Archive for outubro, 2009


BICICLETA E CAPOEIRA JUNTAS NA BAHIA?

posted by Jary Cardoso @ 12:02 AM
26 de outubro de 2009
Ilustração: GENTIL

Ilustração: GENTIL

por LOURENÇO MUELLER*

A capoeiragem e o ciclismo caminham juntos. As duas práticas, jogar capoeira e montar bicicleta, são expressões do equilíbrio corporal como aptidão natural. O corpo aparece nestas duas modalidades como a síntese do movimento elegante e circular: as circularidades dos golpes da capoeira e da cinemática ciclista. O equilíbrio mental vem junto…

Não é apenas esta a razão que convida à reflexão para se aproximar, nas nossas cidades,o ciclismo e a capoeiragem, misto de dança, luta e visão de mundo.

Listemos outras. A capoeira é praticada por estratos sociais predominantemente de baixa renda: a ocorrência das academias de capoeira é maior nos bairros pobres. Identicamente a bicicleta como meio de transporte é usada entre os mais pobres. Ou seja, são praticas da maioria da população pobre, a camada que mais precisa de apoio governamental.

Por favor, poupem-me do discurso pseudo-sociológico de que os pobres ‘’também têm direito’’ ao automóvel, como se essa coisa assassina que nos mata a todos, ricos e pobres, fosse um grande privilégio. Já foi, mas hoje pecam por excesso deles e juntamente com as motos deviam ser simplesmente excluídos das centralidades urbanas mais densas, dos centros de cidades.

Vislumbro, e me deslumbro (assim que se escreve, Guto…) com uma possível aproximação capoeira-bicicleta e aqui vai um reforço sistêmico: a animação de circuitos cicloviários com pontos de capoeiragem, “rodas de capoeira’’, não apenas em bairros de grande densidade populacional, mas também ao longo da ciclovia da orla, com toda a exposição que a pratica da capoeira evidencia para o turista e para o habitante, que este merece mais do que aquele, numa projeção para a cidade da Copa.

A capoeira:

É um dos componentes culturais mais fortes da negritude e pode se constituir em mais um esporte olímpico, se o Rio não chegar primeiro e nos tomar, como fez com o samba, mais este trunfo. Sua agregação a um modelo de mobilidade urbana que se persegue cada vez mais nas grandes cidades do mundo desenvolvido emprestaria um grande diferencial à Bahia.

Seria também uma forma de compensação à contribuição dos afrodescendentes ao caldo de cultura que tanto engrandece a nossa terra e que por tanto tempo o preconceito e o conservadorismo das elites “branco-mestiças” (Risério com a palavra) ajudou a esconder, pois até do fantástico berimbau um médico equivocado falou mal.

Há muito mais tempo, meu pai quebrou o berimbau que Mestre Bimba fez para mim, quando eu tinha 14 anos e já era fascinado pela capoeira; ele também sofria deste preconceito surdo contra os negros e sua cultura. O berimbau merece loas…

A bicicleta:

Como modo de transporte tem argumentos irrespondíveis: recentemente fez-se em São Paulo uma experiência de medição de tempo de deslocamento com diferentes modos de transporte (trem, metrô, carro, moto, ônibus e até helicóptero) e a bicicleta ganhou para todos!

Quanto aos outros aspectos (custo baixíssimo do veículo e da infraestrutura para ele, poluição auditiva, ambiental e atmosférica zero, saúde preventiva, praticidade no deslocamento ponto a ponto, violência no trânsito zero…) as ‘’magrelas’’ ganham disparado para TODOS os meios de transporte.

Do ponto de vista urbanístico, elevar o status da bicicleta e o respeito ao ciclista é uma das condições de se promover o seu uso intensivo.

Igualmente, promover a capoeira, reconhecida no mundo e semiesquecida no seu segundo berço depois da África, deveria ser uma atitude constante do poder público.

Algumas faculdades já admitem a capoeira como disciplina mas alguns trabalhos teóricos (Prof. Edivaldo Boaventura prefaciou o livro [**] e orientou um destes doutores, recentemente) sugerem um curso de graduação, com direito a grade curricular prática e teórica. Seria mais uma vanguarda do nosso estado e seguramente fortaleceria a ideia de tê-la aqui nas Olimpíadas, como sede, além do futebol.

As duas práticas, tão elegantes e saudáveis, podem e devem caminhar juntas.

[*] Lourenço Mueller é arquiteto e urbanista

[**] Nota do Editor – O livro prefaciado por Edivaldo Boaventura, Capoeira regional e a escola de Mestre Bimba, foi escrito por um aluno de Mestre Bimba, Héllio Campos, o Mestre Xaréu. Matéria reproduzida do Caderno 2 do jornal A Tarde sobre o lançamento desse livro é um dos posts mais acessados do blog Jeito Baiano:

http://jeitobaiano.atarde.uol.com.br/wp-content/uploads/2009/07/11/gente-da-bahia-%e2%80%93-mestre-bimba/


ABOMINÁVEL DESAFRICANIZAÇÃO

posted by Jary Cardoso @ 12:01 AM
26 de outubro de 2009
Ilustração: CAU GOMEZ

Ilustração: CAU GOMEZ

por ZÉDEJESUSBARRÊTO

 

ATENTADO AO POVO NEGRO

 

Racismo, colonialismo, fundamentalismo religioso, ideologias totalitárias, intere$$es e a tal globalização. Não é de hoje o processo de desafricanização do povo negro. Pelo mundo afora e dentro do próprio habitat africano.

Na escravidão, era preciso desagregar, fazê-los perder a identidade. Na ocupação colonialista, apagar os vestígios tribais, nacionais para melhor exercer a opressão.

E vieram a catequese católica, a jihad islâmica, os cultos xiitas, os ditadores de direita e de esquerda a serviço do mercado e em nome da modernidade a extirpar as raízes dos mistérios da alma africana.

Para dominar é preciso mudar crenças, costumes, desatar os laços da história do povo, enterrar de vez as lembranças dos ancestrais e os ensinamentos dos antepassados. Até as línguas tribais, nativas, estão sendo deletadas. É um processo lento, às vezes mais acelerado aqui e ali, mas contínuo.

Foi assim na América do Norte, com a segregação posta em prática pelos brancos e seu presbiteranismo pleno de culpas. Sobrou o blues. E também na pobre América Central, do Haiti a Cuba, os negros resistindo com seus vudus e santerias, malocados.

Na África ‘moderna’ ninguém mais sabe o que é um Orixá, um Vodum, um Inquice. Onde se escondem os encantados da Mãe África, silenciados pelas armas, espantados pela busca ao petróleo e aos diamantes, massacrados por doutrinas alienígenas, com seus amuletos e objetos sagrados vendidos feito bugigangas de feira?

Os espíritos dos antepassados vagam assustados com o barulho dos carrões de luxo amassando a penúria, dos tratores abrindo estradas na desgraceira, com o zumbido das vuvuzelas que encherão os estádios da África do Sul na ‘copa dos miseráveis’, os olhos da meninada faminta e esperançosa vidrados nas telinhas da tevê, dos notebuques e dos celulares.

Ah, restam os tambores e os corpos dançantes do povo negro a resistir sem saber bem ao quê nem o porquê. Apenas por instinto ancestral. No ritmo celebram o reencontro com as origens, nos tambores buscam a identidade perdida, roubada.

 

E aqui, nesta nossa Bahia – Salvador e Recôncavo – que tanto se orgulha (ou se orgulhava?) de ser o mais negro dos sítios fora da África?

Primeiro, os africanos deserdados seriam transformados em crioulos, depois mulatos. Era preciso branquear… ou colorir (?) a ‘sociedade’.

Mas, a despeito de toda opressão, nas águas, no caldeirão da Baía de Todos-os-Santos misturou-se tudo: caboclos das matas, divindades de Congo, Angola, Nigéria, Guiné, Benim… e santos barrocos. A mão no couro e o toque do berimbau congregaram os negros. Era preciso resistir. Retomar a identidade negra massacrada, a partir das raízes ancestrais, das crenças tribais, significados da vida.

E a resistência se deu (e se dá ainda) a partir dos terreiros, das lembranças dos pretos velhos, dos aconchegos da mãe-de-leite, do saber das grandes Yás, mães da Bahia, dos batuques, da dança, das oferendas, do respeito à Natureza-mãe.

Uma resistência rítmica que se vê no canto, no culto, na alegria, na labuta de cada dia, no nariz empinado, na beleza negra, na esperança que rebrota nos guetos, em cada carnaval, cada oferenda, no brilho dos olhos de cada criança que brinca, que consegue estudar e comer.

O processo de aculturação dominador continua, forte e atuante no preconceito disfarçado, na intolerância, na demonização das divindades afrobaianas, na proliferação de ‘templos’ bodegueiros ditos evangélicos, presente nos brados das bocas de alto-falantes, nas pregações ao vivo e pelas dezenas de rádio/canais de tevê, no tráfico que arrebanha adolescentes na tora, no engodo marqueteiro da grana fácil… tudo ‘em nome de Jesus’.

E mais ainda no assédio ameaçador a cada negro/mulato/branco… que use suas guias no pescoço, que vista branco às sextas-feiras, que arrie suas oferendas nas águas, que creia nas forças supremas da Natureza, que reverencie os toques dos alabês…

A menina de pele preta tem o cabelo ‘chapinha’, come acaramburguer (ou um ‘mec-jé, ou um ‘acarajé de jesus’) e sonha em ser uma celebridade, já, sem qualquer pudor.

A desafricanização acontece também na folclorização do Axé, no uso desrespeitoso do sagrado.

Outro dia li assombrado nos orelhões da cidade: ‘Senhor do Bomfim é o demônio, Oxalá é satanás’. São chicotadas ‘bíblicas’ no lombo afrobaiano. Farsantes passam à frente dos terreiros, sítios sagrados, xingando, atirando pedras, ameaçando.

Quem são esses algozes e a serviço de que ‘deuses’ assim agem, em pleno século XXI?

A gente negra baiana não quer demanda, palanque ou esmolas.

Só respeito.

O povo-de-santo não faz proselitismo. Luta pelo direito de ser e professar a religião de seus antepassados. Como povo livre, digno.

Lembro-me de um papo com Gilberto Gil, compositor, ex-ministro da Cultura. Gilberto Gil, às vésperas de uma festa da Lavagem, anos 1970: “O que seria do Senhor do Bonfim não fosse Oxalá, na Bahia?”

Estendo:

O que seria da Bahia sem o fazer, sem a cultura dos negros? O que será da Bahia sem vestígios da bela e rica herança africana?

Não é tempo de calar!

PS: Não carrego bandeiras.

Li (e aprendi) nos muros da velha cidade aflita: ‘quem milita se limita’.

São apenas ‘baianices’, reclames de um cidadão, filho e amante desta cidade.

 

zédejesusbarrêto é jornalista e baiano (zedejesusbarreto@uol.com.br) out/2009.


RETRATO DE SALVADOR

posted by Jary Cardoso @ 6:33 PM
25 de outubro de 2009
Ilustração: GENTIL

Ilustração: GENTIL

por ANTONIO RISÉRIO

 

Quando Antonio Carlos Magalhães decidiu construir o Centro Administrativo na Avenida Paralela, teve gente que achou que ele tinha enlouquecido. “O governador está louco, quer levar o governo pro meio do mato!” – era um dos comentários que então se ouviam. Mas não havia nada de louco na ideia. Era, simplesmente, a primeira vez que se pensava Salvador em termos metropolitanos.

O secretário de Planejamento, na época, era Mário Kertézs. E ele soube escolher com quem trabalhar. Mário procurou Lúcio Costa, o urbanista que projetou Brasília. E Lúcio (embora reclamasse da Paralela, uma avenida bonita, mas desconfigurando, desnecessariamente, o desenho topográfico da região, cortando colinas) fez o traçado da avenida do viaduto de acesso ao Centro. E de todas as avenidas do CAB.

Mais tarde, em meio ao processo de construção dos prédios, entrou em cena, por sugestão de Alex Chacon e Roberto Pinho, o arquiteto João Filgueiras Lima, Lelé. Era uma dupla, Lúcio-Lelé, pra ninguém botar defeito.

Mas houve reação. Empreiteiros locais se rebelaram logo contra o projeto em pré-moldado de Lelé. Aquilo poderia ser até bonito, mas não seria assim tão lucrativo para eles. A verdade é que Lelé projetava obras nuas, a serem executadas por um sistema nada convencional de construção. Obras difíceis de sofrerem superfaturamento. E empreiteiros costumam não gostar disso. Mas o trabalho foi feito.

Com o CAB, houve um deslocamento do centro comercial da cidade. Na mesma década de 1970, tivemos a implantação do Polo Petroquímico de Camaçari. Tudo mudou. Surgiram na cidade, inclusive, bairros novos.

Mas quero falar da Avenida Paralela hoje. O que era deserto apresenta agora congestionamentos de trânsito. Pessoas fazem exercícios físicos no canteiro central da avenida. A Paralela, como o CAB, passou a fazer parte de nossa paisagem e de nossas vidas. Mais que isso: a Paralela, hoje, nos oferece um retrato perfeito de Salvador.

A começar pelas construções religiosas. Temos a Igreja da Ascensão do Senhor, no Centro Administrativo. Mas temos, também, um templo evangélico. E diversos terreiros de candomblé, que se concentram na Invasão das Malvinas, também chamada Bairro da Paz. Terreiros pra tudo quanto é gosto, por sinal. E que se declaram de diversas “nações”: angola, ijexá, jeje, keto, etc. Até a umbanda se faz presente, no Centro Espírita Caboclo Tumba Jussara, na 7ª. Travessa Ubatã, número 12.

Vemos, na Avenida Paralela, os extremos reais e vitais desta nossa cidade. A sede administrativa estadual, com todas as suas muitas secretarias, e o comércio de “crack” e cds piratas. O prédio da Odebrecht, as jovens prostitutas e a favela sinuosa, com seus becos quase sempre perigosos. Um bairro confuso, cervejeiro e ruidista como o Imbuí. A revendedora de automóveis de luxo e a oficina furreca, reciclando fuscas. As novas faculdades particulares – que mais sugerem “shopping centers” supostamente pedagógicos – e o analfabetismo. Projeta-se um condomínio caro ao lado de um conjunto habitacional classemediano e perto de barracos precários, que se esforçam para se manter de pé.

Enfim, a Avenida Paralela, hoje, é um retrato concentrado de Salvador. Da vida atual da cidade que, bem ou mal, se metropolizou. Girando entre os camelôs do Iguatemi e os absurdos visuais de Lauro de Freitas, antiga Santo Amaro do Ipitanga.

É um espaço que fervilha e esfervilha, durante todos os dias da semana, entre passarelas, táxis, indigentes, engravatados, policiais, lojas, sobrelojas, sublojas e postos de gasolina, que se revelaram bares da madrugada, com seus cheiros e sons intoleráveis.

Acho que nossos jovens estudiosos e pesquisadores, economistas, sociólogos e antropólogos têm ali um prato feito. Mas não só para “cientistas sociais” – também para jornalistas, cineastas, etc.

Na verdade, a Avenida Paralela se converteu num segmento urbano altamente privilegiado para quem se disponha ao chamado “trabalho de campo”. Para quem queira ver de perto o que é, de fato, Salvador. Ou no que ela se transformou. Porque esta cidade não se resume à praia, nem se circunscreve ao seu centro histórico. É muito mais fragmentada e fragmentária do que nós, com todos os nossos clichês e estereótipos, costumamos imaginar.



Grupo A TARDE

empresas do grupo

jornal a tarde | a tarde online | a tarde fm | agência a tarde | serviços gráficos | mobi a tarde | avance telecom | massa!

iniciativas do grupo a tarde educação | a tarde social


Rua Prof. Milton Cayres de Brito n° 204 - Caminho das Árvores - Salvador/BA, CEP-41820570. Tel.: 71 3340-8500 - Redação: 71 3340-8800


Copyright © 1997 - 2010 Grupo A TARDE Todos os direitos reservados.