Archive for dezembro, 2009


BAIANICES DA VIRADA – zédejesusbarrêto

posted by Jary Cardoso @ 11:00 PM
31 de dezembro de 2009

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Sobre as ondas

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A fila do ferry foi pra lá de Roma. Rodoviária loucura. Voos atrasados. Hotéis lotados. Todos querem ir. E você vai pra onde? Um tumulto na BR-Brasilgás a cada parada de buzu. Todos precisam pongar.

Do Natal até o fim do ano aconteceram mais de 100 assassínios na Bahia. Nunca se viu. O governo diz que vem mais viatura, mais armamentos, que a guerra é tirana, e tome-lhe bala.

É preciso comprar, comer, beber, dançar. Temos ânsias de festança. Vai buscar… correndo! E ligeiro.

Tão sós, seguimos em bandos, aos soluços (vômitos?), sob os estímulos vigentes, no ritmo que ecoa.

Filas, correria, estresse, euforias, foguetes, champã, regalos, procuras, desejos, promessas, (des)encontros… Quero mais, não há tempo de temer a sorte.

Quero mais… é só o começo, vem aí muita festa, carnaval.

É só quentura, barril!

Tribais rituais. Celebramos o quê? O gregário humano.

Gosto de perigo no ar, aquele travo de felicidade, coletivo.

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É noite.

Pés descalços na areia úmida que reflete o dourado da lua cheia, brinco de seguir sozinho pisando nos bordados das franjas brancas que as ondas vindas do mar escuro vão desenhando na praia. Tantos!

De longe, o rumorejar das águas, um pulsar profundo que se espraia como um expirar cansado.

Belo, sedutor.

É necessário ouvir as canções do mar.

O que nos dizem as águas.

Bença mãe.

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(31dez/2009)

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Agulhadas na fé

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O cardeal arcebispo primaz do Brasil, Dom Geraldo Majella, autoridade maior da Igreja Católica Apostólica e Romana, na Bahia, foi visitar no hospital o menino agulhado pelo padrasto.

O ato de enfiar cerca de 30 agulhas numa criança de dois anos chocou.

Entendo que por ignorância (inexplicável, no caso) o noticiário falou de um ritual religioso, de participação de uma rezadeira ou mãe-de-santo, coisa de magia-negra.

O noticiário televisivo, mal informado ou de má fé, também chocou.

Não existe religião verdadeira que pregue ou faça o mal’, disse o cardeal.

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MÃE STELLA DE OXÓSSI – Foto de MARGARIDA NEIDE | Agência A Tarde

Mãe Stella de Oxóssi, ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, tradicional terreiro de candomblé de nação keto/nagô fundado por Mãe Aninha em 1910, também falou com autoridade e serenidade de sacerdotisa:

O candomblé, religião dos Orixás, não faz mal às pessoas. Nosso compromisso é com o bem e a verdade. Cuidamos o espiritual’.

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Mãe Stella deixou claro que esse fato, chocante, não tem qualquer ligação ou referência com a crença nos Orixás. Dela é a mensagem, que deve ser refletida sobretudo pelos responsáveis pela comunicação, pela informação:

No candomblé não existem esses tipos de rituais com agulhas, nem existe magia negra na religião. O próprio termo já é preconceituoso”.

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A Ialorixá ainda está perplexa com a invasão do centenário terreiro de São Gonçalo do Retiro, numa noite desse dezembro que se finda, por um grupo de vândalos que fizeram um arrastão, invadiram locais sagrados, derrubaram portas, profanaram espaços e objetos do culto, saquearam casas… A roça do Afonjá é uma comunidade.

Quem terá sido? Voltarão na madrugada escura?

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O povo-de-santo da Bahia merece respeito.

E proteção. Cuidados.

Terreiros são locais sagrados.

Como são as catedrais, as sinagogas, as mesquitas…

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Que seria da Bahia, nossa Mãe Preta, não fosse seu povo-de-santo?

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Dois mil e dez me chama.

Acudam.

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(zedejesusbarreto / 31 dez 2009)

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CRISE URBANA E CRISE DO ESTADO

posted by Jary Cardoso @ 7:08 PM
27 de dezembro de 2009

Ilustração de CAU GOMEZ

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texto de PAULO ORMINDO DE AZEVEDO*

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O que iguala um operário e um empresário em dia de chuva em Salvador? A incerteza da hora que vai chegar à casa, o medo de um assalto no engarrafamento e a esperança de não encontrar o fogão ou o BMW flutuando na garagem. Esta perda de qualidade de vida é o retrato da desconstrução do setor público na Bahia. O “estado mínimo” acabou se transformando em “estado zero”.

Com raras exceções não existem mais corpos técnicos na prefeitura e no estado capazes de formular políticas públicas, redigir termos de referência e programas de obras ou avaliar os presentes de grego das empreiteiras. Os técnicos se aposentaram ou foram demitidos para serem substituídos por gestores partidários. Os poucos que restam são marginalizados.

Por esta razão, não temos políticas de estado, nem memória institucional, só ações circunstanciais, de curto prazo, eleitoreiras. O vácuo e a desarticulação são os mesmos na economia, infraestrutura, habitação, educação e saúde.

Enquanto o Rio e São Paulo debatem estratégias de desenvolvimento e capacitam seus gestores em fundações como Getúlio Vargas e Casa de Ruy Barbosa; Minas o faz na Fundação João Pinheiro e Pernambuco na Joaquim Nabuco, nós não possuímos centros de pensamento nem capacitação. Criou-se entre os nossos políticos a ideia de que o saber e a técnica só atrapalham, que progresso se conquista com concreto e ferro e o resto é blá-blá-blá.

A medida do desapreço dos nossos dirigentes pelo saber se mede pelo fato de só atrairmos duas universidades federais para a Bahia, enquanto Minas Gerais tem nove.

Mas já tivemos políticos mais sensíveis. Salvador teve, no início da década de 1940, o Epucs (Escritório do Plano de Urbanismo da Cidade do Salvador), equivalente do Ippuc de Curitiba, que colocou aquela cidade como referência mundial em gestão urbana. Foram as avenidas de vale do Epucs que catapultaram ACM ao governo do Estado, mas poucos se lembram.

Na mesma época, possuíamos um centro de referência de engenharia, o Derba, hoje reduzido a pó. No início da década de 60, tivemos a CPE (Comissão de Planejamento Econômico), de Rômulo Almeida, responsável pelos únicos projetos públicos de industrialização da Bahia, o CIA e o Copec. De lá para cá nada. O ISP-Ufba trabalha hoje mais para outros estados, empresas privadas e municípios que para o governo da Bahia.

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Sem projetos,os governos estadual e municipal são meras instâncias reativas (…) O resultado é um passivo de custosas obras desarticuladas”

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Sem planejamento nem projetos, os governos estadual e municipal não têm mando, são meras instâncias reativas, homologadoras de projetos do empresariado, num ritual que passa pela adoção de projetos carimbados, doação de terreno e infraestrutura, financiamento e isenções fiscais, sem nenhuma discussão com a sociedade ou avaliação do custo/benefício.

O resultado disto é um passivo de custosas obras desarticuladas, sem sustentabilidade, ou paralisadas, como o CAB, Aeroclube, VLT (veículo leve sobre trilhos), Metrô Rótula do Abacaxi, shopping Pelourinho, Via Náutica e viadutos que não levam a nada.

Se a gestão da Bahia e a de Salvador estão mal é consequência de uma crise maior. Nosso quadro político atual é formado pelos netos de interventores de Vargas e da ditadura de 64, por emergentes religiosos e sindicais, todos sem projetos, que se odeiam mutuamente, mas estão atados entre si pelas teias do poder.

Por falta de entendimento e planejamento não temos uma economia forte, não atraímos investimentos, não potencializamos a RMS (Região Metropolitana de Salvador) ou reduzimos a obesidade mórbida de Salvador.

O sintoma mais eloquente dessa doença é a incapacidade do estado e da prefeitura de elaborarem um projeto urbano para 2014 e transformarem a recuperação de um estádio em uma trapalhada local, nacional e mundial.

Não é, portanto, surpresa que o IBGE constate que Salvador tem o penúltimo PIB (Produto Interno Bruto) per capita do País, perdendo apenas para a pequenina Teresina. Por falta de uma política metropolitana, municípios riquíssimos, como São Francisco do Conde, primeiro no ranking nacional de PIBs, não têm nada e Candeias é um favelão. E que um cidadão capixaba tenha seis vezes mais renda que um baiano.

Neste ano novo, desejo ao povo baiano que eleja um governo que desprivatize e restaure o setor público, para que possamos voltar a ter um rumo e crescer.

 

*Paulo Ormindo de Azevedo – Presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) – Departamento da Bahia

NOTA DO EDITOR – Paulo Ormindo tem dado importantes contribuições para o debate sobre o abandono em que se encontra a Cidade da Bahia. Alguns de seus artigos originalmente publicados no jornal A Tarde têm sido reproduzidos aqui e o mais acessado deles, Salvemos Salvador enquanto é tempo, está no post abaixo:

http://jeitobaiano.atarde.uol.com.br/wp-content/uploads/2009/07/24/salvemos-salvador-enquanto-e-tempo/


BAIANICES POÉTICAS de zédejesusbarrêto

posted by Jary Cardoso @ 6:35 PM
27 de dezembro de 2009

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Natais envilecidos

Sombrios natais envilecidos

Quieto-me só, envelhecido

No remexer das águas

no sem tempo do silêncio

(ou seria o silêncio do sem tempo?)

Mergulho em águas turvas

E às vezes pesco piabas

letradas, sonoras, sentidas…

Essas, tarrafeei há pouco,

estão bem fresquinhas…

Gostas de dendê?

Então prova!

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Leis

… pero,

No me gustan las leyes!

A começar pela Lei da Gravidade

que nos torna bicho de chão, feito formiga.

Não fosse tão grave a Gravidade…

e já teríamos mais parte com os pássaros,

beirando a anjo.

A humanidade é barro

Pó.

Ah! leis, dogmas, domínios …

O humano é tãão

só!

(pensamentando com Jorge Mautner)

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Espelhoso

No espelho nos assombramos!

Ainda bem que não somos

aquilo que aparentamos!

Pensamos.

E se fôssemos como nunca fomos?

Melhor seria, convenhamos.

(zédejesusbarrêto, fim de dez/2009; Santo Amaro de Ipitanga)

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O fecho de luz é de Cecília, a Meireles:

Tanto que fazer!

E fizemos apenas isto.

E nunca soubemos quem éramos,

Nem para quê.’

(1954)

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