Archive for setembro, 2009


RIO URBANO: REVITALIZÁ-LO OU SEPULTÁ-LO?

posted by Jary Cardoso @ 1:19 PM
28 de setembro de 2009
  

 

ILUSTRAÇÃO DE CAU GOMEZ

ILUSTRAÇÃO DE CAU GOMEZ

 

por PAULO ORMINDO*

 

Um dos valores das cidades europeias são os rios que as deram origem e vida. Não apenas os grandes rios, como o Tévere, o Sena, ou o Tejo, mas também os pequenos – como disse Fernando Pessoa, “o Tejo não é mais belo que o rio que passa na minha aldeia”. Infelizmente entre nós os rios urbanos se transformaram em cloacas e verdadeiros flagelos pelas inundações e mau cheiro que provocam, não só em Salvador, como em São Paulo ou no trágico vale do Itajaí.

Se isto não ocorre na Europa é porque a partir do século XVIII aqueles rios foram domados com grandes obras hidráulicas, como diques, eclusas, comportas e aquedutos e a criação de redes independentes de esgotos, o que permitiu perenizá-los, regularizar o seu fluxo e manter a qualidade de suas águas, que jorram em belas fontes como em Roma.

Mas muitos desses rios estavam mortos há 30 anos, devido a um modelo de desenvolvimento predador. A luta das populações locais teve como resposta políticas consistentes que permitiram reverter esta tendência e torná-los novamente balneáveis e povoados de peixes. Ao invés de seguir estes exemplos, nossos administradores caminham na contramão, querendo que os nossos rios entrem literalmente pelo cano.  

Na expansão urbana do além-Camurugipe abandonou-se o modelo bem sucedido das avenidas drenantes de vale, para permitir o espontaneismo demagógico do caminho de rato, transformando o chamado Miolo de Salvador, uma área estratégica da cidade, em um favelão, que chega até o fundo dos vales.

Para piorar, se construiu na década de 70 a mole da Paralela, que represou praticamente todos os rios que deságuam na orla atlântica. No ultimo inverno, uma das áreas mais inundadas da cidade foi a Av. Jorge Amado.

Para resolver este cenário gótico, a prefeitura imagina ingenuamente tamponar os nossos rios e jogar o cisco debaixo do tapete com o aval de uma classe média desinformada. Canalizar os rios só irá piorar a situação, pois reduz a seção de sua calha, inviabiliza sua limpeza e a existência de vida, provocando mais inundação e contaminação de nossa baía e praias, além de criar um nicho inexpugnável para roedores, baratas e lacraus. Como interage esta política com o Baía Azul?

Precisamos, ao contrário, perenizar nossos rios com pequenas comportas para podermos repovoá-los de peixes, rebaixar suas margens para aumentar sua vazão durante as cheias e paralelamente cortar todas as ligações de esgoto. Com peixes, nossos rios se auto-regenerarão contribuindo para voltarem a ser balneáveis e livres de mosquitos.

Nos terraços rebaixados do Sena, em Paris, correm pistas de carros, que no verão se transformam em praias artificiais. Mas nas cheias, esses terraços dão vazão rápida às águas, sem que elas atinjam o nível das avenidas. O mesmo esquema está sendo adotado em Seul e poderá, no nosso caso, acabar com os pernilongos e prevenir inundações.

Recentemente o Instituto de Gestão das Águas e Clima (Ingá), com o apoio das associações profissionais, resistiu valentemente às pressões políticas para entubar o Canal do Imbuí, só permitindo a sua cobertura, provisoriamente, com placas removíveis, permeáveis ao sol e ao ar, até que os esgotos sejam cortados. Esta é uma solução provisória, mas um marco definitivo de altivez de um grupo de técnicos de não se dobrar às pressões e cumprir a lei, que deveria estar acima dos interesses circunstanciais.

Canteiro de obras de macro drenagem do Canal do Imbuí, em Salvador. Técnicos do Instituto de Gestão da Águas e Clima (Ingá) impediram o entubamento desse rio, só permitindo a sua cobertura, provisoriamente, com placas removíveis, permeáveis ao sol e ao ar, até que os esgotos sejam cortados. Foto: FERNANDO VIVAS | Agência A Tarde 3.8.2009

Canteiro de obras de macro drenagem do Canal do Imbuí, em Salvador. Técnicos do Instituto de Gestão da Águas e Clima (Ingá) impediram o entubamento desse rio, só permitindo a sua cobertura, provisoriamente, com placas removíveis, permeáveis ao sol e ao ar, até que os esgotos sejam cortados. Foto: FERNANDO VIVAS | Agência A Tarde 3.8.2009

Não é possível continuarmos a administrar uma cidade de três milhões de habitantes na base do achismo e de interesses míopes de empreiteiras e imobiliárias. Em definitivo nenhuma dessas obras resolverá sem um master-plan de macro-drenagem de toda a cidade. Plano que se ligará, inevitavelmente, a um projeto viário e este a um de uso do solo.

Em outras palavras, precisamos urgentemente de um plano diretor urbano inteligente, que tenha um mínimo de transparência e tecnicidade e proporcione melhor qualidade de vida para todos. Por que não fazemos a coisa certa desde o início? Por que tanto desperdício? Precisamos dar racionalidade e modernidade a este processo, que no nosso caso é pura improvisação.

 
Foto: FERNANDO AMORIM | Agência A Tarde 15.8.2006

Foto: FERNANDO AMORIM | Agência A Tarde 15.8.2006

*Paulo Ormindo é arquiteto, presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) - Depto. Bahia. Este artigo foi publicado originalmente na página de Opinião do jornal A Tarde, em 27.9.2009. Paulo Ormindo também é o autor de um dos artigos mais acessados deste blog, “Salvemos Salvador enquanto é tempo”:

http://jeitobaiano.atarde.uol.com.br/wp-content/uploads/2009/07/24/salvemos-salvador-enquanto-e-tempo/ 


POR ONDE ANDA GAL COSTA

posted by Jary Cardoso @ 12:17 AM
26 de setembro de 2009
Gal Costa canta no palco flutuante sobre o mar do Porto da Barra, em Salvador, durante o Espicha Verão 2009. Foto: WALTER DE CARVALHO | Agência A Tarde 7.3.2009

Gal Costa canta no palco flutuante sobre o mar do Porto da Barra, em Salvador, durante o Espicha Verão 2009. Foto: WALTER DE CARVALHO | Agência A Tarde 7.3.2009

por MARLON MARCOS

 

Do ponto de vista social, há ausências que são imperdoáveis. A música brasileira sempre nos foi uma forma de alento, um transbordo de alegria, uma espécie de reunião, textuais e sonoras, nos ensinando a vida, a política; levando-nos a sonhar, a querer amar, a brigar por um mundo melhor, a estar de pé e, sem medo, não desistir do que deve ser sempre feito.

A música brasileira é uma das formas mais agradáveis de se investigar nossa realidade social, em especial a geração dos anos 60, com nomes como Edu Lobo, Geraldo Vandré, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, entre os cantores compositores; entre as cantoras, Maria Bethânia, Elis Regina, Nana Caymmi, Joyce e Gal Costa. Esta última faz hoje, 26 de setembro, 64 anos e, sendo uma das maiores cantoras que o Brasil já gerou, estando viva e saudável, faz uma falta irreparável à boa audição nesta nação tupiniquim.

Maria da Graça Costa Penna Burgos nasceu em Salvador, e alcançou o mundo com sua voz doce de chamar o vento; levou a Bahia para o centro do Brasil e este para os cânones do canto feminino no mundo. Sua presença brejeira misturada a muitos desacertos estéticos fizeram dela a representação mais idílica que se tem da mulher baiana e, melhor ainda, a fizeram acrescentar muita modernidade às feições da canção brasileira, que tem nela uma das suas mais legítimas reinventoras.

De fato, Gal Costa sumiu do disco. Lentamente saiu de cena, numa espécie de aposentadoria precoce; ela que ainda tem uma voz brilhante e um domínio musical invejável e serve de modelo instrumentalizador para evolução de práticas na seara do nosso canto feminino. Gal está em muitas cantoras jovenzinhas que negam a força representacional da musa maior do Tropicalismo. Falar mal de Gal, hoje em dia, é ser cult; esquecer seu legado é coadunar-se a uma prática horrível neste país: desrespeitar nossa memória.

Por anda Gal Costa? Sua voz está pregada aos tímpanos da audição de nossa memória. A sua existência artística confunde-se com o que somos enquanto povo criativo e musical. Mesmo tendo direito à aposentadoria, volta Gal, queremos te ouvir cantar. Como em Mãe, de Caetano Veloso.


BAIANOS, GRAÇAS A DEUS, SIM SENHOR!

posted by Jary Cardoso @ 3:51 PM
25 de setembro de 2009
ILUSTRAÇÃO: BRUNO AZIZ

ILUSTRAÇÃO: BRUNO AZIZ

por EDMUNDO CARÔSO

É fato: somos o que o que somos e não importa o quanto se filosofe sobre o assunto ou quais teorias sejam escritas sobre nós nas bolachas de chope do Leblon (ou com a flexibilidade dos espaguetes das cantinas do Bixiga), o baiano vai ter seu jeito próprio e inconfundível de ser até morrer atrás do trio, com a lata de cerveja na mão, vibrando nos acordes de elétricas guitarras.

Mas, como a Bahia não vai morrer nunca, a passagem desse bastão de lata, dessa malemolência, desse sabor de tarde amortecida, dentro da casa grande e da senzala, graças a Deus – para o seu desgosto ou confusão, caro estrangeiro – não vai findar. É nossa marca, nosso orgulho nacional. Nacional, sim senhor! É isso mesmo que você ouviu (ou leu) pois a Bahia nada mais, nada menos é do que um país de tantas facetas e lados, que os imprudentes teimam em chamar de estado.

Estado… Pois sim! A Bahia é universal e disso só não sabe quem nada perguntou a Edil Pacheco.

Portanto, recomendo: Para melhor compreender o que somos e podemos, desconfio que a solução talvez não esteja em mudar o jeito baiano de ser, mas em forçar um giro de 180º na forma que as pessoas veem como o baiano é.

Pra começar, o cara que não entende a Bahia é porque, quando ele vinha, a gente ia. E aqui é um lugar tão especial que você já começa a chegar a Salvador na hora em que compra a passagem.

A seguir, listo algumas modestas contribuições que podem ajudar aquele que é de fora a compreender como somos aqui dentro.

Primeiro. Ser baiano não é só uma questão de geografia. Alguém pode ter nascido, agora, tranquilamente, em Copenhague. Se quando ele chorar você escutar uns atabaques, é porque nasceu mais um baiano de verdade.

Outra lenda que o bom senso manda jogar por terra é essa de que – mesmo com a nossa história plena de realizações em todos os campos da produtividade, desde o braçal até o intelectual – não trabalhamos. Trabalhamos sim, e muito! E trabalhar além do que já fazemos seria mais redundante do que tentar pôr trança em rastafari.

Está certo, tenho de admitir, se trabalho fosse bom, Caymmi teria nascido em São Paulo, mas essa constatação não nos torna eternos bronzeados, deitados numa rede, tomando água de coco. Quem é de fora precisa, definitivamente, compreender uma coisa sobre nós:

Acredite, na maior parte do tempo o baiano trabalha muito. No tempo que sobra, já que ninguém é perfeito, ele se dedica, com afinco, em pensar como resolver, urgentemente, esse problema.

E, se você quer saber a razão de tanta festa, a Bahia só faz festa o ano inteiro porque ficou combinado que trabalhar seria atribuição dos outros. Só que ela, dentro de sua nobreza, não cumpre isso; e até mesmo festejar, meu nego, dá um trabalhão danado. Experimente e você vai saber do que falo.

Outro fator que contribui pra essa festança é que a baianidade será sempre uma linha traçada sobre a distância mais curta entre o cérebro e a cintura. E se isso, algumas vezes, pode ser o nosso abismo, também é a nossa salvação, aquilo que nos difere de outros povos da Terra Brasilis. E é em cima dessa linha esticada que a representa (e que já é ela mesma) que a baianidade se equilibra. Mais coerente impossível.

De uns tempos pra cá, ranzinza como sou, tenho reclamado que, musicalmente, na Bahia, sabe-se lá por qual capricho da estrutura, parece que a maioria dos cérebros desceu para cintura. Mas essa é uma via de mão dupla onde cada chacra, seja o de baixo ou o de cima, nunca perde por esperar. Não em Salvador, terra em que a cortina sobe e desce o tempo inteiro para mais um espetáculo da excelência do improviso.

Mas temos também nossos pontos negativos, não vou tapar o Farol com a frigideira. Só que, até isso, como aquela melequinha de Gisele Bündchen flagrada na revista de famosos, faz parte do Belo de nossa grandeza. Nada há sem o lado B, nem você.

Daí que convém ficar atento a algumas recomendações:

1. Quando se chega antes a um encontro, na Bahia, duas coisas há que se ter sempre em mente: esqueça o relógio e sente. Baiano que é baiano marca um encontro pra hoje, mas só chega para o ano. Somos o rei do estamos indo e faz parte de nosso sangue não admitir isso. Mas, quer saber? Pra você ter uma idéia, se tivesse sido criada na Bahia a expressão per saecula saeculorum seria grafada como é pra já. Só que vocês não vão entender nunca, já que existem coisas por aqui mais importantes do que a pontualidade – e chegar atrasado é uma delas. Como sublinhou Risério, não dá pra largar a conversa só pra cumprir o relógio. E o baiano só não é pontual porque tem, aí sim!, preguiça de fazer frente à concorrência de Londres.

2. Tampouco estranhe muito esse costume “detestável” que o baiano tem de fazer xixi nas ruas, pois, de certa maneira, não deixa de estar coerente com as políticas, aqui, implementadas – de Educação, inclusive. Daí que, a cada logradouro que é pavimentado em Salvador, a Saúde agradece ao Erário a melhoria das condições de seus públicos sanitários. É só outra forma do governo exercer o saneamento. Entre um pipi e outro, pense nisso e vá relevando.

3. Onde come um come um exército. Na Bahia, esse é o credo. Portanto, fique atento. Aqui, quando você convida, seu único convidado se acha no direito de levar junto um regimento bem maior do que a comida. Não pode dar conta de um batalhão? Então não convide nem unzinho, sequer, para o feijão.

4. Outra coisa: eu posso falar mal de Salvador, mas você não. Faz favor!!!!

Por fim, Se você não é universal, não queira entender a Bahia porque vai se dar mal. E lembre-se: baiano, que tem tanto carisma que já nasce com empresário, só filosofa sentado porque o copo fica melhor acomodado.

E como sou seu brother deixo-lhe um valioso adendo:

Não basta descobrir o que a baiana tem. Você tem que ter também.



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