Archive for julho, 2009


AVE BAHIA! – CLÉO MARTINS

posted by Jary Cardoso @ 7:17 PM
24 de julho de 2009

VALE A PENA LER DE NOVO

Este artigo foi publicado originalmente no jornal A Tarde em setembro de 2001.

Baiana Jaciara de Jesus Santos, a Cira do Acarajé, em ação no bairro de Itapoã. Foto: Sebastião Bisneto | Agência A Tarde 26.12.08

Baiana Jaciara de Jesus Santos, a Cira do Acarajé, em ação no bairro de Itapoã: servindo a comida predileta de Oya-Iansã, como diz Cléo Martins neste artigo. Foto: Sebastião Bisneto | Agência A Tarde 26.12.08

VIDA PLENA

 

por CLÉO MARTINS

 

Abro, agora, o dicionário Silveira Bueno e procuro a palavra intolerância, enxugando os olhos sofridos desde o dia 11 de Setembro, pouco após ter retornado da Conferência Mundial da ONU, em Durban, e penso em tanto sangue derramado pelos inocentes, repelindo, da memória implacável, a alegria de alguns que talvez também tombem vítimas da mesma praga.

Lembro-me do museu das bruxas. Um museu de bonecos de cera que retratava a história de tanta gente queimada no fogo da intransigência dos divisores. Por falar nisso, no final da exposição dos bonecos, neste museu de Salem, em Massachusetts, aparecia a figura do demônio de chifres, rabo, tridente e pés-de-bode gargalhando a proclamar que sua causa é sempre defendida em nome de Deus… Senti calafrios.

Para mim, ao longo de uma vida religiosa já experimentada na marcha pró Luz, o Transcendente é e sempre será Infinito amor e eterna Chama; vive em todas as culturas, revela-se para toda a humanidade. E para todos e todas tem uma palavra de amor; a despeito da coloração da pele ou cultura.

Por falar em cultura, ruminando a palavra intolerância (que não tolero) penso na baiana do acarajé: mulher impecavelmente vestida nos trajes típicos que falam por si, mas precisam de especialista para serem explicados; uma baiana cheia de fios de contas e dignidade.

Desde pequena, sentia-me fascinada ao ver Dona Raimunda de Iansã, soteropolitana residente em Sampa, dona do restaurante baiano frequentado por artistas, na Rua Capote Valente, perto do colégio Stella Maris onde estudei muito tempo. Ela, à frente do tabuleiro, na tarefa imponente de “produzir bolinhos perfumados no azeite de dendê”…

No final da década de 1960, acarajé, na pauliceia, era coisa desconhecida: verdadeira aventura dos mais atirados. Alguns conterrâneos (menos caipiras) precisavam ir a restaurantes de comida baiana, a exemplo do elegantíssimo Maria Fulô, da Rua São José, em Santo Amaro, para degustar o saborosíssimo acarajé que sempre foi (e será) comida dos terreiros.

Akara (pão) acrescido do verbo comer – em ioruba ongé – deu nascimento, na Bahia, à palavra acarajé, a comida predileta de Oya-Iansã, a senhora dos ventos e das tempestades.

Atualmente, para o pesar de alguns (e alegria dos divisores), existem baianas atípicas (porque de baianas talvez só tenham a origem do nascimento) que fabricam o acarajé e dão a esta comida o nome de “acarajé de cristão”. Isso porque para alguns ditos fundamentalistas, acarajé é comida do demônio, este anjo decaído presente – na cabeça deles lá – no candomblé deles lá, não no tradicional, que desconhece a figura do diabo!

Estas mulheres, reduzidas apenas à função de fabricantes de comida, vestem-se com roupas sem graça e isto é perigoso; uma violência. Penso que toda forma de violência deva ser combatida. Esta tolice de chamar o popular acarajé de “acarajé de cristão” ofende à máxima do cristianismo que é a plenitude da vida, indo de encontro do próprio Cristo, porque é uma agressão à vida plena e a crença de “alguns maiores”, mas, com certeza, de muitos pequeninos.


SALVEMOS SALVADOR ENQUANTO É TEMPO

posted by Jary Cardoso @ 2:52 PM
24 de julho de 2009
Trânsito truncado na Orla marítima de Salvador. Foto: Welton Araújo | Agência A Tarde
Trânsito truncado na Orla marítima de Salvador. Foto: Welton Araújo | Agência A Tarde
Selva de rochas gigantes na Pituba. Foto: Iracema Chequer | Agência A Tarde 24.7.2009
O bairro da Pituba se verticaliza. Foto: Iracema Chequer | Agência A Tarde 24.7.2009

PAULO ORMINDO DE AZEVEDO*

O 460º aniversário de Salvador passou quase despercebido. Realmente não há muito a comemorar. Em 60 anos de “laissez-faire”, a cidade acumulou índices assustadores de compactação demográfica e veicular, concentração de pobreza, insegurança e destruição do meio ambiente, que apontam para seu colapso em curto prazo.

A cidade possui hoje 4.172 habitantes por km², densidade superior à de Bombaim, segunda colocada. Para piorar, a urbe se transformou, por falta de política metropolitana, em dormitório e provedor das necessidades de 3,76 milhões de moradores da Grande Salvador.

Camaçari, Lauro de Freitas, Simões Filho e Candeias juntas faturam receita igual à de Salvador, transferindo para esta o passivo de serviços e infraestrutura.

Seu déficit habitacional é de 100 mil habitações, das quais 80% são de famílias fora do mercado imobiliário. Para satisfazer aos 10% dos candidatos com renda superior a cinco salários mínimos, o novo Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU) consentiu que o setor imobiliário devorasse as entranhas verdes da cidade, a orla e os bairros consolidados.

Avenida Paralela travada. Foto: Thiago Teixeira | Agência A Tarde 12.7.2009

Avenida Paralela travada. Foto: Thiago Teixeira | Agência A Tarde 12.7.2009

Cerca de 35 mil novos automóveis e o dobro de motos são licenciados a cada ano. O metrô de Salvador, cuja construção dura seis anos, é dos mais caros do mundo. Terá 6 km, seis trens e custará R$ 1,16 bilhão, se inaugurado em 2010. No Recife, o metrô foi construído em dois anos, tem 34,7 km, 25 trens, transporta 180 mil por dia e custou R$ 750 milhões, segundo H. Carballal (A Tarde, 23/3/09). Isto para não falar no impacto ambiental e déficit operacional.

As duas saídas rodoviárias da cidade, a Paralela e a BR-324, estão no limite e ainda se fala em construir uma ponte para Itaparica para trazer os caminhões da BR-101 para o nó do Iguatemi, em vez de construir um arco rodoviário. Isto quando Manhattan e cidades europeias cobram pedágios e proíbem a construção de novas garagens para evitar a entrada de mais carros.

Em Salvador, alguns apartamentos centrais têm até seis vagas. Não há planejamento nem qualificação dos projetos públicos, que são oferecidos pelas empreiteiras interessadas, vide a ponte de Itaparica e o parque da Vila Brandão. A Sedham funciona como uma Defesa Civil, mais que um órgão de planejamento. As licitações são feitas em função do menor preço, ou seja, do pior projeto e menor tempo.

O desperdício é grande, viadutos são construídos e não servem para nada, as ruas são refeitas a cada inverno. O Pelourinho é recuperado todo ano. Os conjuntos habitacionais, sem serviços, são novas favelas, estão se desfazendo.

E vai-se implodir o parque olímpico da Fonte Nova, cujo laudo da Politécnica diz ser recuperável, para construir uma nova arena menor e um shopping, para dois dias de festa. O que acontecerá com a Copa, se chover, com a cidade alagada e parada como se viu há pouco?

As questões ambientais têm o mérito de nivelar todos. Os condomínios fechados da Paralela foram invadidos por barbeiros, dengue, sapos, lagartos e cobras. O senhor prefeito teve de mudar de casa e gabinete, mas prefere trocar postes cinzas por azuis do que rever um PDDU aprovado com 180 emendas de última hora.

A classe média já não suporta os engarrafamentos e se tranca em torres e condomínios mistos de vida monástica, com celas, refeitório, oficinas, botica e orações televisivas no mesmo lugar.

O marzão no horizonte é a prova de que a cena acima não fica em São Paulo. São prédios da Avenida Tancredo Neves, região oeste da capital baiana. Foto: Fernando Vivas | Agência A Tarde 31.3.2009

O marzão no horizonte é a prova de que a cena acima não fica em São Paulo. São prédios da Avenida Tancredo Neves, região oeste da capital baiana. Foto: Fernando Vivas | Agência A Tarde 31.3.2009

Considerada patrimônio da humanidade, Salvador mergulha hoje na mediocridade imobiliária. Fernando Peixoto lamentou a “paulistização” da cidade. Arilda Cardoso denuncia a perda de patrimônio histórico e verde. Neilton Dórea constata: “Hoje, há uma arquitetura dependente… A maioria (dos arquitetos) é desenhador de uma vontade empresarial” (Muito, de 29/3).

Mas não devemos ser pessimistas. A sociedade civil se organiza em movimentos como “A Cidade Também é Nossa” e “Vozes da Cidade”, os ministérios públicos, federal e estadual, assumem o papel que lhes cabe.

Não é desmatando, segregando e verticalizando que se vai resolver os problemas de Salvador, senão pensando grande e democraticamente, compreendendo que Salvador só tem saída na região metropolitana. São estas questões que cidadãos, ricos e pobres, de Salvador querem discutir, antes que a cidade entre em colapso completo.

*Paulo Ormindo de Azevedo

Arquiteto, doutor pela Universidade de Roma, professor titular da Universidade Federal da Bahia, presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil – Depto. da Bahia (IAB-BA)

-o-

(Em contraste com esses cenários degradantes denunciados por Paulo Ormindo, veja abaixo algumas imagens antigas da Cidade da Bahia repassadas pelo historiador baiano Luiz Alberto Moniz Bandeira que vive na Alemanha)

Campo Grande e seu Monumento ao Caboclo, dedicado aos heróis da Independência do Brasil na Bahia, Centro de Salvador, década de 70 do século XIX. Foto: Arquivo A Tarde
Campo Grande e seu Monumento ao Caboclo, dedicado aos heróis da Independência do Brasil na Bahia, Centro de Salvador, década de 70 do século XIX. No horizonte, a Baía de Todos os Santos, hoje escondida atrás dos edifícios. Foto: Arquivo A Tarde
Igreja do Bonfim. Reprodução: Carlos Casaes | Agência A Tarde
Igreja do Bonfim. Reprodução: Carlos Casaes | Agência A Tarde
Itapoã (Igreja e Largo) no final do século XIX. Foto: Arquivo A Tarde
Itapoã (Igreja e Largo) no final do século XIX. Foto: Arquivo A Tarde
Bairro do Rio Vermelho no final do século XIX. Foto: Arquivo A Tarde
Bairro do Rio Vermelho no final do século XIX. Foto: Arquivo A Tarde

TRISTE BAHIA, OH QUÃO DESSEMELHANTE

posted by Jary Cardoso @ 9:04 PM
16 de julho de 2009
Foto: XANDO PEREIRA | Agência A TARDE

Foto: XANDO PEREIRA | Agência A TARDE

     O jeito baiano de ser, pelo menos o dos baianos de Salvador, aflorou e se desenvolveu intrinsecamente conectado a uma configuração especial de cidade. E hoje está ameaçado de morte pela degradação dessa mesma cidade, que “perdeu a essência”, como filosofou dia desses Aloísio, dono de barraca e figura histórica da Praia dos Artistas.

     Este blog quer botar a boca no mundo, conclamar todos os que amam a Boa Terra – não só os baianos – para salvarmos Salvador, para recuperarmos a essência perdida desta cidade mítica.

     Abaixo dois textos em destaque – a entrevista da repórter Katherine Funke com o arquiteto Pasqualino Magnavita para a revista Muito e o artigo do jornalista JC Teixeira Gomes para a página de Opinião, ambos publicados no jornal A Tarde, de Salvador, que trazem importantes subsídios para esta discussão.

     Antes, o pensamento imbatível de Antonio Risério sobre o mesmo tema, extraído de um artigo dedicado a Caymmi que ele escreveu para a Folha Ilustrada, com data de 18.8.2008:

Quando Caymmi soou no Brasil meridional, trazia a mensagem cálida e ecológica de um lugar idealizado, que parecia parado no tempo e viver em paz, imune a conflitos sociais. Caymmi reforçou assim, nacionalmente, o mito baiano. Era como se falasse de um espaço utópico: o lugar de nossa origem, premiado por belezas arquitetônicas e ambientais, onde vivia uma gente feliz, ensolarada e muito singular. Naquela época, o mito não deixava de encontrar alguma correspondência na Bahia real. Hoje, não. A Bahia de Caymmi ficou definitivamente para trás. É uma Bahia que soa atualmente, também para os próprios baianos, como uma espécie de utopia.

(Este post é continuação de um dos primeiros do Jeito Baiano, aquele intitulado “Cidade da Bahia, mais de cem anos de solidão”. Veja-o no endereço http://jeitobaiano.atarde.uol.com.br/wp-content/uploads/2009/03/29/cidade-da-bahia-mais-de-cem-anos-de-solidao/

 

DESRESPEITO E DEGRADAÇÃO

 

Entrevista com o arquiteto Pasqualino Magnavita

O arquiteto Pasqualino Magnavita no restaurante de Negão, no centro de Itaparica, cidade onde mora. Foto: Rejane Carneiro | Agência A Tarde

O arquiteto Pasqualino Magnavita no restaurante de Negão, no centro de Itaparica, cidade onde mora. Foto: Rejane Carneiro | Agência A Tarde

por KATHERINE FUNKE, revista Muito (5.7.2009)

 

Engenheiro formado pela Universidade Federal da Bahia (UFBa) e doutor em arquitetura pela Universidade de Roma, artista plástico e designer de móveis. Aos 80 anos de idade, Pasqualino Romano Magnavita acumula todas essas qualificações – todas elas premiadas. Nem por isso se acomoda. Mantém-se em constante atividade.

Apesar de morar em Itaparica desde 1995, uma vez por semana deixa seu belo refúgio à beira-mar para passar um dia trabalhoso em Salvador. É vice-presidente do Conselho Estadual de Cultura (CEC) e leciona na pós-graduação em arquitetura da UFBa.

Mesmo em casa, não sossega. Além de passar os dias entre pesquisas e no atendimento a alunos e visitantes, está construindo pouco a pouco um centro cultural.

Na porta do seu quarto, a foto dos pais italianos, tirada em 1915, denuncia o amor pela família. Tem 11 irmãos. Cinco já faleceram; os outros seis ainda moram no primeiro edifício projetado pelo arquiteto, em 1954, nos Barris.

Desde 1968, vem transformando uma ruína do século XIX em residência, repleta de obras de arte, livros e mirantes.

É ateu, apesar de colecionar miniaturas de igrejas e de ter criado o Axé Design – uma linha de móveis com referências ao candomblé.

E está de olho na chegada do progresso à ilha. Na capital baiana, já demoliram cinco casas projetadas por ele.

 

Por que o senhor mora em Itaparica?

Conheci Itaparica desde 1939, ainda menino. Meu pai comprou uma casa para veraneio que então era uma renomada estação hidromineral no Estado. Era um recomendável apelo para a saúde. Desde 1968, reconstruí uma pequena ruína, o Mirante do Solar, e desde então venho ampliando essa segunda morada. Com a aposentadoria, em 1995, fiz a opção de morar definitivamente aqui.

 

Agrada-lhe o projeto de construção de uma ponte entre a Ilha de Itaparica e Salvador?

A construção da ponte interessa às empreiteiras. A Ilha se tornaria um filé mignon da especulação imobiliária. Fora isso, há a possibilidade de cobrança de pedágio. A Ilha passaria a ser uma Salvador imensamente ampliada, com edificações de elevadíssimo gabarito, vista panorâmica voltada para a capital. Ao mesmo tempo, palco de uma ampliada e incontrolável ocupação informal, ou seja, uma experiência já conhecida. Com essa ponte, Itaparica seria uma Niterói.

 

Em 50 anos, a população de Salvador aumentou de tamanho quase dez vezes. Como o senhor interveio nesse crescimento?

Nas décadas de 70 e 80, a seção baiana do Instituto de Arquitetos do Brasil [IAB-BA] criou um trabalho conjunto com lideranças de movimentos sociais e associações de bairro. O objetivo era diagnosticar problemas e reivindicar soluções ao poder municipal. Participei ativamente. Também fui representante do IAB-BA na comissão paritária, em 1983, nas negociações com os ocupantes [Invasão] das Malvinas [hoje, Bairro da Paz]. Embora começada, a derrubada foi suspensa. Sob forte pressão, a população foi para Coutos. No governo de Waldir Pires, voltou a ocupar a área.

 

O senhor também participou do Conselho de Desenvolvimento Urbano, o Condurb, como representante da UFBa…

Mas, em decorrência da composição do conselho sob a presidência do “prefeito biônico“ de plantão, as minhas colocações e as do IAB-BA não tiveram ressonância. Mas tive uma grande oportunidade para contribuir na requalificação urbana da Praça Cayru, no Comércio, integrando a equipe do arquiteto Luiz Antônio de Souza. Trabalhamos por dois anos no desenvolvimento do projeto. Entregamos no início de 2002 para [o então prefeito Antonio] Imbassahy. Todavia, o projeto ainda jaz nas gavetas da prefeitura.

 

O senhor tem uma ativa participação social. De onde vem essa energia para o debate político?

Meus pais sempre manifestaram muita energia em suas vidas. Independentemente da genética, penso que a questão pode ser entendida em função de três variáveis: a primeira, minha experiência empírica, formada pelas inúmeras conexões e saberes que pude sedimentar. A segunda, a forma de pensar, a lógica e repertório conceitual. A terceira, a visão de mundo – e a adoção de uma ética/estética como professor e arquiteto. Passei pela forma de pensar dialética, uma lógica binária. Agora, com maior vigor, tenho adotado a lógica da multiplicidade, o pensamento rizomático, também conhecido como micropolítica. É uma vertente da filosofia contemporânea, que me mantém ainda mais antenado e participativo.

 

O Edificio Caramuru, situado na esquina da Rua da Grécia com Avenida Estados Unidos da América, no Comércio, em Salvador. Foto: Fernando Amorim | Agência A TARDE

Edificio Caramuru, situado na esquina da Rua da Grécia com Avenida Estados Unidos da América, no Comércio, em Salvador. Foto: Fernando Amorim | Agência A TARDE

O Edifício Caramuru (1947) o estimulou a cursar engenharia e arquitetura. O que esse projeto ainda ensina?

Entre outros fatos, é o único prédio do Comércio com jardim suspenso [desenhado por Burle Marx], em lugar daquela cobertura com volumosos dispositivos do sistema de refrigeração e de reservatórios, como ocorreu em seguida. Caso todos os edifícios mantivessem o mesmo gabarito e seguissem esse exemplo, a visão da Cidade Baixa da Praça Municipal teria uma configuração interessante, em lugar do quadro degradante que presenciamos. E mais degradante será, com a irresponsável aprovação do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano, o PDDU, que eleva o gabarito no Comércio.

 

Qual sua análise dessa lei municipal, sancionada pelo prefeito João Henrique (PMDB) em 2008?

Absolutamente, não aprovo. Há décadas, tanto o IAB quanto a Faculdade de Arquitetura da UFBa têm se posicionado contra a elevação de gabarito na orla. Os inúmeros exemplos existentes no País demonstram tratar-se de pura especulação imobiliária em benefício de poucos grupos sociais privilegiados. Além da descaracterização da paisagem marítima, exige investimentos públicos altíssimos, considerando a insuficiente infraestrutura existente – particularmente o sistema viário, que já se encontra próximo a um inevitável colapso e que será enormemente adensado com a elevação do gabarito da orla. Na minha opinião, o PDDU se revelou uma oportunidade perdida, pois minimamente contempla o atendimento aos problemas e soluções para a grande maioria da população e favorece, de forma incisiva, o capital imobiliário, desrespeitando o patrimônio histórico, a paisagem e o meio ambiente.

 

No debate na Câmara de Vereadores, a presença de pessoas contrárias ao projeto só foi maior no dia da votação, em dezembro de 2007. Por que isso ocorreu, na sua opinião?

Em primeiro lugar, quando se fala de Salvador, é preciso ter presente sua composição social. A grande maioria se encontra excluída dos benefícios econômicos, sociais, políticos e culturais. Em segundo lugar, o tipo de divulgação e formatação do projeto não motivou a população a interferir. Em terceiro lugar, há no plano muitas questões de entendimento puramente técnico. Contudo, representantes da sociedade civil e do Ministério Público estiveram sempre presentes nos debates. Mesmo antes de sancionada a lei, várias manifestações contrárias chegaram ao prefeito.

Estádio da Fonte Nova, um projeto de Diógenes Rebouças. Foto: Fernando Vivas | Agência A Tarde

Estádio da Fonte Nova, um projeto de Diógenes Rebouças. Foto: Fernando Vivas | Agência A Tarde

 

Nos últimos meses, cinco residências projetadas pelo senhor foram demolidas em Salvador. Como isso o afeta?

Está ocorrendo não apenas comigo, mas com colegas de geração, da geração anterior e, até mesmo, da mais nova. Muitas das residências projetadas pelo pioneiro da arquitetura moderna na Bahia, Diógenes Rebouças, já foram demolidas. Só restam duas, realizadas na década de 50, que estão ameaçadas de demolição. Seria desejável que o Ipac [Instituto do Patrimônio Artístico Cultural da Bahia] promovesse de imediato o tombamento, já que uma de suas grandes obras, o Estádio da Fonte Nova, corre o risco de futura implosão, e isso, apesar do pedido de tombamento pela Faculdade de Arquitetura da UFBa. Igualmente, algumas residências projetadas por Assis Reis também foram lamentavelmente demolidas. Uma outra casa projetada por ele encontra-se na iminência de ser demolida. Provavelmente em função do ritmo acelerado dos interesses em jogo, torna-se possível afirmar que não restará registro, ou, melhor dizendo, não ocorrerá a desejável preservação da memória de arquiteturas residenciais representativas das décadas de 60 e 70 do século XX em Salvador.

 

Ao mesmo tempo em que isso acontece, a cidade ganha cada vez mais condomínios fechados, que reúnem no mesmo local atividades como trabalhar, morar e se divertir. Qual sua avaliação sobre o impacto urbano e social desse tipo de empreendimento?

É a expressão mais segregadora de uma configuração urbana. São os bolsões de riqueza da grande favela que é a Cidade do Salvador.

 

Nesse sentido, o senhor pode se dizer satisfeito com o que este século XXI está se tornando, na Bahia e no mundo?

Adotei o princípio da indeterminação, também denominado princípio da incerteza. Acredito que navegar no caos é preciso. Caos aqui entendido não como desordem, como geralmente se supõe, mas como lugar de todas as formas, de todas as partículas, lugar da criação, de novos acontecimentos, um oceano de dessemelhanças.

 

Como assim?

A vida como transformação permanente em sua percepção micro, molecular não tem princípio e nem fim. Encontramos-nos sempre no meio, entre situações, circunstâncias, contextos. Processamos uma multiplicidade e heterogeneidade de conexões ao longo de nossas existências. Sempre imagino que vou incorporando mutações e me transformando enquanto experiência empírica. E isso, simultaneamente, com uma nova forma de pensar, uma nova lógica, a da diferença. Superei a lógica binária adotando novos conceitos, proporcionando-me uma nova visão de mundo, ou seja, uma nova ética. Não é mais tempo de expectativa de grandes revoluções sociais, mas de “revoluções moleculares”, de microações individuais ou de grupos, objetivando contribuir, favorecer a construção da solidariedade e da emancipação social.

 

O senhor se considera jovem aos 80 anos?

A idade cronológica não tem sentido. As tão badaladas “crises”, em qualquer nível, são tempos de mutações, favoráveis à criatividade. Por mais adversas que sejam as questões da existência, não há lugar para desesperanças.

Todos estes casarões de cinco pisos, que se situavam na Av. Estados Unidos, junto ao cais do Porto de Salvador, foram derrubados. Imagem extraída do livro de Consuelo Novais Sampaio "50 Anos de Urbanização – Salvador da Bahia no Século XIX". Foto: Benjamim Mulock | Fundação Biblioteca Nacional-Rio de Janeiro | Reprodução

Todos estes casarões de cinco pisos, que se situavam no Comércio, junto ao cais do Porto de Salvador, foram derrubados. Imagem extraída do livro de Consuelo Novais Sampaio 50 Anos de Urbanização – Salvador da Bahia no Século XIX. Foto: Benjamim Mulock | Fundação Biblioteca Nacional-Rio de Janeiro | Reprodução

 

BAHIA, AMADA BAHIA

 

por JC TEIXEIRA GOMES*

 

O título deste artigo não se refere à Bahia atual (falo, claro, de Salvador), mas sim à Bahia antiga, que acabo de rever, encantado, num belo álbum das fotos de Voltaire Fraga adquirido há pouco na Pinacoteca de São Paulo. Aquela era a esplendorosa e poética cidade que seduzia gente da sensibilidade de Pierre Verger e do próprio Voltaire.

 

Vista da Ladeira da Conceição-Salvador-Bahia-1945. Foto: Voltaire Fraga  Vista da Ladeira da Conceição-Salvador-Bahia-1945. Foto: Voltaire Fraga (esta foto foi copiada de um site que informa sobre uma exposição na Pinacoteca de São Paulo, mas não explica quem é esse rapaz e por que ele foi incluído na imagem)

 

Soube que no Dois de Julho vaiaram o prefeito. No entanto, ele foi reeleito, o que nos faz questionar a autenticidade do processo eleitoral nos dias atuais, dominado pelo poder da propaganda enganosa e do dinheiro. Hoje, estou convencido de que todo candidato a prefeito de Salvador deveria ser previamente sabatinado sobre as tradições urbanísticas e arquitetônicas do velho burgo. Quem as ignorasse pulava fora. Sem vacilações.

Já a Bahia de hoje é a cidade insegura, mal-administrada, de trânsito insuportável (há mais carros do que ruas), em acintoso processo de degradação urbana, fruto de um inchaço que gera bairros novos sem infraestrutura, e onde os prédios (de arquitetura discutível) florescem como cogumelos podres. É a triste e dessemelhante Bahia que clama por um novo Gregório de Mattos.

Aos candidatos ou aos prefeitos já no cargo, gostaria de recomendar, para que aprendessem a respeitar a imensa riqueza do nosso passado, além do conhecimento dos autores já citados, a reflexiva leitura da obra portentosa de Consuelo Novais Sampaio, 50 Anos de Urbanização – Salvador da Bahia no Século XIX, editada em 2002 pela Odebrecht e somente agora à venda no Rio.

Não é preciso ser baiano para que alguém, diante da eloquência desse livro miraculoso no resgate de um tempo irremediavelmente perdido, se sinta arrasado com os exemplos da desfiguração de Salvador, cuja fisionomia histórica poderia ter coexistido com as imposições do progresso, pelo trabalho de administrações competentes.

 

Rua Chile esquina com Praça Municipal-Salvador-século XIX. Imagem extraída do livro de Consuelo Novais Sampaio editado pela Odebrecht Rua Chile esquina com Praça Municipal-Salvador-século XIX. Imagem extraída do livro de Consuelo Novais Sampaio editado pela Odebrecht

 

Quem olha as fotos, os desenhos, os mapas, as reproduções paisagísticas, toda a rica documentação visual do livro de Consuelo, não deixa de fascinar-se, enfim, com a homogeneidade urbanística da velha Salvador.

Era uma cidade incomparável pelos simétricos detalhes do seu casario, da sua privilegiada localização no alto da montanha amuralhada, das múltiplas torres das igrejas varando os céus, da opulência do seu cais de amarras com a barreira dos edifícios densos, obras suntuosas que jamais deveriam ter sido demolidas. Somava-se à riqueza dos sobradões a rara topografia de duas cidades superpostas, numa visão inigualável para quem vinha do mar e não contemplava nada que se comparasse no mundo.

Tudo isto no embalo da baía imensa, concentração de águas diluvianas resguardadas pelo forte heroico e solitário, cuja simples localização atemorizava a presença de piratas de todo tipo, ávidos de se lançarem sobre as riquezas da América Portuguesa. Os piratas do mar já não ameaçam a cidade, mas o passar dos anos foi tornando cada vez mais evidente a devastação promovida pelos piratas imobiliários, apoiados pelos piratas da política.

Há sempre quem queira justificar as destruições como consequência do progresso. O argumento é falso. Não poucas cidades do mundo conciliam realidades urbanísticas moldadas por épocas distantes.

 

Igreja e Ladeira dos Aflitos-Salvador-século XIX. Imagem extraída do livro "50 Anos de Urbanização"

Igreja e Ladeira dos Aflitos-Salvador-século XIX. Imagem extraída do livro 50 Anos de Urbanização

 

Lembremos Jerusalém, eloquente exemplo. A cidade que viu Cristo pregando pelas ruas estreitas jaz praticamente intacta, ao lado da nova Jerusalém, metrópole dos tempos modernos. E não se diga que isto só foi possível por milagre de Deus. O que houve foi vontade política de homens competentes. Nem os bárbaros conseguiram destruir Roma inteiramente.

Já a pulverização dos monumentos e sítios históricos de Salvador é uma realidade permanente. No entanto, nenhuma outra cidade brasileira mergulha tanto na sua história e busca o passado com tamanha paixão para vivificar-se.

O prestigiado arquiteto Mário Mendonça revelou que as festas populares baianas, movidas a estrondosos decibéis, estão rachando até monumentos sólidos, como o Farol da Barra. É uma preciosa advertência, para que o registro da nossa vida coletiva não continue sendo apenas um inventário de perdas.

 

Joca 090508 FOTO03*JC Teixeira Gomes

Escritor, jornalista, foi editor-chefe do extinto Jornal da Bahia

 



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