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FLORISVALDO MATTOS LANÇA OBRA POÉTICA ESSENCIAL

posted by Jary Cardoso @ 8:32 PM
13 de abril de 2011

POESIA REUNIDA E INÉDITOS,

O NOVO LIVRO DE FLORISVALDO MATTOS

 

A obra Poesia Reunida e Inéditos concretiza uma antiga aspiração dos admiradores de Florisvaldo Mattos: ver reunida, no seu conjunto, sua poesia, dos anos 1950 até os nossos dias. O livro, editado pela Escrituras, de São Paulo, será lançado na Livraria Cultura, do Salvador Shopping, nesta quinta-feira, dia 14, a partir das 18 horas.

Como diz Alexei Bueno, no texto das orelhas, o livro representa “meio século de expressão lírica de um grande poeta grapiúna, soteropolitano, baiano brasileiro e universal (…) um dos poetas com mais requintado senso da terra, da coisa rural, dos mais ligados a seu momento histórico”.

Entre os poetas brasileiros surgidos na década de 1960 – fase extremamente criadora, aqui e no mundo – um dos altos postos pertence a Florisvaldo Mattos. Sua obra poética, dominada por uma dicção fortemente pessoal, é, ao mesmo tempo, de uma abrangência e de uma variedade que desconcertam qualquer crítico.

Um dos polos essenciais da criação de Florisvaldo Mattos, como destaca JC Teixeira Gomes no prefácio do livro, “é o cultivo de um lirismo sempre comedido, trabalhado com extrema propriedade de recursos, sendo certamente o único na sua geração que transita do lírico para o épico com absoluta naturalidade, mestre nos dois caminhos poéticos, consciente do poder que tem sobre as palavras”.

O vasto conjunto lírico que encontramos nesta Poesia reunida e inéditos representa, portanto, um monumento da poesia brasileira de entre a segunda metade do século passado e a primeira década do presente, erguido por um espírito agudamente atento ao tempo e dele liberto, como sempre é, paradoxalmente, o dos grandes poetas.

FLORISVALDO MATTOS e seu novo livro. Foto de RAUL SPINASSÉ | Agência A Tarde – 12.4.11

 Sobre o autor

Florisvaldo Moreira de Mattos é natural de Uruçuca, no sul do Estado da Bahia. Fez os estudos primários na cidade natal e os secundários em Itabuna e Ilhéus, completando-os em Salvador, onde se diplomou em Direito pela Universidade Federal da Bahia (1958); mas optou pelo exercício do jornalismo profissional, ocupando cargos em vários jornais, como repórter, chefe de reportagem, redator, editor e editor-chefe. Integrou o grupo nuclear da Geração Mapa, que atuou na Bahia nos anos 1960 sob a liderança do cineasta Glauber Rocha.

Escritor e poeta, atuou nas revistas Ângulos e Mapa, ambas editadas em Salvador. De 1990 a 2003, foi editor do suplemento Cultural, publicado semanalmente pelo jornal A Tarde, premiado em 1995 pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). Desde 1995, ocupa a Cadeira 31 da Academia de Letras da Bahia. Ex-professor da Faculdade de Comunicação da UFBA, também exerceu, entre 1987-89, a presidência da Fundação Cultural do Estado.

Obras publicadas:

Reverdor (1965); Fábula Civil (1975); A Caligrafia do Soluço & Poesia Anterior (1996), pelo qual recebeu o Prêmio Ribeiro Couto de Poesia, da União Brasileira de Escritores; Mares Anoitecidos (2000) e Galope Amarelo e Outros Poemas (2001) (todos de poesia); Estação de Prosa & Diversos (coletânea de ensaios, ficção e teatro, 1997); A Comunicação Social na Revolução dos Alfaiates (1998) e Travessia de oásis – A sensualidade na poesia de Sosígenes Costa (2004), ambos de ensaios.

Como poeta e ensaísta, publicou textos em jornais e revistas de literatura e ciências humanas, estaduais e nacionais, e tem poemas publicados em

antologias do Brasil, Portugal e Espanha (Galícia).

Características editoriais

Título: POESIA REUNIDA E INÉDITOS

Autor: Florisvaldo Mattos

Gênero: Poesia

Assina a orelha: Alexei Bueno (poeta e escritor carioca)

Assina o prefácio: João Carlos Teixeira Gomes (poeta, ensaísta, jornalista, professor universitário, membro da Academia Letras da Bahia)

Publicação: Escrituras Editora (Endereço: Rua Maestro Callia, 123 – Vila Mariana – São Paulo, SP – CEP: 04012-100).

Número de páginas: 352

Capa, projeto gráfico e editoração eletrônica: Felipe Bonifácio.

***

UM DOS POEMAS DO LIVRO ESCOLHIDO POR FLORISVALDO MATTOS ESPECIALMENTE PARA O BLOG JEITO BAIANO:

TEMPOS DE ARLEQUIM

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Salvador é Carnaval. Quando cheguei,

Em noite de Segunda-Feira Gorda,

As cores da cidade feiticeira

E os meus olhos na praça fumegavam.

Havia corso e blocos veteranos

(Nomes claros que hoje fazem sonhar).

Sobem os Inocentes em Progresso,

Descem os Mercadores de Bagdá.

No Bob’s Bar, que depois será Cacique,

Param o som travesso e a peraltice

Da guitarra elétrica na fobica;

Uma estrela desponta e, com a luz dela,

A multidão que pula e agita ramos

(A prévia tosca da mamãe-sacode)

Canta, dança, grita, bebe cerveja.

Eu ali que faço? Acompanho o passo.

Batalhas de confete e serpentina,

Pierrôs, lança perfume, colombinas,

Estrelejando o chão da Rua Chile,

Onde desfilam afoxés. (A brisa

É mais um concorrente da folia,

E eu, olhos postos em longínqua trama

De sonhos dando voltas num salão

E numa rua, espelho do infinito.)

Avança por meu tempo de incertezas

A máscara sedutora do passado,

Blocos de rancho fecundando auroras

E o entardecer de etéreas batucadas.

Súbito são morenas de um cordão;

Arlequim invasor da madrugada

Agarra-se à cintura de uma delas

E sobe a praça rumo à Sé que ferve.

GLAUBER ROCHA e FLORISVALDO MATTOS, expoentes da GERAÇÃO MAPA. Arquivo A Tarde

***

ORELHA DE POESIA REUNIDA E INÉDITOS

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Texto de ALEXEI BUENO*

.

Entre os poetas brasileiros aparecidos na década de 1960 – década fulgurantemente criadora, aqui e no mundo – um dos altos postos pertence a Florisvaldo Mattos. O presente livro reúne, portanto, meio século de expressão lírica de um grande poeta grapiúna, soteropolitano, baiano, brasileiro e universal, pois toda a poesia plenamente realizada atravessa essas camadas sutilmente aleatórias da biografia de um artista, para atingir, enfim, aquela totalidade puramente impessoal a que tendem todas as artes, além das condições cronológicas e geográficas que presidiram seu surgimento, ainda que, no caso da poesia, com o senão, sob o aspecto do alcance, da sua quase intraduzibilidade.

A obra poética de Florisvaldo Mattos, dominada por uma dicção fortemente pessoal, é, ao mesmo tempo, de uma abrangência e de uma variedade que desconcertam qualquer crítico, e ainda mais um admirador adstrito a poucas linhas como o que aqui escreve. Se desde Noticiário da aurora deparamo-nos com uma poésie pure em seu exato sentido, pouco depois assistiremos ao seu insólito encontro com a História, em Cinco monólogos de Garcia d’Ávila. Dos poetas brasileiros com mais requintado senso da terra, da coisa rural, Florisvaldo Mattos é ao mesmo tempo dos mais ligados a seu momento histórico, como podemos ver no admirável “Não aos cavalos triunfantes”, um dos maiores poemas nascidos do horror aos crimes cometidos na Guerra do Vietnã, bem como nos poemas às mortes de Gagárin, de Neruda ou à tão traumática desaparição de Glauber Rocha, sobre a qual compôs a poderosa elegia “A edição matutina”. Visceralmente ligado à sua terra natal, é autor, por outro lado, de memoráveis poemas de ambiente ibérico. Poeta antes de tudo, rendeu homenagens inesquecíveis a outros poetas, como “Rimbaud là-bas”, “Verlaine, 1891”, o magnífico poema “Duas almas” ou aqueles dedicados ao grande Sosígenes Costa, que ladeiam outros dedicados ao Jazz, à pintura e inclusive ao futebol, como o brilhante “Maradona”. Senhor de um verso livre às vezes rude, ou de um sonoro verso branco, é igualmente grande sonetista, ao lado de seus conterrâneos que cultivam esta maior forma fixa do lirismo ocidental, João Carlos Teixeira Gomes, Ildásio Tavares, Ruy Espinheira Filho ou Luiz Antônio Cajazeira Ramos. Poeta fortemente telúrico, como já afirmamos, é autor de admiráveis marinhas, algumas delas na ambiência histórica da Guerra Holandesa.

O vasto conjunto lírico que encontramos nesta Poesia reunida e inéditos representa, portanto, um monumento da poesia brasileira de entre a segunda metade do século passado e a primeira década do presente, erguido por um espírito agudamente atento ao tempo e dele liberto, como sempre é, paradoxalmente, o dos grandes poetas.

*Alexei Bueno é poeta e escritor; autor, entre outros, de Lucernário, poesia, e Uma História da Poesia Brasileira.

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Na foto de 1959, o encontro das gerações das revistas "Mapa" e "Ângulos": da esquerda para a direita, Nemésio Sales, João Carlos Teixeira Gomes, Antônio Guerra Lima e, atrás, Florisvaldo Mattos e o gravador Calasans Neto, celebrando o noivado de Glauber com a bela Helena Ignês. E mais os gravuristas Hélio Oliveira e José Maria. Arquivo A Tarde

PREFÁCIO DE POESIA REUNIDA E INÉDITOS

 

DE CORPO INTEIRO

 

Texto de JC TEIXEIRA GOMES*

 

Este livro concretiza uma antiga aspiração dos admiradores da poesia de Florisvaldo Mattos: vê-la reunida no seu conjunto, permitindo, assim, a visão integral, pelo menos até o presente, de uma das produções poéticas mais relevantes produzidas (não só na Bahia, mas em escala nacional, ressalte-se) aproximadamente dos anos 50 até os nossos dias.

Disse Victor Hugo, num dos seus versos mais poderosos, que “um poeta é um mundo em um homem contido”. Lembremos que a poesia ocidental nasceu sob o signo dessa verdade, se lembrarmos que a Grécia Clássica está em Homero e grande parte da majestade de Roma, em Virgílio. O grande verbo poético, sobretudo na poesia épica, tem o condão de sintetizar as particularidades, as aspirações e os grandes rasgos culturais dos povos celebrados pelos rapsodos, que se fazem, assim, seus intérpretes mais autorizados.

Desejei, com o parágrafo acima, lembrar que uma das marcas fundamentais da poesia de Florisvaldo Mattos é precisamente o impulso épico, ao lado do seu pendor lírico, que o fez escrever um dos conjuntos de poemas curtos, sobretudo sonetos, mais belos e representativos da sua geração. E o fez sobretudo porque é um criador dominado pelo “lavor da razão”, como confessou num dos seus poemas, fato que ordenou a sua linguagem para que ela se despojasse de todo ornamento inútil , buscando a essencialidade da expressão verbal, sem os transbordamentos habituais no lirismo brasileiro.

O compromisso épico está na base da poesia do nosso autor, desde o momento em que ele lançou o livro Reverdor, de 1965, celebrando a saga heróica dos pioneiros que desbravaram as terras baianas, nos albores da colonização, como lemos nos longos poemas “A domação das pedras” e “Cinco monólogos de Garcia D´Avila” ambos de grande fôlego e transcendente força poética. E esse compromisso se dilatou nos versos que evocam a sua condição de grapiúna, nascido e criado na terra da outrora poderosa lavoura cacaueira, que deu à sua poesia a dimensão telúrica inaugurada na poesia ocidental por Hesíodo, Teócrito e Virgílio, este último um preceptor da faina agrária com as suas famosas ”Geórgicas”, que podem ser lidas como um tratado do amanho da terra. Num dos seus poemas mais trabalhados, diz-nos Florisvaldo Mattos:

Meu canto gravado de um sabor oculto de águas

Esquecidas fabricarei no campo com suor

De rudes trabalhadores, de chuvas, sepultando-se

De búzios pontuais, lamentos e desgraças.

Forçosamente rústicos caindo sobre os campos,

Pelo ar, compacto de húmus e branco vinho caindo

Sobre plantações. Sobre húmus caindo (…).

Ou então, como no “Poente aos bois”:

No olhar de melancolia e trabalho vespertino

Passeia desnudo entre folhas cegas

Um sacrifício comum de agrícola fadiga,

Paisagem desesperada nutrindo-se

De sombras, de canção despedaçada

Entre cedros e riachos.

Em suma, como bem expressou Hugo no verso que transcrevemos, há um mundo que pulsa na poesia de Florisvaldo Mattos, o mundo da terra grapiuna e da saga dos conquistadores do passado, tão presente em numerosas outras composições suas, expressas em versos brancos (isto é, sem rimas) com tanta naturalidade e competência artesenal, que preserva a musicalidade tão característica do decassilabo do nosso poeta, próxima, por vezes, dos líricos de língua espanhola. A rima, aliás, jamais foi usada na grande poesia épica, e chegou a ser qualificada por Milton, no prefácio de “Paraíso Perdido”, como invenção “de uma idade bárbara”, lembrando o poeta que ela não existia no tempo de Homero e de Virgílo, ou seja, na idade de ouro do canto coletivo.

O outro polo essencial da criação de Florivaldo Mattos é o cultivo de um lirismo sempre comedido, trabalhado com extrema propriedade de recursos, sendo certamente o único na sua geração que transita do lírico para o épico com absoluta naturalidade, mestre nos dois caminhos poéticos, consciente do poder que tem sobre as palavras.

O território poético brasileiro está repleto de poetas que lutam com as palavras, aliás, uma luta “vã”, como lembrou Carlos Drummond de Andrade, pois o fazer poético passa a ser um desastre verbal, quando traduz um confronto do poeta com os seus meios de expressão. Não é raro que os poetas nacionais sejam derrotados pelas palavras, em vez de, pelo menos, domá-las ou seduzi-las, num processo amoroso que conduz ao parto perfeito, entre nós tão raro.

Se o calor dos trópicos torna o pensamento difícil, conforme assinalou Sílvio Romero, mais difícil ainda é o pensamento poético isento dos ardores tropicais, estimulador do martírio da verborragia nacional. Pois em Florisvaldo Mattos o que ressalta é a contenção. A palavra tem que ser trabalhada como suporte essencial, jamais supérfluo, do arcabouço do poema, ser de linguagem e não um reduto de sentimentos estereotipados, prosaicos ou confessionais. Quem quer confessar-se deve escrever cartas ou ir ao padre e não tentar poemas, pois a magia da escrita transcende a lamúria do confessionário. Por saber que um poema não é um redutor do muro das lamentações, o nosso poeta soube construir em sua obra a linguagem das essencialidades liricas, aquela que se transmite sem excesso, buscando o mínimo para obter o máximo. Como, por exemplo, neste magnífico soneto, construído sobre um jogo raro de excepcionais metáforas:

Talvez um lírio. Máquina de alvura

Sonora ao sopro neutro dos olvidos.

Perco-te. Cabra que és já me tortura

Guardar-te, olhos pascendo-me vencidos.

Máquina e jarro. Luar contraditório

Sobre lajedo o casco azul polindo,

Dominas suave clima em promontório;

Cabra: o capim ao sonho preferindo.

Sulca-me perdurando nos ouvidos,

Laborado em marfim – luz e presença

De reinos pastoris antes servidos –

Teu pelo, residência da ternura,

Onde fulguras na manhã suspensa:

Flor animal, sonora arquitetura.

Já escrevi sobre essa obra-prima estas palavras, que agora transcrevo, numa homenagem ao leitor: “Toda uma tradição da poética ocidental está aí presente, inclusive da vertente barroca(…). A riqueza dos processos de substituição e associação transforma a cabra contemplada pelo poeta numa “máquina de alvura”, num jarro abandonado e, sucessivamente, pela impressão transmitida à distância do ângulo de visão, numa flor e numa peça de arquitetura jogada na paisagem. Somente a alta poesia pode transubstanciar dessa maneira a realidade do mundo físico pela linguagem. Por isso a poesia é o mais difícil e complexo dos gêneros literários(…)”.

Quanto aos novos poemas reunidos neste livro, novamente se instaura aqui o envolvente jogo entre o épico e o lírico que, intermitentemente, assinala toda a produção do autor, como um compromisso essencial da sua engenharia poética, da melhor linhagem aristotélica, pela aderência à forma despojada, como poderemos ver em muitos dos que o poeta publicou em Mares Anoitecidos (2000), onde retoma a vertente épica, quando elege como tema, de forma deliberada e autônoma, o malogro dos holandeses na invasão da Bahia entre 1624 e1625, em que toma o partido da descrição de emoções e vivências na perspectiva trágica dos vencidos, como disse, “pela voz de quem se inseriu num jogo de contradições” e desespero, de cuja série destaco o poema intitulado “Rochedos”, de veia epico-lírica, evocativa de um itinerário barroco de infortúnios:

Meu coração agora te pertence

lua que vaga sobre esses rochedos,

eles mesmos reflexos de longínquos

muros, agora esfinges a espreitar

distâncias, a arrimar arquitetura

nostálgica de cercos, a exumar

brasão latino ou artifício mouro.

Meu coração agora vos pertence,

graves rochedos, arsenal de fúrias,

que são artes do tempo, vosso algoz:

em quieta hora de tarde ou noite morna,

decreto imemorial que a espuma lavra,

a ruína e morte, e a solidão, alude

o som da água que ruge a vossos pés.

Ou quando, em Galope Amarelo e Outros Poemas (2001), a voz lírica se alça por luxurioso percurso em que se desata e se impõe a presença feminina nos catorze decassilábicos dardejos de “Passos e acenos”:

(…)

De pé, agitas os vaporosos membos,

ao calor da voz que atordoa o vento.

Sentada, as formas se acomodam, urdem

rútilo desenho. É quando, pasmo, ouço

o marulho do sexo, ávido. Bem

que mereço essa onda, ronda de garras

que me acenam, me buscam pela tarde.

Poemas outros neste mesmo timbre lírico há entre os inéditos desta sua Poesia Reunida, todos lavrados numa mesma oficina de madura inspiração e técnica, como no soneto “Estrela súbita”, em que ressoa dadivosa a idéia nietzcheana do eterno retorno:

Nunca te vi dizer-me que me queres.

Eu queria te ver tocando flauta,

Sem a sabedoria das mulheres,

Na varanda distraída, como incauta.

Na de lusos pensei história antiga,

Ao pressentirem ninfas entre arbustos.

Se o vento manda que o perfume as siga,

A vibração começa pelos bustos.

Vens de um país de renovadas auras.

Como ninfa te portas, se proponho

Mover os muros que entre nós instauras.

Do vento ouço o ruflar de suave escolta.

Marinheiro que agora sai de um sonho,

Cogito que eras tu que estás de volta.

E assim outros mais e mais outros. Mas não nos alonguemos, pois o importante é que os leitores possam traçar por conta própria o livre roteiro das descobertas. Enfim, que saibam desdobrar à sua frente, com sensibilidade e devoção, o grandioso mapa da poesia de Florisvaldo Mattos.

*João Carlos Teixeira Gomes é jornalista, poeta, articulista e ensaísta; professor aposentado do Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia, membro da Academia de Letras da Bahia.


ROBERTO MENDES LANÇA LIVRO E DVD SOBRE A CHULA

posted by Jary Cardoso @ 5:07 PM
31 de março de 2011

ROBERTO MENDES RESGATA

A CHULA DO RECÔNCAVO BAIANO

PARA REAPRESENTÁ-LA AO MUNDO

Pesquisa de mais de três décadas do cantor e compositor vira livro com DVD que será lançado hoje, dia 31 de março, em Salvador

(veja o endereço no final deste post)

Durante três décadas de intensa pesquisa, o compositor Roberto Mendes imergiu em suas raízes, fincadas no Recôncavo baiano, para estudar e resgatar a chula, mãe do samba de roda e base dos outros sambas. O resultado é o livro com DVD intitulado Sotaque em Pauta – Chula: o canto do Recôncavo, com o objetivo de reapresentar o ritmo ao mundo que será lançado em Salvador, no dia 31 de março, a partir das 20h30, no B23 Lounge Music Bar (Rua Anísio Teixeira, 161, Boulevard 161, Itaigara).

Após apresentar seu novo trabalho no Rio de Janeiro e São Paulo, Roberto Mendes recebe os amigos em Salvador para divulgar a chula, a verdadeira origem do samba. O compositor receberá os convidados para autógrafos e, na sequência, presenteará o público com um show de chula.

Popularização da chula

Compositor cujas músicas ecoam por todo o Brasil e estão eternizadas na voz da conterrânea Maria Bethânia, Roberto Mendes presenteia o público com uma obra cuja intenção é popularizar a chula, definida por ele “como um belíssimo canto português com letras compostas organicamente em redondilhas menor e maior”, ou seja, em versos de cinco e sete sílabas.

Presente apenas no Recôncavo baiano e no norte de Portugal, a chula – canto violado do Recôncavo – foi declarada obra-prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade em 25 de novembro de 2005. O livro possibilita o estudo dos fenômenos lingUísticos ocorrentes na letra das músicas e, o DVD, mostra o modo peculiar como a chula é tocada. O trabalho foi apresentado no Rio de Janeiro e São Paulo.

Sobre o livro

Fortemente influenciado por Guimarães Rosa e Mário de Andrade, o livro nasce do encontro entre Roberto Mendes – natural de Santo Amaro da Purificação, cidade do Recôncavo baiano banhada pelo Rio Subaé – e Nizaldo Costa – natural de Xique-Xique, cidade às margens do Rio São Francisco. Juntando os sotaques, as lembranças e as histórias contadas à beira das águas “doces como a cana” dos dois rios, eles compuseram músicas e escreveram o texto povoado de personagens reais e fictícios.

A obra, ricamente ilustrada por fotografias de Marcelo Bruzzi, traz um estudo sobre versificação e análise dos fenômenos verificados na letra das canções compostas por Roberto Mendes, tais como crase poética, anadiplose (repetição da última palavra ou expressão de uma oração) entre outros. Traz, ainda, as letras e as partituras elaboradas por Marcos Bezerra.

Bilíngue (português e inglês), o livro vem acompanhado de um DVD no qual Roberto Mendes apresenta um verdadeiro show de chula com violão e voz e, ainda, ensina a técnica do ritmo por meio de imagens concentradas em suas mãos. O material também traz entrevistas de antropólogos, músicos e poetas, além de imagens dos locais e das pessoas que serviram de fonte para a pesquisa.

Sobre a chula

Os mais antigos registros sobre uma música típica do Recôncavo Baiano remontam ao século XVIII e são depoimentos de viajantes que descreveram uma manifestação musical na qual homens negros tocavam instrumentos de percussão e cantavam, num ritmo que remontava às raízes africanas.

A chula é sempre ritualística. Homens e mulheres têm os seus papéis definidos. Na roda que se abre para as apresentações, somente homens em pé tocam e um deles puxa o canto que soa como uma declamação. As mulheres só entram na roda quando o “comandante” da chula concede a permissão. Assim, começa a roda de dança, na qual apenas as mulheres podem entrar, uma de cada vez, reverenciando os tocadores até que tudo se transforme em uma grande festa.

A parte litúrgica tem os homens como protagonistas exclusivos, que cantam nos desafios das duas parelhas (formada cada uma por duas pessoas), na qual uma canta e a outra responde. Às mulheres cabe apenas observar e se deixar levar pelo canto e pela harmonia envolvente da viola.

Sobre Roberto Mendes

Natural de Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo baiano, Roberto Mendes nasceu em 22 de novembro de 1952. Com mais de 30 anos de carreira, tem suas composições gravadas pelos conterrâneos Maria Bethânia e Caetano Veloso, por Gilberto Gil, Gal Costa e tantos outros. É, inclusive, quem mais compôs para Maria Bethânia depois de Caetano e Gil.

Entre os sucessos gravados por Bethânia estão: A Beira e o Mar, Esse sonho vai dar, Resto de mim, Vila do adeus, Iluminada, Saudade dela, O nunca mais, Massemba, Filosofia pura, Lua, Beira-Mar, Memória das águas, Francisco, Francisco, Yorubahia, Sino da minha aldeia, Quadrinhas, Ofá, Noite de Estrelas, Vida vã, Louvação a Oxum, Búzio e O nunca mais.

Discografia de Roberto Mendes:

Cidade e rio (2008)

Tempos Quase Modernos (2005)

Flor da Memória (2003)

Tradução – Roberto Mendes & Convidados (2000)

Minha História (1999)

Voz Guia (1996)

Roberto Mendes (1994)

Roberto Mendes & Baianos Luz (1994)

Matriz (1992)

Flama (1988)

Salvador

Data: 31 de março

Local: B-23 Lounge Music Bar

Rua Anísio Teixeira, Boulevard 161, Loja 23 S, Itaigara

Horário: 20h30


SALVADOR 462 ANOS – EXALTAÇÕES E CRÍTICA

posted by Jary Cardoso @ 11:50 AM
29 de março de 2011

 

Este post dedicado aos 462 anos da Cidade da Bahia, completados hoje, dia 29 de março de 2011, se divide em três partes. Na primeira, o escrivinhador e conselheiro-mor deste blog, zédejesusBarrêto, amargurado com a degradação da “Mãe Preta”, a cidade amada, recorda em prosa poética um bom momento de reencontro com ela. Na segunda parte, o poeta José Carlos Capinan satiriza Salvador quase à maneira de Gregório de Mattos, em poema dedicado ao poeta e jornalista Florisvaldo Mattos. E na terceira parte, Capinan declara seu amor à Cidade da Bahia em letra de música que Roberto Mendes transformou num afoxé, gravado pela cantora Carla Visi.

 

PARTE I

texto de zédejesusBarrêto

Queria um texto bonito, afetuoso,

para homenagear a cidade amada,

a Mãe Preta

que faz 462 anos neste 29 de março/2011.

Mas descubro-me sem inspiração.

Talvez pela amargura de vê-la tão

vilipendiada, sofrida, mal-cuidada…

Então optei por um texto que escrevi na primavera de 2008,

logo que retornei de uma viagem de trabalho a África-Angola-Luanda …

com o coração apertado de saudades.

Segue:

*

Chegança

Sexta.

Acordo com bem-te-vis e fogo-pagôs saudando o dia

Abro as janelas

O cheiro de mato e maresia me invade

Manhã luminosa de quase primavera-verão

O reflexo do sol nas folhas largas das bananeiras provoca

um verde exuberante

Um brilho intenso se espalha pelo tempo

Aspiro luz numa aragem pura que vem do mar, adiante, tão próximo

Ligo o rádio

Caetano canta Wando, dolente e belo

À noite tem João e violão no TCA

Nos jornais, a viagem derradeira de Waldick, do brega ao paraíso

A caminho do Ilê Opô Afonjá, ouço Mateus Aleluia, sacro-afro-barroco Angola e recôncavo

Na roça do Opô Afonjá, o branco de Oxalá

Silêncio, respeito e paz

O tempo noutra dimensão

Axé! Êpa babá!

Flutuo

No caminho dos Mares

Aprecio as torres das velhas igrejas, mirantes da fé

No ponto do buzu da Jequitaia, um grupo de 20 pessoas …

Homens, mulheres, velhos, jovens, crianças

Todos de branco, da cabeça aos pés

Riam, felizes, soltos, feito anjos

No templo gótico da Senhora dos Mares

madrinha, mulher, rainha –,

elevo-me aos céus

no rastro da intensa luz que clareia a nave vazia pelos vitrais coloridos

Só eu e ela, Mãe!

Sinto-me abençoado.

Subo a Sagrada Colina para agradecer

O padre celebra, no altar florido

O branco predomina

Nos trajes, nos panos litúrgicos, na decoração

O Senhor do Bomfim reluz no dourado que a réstia de sol alumia

Mulheres negras de torços e colares de contas coloridas

quedam-se de joelhos e reverenciam com a cabeça

o poder dos mistérios da fé

Uma brisa forte vinda das lonjuras do mar-além

varre o interior do templo e refresca as almas

Mas não apaga a chama das velas, dos corações dos devotos

O Bomfim me comove

O hino cantado pelo povo me engasga, me faz chorar

Sempre, inexplicável.

Saio da igreja em estado de graça

Fora, nas escadarias, converso, beijo e ganho brindes

das velhinhas que vendem fitas-medidas abençoadas pelo ar purificado

que cobre, perfuma, purifica e passeia na Colina Sagrada.

Dá vontade de comer um filé em Juarez, no antigo Mercado do Ouro…

Ou uma moqueca de carne no Moreira, que está fazendo 70 anos…

Ou o peixe de Lula, no Mini Cacique, da rua Rui Barbosa…

Hum! Gostosuras da Mãe Preta!

O céu está limpo, com nuvens alvas

desenhos de algodão sobre o azul infinito

A visibilidade é tamanha que diviso ao longe, do outro lado do mar

da baía de Todos-os-Santos, Orixás, Voduns, Inquices e Caboclos,

a torre da igrejinha de Vera Cruz, nítida.

O cristalino azul do mar faísca em prateadas escamas

Odoyá!

Olhando pro Atlântico sem fim

penso na vó materna, Angola

Ela nos ensinou o que é dengo, saudade, molejo, mandinga.

Agora sei,

estou chegado.

Aninho-me…

É morno e macio o colo da Mãe Preta, Cidade da Bahia.

*

(zédejesusbarreto, jornalista e escrevinhador)

O texto acima é um trecho do livro ‘Cacimbo – Uma experiência em Angola’ - Solisluna Editora, 2010.

O livro ‘Cacimbo’ foi lançado na Bienal Internacional do Livro, em São Paulo, no ano passado. ‘Cacimbo’ aborda, numa prosa quase versejo, as identidades e dessemelhanças entre Luanda e Salvador, cidades fêmeas, irmãs, filhas das águas atlânticas.

Angola é vó da Bahia.

A bença, minha Mãe Preta!

Obs: O livro está à venda, nas livrarias da cidade (Pérola Negra, Cultura, Saraiva, Aeroporto, LPM …

**

Salvador não salva ninguém

Mas a Bahia é a Bahia!”

(Gigica do Maciel, pensador de rua, lúcido e louco, filósofo do Pelô)

***

PARTE II

Canto quase Gregoriano

(fragmentos)

A Florisvaldo Mattos

JOSÉ CARLOS CAPINAN

Então, cidade, como estás em teu moderno estado?

E como nos tem tratado teus convertidos prosélitos?

E teus alcaides, cidade

O que de novo tem praticado?

(Estás ainda tão feia quanto teus brongos, alagados)

Seriam traumas, sequelas, dos tantos que endividaram

Tuas tralhas?

Ou será tua sina divina não teres ninguém que te valha

Vestindo gravata ou saia?

Quem te governa, cidade

É a farófia revolucionária ou a direita canalha?

II

Desde Tomé que a gente paga pra ver

A utopia prevalecer

E as Coréias proliferando

(E certamente não é que falte fé ao baiano)

Continua ele votando

(Mas não passas de um ex-voto do milagre que o demo vem praticando)

III

(E de que valem todos os santos

Se pra baixo te ajudam os soteropolitanos?)

IV

E então, Salvador

Mudaste a cara do Pelô?

Tiraste de lá o povo

Tocas já outro tambor?

Os que antes lá roubavam

Passaram o ponto aos doutores?

Os traficantes trocaram

De drogas e os mercadores

Vendem outras ilusões

E o amor cotado em dólares?

VIII

Se teus esgotos esgotam

Teus cidadãos pacientes

Pelo menos uma máxima

Aos que vomitam concede

Quem maledicente fala

O repto consente

Se o meio ambiente exala

É inepta ou inapetente

A gerência da cloaca?

(Ela fede abertamente)

XVI

Que querem teus governantes?

Negócios e, negociantes

Dinheiro, como dantes

Para o terceiro milênio

Convênio com os empreiteiros

E como dantes, dinheiro

XX

Se aos justos difamas

E alcagüetas

Digam de mim teus ghost writers

Toda maledicência

De mim podes dizer que sou

Teu proxeneta

Já que não podes dizer que sou

Teu poeta

De mim podes dizer que sou

Teu drogado

Já que não podes dizer que sou

Teu advogado

De mim podes dizer que sou

Ressentido

Porque proíbes a esperança

Ao meu partido

Mas deixa ao menos que eu seja

O que o futuro deseja

E o que será a tua estética

Uma nova ética

José Carlos Capinan. Poemas; antología e inéditos. Salvador: FCJA:Copene,1996.p.99-10

(Um canto quase Gregoriano foi incluído no livro Confissões de Narciso, publicado em 1995)

***

PARTE III

SALVADOR, SALVADOR

ROBERTO MENDES e JOSÉ CARLOS CAPINAN

Luminosa cidade

Espelho no mar

No céu claridade

É bonita de ver

Refletida nos olhos

Do meu amor Salvador

Não deixe o meu amor morrer

Me salve da dor

Se esse amor virar saudade

Negra na cor

Cidade da fé, felicidade

Negro amor

Quero ver nos olhos dela

Tua imagem

O amor quando nos deixa

É um beco sem saída

Me salve da dor

De um beijo de despedida…

Eu vou botar meu coração na mão

Que toca o tambor do teu afoxé

Cidade da fé, felicidade

Me salve da dor

Se esse amor virar saudade…



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