Archive for março, 2009


SALVADOR, MAIS DE CEM ANOS DE SOLIDÃO

posted by Jary Cardoso @ 1:34 PM
29 de março de 2009

Hoje, 29 de março, aniversário de Salvador, cidade que há 22 anos abriga este migrante, paulistano de nascimento, invoco palavras de dois expoentes baianos da minha geração: Antonio Risério e Waly Salomão, dois dos principais responsáveis (ou culpados?) por esta minha diáspora.

De Risério cito textos que dão pistas para penetrarmos nos mistérios da Cidade da Bahia, de um ponto de vista ao mesmo tempo historiográfico, antropológico e poético. Resumo o que apreendi em mais de 30 anos de conversas com Risério e leitura de seus livros: a maneira original de ser dos baianos foi cultivada durante mais de cem anos de solidão, depois que a capital do Brasil Colônia foi transferida para o Rio de Janeiro e coincidindo com o período em que o Recôncavo Baiano foi inundado por escravos africanos de etnia iorubana, que puderam conservar e recriar sua cultura. Daí surgiu uma miscigenação luso-africana-indígena sem igual, formando um patrimônio de civilização precioso para o Brasil e toda a humanidade.

De Waly (jamais escrevam Waly com dupla letra ele; Waly ficava fera quando via seu nome escrito errado: “Waly vem do árabe Walid!”, berrava, voz de trovão, entortando a bocarra, olhos faiscantes), lembro poema sobre a cidade em que ele incorporou à sua maneira o Boca do Inferno Gregório de Mattos. Waly dizia que a Cidade da Bahia tinha de se decidir entre dois caminhos: ou se deixar levar por onde a estão levando, tornar-se um mero balneário de luxo, ou se assumir como civilização original mestiça capaz de dar um novo norte ao mundo.

Comecemos com Risério.

CAMINHO DA SOLIDÃO

(subtítulo do capítulo  “À Margem da Margem”, do livro ”Uma Histórida da Cidade da Bahia” – Versal Editores, 2004 –, do qual cito trecho inicial)

(…) a Cidade da Bahia sofreu um golpe rude no século XVIII. Viu escapar de suas mãos, para o Rio de Janeiro, a condição de núcleo central da vida no Brasil Colônia. Mas esse deslocamento da Cidade da Bahia, projetada desde então para fora do centro brasileiro de decisões – políticas e econômicas – foi se consumar apenas nos últimos anos daquele século.

(pulo para outro trecho desse capítulo, sob o título “Jejes e nagôs”)

(…) Houve uma alteração fundamental na composição do contingente negro de nossa população, a partir do século XVIII. Até então, o tráfico baiano de escravos fora feito sobretudo com a África subequatorial. Com as regiões de Angola e do Congo. (…) Com a chegada do século XVIII, todavia, o tráfico foi mudando de rumo. Voltou-se em direção à África superequatorial, para a região da Costa da Mina, deslizando posteriormente para a baía do Benim. (…) Foi este o período (1770 a 1851) da travessia atlântica massiva e compulsória de negros nagôs, jejes (iorubanos) e, em menor escala, haussás.

(salto, agora, para outro livro de Risério, “A Utopia Brasileira e os Movimentos Negros” – editora 34, 2007 –, capítulo “Presença de Exu”, transcrevendo os dois primeiros dos quatro aspectos sublinhados sobre a presença dos iorubás na Cidade da Bahia)

(…) Estudiosos sublinham quatro aspectos, sempre que lidam com a presença iorubana na Bahia. Em primeiro lugar, salientando que, entre os séculos XVIII e XIX, a cultura iorubana estava em sua “época mais florescente” – e, por força do comércio escravista, vieram dar no Brasil, naquele período, representantes de sua nobreza e alto clero, a exemplo de Otampê Ojarô, da família real de Ketu, que foi sequestrada pelos daomeanos e veio a fundar na Bahia, mais tarde, um terreiro de candomblé, o Alaketu. Em segundo lugar, os nagôs não só chegaram em grupos constantes e sucessivos, como permaneceram compactados. Não experimentaram um dos piores rigores do pragmatismo escravista, ditado por motivo de segurança senhorial, que foi a política de pulverização das etnias. Os donos de escravos faziam com que estes fossem agrupados, nas cidades e nos campos brasileiros, de modo que não se entendessem entre si. Que, no mesmo barracão ou senzala, falassem línguas diversas, tivessem crenças distintas, projetos políticos dessemelhantes e códigos amorosos e familiares descoincidentes. Desse modo, seria mais difícil que tramassem fugas, assassinatos, quilombos e motins. Esta política senhorial vinha, há tempos, regendo o modo como os senhores distribuíam os escravos em suas propriedades. Mas não foi aplicada no caso dos nagôs. Eles permaneceram contactados – e souberam tirar proveito disso.

(e encerro as citações de Antonio Risério, com trecho de seu livro “Caymmi: Uma Utopia de Lugar” – Editora Perspectiva, 1993)

(…) Quando Caymmi desembarcou no Rio de Janeiro, pouco antes de completar os seus 23 anos de idade, com ele desembarcou um outro Brasil. Nem mais verdadeiro, nem mais falso – um outro. É preciso não perder de vista este constraste, se queremos, como sinalizei, apurar sentidos da presença estética caymmiana no terreiro da cultura brasileira. Projetando-se nacionalmente entre a Revolução de 30 e o “desenvolvimentismo” juscelinista, Caymmi levava consigo a cultura litorânea de uma cidade tradicional, principal agrupamento urbano do Recôncavo agrário e mercantil da Bahia. Uma cultura de traços próprios que se formara ao longo de mais de cem anos de solidão, no entrecruzamento constante de elementos, formas e práticas culturais de extração essencialmente luso-africana. E da qual Caymmi seria expressão estética concentrada.

(olhemos agora para a Cidade da Bahia, com amor e sarcasmo, através do verbo de Waly Salomão, em poema-crônica do livro “Armarinho de Miudezas” – Fundação Casa de Jorge Amado, 1993)

N. SENHORA DO DENDÊ E O “VIL MONTURO”

Tudo aperto e nada abarco, cheio de razão ardente, descarregado de mim ando no mundo. E este ar impregnado de dendê, de dendê, me faz gestar uma ideia maluca de uma Nossa Senhora d0 Dendê, dourada mulata que nem acarajé.

Tento recitar de cor o poema do jesuíta Hopkins “the blessed virgin compared to the air We breathe” mas não consigo.

Então principio a inventar uma Nossa Senhora do Dendê, dourada muqueca pairando sobre um pedestal de nuvens de El Greco.

Daqui deste “Vil Monturo”, epíteto exato dado por Gregório de Mattos, que usa em vão o santo nome do Salvador e pois suja a túnica inconsútil Dele; compadecei-vos de nós, oh! Senhora, de nossa tibieza, da moleza de nossa língua sem osso, da pobreza de nossos táxis sem pára-brisas – carcaças carcomidas pelo ferrugem das maresias –, das nossas secretárias que não transmitem recados e sofrem do mal geral de “me esqueci”, da nossa inaptidão total para romper o atraso, nós os impontuais por natureza e pois atrasados e atrasados e atolados na mais absoluta indigência, indigência maior do que o palude em que se afundou “the house of Usher”, e se duvidar que a nossa cárie é sem remédio descei a Ladeira da Palma e chegai até o Gravatá, até defronte o Corpo de Bombeiros e olhai aquele prédio com azulejo que era tão lusitano e belo e hoje não passa de uma postema cariada e sem obturação possível, nós os infestados de impaludismo alma a dentro, oh! Nossa Senhora do Dendê, compadecei-vos dos nossos garçons e garçonetes, risonhas bananas moles, afora os que por sorte cursaram o restaurante do Senac e que são tão peritos e bons e que depois desempregados sem solução porque o homem que manda no Turismo não olha para aqui em baixo e não vê passar a um palmo de seu nariz arrebitado de “status seeker” um Joel, uma Lucimar, um Otaviano qualquer, recém despejado do curso do restaurante Senac pois uma nova turma recrutada por Madre Tereza de Calicut já arrombou o ferrolho ou a taramela da pesada porta, oh! Nossa Senhora do Dendê, rogai, rogai, rogai por nós que recorremos a Vós.

Oh! Virgem abençoada comparada ao ar que respiramos! Vós que não fostes sequer imaginada pelo celestial pintor Fra Angélico que admiro e amo tanto e que neste “vil monturo” se conta nos dedos das duas mãos quem já ouviu falar, e cabe nos cinco dedos de uma só mão quem viu alguma tela dele.

Aqui campeia a mentira deslavada a que eles dão o nome de culhuda, de étimo indeterminado diria qualquer dicionário etimológico que fizesse o registro do termo. E os motoristas são os mais grosseiros e os pedestres os mais folgados do planeta, ambos campônios simplórios ilhados fazendo do trânsito um fliperama letal.

Emputecido estou, oh!! doce mãe do pão doce e do enjoativo cafezinho com três dedos de açúcar no fundo do copo, eu bem que tento mas caber não caibo na moldura deste quadro, não me enquadro por entre os caibros desta casa, gitano sou e madastra esta cidade onde reinais visível ao meu olfato e invisível aos vossos inconscientes adoradores, sois um bezerro de ouro fervente em cima dos fogareiros de latão batido.

Um olho agudo aguçado me diz que nem todos os santos e santas, que não há salvador que salve este armengue da sua paulatina ou desbragada corrosão. Não pressinto remissão possível, oh! sagrada senhora, para esta cidade-presépio da colina.

Rogai por nós, oh! Amarelo-gema de ovo do dendê.

Que tudo abarco e nada aperto.

Eia pois, advogada nossa! Salve Dona que se adonou do cocô da caganeira! Salve Rainha, Regina Coeli do torpor! Salve Soberana do empata-foda, da futrica, do fuxico, da fofoca e do banzo!


JEITO BAIANO DE VIVER

posted by Jary Cardoso @ 1:30 PM
12 de março de 2009

Este blog pretende refletir sobre a maneira própria e característica de o baiano ser e estar no mundo. Assim como se fala tanto no american way of life, já considerado até por alguns como a nova religião da humanidade, existe também um brazilian way of life, assim como se pode falar que um dos “estilos” mais fortes da maneira brasileira de se viver é o bahian way of life, que tanto tem atraído estrangeiros à Bahia. Quero debater aqui a tese de que os baianos têm a oferecer ao Brasil e ao mundo um caminho, um norte, de como  as pessoas devem enfrentar as agruras do cotidiano com sabedoria, bom humor, saúde, criatividade e ginga. Vamor ouvir antropólogos, artistas e pensadores em geral, tanto da alta cultura como os filósofos de plantão encontráveis em cada esquina desta Cidade da Bahia. Estudemos o tema com os pés no chão, sem viseiras nem preconceitos, com um olhar realista, como Jorge Amado no “Convite” que abre seu livro “Bahia de Todos-os-Santos”, escrito em 1944:

“E quando a viola gemer nas mãos do seresteiro na rua trepidante da cidade mais agitada, não tenhas, moça, um minuto de indecisão. Atende ao chamado e vem. A Bahia te espera para sua festa quotidiana. Teus olhos se encharcarão de pitoresco, mas se entristecerão também diante da miséria que sobra nestas ruas coloniais onde se elevaram, violentos, magros e feios, os arranha-céus modernos”.

Atualizemos esta visão jorgeamadiana para o século XXI, ano da graça de 2009!



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