Archive for agosto, 2009


LETRA INÉDITA DE WALTER QUEIROZ

posted by Jary Cardoso @ 9:07 PM
18 de agosto de 2009

O compositor Walter Queiroz, que tanto nos honra com suas colaborações, participa mais uma vez deste blog, agora com letra inédita a ser musicada, como ele diz, “pelo grande artista do mundo Armandinho”, o ás baiano do bandolim. Imagens poéticas da Bahia, clicadas por Filipe Cartaxo, ilustram o poema.

RIO VERMELHO - FESTA DE YEMANJÁ. Foto: FILIPE CARTAXO

RIO VERMELHO - FESTA DE YEMANJÁ. Foto: FILIPE CARTAXO

MISTÉRIO PROFUNDO


WALTER QUEIROZ


A Bahia nasceu pra ser

Um jeito bom de caminhar

Tomando um sorvete de manga

De mangaba ou de cajá

Um jeito bom de sorrir

Um jeito bom de provar

Na folha da bananeira

O gosto bom do abará

Não nasceu pra ser inverno

Ou outra cinzenta estação

Com licença da primavera

A Bahia nasceu prá ser verão

ILHA DE ITAPARICA. Foto: FILIPE CARTAXO

ILHA DE ITAPARICA. Foto: FILIPE CARTAXO

A Bahia nasceu pra ser criança

A Bahia nasceu pra empinar

Uma arraia chamada esperança

Que cação nenhum pode cortar

A Bahia nasceu pra ser romance

A Bahia nasceu pra ser canção

A Bahia nasceu pra ser pintura

Dorival, Carybé, Jorge e João

Nasceu pra ser água de cheiro

perfumada e popular

do Bonfim, do Rio Vermelho

do presente de Yemanjá

Foto: FILIPE CARTAXO

Foto: FILIPE CARTAXO

Nasceu para ser cinema

De Glauber, um sonhador

Abre descendo a contorno

Fecha no elevador

A Bahia não nasceu

Pra ser Nova York ou Paris

A Bahia é um mistério profundo

A Bahia nasceu pra ser feliz


DORIVAL CAYMMI, O BUDA BAIANO

posted by Jary Cardoso @ 10:40 PM
17 de agosto de 2009
Dorival Caymmi no veleiro Laffite, do amigo Carlos Guinle, década de 50. Foto: Arquivo Agência A Tarde

Dorival Caymmi no veleiro Laffite, do amigo Carlos Guinle, década de 50. Foto: Arquivo Agência A Tarde

(Há um ano da morte de Dorival Caymmi, vale a pena ler de novo o texto escrito por zédejesusbarrêto ao receber a triste notícia, quando morava em Angola)


por ZÉDEJESUSBARRÊTO


Em Luanda, do outro lado do Atlântico, fico a saber da morte de Dorival Caymmi, aos 94 anos.

Talvez o último dos grandes ícones da tal baianidade, atributo que ele carregava na cor da pele mulata, preservava na pose e na pança de Xangô-rei, no vagar, no dengo e na doçura de seu olhar, de seus gestos, de suas palavras, de seu sorriso.

Caymmi era um gênio.

Nos anos 30, com voz grave e afinada, acompanhado de seu violão dolente já mostrava ao mundo ‘o que é que a baiana tem’.

E no seu rastro de som e molejo vieram todos… Jorge, Carybé, Verger…

Ah! Deve estar uma festança no céu. Jobim ao piano.

Certo dia, numa entrevista, acossado pelos jornalistas que babavam sua genialidade, o maestro Jobim falou:

A música é Caymmi, Caymmi é a música e eu não seria músico se não fosse Caymmi’.

Basta? Tom Jobim!

Não, não basta.

Nos anos 70, entrevistando João Gilberto, o chamado papa da bossa-nova, ele disse:

Tirem os olhos de mim, que eu nada sou além de um tocador de violão.

O gênio se chama Caymmi. Então, vão ouvi-lo, vão entrevistá-lo.

Ele é o mestre, ele é a música’.

João Gilberto!

A última vez que o vi, um buda baiano, de branco, sentado e lento, foi na roça sagrada do Ilê Axé Opô Afonjá, terreiro ketu/nagô de São Gonçalo do Retiro dedicado a Xangô.

Ele era Obá, ministro de Xangô. Como o compadre Jorge. Como o compadre Carybé.

Dormiram na mesma esteira, cabeças sagradas aos Orixá, irmãos todos de Mãe Stella de Oxóssi, sacerdotisa dessa terra-mãe que é hoje a mais africana de todas as cidades, pelo mistério que preserva nos seus candomblés, que, do lado africano do Atlântico já nem se ouve mais falar.

Caymmi era mais do que um músico. Foi um signo.

Um revolucionário, sim senhor! Ele mudou a música brasileira com seu violão de mar.

E projetou a baianidade no mundo, via Carmen Miranda e o cinema americano.

Como escreveu outro baiano, João Ubaldo Ribeiro,

Caymmi era um fazedor de beleza’.

Ia além das canções. Pintor de traços e cores precisas, um grande contador de histórias, proseador, sedutor…

Cantou o povo, o andar, a ginga da gente baiana, o requebro das cadeiras da fêmea, a mistura, o jeito da mulatice, o som das ruas e senzalas, a conversa e a labuta dos homens do mar, do cais, o ir e vir das ondas, os mistérios do reino de Aiocá, o vento na palha dos coqueiros, o balanço das velas dos saveiros, o xaréu, as crenças, o rabo de arraia dos capoeiras, as festanças, o samba no pé e na bunda, a alegria de viver baiana, os tambores nagôs, as mandingas de Angola, os mistério dos caboclos e encantados…

O violão de Caymmi era recôncavo.Dorival - capa LP 101208 FOTO18

Seu canto, maresia, daquela que varre a sujeira e deixa o ar da Cidade da Bahia tão puro e limpo como as nuvens brancas de Oxalá.

Caymmi era luz, azul como o céu e brilhoso como o mar de Todos-os-Santos.

A Bahia inteira, agora, deve curvar-se ao chão perante o Universo e agradecer…

Por ele.

Como agradecemos agora, a Olorum, por ter nos dados a graça de ter nascido no mesmo espaço e no tempo em que viveu o mestre Dorival Caymmi.

Agradeçamos ao Criador pela graça de tê-lo ouvido.

Amém.


ZILDA PAIM – GENTE DA BAHIA

posted by Jary Cardoso @ 10:21 PM
17 de agosto de 2009
PROFESSORA ZILDA PAIM. Foto: Edson Ruiz | Agência A Tarde – 10.10.2005

PROFESSORA ZILDA PAIM. Foto: Edson Ruiz | Agência A Tarde – 10.10.2005

A MEMÓRIA DA MINHA CIDADE

 

por JORGE PORTUGAL

 

Guardamos todos, em nosso cine-memória, fortes e belas lembranças que nos surpreendem de vez em quando, se a vida ameaça enveredar pelos caminhos da aridez e do individualismo vulgar.

No exato momento em que estou escrevendo estas mal-traçadas, vem-me à mente um plano-sequência inteiro de uma cena de rua muito frequente na minha infância: uma senhora de cor branca, compleição física consistente, cabelo preso num coque, à frente de uma fila dupla de negros que percutiam pedaços de pau e cantavam refrões em uma língua até então estranha para mim. Por onde eles passavam, a cidade inteira corria para ver, extasiada e ao mesmo tempo respeitosa, pela autoridade humana que seu olhar transmitia.

Um dia meu pai me disse: é a professora Zilda Paim comandando o Maculelê de Popó que ela mantém vivo até hoje. Como se fosse uma senha para minha entrada em um “certo mundo”, dali em diante nunca mais deixei de escutar o nome daquela senhora, sempre ligado à história da cultura de minha cidade.

Se um grupo de estudantes do Teodoro Sampaio precisava de informações para fazer um trabalho sobre o 14 de Junho, procurava professora Zilda; se um mestrando em Antropologia necessitava de uma fonte de pesquisa confiável sobre o “Bembé do Mercado”, procurava professora Zilda; a denominação popular de uma rua no início do século, a quantidade de jornais que a cidade tivera, o nome completo do tenor que cantava a terceira jaculatória da novena em 1950, tudo que a cidade (e os de fora) queria saber… procurava professora Zilda.

E ao longo dessas décadas de respostas para todas as perguntas, ela foi colecionando periódicos, depoimentos, iconografia, documentos raros, receitas da culinária do Recôncavo, histórias do imaginário popular, enfim tudo aquilo que cabe na alma de um povo. E tudo isso ela sempre dividiu com generosidade e prazer.

Professora Zilda Paim completou 90 anos no último 3 de Agosto, com a memória cada vez mais viva.

Se eu estiver mal informado, tanto melhor, e já peço desculpas. Mas não me consta que a Câmara de Vereadores de Santo Amaro tenha-lhe prestado alguma homenagem em sessão especial, ela que deve ter sido a primeira mulher edil daquela casa; não chegou a mim nenhuma notícia de que o prefeito tenha decretado algum ato simbólico, algo assim como “o Ano Professora Zilda Paim”; não sei se a Academia de Letras ou a Casa do Samba lhe conferiram uma placa que fosse, em reconhecimento ao que ela fez pelas chamadas culturas erudita e popular.

Mas soube, sim, que os jovens artistas da cidade, liderados por esse canto de sensibilidade que é Eduardo Alves, fizeram uma belíssima serenata na porta de sua casa, à qual acorreu o povo simples e anônimo do lugar levando alegria e gratidão à mestra que guardou com carinho sua história.

Querido e Magnífico Reitor Paulo Gabriel Nacif: bem que a Professora Zilda Paim mais do que merece o título de “Doutora Honoris Causa” pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), não acha?

 



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