Archive for junho, 2009


BAIANICES – EXU, por zédejesusbarrêto

posted by Jary Cardoso @ 12:30 AM
28 de junho de 2009
Assentamento para Exu num canto do estúdio do fotógrafo baiano Mário Cravo Neto, em Salvador. Foto: Fernando Vivas | Agência A Tarde

Assentamento para Exu num canto do estúdio do fotógrafo baiano Mário Cravo Neto, em Salvador. Foto: Fernando Vivas | Agência A Tarde

PADÊ  (*)

Exu, entidade iorubana cultuada como orixá em terreiros afrobaianos, é o sim e o não, significa polêmica, é a própria dialética da vida.

Aquele que faz as coisas acontecerem.

Para os católicos mais antigos como para os crentes mais modernos Exu está identificado como o demônio, cruz credo, xô satanás.

O tinhoso, o danado, esperto, o amoral, o recadeiro, dono da quizumba.

Sai de baixo!

Pois é bom que se diga que, ainda hoje e sempre, em muitos espaços desse Ilê chamado de Bahia – de todos os santos, caboclos, orixás, voduns, inquices, catedrais, templos, sinagogas, terreiros… – nada se bebe, nada se come, nada se faz e nada acontece sem as bênçãos do Senhor do Bomfim, sem que antes seja providenciada uma limpeza com batimentos de folhas sagradas…             e, primeiro que tudo, a licença de Exu, aquele que abre os caminhos e permite a ação dos homens.

Ele, Exu, o Senhor das encruzilhadas, a entidade do movimento, da comunicação entre os homens e entre os homens e as divindades.

O elo entre o humano e o desconhecido.

Laroiê!!!

***

Escultura de Mário Cravo Jr na fachada da Fundação Casa de Jorge Amado, no Pelourinho. Foto: Fernando Vivas | Agência A Tarde

Exu em escultura de Mário Cravo Jr na fachada da Fundação Casa de Jorge Amado, no Pelourinho. Foto: Fernando Vivas | Agência A Tarde

Jorge Amado escreveu no livro ‘Bahia de Todos os Santos- Guia de ruas e mistérios’:

(trecho…)

Exu come tudo que a boca come, bebe cachaça, é um cavaleiro andante e um menino reinador. Gosta de balbúrdia, senhor dos caminhos, mensageiro dos deuses, correio dos orixás, um capeta. Por isso tudo sincretizaram-no com o diabo: em verdade, ele é apenas um orixá do movimento, amigo de um bafafá, de uma confusão, mas, no fundo, uma excelente pessoa. De certa maneira, é o não onde só existe o sim; o contra em meio do a favor, o intrépido e o invencível”.

***

Deu pra entender? Tem mais!

Amigo-irmão de Jorge Amado, o artista plástico/escultor Mário Cravo Jr escreveu e dedicou ao escritor o texto-poema definitivo, que segue.

(fonte: A Tarde Cultural, de 5 jun 1993)

“ Não sou preto, branco ou vermelho;

Tenho as cores e formas que quiser.

Não sou diabo nem santo, sou Exu!

Mando e desmando, traço e risco, faço e desfaço.

Estou e não vou. Tiro e não dou.

Sou Exu!

Passo e cruzo. Traço, misturo e arrasto o pé.

Sou reboliço e alegria.

Rodo, tiro e boto; jogo e faço fé.

Sou nuvem, vento e poeira.

Quando quero, homem e mulher.

Sou das praias e da maré.

Ocupo todos os cantos;

Sou menino, avô, maluco até.

Posso ser João, Maria ou José.

Sou o ponto do cruzamento.

Durmo acordado e ronco falando.

Corro, grito e pulo.

Faço filho assobiando.

Sou argamassa, de sonho, carne e areia.

Sou a gente sem bandeira.

O espeto, meu bastão.

O assento? O vento! …

Sou do mundo, nem do campo, nem da cidade.

Não tenho idade.

Recebo e respondo pelas pontas, pelos chifres da Nação.

Sou Exu.

Sou agito, vida, ação.

Sou os cornos da lua nova; a barriga da lua cheia!…

Quer mais?

Não dou, não tô mais aqui”.

Exu, o mensageiro, em escultura de Mário Cravo Jr em frente à sede dos Correios, na Pituba, Salvador. Foto: Marco Aurélio Martins | Agência A Tarde

Exu, o mensageiro, numa escultura de Mário Cravo Jr em frente à sede dos Correios, na Pituba, Salvador. Foto: Marco Aurélio Martins | Agência A Tarde

(*) – Padê é o ‘trabalho’, o despacho, oferendas que se faz a Exu antes de qualquer atividade, pedindo a sua licença, para que ele abra os caminhos e tudo possa acontecer sem empecilhos ou encrencas.

zédejesusbarrêto, jornalista

jun/2009.


28 DE JUNHO: 40 ANOS DO ORGULHO GAY

posted by Jary Cardoso @ 12:00 AM
28 de junho de 2009
Parada Gay de Salvador edição 2008. Foto: GGB/Divulgação

Parada Gay de Salvador edição 2008. Foto: GGB/Divulgação

por LUIZ MOTT

Tudo começou em 28 de junho de 1969: cansados de ser chantageados e espancados, homossexuais de Nova York frequentadores do bar Stonewall decidiram enfrentar os policiais. Lutaram, incendiaram um camburão, bateram e apanharam, mas conseguiram a vitória: a polícia parou a repressão.

A partir do ano seguinte, 28 de junho passou a ser celebrado nas principais cidades do mundo como o Dia do Orgulho Gay, hoje chamado de Orgulho LGBT – de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros, também como Dia da Consciência Homossexual.

As Paradas Gays, como a de São Paulo, a maior do planeta, com mais de três milhões de participantes, lembram exatamente esse episódio: a luta por direitos iguais, nem menos, nem mais.

No Brasil foi o Grupo Gay da Bahia que inaugurou as celebrações do Dia do Orgulho Gay: fundado em 1980, já em 1981 o GGB fez sua primeira comemoração, com um show no Teatro Gregório de Mattos, com a presença da iniciante cantora Sarajane e como mestre de cerimônias Nilson Mendes, da Fundação Cultural. Em 1984 a Câmara de Salvador realizou a primeira sessão solene comemorativa do Dia do Orgulho Gay, iniciativa pioneira do vereador Raimundo Jorge, com a presença de 25 vereadores e distribuição de uma rosa vermelha a todos os participantes que lotaram o salão magno.

 

No dia seguinte, a imprensa baiana deu como manchete: “O dia que a Câmara desmunhecou…” Vivíamos os anos de chumbo da ditadura!

 

Em 2004, por iniciativa do vereador Gilmar Santiago, foi aprovada por unanimidade a Lei nº 6.498 instituindo o Dia Municipal do Orgulho Gay. A última lei acaba de ser publicada no Diário Oficial: deu-se o nome de “Esquina do Arco Íris” ao beco que liga a Rua Carlos Gomes ao Largo Dois de Julho.

 

 

Parada Gay 2008 em Salvador | Foto: GGB/Divulgação

Parada Gay 2008 em Salvador | Foto: GGB/Divulgação

 

A Parada Gay LGBT de Salvador, já em sua oitava edição, no ano passado reuniu atrás de sete trios mais de 400 mil participantes, tendo como destaques nos anos anteriores Ivete Sangalo, Edson Cordeiro, Mariene de Castro, a Reitora da UNEB, o cantor Jerônimo, entre outros vips.

 

 
Em toda a Bahia, realizam-se anualmente mais de 20 paradas, incluindo Feira de Santana, Ilhéus, Lauro de Freitas, Santo Amaro, Cruz das Almas, São Sebastião do Passé, etc.

 

Mais do que carnaval fora de época, as paradas gays são manifestações populares de visibilidade massiva, ocasião em que 10% da população representada por gays, travestis, transexuais, drag queens, bissexuais, lésbicas – e sobretudo 90% de simpatizantes, pessoas que não têm ódio e apóiam a livre orientação sexual – saem às ruas, para protestar contra a homofobia.

  

 

Perfomance em Salvador. Foto: Rejane Carneiro | Agência A Tarde

Perfomance no Farol da Barra, em Salvador, Carnaval de 2008. Foto: Rejane Carneiro | Agência A Tarde

 

 

As fantasias irreverentes e a “desmunhecação” de certos gays têm uma mensagem política: queremos respeito, exigimos ser tratados como cidadãos, pois afinal das contas, cidadania não tem roupa certa!

E quem ainda acha que não precisamos de leis que punam severamente a homofobia, equiparando-a ao racismo, lá está o corpo estendido no chão do gay cozinheiro negro Marcelo Campos, morto a chutes na última parada de São Paulo.

 

Apesar da maior parada do mundo, o Brasil é o campeão mundial de assassinato de homossexuais: 190 “homocídios” em 2008! A Bahia disputa com Pernambuco a liderança deste triste massacre. Mata-se um gay no Brasil dia sim, dia não!

 

Por isto, estamos convidando o governador da Bahia e o prefeito de Salvador a abrirem neste segundo domingo de setembro a 8ª Parada Gay LGBT da Bahia. Para que em seus discursos digam em alto e bom som: Bahia não rima com homofobia!

 

mott_conferenciagayLuiz Mott, decano do Grupo Gay da Bahia, é professor titular de Antropologia da Universidade Federal da Bahia.

 

Site do GGB:

http://www.ggb.org.br/welcome.html 

 


AVE BAHIA! – CLÉO MARTINS

posted by Jary Cardoso @ 11:29 PM
25 de junho de 2009
 

 

Foto: Gildo Lima, Agência A Tarde, 1.7.2006

Foto: Gildo Lima | Agência A Tarde | 1.7.2006

FOGUEIRA DO REI E DA RAINHA

por Cléo Martins

“São João” finalmente chegou deu seu recado e se foi gente boa! Festa alegre dos que também celebram a vida a contemplar (às vezes pulando) muitas fogueiras, ao sabor dos licores.

Coisa boa, a fogueira: fogo sagrado para a alma e nossa terra revigorada de paixão.

A fogueira, trazida nas bagagens missionárias cristãs ibéricas, apresenta-se em diferentes tradições religiosas primordiais. Povos antigos acendiam-nas para o deus Sol, como marco de sacrifícios e oferendas. Eram feitas em especial nos solstícios de verão e inverno.

Orungam, Orixá da família de Xangô, a divindade iorubá do fogo, é o próprio sol.

Xangô é o senhor do fogo; esposo de Oiá-Iansã, que com ele divide o poder sobre este elemento. Sem Oiá-Iansã, Xangô não produz nem uma fagulhinha…

Terreiros tradicionais da Bahia fazem fogueiras na época do São João, em homenagem a Xangô.

As referidas são acesas nos dias vinte e três e vinte e oito de junho; vésperas de São João e São Pedro, a data que encerra o calendário junino, marcado por desejos de paz e justiça.

Conta velho mito que Xangô tem sua fogueira e doze dias de festas em virtude da presteza dos doze Obás: Aré, Abiodum, Cacanfô, Telá, Odofim, Xorum, Aressá, Onicoí, Olubom, Erim, Onãxocum, Arolu.

Mas nem sempre Xangô foi Obá, o Rei; o senhor da Justiça. Dizem que era muito, muito pobre; escravo cortador de capim do país Nupê, a terra de sua mãe Iamassê. Certa feita, morreu o soberano e a nação caiu no caos porque não tinha ninguém real para reinar. Os dirigentes decidiram tomar uma pessoa sem “sangue azul”. Escolheram Xangô por sua determinação e firmeza, contrariando a vontade de muita gente.

Por sua vez, Xangô procurou a melhor forma de fazer valer sua vontade.

Apesar da firmeza do monarca, as coisas não eram nada fáceis e os inimigos poderosos. Xangô precisava de encontrar uma maneira de firmar-se no poder. Era casado com Oiá, chamada de Iansã, a senhora dos ventos e tempestades, reconhecida pela fortaleza e argúcia.

Iansã teve a idéia de aconselhar o esposo a conseguir algo extraordinário que o fizesse admirado e temido. Determinada, viajou ao país dos Baribas ao encontro de algo formidável. Retornou vitoriosa, trazendo na boca um objeto que soltava fogo. Entregou-o ao marido, mantendo um pouco em seu poder.

Resultado. Ele botava fogo pela boca e ela também botava, tornando-se quase tão poderosa quanto o real esposo. O poder nos aproxima dos maus conselheiros, afasta a generosidade e causa cegueira e orgulho.

Xangô sentiu-se ameaçado por Oiá, que, por sua vez, tinha um temperamento terrível e coração de ouro.

Depois de uma de suas cóleras, Xangô resolveu expulsá-la, pois achava que ela diminuía seu prestígio perante os súditos, cansados do gênio terrível de Oiá. Iansã percebeu a intenção de seu rei.

Resolveu sair por livre e espontânea vontade, sem que Xangô, o ingrato de curta memória, nada fizesse para impedi-la. Para pirraçá-la, cada dia colocava uma dama belíssima ao seu lado, sem perceber que perdia o respeito de seu povo. Os Obás, os doze conselheiros de Xangô, não estavam gostando nada, nada daquilo. Ouviam os cochichos das pessoas: “Se Xangô está fazendo isso com Oiá, o que não há de fazer com a gente?”. E muitos deixaram o país à procura de terras menos injustas e turbulentas.

Oiá chorava, chorava, mas não procurava Xangô.

Xangô sofria, mas era orgulhoso demais para dar o braço a torcer. Os falsos amigos – inúmeros, que a cada dia ofereciam uma bela dama ao rei – aconselhavam-no a tocar a vida, esquecendo-se de Oiá, “mulherzinha ruidosa e presepeira; interessada no poder; péssima para o reino”. Os bons conselheiros, os Obás, reuniram-se e foram falar com Ossain, o poderoso mestre das folhas e mezinhas. Este os aconselhou a aconselharem Xangô a promover um encontro com Oiá. Xangô concordou. Oiá ficou feliz com a ideia. No último momento, a coragem fez Xangô fraquejar, aumentando o desespero de Oiá.

E o reino, sem ela, ia de mal a pior. Inebriado pelos maus conselheiros, o rei fazia uma atrocidade atrás da outra. Os Obás coçaram a cabeça. O que fazer com a obstinação do rei? Foram à procura de Ossain, novamente. Este disse-lhes que, para salvar o reino, trazendo as energias positivas de volta, era preciso uma fogueira. Mas para a fogueira ser feita, eram necessários os esforços de Xangô e Oiá juntos.

São João na cidade de Uauá, Bahia

São João na cidade de Uauá, Bahia | Foto: Divulgação

Na noite em que o fogo ia ser feito, Oiá chegou. E Xangô veio, também. Um não olhava o outro.

Começaram a fazer força, e nada do fogo.  Os Obás estavam admirados: “Como era possível?”.

Foram embora cabisbaixos, deixando Xangô e Oiá sem platéia.

Daí, Xangô olhou para Oiá e seus olhos enxergaram.

Oiá contemplou Xangô e seu coração ardeu. E o coração de Xangô ardeu também.

Juntos, fizeram a fogueira mais alta e bela do mundo, fogueira que duraria doze noites e doze dias.

Ao verem tão bela fogueira, os doze Obás voltaram ao local sagrado, pondo-se a dançar em redor do fogo, junto com Xangô e Oiá. Prometeram que, daquele dia em diante, todo ano haveria doze dias de festividades para o Rei e sua Rainha.  Assim, graças aos bons conselhos dos Obás, orientados por Ossain, o reino de Xangô fortaleceu-se sendo expurgadas a desmoralização e injustiça.

A partir de então, Xangô percebeu quem eram os amigos e inimigos, não agindo sem antes ouvir deus doze ministros, os Obás.

Xangô Kan, Oiá Kan.

Kabieci; eparrei!” 



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