Archive for julho, 2009


CIVILIDADE BAIANA EM QUESTÃO

posted by Jary Cardoso @ 8:59 PM
29 de julho de 2009

lengalenga02

 

É SÓ O JEITO BAIANO DE SER?

 

por EDMUNDO CARÔSO*

 

Baianos. Nossa fama de preguiçosos e indolentes vai longe, o que é uma injustiça. Trabalhamos feito mulas, mas o jeito baiano de ser, e quanto a isso eu concordo, não só dá margem para especulações descabidas desse tipo como torna, por exemplo, o serviço que oferecemos aqui muitos níveis abaixo da maioria dos estados do Brasil. A urgência na Bahia é quase uma utopia. E aí reside o problema.

Algumas coisas são muito estranhas para quem não vive aqui.

Por exemplo. Você chega numa lanchonete, se acerca do balcão e lá só tem uma atendente conversando com alguém. Em qualquer lugar do mundo, ela iria parar a conversa, atender o cliente e depois voltar para seu lenga-lenga. Em outros, como São Paulo, nem direito a conversar teria sob pena de ir para o olho da rua. Mas aqui não. Você vai ficar plantado ali feito uma jaca mole até que ela termine de contar a sua amiga como foi a gravação do DVD do Chiclete ou coisa que o valha. E não adianta sacar da cartola seus ares de contrariado pois cara feia pro baiano é fome, faz o mesmo efeito que um placebo.

Se a mocinha gostou do show, você vai ter de esperar. Veja se tem cabimento a sua fome ou a perspectiva de lucros do dono do negócio (e até mesmo a manutenção de seu padrão de qualidade) sobrepujarem em prioridade o show do Chiclete ou mainha, lá deles, abaixando e levantando numa letra de pagode? E não adianta interferir, perguntar nada. Pois ela vai lhe fulminar com um olhar de desprezo diante de tanta inconveniência. Você não tem educação? Será que não vê que ela e sua amiga estão conversando?

Se você for paciente e souber das coisas vai esperar quietinho até que ela termine, quando então, se der sorte e caso ela não tenha levantado com o pé esquerdo, vai se surpreender com o tratamento carinhoso e atenção redobrada que terá.

Dois exemplos práticos que definem o jeito baiano de ser podem ser dados explicando o uso das expressões VUMBORA (contração de vamos embora) e AONDE!!!! (assim mesmo, com várias exclamações). As duas são sinônimos de nunca, aplicadas de formas diferentes.

Vumbora, em uma de suas utilizações práticas não quer dizer absolutamente nada o que – pelo menos aqui – é o mesmo que dizer muita coisa desde quando você seja bom leitor de entrelinhas. Por exemplo.

*Edmundo Carôso é letrista e poeta baiano, parceiro de geração de Carlinhos Brown, Luiz Caldas e Daniela Mercury, com quem trabalhou até seu mega sucesso em O CANTO DA CIDADE. Vive em Salvador, já colaborou para jornais do interior e capital, publicou dois livros de poesia. Tem perto de 100 músicas gravadas em sua discografia, sendo a mais conhecida delas o clássico de carnaval, há mais de 20 anos feito com Carlos Pita: COMETA MAMBEMBE.

COMENTÁRIO DE JARY CARDOSO 

O texto “É só o jeito baiano de ser?”, primeiro de uma série, foi postado em 17.11.2008 no blog de Edmundo Carôso, DE MIM E DAS COISAS, que vale a pena visitar:

http://blogs.abril.com.br/edmundocaroso/

A questão tratada por Edmundo Carôso neste texto é parte de um amplo debate que o blog Jeito Baiano pretende desenvolver na busca de uma definição de civilidade autenticamente baiana, que incorpore padrões de comportamento social dos povos mais desenvolvidas, mas sem perder a ginga, a alegria, o bom humor e a maneira saudável de os baianos viverem.

João Gilberto dizia que o povo da Bahia não precisa de psicanálise. E talvez isso seja verdade justamente porque aqui as pessoas conversam tanto, se abrem tanto umas com as outras, comentam tanto a própria vida e a vida alheia, é tanto fuxico, tanta fofoca psicoterapêutica que não sobra espaço para as neuroses.

Antonio Risério uma vez comentou que os baianos chegam atrasados aos compromissos por causa das longas e boas conversas que não podem ser interrompidas sem mais nem menos. Mas a conversa é assim tão sagrada a ponto de prejudicar a prestação dos serviços e o atendimento da freguesia? É o que Edmundo Carôso está questionando.

Esta discussão sobre (in)civilidade baiana foi iniciada neste blog pelo post-hit “Mijar ou não mijar na rua, eis a questão”: 

http://jeitobaiano.atarde.uol.com.br/wp-content/uploads/2009/04/17/mijar-ou-nao-mijar-na-rua-eis-a-questao/

 

 


CONFRARIA DOS SABERES – por WALTER QUEIROZ

posted by Jary Cardoso @ 8:16 PM
24 de julho de 2009
Foto: Ivan Cruz | Agência A Tarde

Foto: Ivan Cruz | Agência A Tarde

ERA UMA VEZ…

 

(Walter Queiroz)

 

Era uma vez uma cidade

morada da alegria

onde o silêncio reinava

assim que a noite caía

 

depois que o galo cantava

trazendo o cheiro do dia

fartura de peixe na rede

manga, caju, melancia

 

onde as mulheres bordavam

estrelas e caravelas

era uma vez uma cidade

de muitas avós nas janelas

 

com seus canários da terra

suas moringas de barro

o povo andava de bonde

passava um ou outro carro

 

Se despontava uma lua

daquelas de enlouquecer

os violões soluçavam

cantigas de bem-querer

 

Moças pobres, moças ricas

no carnaval tão bonitas

com seus colares e rendas

com suas flores e fitas

 

Era uma vez uma cidade

cheia de muitos sabores

cheia de fé nos seus santos

louvados nos seus andores

 

Cidade de mil pintores

de cantores, de poetas

cidade de muitas rimas

cidade de muitas festas

 

Era uma vez e eras linda

e nem tanto tempo faz

ó cidade colombina

Quem roubou a tua paz?

 


BAIANICES – por ZÉDEJESUSBARRETO

posted by Jary Cardoso @ 7:58 PM
24 de julho de 2009

JEITO BAIANO


O jeito de ser baiano está

Num certo ritmo de andar

Num jeito mole de falar

No sem tempo de não ser.

Baiano gosta de acarajé, bolo de fogo

Come caruru visguento com as mãos

Reverencia tudo que vem do mar

Pois mar é fêmea, é mãe

E Bahia é também reinado de Aiocá.

Ama-de-leite Bahia …

Águas sagradas do caldeirão kirimurê

Baía de todos os santos, caboclos, orixás, inquices, voduns, encantados…

Bahia de todos os pecados

Onde tudo se mistura… e é recriado.

Jeito de ser baiano

Que se aprende com as mães pretas

Donas dos terreiros, dos tabuleiros

E se fica sabendo que Deus é de todos, Olorum é um.

E Orixá é manifestação da Natureza, sagrada

Que acima de tudo deve ser respeitada

Ilê de nuvens brancas, tambores do Pelô/Olodum.

Jeito de ser baiano é gostosura de viver

Sem agonia, sem dever

Assuntando o tempo

Pisando o descalço chão

Dando uma mijada ao vento

Cuidando do sentimento

Pelo sim, pelo não.

Um jeito de ser baiano

É vestir branco na sexta, pelo ‘santo’ do dia.

Jeito de ser baiano é torcer pelo Bahia

E ter o Senhor do Bomfim como guia.

(zédejesusbarreto / março 2009)


Este poema foi produzido por zédejesusbarreto como reação à notícia de que acabara de ser criado o blog Jeito Baiano, no dia 12 de março de 2009. Desde então ele tem sido o grande colaborador deste blog, com textos, ideias, informações, saques, sugestões de pauta e de fotos, indicação de nomes de expoentes da baianidade para escreverem aqui e/ou serem ouvidos etc. etc. No começo do blog, quando indagado sobre como apresentá-lo aos leitores, ele autodefiniu-se simplesmente assim:

FotoBarretozédejesusbarreto é jornalista, 61 anos, baiano nascido nos Mares e criado no Subúrbio Ferroviário. Sobrevive de palavras.



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