Archive for novembro, 2009


SALVADOR E A CONFERÊNCIA DA LOBA

posted by Jary Cardoso @ 1:35 PM
30 de novembro de 2009

Ilustração de CAU GOMEZ

de LOURENÇO MUELLER*


Até a primeira metade do século passado o Brasil poderia ser caracterizado como um país predominantemente rural. Com o surgimento de uma indústria geradora de emprego intensificou-se o processo de migração campo-cidade que mudou o perfil ocupacional do território e hoje o país é urbano (81% da população, no ano 2000, já moravam em áreas urbanas).

Constituições anteriores a 1988 não legislaram sobre cidades, a não ser determinar a construção da capital no centro oeste. A chamada Constituição Cidadã o fez, em apenas dois artigos (182 e 183) que foram desdobrados no chamado Estatuto da Cidade (Lei 10.257/2001) e que se constituiu na primeira abordagem legislativa sobre o urbano.

Esse estatuto de inspiração democrática e participativa legifera sobre a criação de conselhos de cidade.

As prefeituras municipais de todo o Brasil estão se mobilizando para participar da 4ª Conferência das Cidades (etapa municipal) e pretendem chegar a Brasília, em maio de 2010, para beber o “elixir” que resolverá a cidade brasileira. A de Salvador será agora, 1º e 2 de dezembro.

Feito esse introito, pergunto:

Que cidade queremos?

Queremos a continuidade dos vícios, equívocos, violência, pobreza, burrice e injustiça social que tumultuam cada vez mais as grandes cidades brasileiras?

Ou devemos construir uma nova matriz urbana com estratégias e ferramentas apropriadas para programar novos paradigmas da urbanidade?

Nesse caso, como garantir o mínimo direito ao cidadão, cuja representação está tão diluída entre os delegados participantes?

Vocês lembram de Leonardo di Caprio (em Titanic) na proa do navio, a quilha cortando ondas oceânicas e ele debruçado sobre o mar gritando eu sou o rei do mundo? Em inglês é mais forte, lembraram? Pois deveria ser esse o espírito da coisa. Abaixo a mediocridade, queremos ondas oceânicas. Abaixo essas discussões menores que garantem apenas o nada. Queremos mais!

Queremos a cidade exposta em suas entranhas, esta cidade que é cortesã e… o seu avesso, mãe-loba.

Este é o âmago da questão. Não são representantes burocratas ou líderes de associações passando horas a defender um pedacinho de poder na república. Esse formato é o que está aí, dominado pelos que têm poder real, os que conduzem o ‘sistema’ (aspas pela nomenclatura antiga) por onde querem e lixe-se a cidade, transformada num barquinho a remo na beira da baía…

A cidade tem que ser aquele Titanic e nós, cada um de nós, a gritar com todos os poros como sonhamos e queremos esse navio, para onde ele vai e como vai: o rei do mundo, o cidadão.

Há gente esperando ‘contribuições’ que apenas levam o barquinho de volta à praia com um balde cheio… de sardinhas. Nos tempos do PDDU disseram: “Fizemos plenárias, tantas pessoas participaram, debateram, cumprimos as exigências do Estatuto da Cidade”. E aprovaram, na noite calada, as emendas que quiseram.

Será a mesma coisa? Os conselhos urbanos vão sair do papel? Ou será que tudo não passará de arregimentação inócua para garantia de um discurso efêmero e manutenção da mesmice?

Não deixem. Delegados de Salvador, uni-vos!

Que os coordenadores não permitam que isto acabe em mais um espetáculo para os tolos. É o mesmo que se preocupar com a cor da escama do couro do dragão quando este exala suas labaredas próximas ao nosso rosto, prestes a nos cremar vivos.

Metafórico? Pois sim: é discutir o buraco da calçada quando os verdadeiros vilões estão sendo vomitados aos milhões pelas montadoras que se lixam para a trama urbana insuficiente, para o trânsito estagnado que nos estressa a todos e muito mais aos pobres que não têm ar condicionado, som ou DVD nos ônibus.

O ‘sistema’ pensa: eles gostam de possuir sua carruagem de lata, faz com que se sintam incluídos; e mais consumidores se enforcam ao longo de quatro, cinco anos pagando aquela maldição urbana e os juros do financiamento, esses com ipêí, claro, pois os banqueiros têm lá o seu direito a orgasmos.

Não deixem, Delegados, não deixem!…


Lourenço Mueller é arquiteto e urbanista

muellercosta@gmail.com



CARYBÉ, VERGER E CAYMMI – MAR DA BAHIA

posted by Jary Cardoso @ 1:50 PM
28 de novembro de 2009

A Fundação Pierre Verger, a PricewaterhouseCoopers (PwC) e a Solisluna Design Editora vão lançar, em Salvador, o segundo livro da trilogia Entre Amigos, Carybé, Verger & Caymmi – Mar da Bahia, no dia 2 de dezembro, às 19h, no Palacete das Artes, em Salvador (BA). O livro celebra a arte e, sobretudo, a grande amizade entre esses personagens e criadores do século XX que escolheram a Bahia e o jeito de viver de sua gente como motivo e cenário para suas obras.

O mar da Bahia foi o grande inspirador, quiçá uma fonte de encantamento determinante para as artes, odes de amor à terra e ao povo baiano dessas três personalidades de origens distintas, mas com olhares e percepções convergentes: o fotógrafo e pesquisador francês Pierre Verger; o argentino-baiano pintor de múltiplos fazeres Carybé e o músico baiano, também pintor nas horas vagas, Dorival Caymmi.

É um orgulho e uma honra apresentar esse trabalho sobre os três baianos fundamentais que desenharam, fotografaram e cantaram a Bahia de uma forma indelével – afirma Gilberto Sá, presidente da Fundação Pierre Verger.

Em Carybé, Verger & Caymmi – Mar da Bahia, o leitor irá perceber o colorido das fotos em preto e branco da velha rolleiflex do gênio Verger, bem como toda a riqueza dos traços singulares de Carybé, prenhes de movimento e poesia que retratam o cotidiano da época em que as velas dos saveiros enfeitavam o azul das águas da Baía de Todos os Santos e ainda se presenciava a pesca do xaréu nas praias do litoral norte da histórica Salvador. Tudo isso embalado pelas magníficas canções praieiras de Caymmi, poesia pura na sua voz grave e num violão com sonoridade de ondas na praia.

Não é um livro de arte, e sim da amizade entre três artistas – define bem o editor Enéas Guerra, idealizador da publicação da série Entre Amigos e responsável pela concepção, edição e design do livro.

Do ponto de vista editorial, o texto indica os caminhos que levarão o leitor ao encontro dos três personagens e suas criações em torno da magia do mar.

A ideia do escrito é incitar o leitor a vivenciar como foi a intensa relação entre eles e relatar, de forma leve e bem humorada, os encontros, as curiosidades e os olhares convergentes destes símbolos da baianidade – conta o jornalista José de Jesus Barreto[*], autor do texto que é fundamentado em pesquisas do acervo da Fundação Pierre Verger, da família Carybé, entrevistas e depoimentos.

Capa do livro “Carybé, Verger & Caymmi – Mar da Bahia”

O diálogo das imagens captadas pela rolleiflex de Verger e pelos traços de Carybé, produzidos entre os anos 40 e 60 do século passado, está cerzido pelos poemas de Caymmi.

O pescador cantado por Caymmi é o mesmo fotografado por Verger, desenhado por Carybé. Os saveiros que chegam e saem do cais e rasgam as águas da baía, as festas para Iemanjá, o Bom Jesus dos Navegantes e Nossa Senhora da Conceição da Praia servem de inspiração para as canções-poemas, as pinturas e as fotos dos artistas – conteúdo desse trabalho.

O mar é o caminho, elo, destino e musa. O livro pretende ser uma celebração de amizade e da criação deles diante dos mistérios do reino de Iemanjá.

Como o primeiro volume Carybé & Verger – Gente da Bahia, lançado em 2008, o volume dois Carybé, Verger & Caymmi – Mar da Bahia é um projeto editorial da Solisluna Design Editora e Fundação Pierre Verger, que contou, desta vez, com o apoio da PricewaterhouseCoopers. A concepção, edição e design ficaram a cargo de Enéas Guerra e Valéria Pergentino. A redação do texto é de José de Jesus Barreto.

A apresentação musical de Marilda Santana cantando canções compostas por Dorival Caymmi vai embalar o lançamento do segundo volume. O evento terá a presença ilustre da esposa de Carybé, Nancy Bernabó, e seus filhos Solange e Ramiro, além do sócio-presidente da PwC, Fernando Alves, e do presidente da Fundação Pierre Verger, Gilberto Sá.

O livro estará à venda em todas as livrarias do Brasil por R$ 90, porém no dia do lançamento sairá pelo preço promocional de R$ 70.

No dia 9 de dezembro, será a vez de São Paulo lançar a obra, na Livraria da Vila, no Shopping Cidade Jardim, às 19h30. O terceiro livro desta Trilogia já está confirmado para o ano que vem e terá como tema o Candomblé.

A Baía de Todos os Santos desenhada por Carybé e fotografada por Verger, nas páginas 30 e 31 do livro que será lançado em Salvador nesta quarta-feira 2 de dezembro e em São Paulo uma semana depois, no dia 9

O encontro

Salvador é uma cidade-porto, eterno cais. Tanto geográfica quanto historicamente, esta Cidade da Bahia é filha do mar, nele foi gerada. Construída e fundada sobre uma nesga de terra que adentra o oceano, no abrigo das águas mornas da Baía de Todos os Santos, a cidade tem suas portas abertas para o Atlântico.

Nessa terra, o mar é começo de tudo, caminho sem fim, poço de fartura, infinito azul de mistérios, tormentas, magia e beleza. O povo desse pedaço de mundo foi gerado e forjado, por séculos, na quentura, no aconchego e rebuliço de suas águas.

Na década de 30 do século XX, o jovem mulato Caymmi pegou um Ita no porto de Salvador e foi parar no Rio de Janeiro, a capital cultural e política do país, no intuito e sonho de cantar o mar, as coisas de sua terra e o jeito de sua gente. Carybé conheceu Caymmi no final dos anos de 1930, no Rio. Verger conheceu Carybé em 1946, também no Rio. O interesse comum pelas coisas da Bahia e o amor ao belo os uniram.

Em Salvador, no final de 1946, o fotógrafo Verger e o músico Caymmi se encontraram diante da luz e do intenso azul do mar. Os três, amigos, irmãos baianos confirmados no Ilê Axé Opô Afonjá, o terreiro keto-nagô de São Gonçalo do Retiro, reino de Xangô, acolhidos por Mãe Senhora, e depois por Mãe Stella de Oxóssi.


*NOTA DO EDITOR – O autor do texto dos dois primeiros livros da série Entre Amigos é o nosso zédejesusbarrêto, conselheiro editorial e colaborador do blog Jeito Baiano.


[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=5R24xVRhU4s&hl=pt_BR&fs=1&]


RÉQUIEM DO ESTÁDIO DA FONTE NOVA

posted by Jary Cardoso @ 5:30 AM
26 de novembro de 2009

Estádio da Fonte Nova. Foto: FERNANDO VIVAS | Agência A Tarde

por zédejesusbarrêto


Há dois anos aconteceu o trágico acidente num naco de arquibancada da Fonte Nova e o estádio foi fechado e abandonado. Nenhuma vida por lá. O gramado está crescido e cheio de praga, o mato desponta sadio nas frestas do cimento, as traves enferrujam, as dependências estão deterioradas… Desperdício de equipamentos e do dinheiro público.

Na dor dos acontecimentos, como a justificar o desleixo com a manutenção, tudo foi condenado. Num repente, nada ali mais prestava pra nada. Seria preciso implodir, já, demolir pedra por pedra, deletar da memória o velho “Octávio Mangabeira”, a Fonte Nova, templo maior do nosso futebol. Uma era (1951/2007) a ser apagada, riscada do mapa, rasgando-se páginas da história.

Foi decretada a morte da Fonte Nova e de tudo e todos os que giravam em torno de seus espetáculos, de sua pujança: os torcedores, os guardadores, ambulantes, vendedores de camisetas, bonés, bandeiras, churrascos, picolés, roletes, amendoins, os bares, as rodas de cerveja, os encontros, o alarido, a procissão, as cores, os hinos, a disputa, o louvor, as lágrimas, o gol!!!… Tudo! Acabou.

Nada para ser respeitado, nem a poesia de sua ferradura aberta diante do dique dos Orixás, nem a estátua do semi-deus Pelé, nem a alegria do povo. Lacra-se o Balbininho de vez, não presta nem prum baba, treino dos meninos das escolas públicas. Fecham as salas de aula, os cursos, desalojam tudo. Condenação! Uma assombração que deve ser esquecida para sempre!

Ah, restaram as piscinas olímpicas! Pois que sequem suas águas, entupam, destruam.

No entorno do velho e imponente estádio, só a solidão, o abandono dos miseráveis! Apenas. Ao longe, a dor pelos que sumiram no buraco da ganância e da incompetência, naquele dia. Ninguém foi punido. Aliás, perdoem-me: Foi punida a cidade amada. A Bahia, seu povo, amante da bola, esse símbolo maior do Deus-todo-poderoso e criador, sem princípio nem fim.

O que vai acontecer com o espaço da Fonte Nova? Quem sabe um “arenão germânico” para a Copa 2014, conforme as conveniências eleitoreiras? Mas isso é outro negócio, delírios, bilhões, olhos gordos… E haja cascalho para entupir lagoa, haja tijolo pra cimentar interesses.

zédejesusbarrêto, jornalista

25nov2009




Grupo A TARDE

empresas do grupo

jornal a tarde | a tarde online | a tarde fm | agência a tarde | serviços gráficos | mobi a tarde | avance telecom | massa!

iniciativas do grupo a tarde educação | a tarde social


Rua Prof. Milton Cayres de Brito n° 204 - Caminho das Árvores - Salvador/BA, CEP-41820570. Tel.: 71 3340-8500 - Redação: 71 3340-8800


Copyright © 1997 - 2010 Grupo A TARDE Todos os direitos reservados.