de resistência, não ocultando uma trajetória dolorosa. Pensando nesta odisseia, compomos, eu e o brilhante parceiro Saul Barbosa, uma canção que intitulamos de Nobre Guerreiro: “Agora posso compreender toda mediocridade, das coisas que acontecem em nossa cidade, o negro que toca tambor, pra combater nossa dor, deve ser mais respeitado, ele é um nobre guerreiro, é um batalhador…” era a desconstrução do estigma negativo de “nego batuqueiro”.

Soavam nas savanas, nas costas africanas, nas florestas os tambores, cumprindo variadas funções, desde atividades guerreiras, lúdicas, de rituais, “telégrafo” ou “tambores de léguas”, estes definiam o espaço geográfico de uma determinada tribo, até onde o seu som chegasse. Tínhamos o “tambor do rei”, pelo qual todos os outros deveriam ser afinados. Escravizados, atravessaram o mar com as suas memórias rítmicas, apesar de passar pela “Árvore do Esquecimento”, e no novo solo não poderiam exercer a “arte dos compassos”. Enquanto o Kalundu se fazia com as palmas (paô), o Conde dos Arcos liberou aos domingos, para o descontentamento de muitos outros, os tambores, criando o Batucagé, se era audácia soar os tambores mexendo o corpo, imagine convocar os “santos”. A vigilância era intensa. Por volta de 1896, os “Batucagé” eram alertados pelos jornais sobre esta prática no Engenho Velho, informavam que: “com estrondos de atabaques e chocalhos e vozeria dos devotos… concorrem às desordens que não são raros surgem às questões de ciúmes aguardentados dos ogans… inquestionavelmente este é um caso de que a polícia deve contar” nos informa Kátia Silva em sua dissertação de Mestrado. Era preciso, diz o Diário da Bahia, “extirpá-lo da sociedade”.

Entramos nos tempos do Pândega Africana e da Embaixada Africana, entidades carnavalescas negras de 1895, e proibidas em 1905. Nas proximidades dos terreiros, era a vez dos afoxés que vieram às ruas, os blocos, as batucadas, artesãos de instrumentos e tocadores preservavam os rítmicos africanos. Blocos de índios eram africanizados, com os seus ritmos próprios, vieram as escolas de sambas, redutos de excelentes passistas e ritmistas. A negritude pede mais espaço, e vêm o Ilê Aiyê, Olodum, Muzenza, Malê e outros. O primeiro, na década de setenta, foi vigorosamente criticado. Alegavam pela imprensa, típico nos moldes de outrora, que aqueles estavam estimulando o racismo por “saírem” apenas com negros, e a polícia estava vigilante. As mulheres, prematuramente excluídas dos tambores pela repressão policial, têm a sua história percussiva nas artes das Filhas de Gandhy, que comemoram 32 anos, no início com a percussão de Mônica Millet, pérola do Gantuá. O bloco de mulheres da Aurora, Lá Vem Elas, as fabulosas percussionistas da Banda Didá – criação de Neguinho do Samba (justa homenagem) –, tendo por maestrina Adriana e Vivian. Tem a Mulherada da divina Mônica Kalili, esta iniciada com o maestro Carcará, e 25 meninas de 9 a 14 anos com o nome de Kalundetes, percutindo enxadas, panelas, frigideiras (para trazer o agudo). A Didá, com o projeto “Sódomos”, ou seja, criar as crianças como se fossem o seu filho, grupo de excelentes “tocadoras” e ativistas, traz o feminino às ruas, audaciosas, não se limitam a tocar caixa, marcação ou repique, tocam tudo, cantam e encantam.

Salvem todos os mestres e maestrinas, em nome de Fia Luna, Pintado do Bongô, Emília Biancardi, Jorjão, Tata dos Negões, Memeu, Mário Pan, Marivaldo, Gatinha, Cacau, Ninha, Galo Cego do Bongô, Ramiro Munsoto, Mestre Prego, Bastola e Neguinho do Samba.

O Olodum escolheu a percussão como elemento da cidadania e combate ao racismo, o valoroso João Jorge sabe bem, os seus tambores ostentam as cores da unidade africana. Se querem homenagear, ouçam a sua voz que pleiteia “sair” no carnaval às 16 horas, horário apropriado por outros. Por antiguidade, somos os primeiros a fazer na rua o carnaval.

***

NELSON MALEIRO com seu tambores e malas – Foto de SHIRLEY STOLZE

TRIBUTO A NELSON MALEIRO

 

texto de WALTER QUEIROZ JR.

 

Quando a televisão chegou nos anos 60, ainda éramos os inocentes em progresso. Durante a semana que antecedeu a inauguração da emissora, as pessoas ficavam horas defronte da telinha, hipnotizadas pela imagem padrão (um índio que não se mexia!), mas prometia uma nova era de grandes transformações.

Rapidamente, a TV Itapoan modificou os hábitos noturnos da cidade, formando o seu próprio “cast” e revelando novos artistas e personagens, como Nelson Maleiro, que encarnava a simpática e cultuada figura do gigante Itapoan, o homem que gongava os calouros com muito bom-humor num programa chamado a “Grande Chance” (Alô, Armandinho!).

Acontece que Nelson Maleiro foi muito mais que o seu personagem televisivo. O fundador dos Mercadores de Bagdá foi um inventor carnavalesco incrível para o seu tempo, sendo responsável pelas espetaculares alegorias dos préstitos, com seus carros imitando os carnavais venezianos com dragões soltando fogo e outras façanhas que tais.

Mais ainda, muito mais, Nelson Maleiro foi mestre de bateria, líder de comunidade, inventor de instrumentos, como o tamborim quadrado, e afinava o tarol com uma mestria invejável.

Tese de mestrado aprovada com louvor (alô, Leo), é inexplicável que um artista e carnavalesco da sua importância não tenha sido lembrado com o respeito e o devido reconhecimento, justo neste ano em que se homenageia a percussão.

Quando as avenidas forem outras vez devolvidas ao povo, sem cordas e sem camarotes, a talentosa “mão no couro” de Nelson será lembrada e ele, com toda a justiça, será nome de circuito, honrando a incansável luta de Ivan Lima pela causa, um deficiente visual que enxerga tudo com o seu lúcido coração.

É imperioso que se faça justiça à memória dos grandes carnavalescos, porque deles provém a paixão imprescindível ao vigor da grande festa.

Viva Renato Mendonça e Jairo Simões: “Saia rendada, colar de ouro…” Viva Armando Sá e Guilherme Brito: “…Colombina eu te amei…” Viva Walter Levita: “…Índio quer apito, se não der pau vai comer…” Feliz Carnaval!


MAIS DA FESTA PELOS 70 ANOS DE CAPINAN

posted by Jary Cardoso @ 8:22 PM
27 de fevereiro de 2011

José Carlos Capinan, sentado à direita, e Jorge Portugal, ao seu lado, acompanham a performance do artista plástico e escultor italiano Giuliano Otaviani, que usa café servido na xícara como tinta para realçar um desenho inspirado no Pelourinho e dedicado ao poeta aniversariante. Foto de VILMA NASCIMENTO – 19.2.2011

OTAVIANI e CAPINAN. Foto de VILMA NASCIMENTO

O post anterior contém modesta homenagem ao poeta José Carlos Capinan nos seus 70 anos de vida. Uma homenagem mais à altura desta personalidade demandaria muitos posts, ou melhor, uma enciclopédia virtual em permanente construção.

Posto agora a entrevista com Capinan publicada no Caderno 2+, de A Tarde, no dia dos seus 70 anos. É uma entrevista que dá o que pensar, propaga altas sabedorias deste baiano de Esplanada que foi uma das cabeças da Tropicália.

Pois ao chegar à festa, em Itapoã, em que Jorge Portugal homenageou Capinan, eu estava acompanhado do colega jornalista zédejesusbarrêto e nós dois fomos imediatamente convocados a dar um depoimento em louvor ao aniversariante para um documentário sobre ele no momento em que se tornava setentão.

Sou péssimo para falar em público e pior ainda diante de uma câmara, mas mergulhei nessa viagem e fui logo confessando que devo a vida a Capinan e a seus companheiros da Tropicália. Contei que eu era um combatente clandestino da ditadura militar, em meados de 1960, quando o movimento tropicalista me balançou a mente e o coração. Vivia na clandestinidade como militante marxista-leninista disciplinado, porém angustiado, inquieto, querendo explodir, transcender para uma vida mais amplamente revolucionária, mais além da mera “luta de classes”, por uma verdadeira revolução cultural, ou contracultural – era o que a Tropicália sugeria, abrindo as portas da consciência.

E um dia, duas semanas depois do Ato Institucional nº 5, baixado em 13 de dezembro de 1968, eu me dirigia à reunião da direção nacional da Polop, uma organização da esquerda revolucionária, a mesma onde a presidente Dilma Rousseff se iniciou na política, eu caminhava pelas imediações da Avenida São João, no centro de São Paulo, Rua das Palmeiras, quando vi dentro de um camburão da época, a inconfundível perua Chevrolet C-14, Caetano Veloso e Gilberto Gil, evidentemente presos.

A cena presenciada ocorreu justamente no dia da prisão de Caetano e Gil. Naquele momento os agentes da repressão procuravam por Geraldo Vandré com a intenção de matá-lo, conforme Caetano revelou há poucos dias no documentário de Geneton Moraes Neto sobre o exílio dos dois baianos.

E aquela cena dos dois tropicalistas presos funcionou para mim como uma iluminação no sentido budista. Cheguei em transe à reunião clandestina, botei um disco dos Beatles na vitrola e comecei a dançar enlouquecido, e só parei de dançar no dia seguinte, já desbundado, não mais quase guerrilheiro que logo poderia ter sido morto a tiros ou sob tortura.

A Tropicália salvou minha vida e aproveitei a oportunidade do depoimento ao documentário sobre os 70 anos de Capinan para agradecer a ele e ao movimento que ele ajudou a criar.

E depois de mim, zédejesusbarrêto prestou depoimento reforçando minhas palavras, ao dizer que a Tropicália foi um movimento revolucionário político e cultural muito mais efetivo e realizador do que a esquerda revolucionária militante jamais conseguiu.

Nesse depoimento, também agradeci a Capinan pelas belas palavras, de alto astral, lançadas na entrevista que reproduzo abaixo.

No final deste post, está a letra de Movimento dos Barcos, de Jards Macalé e José Carlos Capinan, seguida do YouTube dessa música interpretada por Maria Bethânia no histórico show Rosa dos Ventos, de 1971, dirigido por Fauzi Arap (antes de cantar a música citada na entrevista de Capinan, Bethânia diz um texto de Clarice Lispector):

-) Caderno 2+ de A Tarde,19/02/2011:

Capinan:

NUM POEMA

VOCÊ NÃO ENFRENTA BUROCRACIA”

texto de MARCOS DIAS

O poeta José Carlos Capinan faz 70 anos neste sábado, 19. A MPB lhe deve muito. Poeta intuitivo, também é membro da Academia de Letras da Bahia, estava no centro de tudo quando o Tropicalismo aconteceu e afirma sentir-se muito à vontade com “poéticas”.

Vê o mundo assim, inclusive a religião, como uma poética, e nutre o desejo de se iniciar nos mistérios do candomblé. Desde 2002, como presidente da sociedade Amigos da Cultura Afro-brasileira (Amafro), batalha com a burocracia para concluir um magnífico projeto: o Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab), em Salvador.

AT – Em meio às planilhas e batalha pelas verbas para concluir o Museu da Cultura Afro-Brasileira, como fica o poeta?

JCC – Eu mergulhei nesse projeto como se fosse mergulhar num poema. E fazer um poema é como se você tivesse que enfrentar o que vier. Quando eu vou escrever, tomo a palavra como um orixá. Me preparo para incorporar e nesse projeto eu incorporo, faço como um poeta. Tenho dificuldades imensas porque num poema você não enfrenta burocracia, mas aí tenho que navegar com essas coisas porque, em última instância, eu sou o responsável.

AT – Na esfera pessoal, hoje, há algum desejo?

JCC – Faço 70 anos agora. Lembro que, quando era garoto, eu costumava perder horas olhando o teto e tentando pensar o que eu estaria fazendo 50 anos depois ou o que quer que seja. Na verdade, eu tinha um medo muito grande de nem estar aqui. Meu plano pessoal agora é renascer, perder muita coisa, camadas que vão sendo colocadas sobre você. O que mais desejo hoje é estar num palco, rolando no chão, plantando bananeira, tirando a roupa, recitando poemas, e estou com isso para detonar a qualquer momento.

AT – Aos 70, o que há de tropicalista em você?

JCC – Eu sou mais do que tropicalista. O que o Tropicalismo pode fazer não é propriamente uma invenção tropicalista em si. É um desejo que foi sabotado pela ditadura, que o tropicalismo mantém e coloca esse desejo na rua, não escamoteia, com o cabelo, as roupas, a sexualidade, a questão de não estar preso a códigos estéticos. Tudo isso já estava detonado pelos modernistas no Brasil. Acho que os tropicalistas são filhos dessas revoluções que foram interrompidas. E o século 20 foi de uma riqueza incrível no sentido de se libertar das ortodoxias. É incrível, porque acho que o século 21 é muito conservador em relação aos discursos e propostas do século 20. É um retrocesso.

AT – Certa vez, disse que a poesia havia lhe abandonado com o fim do Tropicalismo.

Isso aconteceu exatamente quando escrevo uma canção chamada Movimento dos Barcos. Nesse discurso, eu penso muito em Beth, minha primeira mulher, que era, assim, minha companheirona. Na época da ditadura, ela me ajudou a imprimir um livro, Inquisitorial, que circulava clandestinamente. Depois me vi redescobrindo coisas que eu não percebia enquanto perdia minha ligação com a potência da palavra. Era como se eu tivesse perdido o direito de receber esse orixá. Lembro muito bem que, quando percebia a armadilha em que eu estava, cantava: “Sofrer, não faço outra coisa na vida” (parceria com Paulinho da Viola), e é uma progressão da questão que vem com Movimento dos Barcos(*), que fiz com Macalé. Eu nunca cantei a ideia de estar sofrendo, cara! Porque a ideia disso é a ideia da premonição. Se você diz algo, você é cavalgado por essas palavras. Essa coisa foi fundamental entender para que a potência um dia retornasse como uma estratégia, e que foi: ”Cores do mar, festa do sol, vida é fazer todo sonho brilhar”… quer dizer, que se dane sofrer, que se dane morrer…

AT – Chegou a fazer medicina. Por que a psiquiatria?

JCC – A loucura sempre me preocupou. Mas quando vi alguém numa crise eu sofria tanto que não consegui.

AT – Não lhe passa pela cabeça que a humanidade possa estar num estágio assim, maníaco?

JCC – Acho que está. Acho que a humanidade enlouqueceu mesmo, sem retorno, porque você tem que se segurar na fé, na religião. Há sofreres que assolam o cotidiano da sociedade e não tem escuta pública, escuta social. Crio as minhas escutas: falo com minhas plantas, minhas pedras, porque sou muito solitário, vivo só, mas converso muito com meus netos, eles são lindos mesmo, figurinhas que me reabrem portas que eu deixei, pontes esquecidas. Sei que fui ferido muito, sou um São Sebastião (risos). Acho que as flechas nem sempre a gente consegue arrancar, mas quis ser médico por querer entender a dor também. Tenho muito medo da dor, não gosto de sofrer.

AT – Quase ninguém…

JCC – Sou um homem do mato ainda, um caboclo do mato. Isso quer dizer que gosto de andar sem camisa, gosto de andar de pé descalço, gosto de andar colhendo cajus, de namorar, namorar a vida, gosto de cair no mar, de água de coco, de rede, sou índio, negro e branco, então não posso perder essa coisa de estar em contato com o que é vivo, com a sexualidade, a loucura, tudo isso está muito próximo de mim, sou muito lúdico, gosto das poéticas do humor, isso tudo é muito alegre. É bom encontrar pessoas criativas, meus amigos santoamarenses são todos muito inteligentes, divertidos, iconoclastas, em enterros, missas… Meu povo de Baixios, que conta histórias e adora beber, comer, namorar…

AT – Como escolhe suas parcerias?

JCC – Solidariedade, encontro de cabeça. Não me imagino fazendo música com um reacionário, preconceituoso. Não consigo fazer música com pessoas de direita, que não amem a vida, Meus parceiros têm que ser, inicialmente, pessoas libertárias, que estejam no jogo da vida como autênticos recriadores e buscadores. Esses são os fundamentos para a gente começar a conversar.

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(*) MOVIMENTO DOS BARCOS

(Jards Macalé e Capinan)

Estou cansado e você também

Vou sair sem abrir a porta

E não voltar nunca mais

Desculpe a paz que eu lhe roubei

E o futuro esperado que eu não dei

É impossível levar um barco sem temporais

E suportar a vida como um momento além do cais

Que passa ao largo do nosso corpo

Não quero ficar dando adeus

As coisas passando, eu quero

É passar com elas, eu quero

E não deixar nada mais

Do que as cinzas de um cigarro

E a marca de um abraço no seu corpo

Não, não sou eu quem vai ficar no porto

Chorando, não

Lamentando o eterno movimento

Movimento dos barcos, movimento


SOY LOCO POR TI, POETA CAPINAN!!!

posted by Jary Cardoso @ 9:55 PM
18 de fevereiro de 2011

Ilustração de SIMANCA

JOSÉ CARLOS CAPINAN serve o primeiro pedaço do bolo na festa dos seus 70 anos comemorada com familiares e os amigos santamarenses, na casa de Jorge Portugal, em Itapoã. No bolo está escrito o título original do artigo abaixo, dedicado ao aniversariante: Soy louco por ti, poeta. Foto de WALESKA NASCIMENTO


texto de JORGE PORTUGAL*

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Poetas são criaturas que conhecem, como ninguém, o endereço do nada. E, quando se lhes dá na telha (ou na pele), vão lá e retiram palavras, imagens e metáforas para falar de mundos que a nossa impotência verbal não traduz. E é dos poetas que tomamos as palavras emprestadas quando sentimos que as nossas não conseguem chegar às estrelas.

Pois bem, neste sábado, dia 19 de fevereiro, estará completando inacreditáveis 70 anos um dos maiores e mais importantes poetas da cultura brasileira contemporânea: José Carlos Capinan.

Foi de Capinan que você, leitor(a), tomou as palavras precisas para expressar aquela alegria indizível de se descobrir vivo e feliz. Ali, você cantou: “cores do mar, festa do sol/ vida é fazer todo sonho brilhar, ser feliz/ em seu colo dormir e depois acordar/ sendo o seu colorido brinquedo de papel machê…” Lembra?

Ou, no caso de você já ter passado dos trinta (rsrsrs!) e ter vivido com ardor juvenil o sonho de alguma revolução igualitária em que os países não tivessem fronteiras, nem divisões sociais, o seu coração “guevariano” certamente deve ter cantado “Soy loco por ti, América/ Tenga como dolores a espuma blanca de Latinoamerica/ Y el cielo como bandera”.

Ou, ainda no seu caso, caro leitor, ao despir a mulher amada com olhos de poesia e desejo, e não encontrando palavras à altura para o seu plano de sedução, deve, sim, ter pedido ajuda a Capinan e cantado no ouvido da musa: ”Moça bonita, o seu corpo cheira ao botão de laranjeira/ Eu também não sei se é/ Imagina a minha sina é um cheiro de café/ Ou é só cheiro feminino/ É só cheiro de mulher”.

E assim, dessa maneira, Capinan foi tomando conta de nossas vidas, convidando-nos a “penetrar surdamente” no reino de suas palavras e nos entregando a chave de belas e invulgares emoções. Por isso, onde você estiver neste sábado, agradeça ao deus da poesia por ter nos dado esse “caboco do mato” que vem enchendo nossa vida de palavras, sonhos e luz.

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*Jorge Portugal – Educador e compositor (publicado em Opinião de A Tarde, 15.2.2011)



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