Archive for dezembro, 2009


GLAUBER REVISITADO

posted by Jary Cardoso @ 5:23 AM
26 de dezembro de 2009
Ilustração de CAU GOMEZ

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texto de JC TEIXEIRA GOMES*

 

Documentários em geral são relatos de fatos projetados no tempo. Narram detalhes de acontecimentos passados e trechos de vidas. Raros são os que transcedem a condição narrativa, para alcançar a dimensão poética. E foi isto justamente que Paula Gaitán obteve, ao focalizar no belíssimo filme O Diário de Sintra o final da vida do seu marido famoso, o cineasta Glauber Rocha.

Paula Gaitán foi a última mulher de Glauber e com ele teve dois filhos, Ava e Erik. Era colombiana. Glauber, amoroso incorrigível, embora fiel e não leviano, teve no curso da sua curta vida um harém internacional de belas fêmeas, que incluiu ainda, além da colombiana Paula, a cubana Silvia, a francesa Juliete e várias brasileiras.

A todas amou com devoção e tumulto, pois, tal como em seus filmes vulcânicos, o amor era para ele uma fonte de perturbação e tormentos. Toda a sua vida foi um exercício continuado de anseios descontrolados, infindáveis experiências emocionais e estéticas, a tentativa do impossível equilíbrio, margeando o apelo fascinante dos abismos.

De um modo geral, Glauber não conheceu o repouso. Mas houve uma fase menos frenética da sua vida – a última, bem próxima da morte que começou a golpeá-lo em Portugal, minando-lhe o organismo debilitado pelas paixões e pelas drogas, para completar a sua faina fatal no Brasil, para onde veio já sem esperanças. Essa fase é precisamente o objeto do documentário de Paula Gaitán, ou seja, o tempo final de Glauber Rocha, definhando lentamente no exílio da pacata cidade lusa de Sintra.

Paula não foi mulher de Glauber por acaso. Ele era bastante seletivo na escolha das suas companheiras. Era preciso que entre ambos houvesse aquelas “afinidades eletivas” a que se referiu o poeta Goethe em livro famoso. As mulheres glauberianas eram, como ele próprio, arrebatadas, temperamentais e sensíveis. Tinham de privilegiar, além do fogo das paixões descontroladas, a visão estética da vida, fruída com a emoção das descobertas que não se repetem. Pois foi precisamente essa sensibilidade que levou Paula Gaitán a realizar em Diário de Sintra um dos mais envolventes documentários já produzidos pelo cinema brasileiro.

O que vemos na tela não é o registro linear de uma vida em plenitude, mas a realidade fragmentada de uma existência já em declínio. Uma vida, em suma, desfrutada em recolhimento na placidez de uma pequena cidade em que era doce viver com a mulher e os filhos, pois o tumultuário Glauber era, basicamente, uma homem da família e da amizade. A lição do amor e da solidariedade tinha muito a ver com a sua formação de presbiteriano e devorador da Bíblia, mas, acima disto, era decorrência do seu fascínio pela condição humana e do seu senso ético de companheirismo.

Paula narra os últimos dias da vida de Glauber reunindo diante da câmara fatos isoladas do seu tempo final, fotos graves de um homem que se aproxima do fim, fragmentos de cenas com a família, do enlevo com os filhos, depoimentos de pessoas simples do povo que mal conheciam o cineasta ou o confundiam com artistas portugueses, sempre tão tenso e barbado, tudo, enfim que se mistura com o encanto de uma paisagem rural ou das ruas tortuosas da velha Sintra, que ele gostava de percorrer.

Saltam às vezes da tela frases fortes de Glauber sobre o destino do homem e seus compromissos políticos, o senso revolucionário das transformações e mudanças sociais, o destino regenerador do cinema e da arte. Em Portugal, ele já havia filmado e tomado inúmeros depoimentos sobre a Revolução dos Cravos, que encerrou o ciclo histórico do salazarismo reacionário, convivendo com a fase negra de uma Europa dominada pelas ditaduras. O seu papel de agitador das imagens é ressaltado pelo testemunho de intelectuais portugueses, que com ele compartiam ideais revolucionários. Mas não há propósitos de proselitismo. Apenas o registro dos fatos de uma vida dedicada até o fim à missão de usar o cinema com função renovadora. Certamente só uma devotada elite pôde entender o papel da sua linguagem de vanguarda, mas foi com isto, precisamente, que a filmografia de Glauber Rocha construiu a sua grandeza, para além dos condicionamentos temporais da sua mensagem política, todavia permanente, porque libertária.

*JOÃO CARLOS TEIXEIRA GOMES, o JOCA, jornalista, escritor, é o autor, entre outros livros, de Glauber Rocha esse vulcão (Editora Nova Fronteira)


NÃO COMEMORE O NATAL

posted by Jary Cardoso @ 11:00 PM
24 de dezembro de 2009

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texto de JORGE PORTUGAL*

Peço que por uns segundos você esqueça o Shopping Iguatemi, o panetone (epa!), a árvore enfeitada, a mesa farta, o abraço protocolar dos parentes e me responda: o que se comemora mesmo no dia 25 de Dezembro?

Se não me engano é a data presumível do nascimento de uma criança paupérrima, cuja trajetória neste mundo pode ser resumida em uma frase que a tal criança, uma vez adulta, vivia repetindo: “ama o teu próximo como a ti mesmo”.

Se essa frase tivesse sido levada a sério, ao longo desses dois mil e nove anos poderíamos ter evitado um mar de sofrimento e clamor que marcou e tem marcado a presença humana no planeta: cruzadas assassinas, grandes guerras mundiais, escravidão de negros africanos, racismo de todas as formas, fome, miséria e aquecimento global.

Se a humanidade ocidental-cristã tivesse realmente aquela criança na conta de um deus, certamente que nem precisaria escrever leis absurdas, impor regras e limites de convivência, erguer “cercas embandeiradas que separam quintais” e outras complicações que estarrecem e empobrecem a vida. Bastaria ter o Sermão da Montanha como fonte de inspiração e orientador de condutas.

Mas a verdade é nunca demos a menor bola para o que o nosso aniversariante fez ou propôs. Montamos uma forma de viver, por essa banda do mundo, que corresponde exatamente ao contrário das suas melhores ideias. Construímos templos suntuosos para abrigar as correntes religiosas que fundamos e temos fundado, em nome de uma certa fé nesse homem que achamos ser Deus. Acontece que ele nunca pediu nada disso e até repudiava os que transformavam casas de oração em casas da moeda.

Inventamos e sustentamos milhares de padres e pastores que se arrogam professadores e exegetas da mensagem do “cara” e o fazem… da boca pra fora!

Por esses últimos dias, tivemos notícia de morte e desespero pelas chuvas de São Paulo, cenas explícitas de corrupção por bandidos de Brasília e do fracasso de Copenhague, cujos líderes, na sua maioria autointitulados “cristãos”, resolveram apressar, por simples egoísmo, a morte do planeta.

Por isso, se você se encaixa em alguma das categorias acima descritas, por favor, seja coerente e verdadeiro com você mesmo(a): no dia 25, não comemore o natal.

*Jorge Portugal – Educador e poeta

secretaria@jorgeportugal.com.br

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NOTA DO EDITOR – A respeito de Jorge Portugal temos novidade. O grande poeta e educador santamarense, apresentador do ágil e cativante programa educativo e cultural “Aprovado!”, da TV Bahia, inicia nova fase na vida. Ele agora se prepara para entrar em rede nacional da TV Brasil para animar – com seu jeito especial de ser baiano – um programa semelhante e mais amplo, “Tô Sabendo”.

Vejam o belo recado que Jorge Portugal deixou para seus colegas de trabalho na TV Bahia e também para os convidados e espectadores do Aprovado!:

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COMPANHEIRO(A)S DE MUITAS VIAGENS:

No próximo sábado [26.12.09], despeço-me da condição de apresentador do programa APROVADO!

Durante nove anos, transformamos as manhãs de sábado em manhãs de praia, descanso e… conhecimento. Continuarei, no entanto, como consultor de conteúdo e passarei a apresentar um quadro de muitas viagens pelo universo da cultura.

O outro lado da notícia é que estou partindo para uma experiência nacional, com um programa na TV Brasil, que deve estrear (se Deus quiser!) no dia 23 de janeiro próximo.

Será o “Aprovado” para todo o país, com o nome de TÔ SABENDO.

Agradeço a todos vocês que nesses nove anos foram, convidados, iluminadores, conselheiros e audiência de uma experiência pioneira e bem sucedida, no campo da educação, na TV brasileira.

Um abraço Aprovado!

Jorge.

Peço, agora, que leiam e reflitam um pouco sobre o meu artigo abaixo [*] , publicado na última terça-feira no jornal A Tarde.”

[*] Na edição deste post, o artigo “Não comemore o natal” ficou acima, não abaixo.

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SAIBA MAIS SOBRE JORGE PORTUGAL – O compositor de A Massa, canção feita em parceria com Raimundo Sodré, grande sucesso no país no começo dos anos 1980, vai entrar em rede nacional de TV, mas na internet ele já pilota uma rede digital de educação através do site http://www.redeeduca.com.br/.

Jorge Portugal possui ainda um site oficial em forma de blog:

http://www.jorgeportugal.com.br/blog/

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=m_Vs77yZy9w&hl=pt_BR&fs=1&]

A Massa é de 1980. Agora vejam outro sucesso de Jorge Portugal como compositor, este em parceria com seu conterrâneo Roberto Mendes, Caribe, Calibre, Amor, de 1985:



[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=5vmCOIC69TI&hl=pt_BR&fs=1&]

Caribe Calibre Amor

(Roberto Mendes – Jorge Portugal)

Amar anima

Amar ânima

Amaralina

Amar é anilina

Amar é nina

É maré menina

Hum amar é ímã

Mamar é amar

Batuque toque

De nego nagô

Sawoodstock

A cor dar a cor da cor

“Chose de loque”

Cor de rosa choque

Aqui jazz o rock

Derradeira dor

Cuba Bahia

Caribe calibre amor

Vodu magia

CaraHavana Salvador

A utopia guerrilhalegria

Nossa fantasia

Vem da mesma dor


CAU GOMEZ: NÃO AO ASSISTENCIALISMO

posted by Jary Cardoso @ 10:31 PM
24 de dezembro de 2009

CAU GOMEZ

As doações nas sinaleiras só contribuem para reproduzir o quadro de pobreza, porque comprometem o avanço da escolaridade”

A frase é do secretário do Trabalho, Assistência Social e Direitos do Cidadão da Prefeitura de Salvador, Antonio Brito, e foi extraída de seu artigo “Assistencialismo agride a cidadania”, publicado no jornal A Tarde de 23.12.2009 e ilustrado pelo desenho acima, de autoria de Cau Gomez.

Nessa mesma quarta-feira, o mineiro Cau Gomez recebeu, junto com seu colega de Redação, o cubano Osmani Simanca – ambos chargistas e ilustradores –, o Título de Cidadão da Cidade do Salvador, na Câmara de Vereadores.

Os dois, mais o soteropolitano Bruno Aziz (outro artista gráfico do mesmo jornal) mantêm o blog O FERRÃO DO HUMOR – http://oferrao.atarde.com.br/ –, de onde foi retirado o perfil de Cau, reproduzido abaixo (o perfil de Simanca já aparece no Jeito Baiano, no post http://jeitobaiano.atarde.uol.com.br/wp-content/uploads/2009/12/19/salvador-ontem-e-hoje-%E2%80%93-por-simanca/).

CAU GOMEZ: Belo Horizonte, Minas Gerais, 1972. artista gráfico, caricaturista e ilustrador. Colabora com a revista Courrier International na França e atua como artista plástico. Conquistou mais de 40 premiações em diversos festivais e salões de humor no Brasil e exterior, dentre eles: Primeiro Prêmio, Portocartoon 2002, Portugal, na Bienal Internacional de Caricaturas y Dibujo Humorístico. Santa Cruz de Tenerife e o prêmio Curuxa na Espanha. Participou de várias exposições coletivas, incluindo a curadoria do 8º RIDEP-Rencontres Internationales du Dessin de Presse, França 2007. Chargista do jornal A Tarde.

Cau também possui um site oficial: http://www.caugomez.com/

[E veja no post imediatamente anterior a este outro desenho genial de Cau Gomez, sobre a violência urbana na Salvador atual]



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