Archive for janeiro, 2010


Pacotes urbanos nos engasgam

posted by Jary Cardoso @ 1:00 PM
31 de janeiro de 2010

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texto de zedejesusbarreto

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Leio, ouço e vejo nas folhas, nos blogs, nas tevês as fotos e animações dos pacotaços de projetos e obras urbanas ‘Salvador Capital Mundial’, coisa nunca vista por essas bandas desde que me entendo por gente. E quedo-me entalado. São viadutos, passarelas, pontes, avenidas, nova zona portuária, outra cidade baixa, parques, requalificações de zonas inteiras, redes integradas de transportes… ufa! Não consegui mastigar tudo, tampouco deglutir, digerir, ruminar…

No ritmo que anda o metrô de légua e meia, pergunto-me feito mineirim desconfiado: ‘Uai, esses terem todo é pra quando?’

E eu, um pacato cidadão, queria só do poder público um tratamento decente para a cidade e seus moradores, com transporte digno, passeios livres, praias e ruas limpas, jardins e monumentos cuidados, lixo coletado todo dia e reciclado, preservação de áreas verdes e nascentes, escola pública de qualidade para todos, postos de saúde atendendo de verdade 24 horas, segurança pra ir e vir sem medo… essas bobagens.

Mas, homi quá! Estão me empurrando goela abaixo um pacote de maravilhas que nunca dantes havia imaginado. Tô assoberbado de tanta grandeza e boniteza que haverei de um dia, Deus querendo, haverei sim de desfrutar. Oh, minha cidade amada!

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E olha que nem chegou o carnaval ainda e, ano de eleição, o pessoal do horário eleitoral gratuito nem começou a imaginar e criar coisas assim bonitas pra entreter a gente com tanta criatividade, mostrando tanta coisa que se fez e muito se irá fazer sem que a gente nem assunte direito, pois é só querer ver, homi creia!

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Bem, se os pacotaços são viáveis ou não, se vão alavancar ou prejudicar as pessoas que vivem na cidade, se vão custar fortunas nunca vistas, se não se sabe bem o custo deles e muito menos quem vai bancar o furdunço todo… Bem, isso são meros detalhes dessa gente do contra, desses atrasados e velhos que nem eu, que nem acreditam mais na força e na capacidade dos grandes líderes desta nação, desta Bahia de Ruy, de JJ Seabra, Mangabeira, Balbino etc… (pra não falar alguns outros nomes agora malditos, Deus é mais e o sangue de Jesus tem poder!).

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Mas, se é tudo pela Copa do Mundo 2010 na Bahia… vou torcer, porque a bola (e as boladas) é poderosa. Vamos entrar nos trilhos, pô! Prometo.

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Trocando de assunto, leio nas folhas que o Forum Social Mundial Temático em Salvador virou um debate ‘chapa-branca’ esvaziado pela ausência do presidente Lula, de nomes internacionais e até de ‘estrelinhas’ menores da esquerda brasileira como o líder Stédile do MST e a ex-senadora Heloísa Helena, ou a candidatíssima do PV à presidência Marina Silva. Cadê?

O Forum, por aqui, teria perdido completamente o seu caráter popular e reivindicatório. Tornou-se um encontro de militantes e sindicalistas, ôba-ôba, de olho das urnas. Quem falou foi a coordenadora de comunicação do evento, Edileusa Vida, explicando a presença massiva de representantes do governo e a ausência de vozes conflitantes:

Muitos ficaram de fora pela falta de peso político, se não têm base política nada posso fazer. Os nomes aprovados são os que possuem uma militância”.

Ah, sim, entendo. Panelinhas à parte, o povão continua pastando… nem chega perto, nem sabe o que está acontecendo nos hotéis e pontos chiques da cidade.

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Lembro-me de um dito que vi escrito nos anos 80 do século passado, nos muros da cidade aflita: ‘Quem milita se limita!’

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A patota militante petista estendeu no bambual que faz o corredor de entrada e saída do aeroporto de Salvador, o Dois de Julho, algumas faixas saudando os participantes do fórum na cidade. Um desrespeito. Às leis municipais, pois ali não se pode estender faixas; ao bom senso e ao meio ambiente, um absurdo; e também um desrespeito à cultura afrobaiana, já que o bambual é um local sagrado, dedicado a Oxalá (o do pano branco), a Oxalufã (o Oxalá jovem e guerreiro que rege o ano de 2010, de acordo com o povo de santo de nação Nagô/Ketu/Ioruba). Mas quem liga pra essas baianices desse povo?

Não basta o vermelho que tanto macula a Lavagem do Bonfim?

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Quanto aos poderes municipais, que deveriam fiscalizar o local e impedir a colocação ou fazer a retirada das faixas no bambual (bambuzal), que podemos esperar? Ora, todos os postes das grandes avenidas da cidade estão apinhados de cartazes/propagandas dos patrocinadores do carnaval e com a marca carimbada da prefeitura. Não notaram?

Vamo que vamo! Tudo é carnaval.

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Releio e medito o poeta Mário Quintana:


Eu nada entendo da questão social

Eu faço parte dela, simplesmente…

E sei apenas do meu próprio mal

Que não é bem o mal de toda gente’

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Ou, quem sabe, melhor é repetir o poeta e filósofo de rua conhecido como Gigica do Maciel:

Salvador não salva ninguém… mas, a Bahia é a Bahia!’

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zedejesusbarreto, jornalista e escrevinhador

29jan/2010.

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MANIFESTO DE APOIO A JOÃO UBALDO

posted by Jary Cardoso @ 11:00 AM
31 de janeiro de 2010

O escritor João Ubaldo Ribeiro, passando férias em Itaparica, ligou para o editor-chefe de A Tarde, o também escritor e poeta Florisvaldo Mattos, e anunciou a vontade de estravasar, em artigo especial para o jornal, a sua indignação com o projeto de construção de uma ponte ligando Salvador à Ilha. O artigo “Adeus, Itaparica” foi publicado no espaço de Opinião no dia 22 deste mês de janeiro.

Nesse mesmo dia reproduzi o artigo aqui no blog Jeito Baiano, post este que foi visto em São Paulo por Claudio Leal, repórter da revista digital Terra Magazine. Claudio Leal mobilizou intelectuais e artistas para uma manifestação de solidariedade a João Ubaldo, do que resultou o manifesto “Itaparica: ainda não é adeus”, reproduzido abaixo, e a criação de um site para quem quiser subscrevê-lo on line.

Links para o artigo de João Ubaldo:

http://jeitobaiano.atarde.uol.com.br/wp-content/uploads/2010/01/22/adeus-itaparica-%E2%80%93-por-joao-ubaldo/

e para a subscrição do manifesto:

http://www.gopetition.com/online/33669.html

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ITAPARICA: AINDA NÃO É ADEUS

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Abaixo-assinado sobre a construção da Ponte Salvador-Ilha de Itaparica

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“Adeus, Itaparica do meu coração, adeus, raízes que restarão somente num muro despencado ou outro, no gorgeio aflito de um sabiá sobrevivente, no adro de uma igrejinha venerável por milagre preservada”

(João Ubaldo Ribeiro)

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Os abaixo-assinados, cidadãos brasileiros, encontraram no emocionante e esclarecedor artigo “Adeus, Itaparica” (jornal A Tarde, 22/01/2010), de autoria do escritor João Ubaldo Ribeiro, argumentos consistentes e equilibrados para inaugurar um debate amplo sobre o anteprojeto de construção da Ponte Salvador-Ilha de Itaparica, anunciado pelo governo do Estado da Bahia. O itaparicano João Ubaldo, cujos romances puseram a Ilha na geografia literária brasileira e universal, é uma voz qualificada para questionar elementos sombrios e outros mais claros do empreendimento, previsto como bilionário para os cofres públicos e incerto para o destino ecológico e econômico da maior ilha marítima do Brasil. O autor de Viva o povo brasileiro não está sozinho em seus questionamentos e nos incorporamos a eles nos seguintes pontos:

1. É dever do governo do Estado da Bahia abrir um abrangente debate público sobre o projeto da Ponte Salvador-Itaparica, cujo edital de parâmetros para a construção foi anunciado pelo secretário de Planejamento, Walter Pinheiro. Entendemos que uma obra dessa dimensão deve ser discutida previamente com o povo baiano em audiências públicas (sobretudo nos municípios de Salvador, Itaparica e Vera Cruz), e não imposta por decisão unilateral do Estado.

2. Lamentamos o anúncio do anteprojeto de uma ponte de 13km sem a realização prévia de um estudo aprofundado de impacto ambiental, histórico e econômico. Representantes da administração estadual alegam vantagens de naturezas diversas, numa polifonia oficial ruidosa e nebulosa quanto às metas do governo. Será a ponte a via tecnicamente mais adequada para melhorar a logística da economia estadual e ao mesmo tempo revigorar a Ilha sem prejudicar suas características?

3. O precário serviço terceirizado de transporte marítimo (ferry-boat) Salvador-Itaparica não é um argumento sólido para justificar a construção de uma ponte faraônica e abracadabrante. Os cidadãos têm direito a um serviço público razoável e eficiente. Cabe ao governo oferecê-lo, como oferecem vários governos ao redor do mundo.

4. Não é clara a prioridade do projeto para o desenvolvimento econômico da Bahia, nem mesmo para o turismo regional. Na capital baiana, há prioridades infra-estruturais gigantescas ainda não atendidas pelo Estado (municipal, estadual e federal), a exemplo da construção do Metrô de Salvador, cujas obras se arrastam, penosamente, há uma década, sem perspectiva de conclusão. Há ainda dezenas de intervenções mais prioritárias, a exemplo da urbanização de áreas periféricas e recuperação de vias de acesso à capital baiana, além de investimentos básicos na própria Ilha e na preservação da Baía.

5. João Ubaldo é irrespondível quando lembra o risco de a intervenção estatal estimular o turismo predatório na Ilha de Itaparica e no entorno da Baía de Todos-os-Santos, com megaempreendimentos agressivos ao meio ambiente e descaracterizadores da singularidade histórica da Bahia. Como enfatiza o escritor, os argumentos governamentais e empresariais apresentados até esse momento prenunciam um “atraso que transmutará Itaparica num ponto de autopista, entre resorts, campos de golfe e condomínios de veranistas, uma patética Miami de pobre. E que, em lugar de valorizar o nosso turismo, padroniza-o e esteriliza-o, matando ao mesmo tempo, por economicamente inviável, toda a riqueza de nossa cultura e nossa História”.

6. Anteprojetos e desenhos da estrutura da Ponte Salvador-Itaparica, divulgados pela mídia baiana, apontam para uma agressão à paisagem da Baía de Todos-os-Santos, um patrimônio ambiental inalienável do povo baiano, talvez o último a salvo da sanha empresarial que avança sobre o meio ambiente de Salvador e do Estado. Em sua visita à Bahia, em 1949, o escritor Albert Camus anotou em seu diário de viagem: “Prefiro essa baía à do Rio, muito espetacular para o meu gosto. Esta, pelo menos, tem uma medida e uma poesia”. A ponte atingirá a medida e a poesia evocada por Camus, já incorporadas à alma dos baianos e dos turistas; sobre as águas calmas e azuladas de Yemanjá vai se erguer um monumento ao empreendedorismo desalmado?

7. Desejamos uma resposta formal do governador do Estado da Bahia, Jaques Wagner, ao artigo do romancista João Ubaldo Ribeiro e aos baianos. Seria um gesto de delicadeza e compromisso com os princípios democráticos fundadores do seu programa de governo.


A CONSPIRAÇÃO DO SILÊNCIO

posted by Jary Cardoso @ 8:00 AM
31 de janeiro de 2010

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texto de PAULO ORMINDO DE AZEVEDO*

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A mordaça imposta a uma comunidade é a pista para a descoberta da expropriação das terras e extermínio de uma família japonesa no interior dos Estados Unidos durante a II Guerra. Este é o enredo de um velho western estrelado pelo notável Spencer Tracy. Moral da história, o silêncio conspira.

Guardadas as devidas proporções, vivemos um clima semelhante em Salvador.

Há alguns meses algumas centenas de famílias da Calçada e Boa Viagem tiveram suas casas e lojas declaradas de utilidade pública para efeito de desapropriação, sendo impedidas de vender ou alugá-las, sem nenhuma explicação. Uma maquete digital foi divulgada na internet, mas a prefeitura negou a autoria e afirmou está ainda estudando o que vai fazer no local.

Há suspeitas que há grupos interessados no grande potencial imobiliário do filé da península e querem se apropriar do mesmo através do falsete da Concessão Urbanística, pela qual o poder público desapropria uma área e entrega a um grupo privado. O processo é verdadeiramente kafkiano. Famílias são privadas de suas casas e trabalho, sem saber o porquê.

Um outro projeto de grande impacto na cidade, Região Metropolitana (RMS) e meio ambiente foi negado durante meses pelo governo do Estado, até que a empreiteira interessada impaciente em iniciar a obra bilionária de ligação Salvador/Itaparica abriu fogo amigo divulgando memorial e perspectiva em seu site e no jornal Bahia Negócios (12/08/09). Na nota dizia que desde janeiro de 2009 havia entregue ao governador documento pedindo autorização formal para realizar o projeto. Cinco meses depois, um secretário de governo anunciou que iria publicar edital de Manifestação de Interesse na ponte, mas negou qualquer conversa com a empreiteira. Ato contínuo, outro secretário entregou aos jornalistas o “anteprojeto da ponte”, o mesmo publicado pela empreiteira (A Tarde, 8/1/10).

Não vamos discutir aqui o mérito de projeto tão complexo, senão a forma como o processo é conduzido. É lamentável que o governo do Estado, que está fazendo um bom trabalho no varejo assistencial, cultural e de recuperação de estradas no interior, pareça inteiramente perdido no que se refere às questões macro do Estado, da RMS e da capital.

A lei do silêncio não é nova em Salvador. Na calada da noite foi aprovado o PDDU (Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano), colocadas pernas de pau no cambaleante metrô, perdoada a dívida e ampliada a área do falido shopping Aeroclube, instalados cervejódromos nas areias da orla, aterradas as lagoas do Vale Encantado e sepultado o canal do Imbuí, sob protesto dos ambientalistas e urbanistas.

O Serviço de Patrimônio da União, o Ibama e o Ministério Público já deram suas respostas e o canal do Imbuí vomitou em protesto durante as últimas chuvas.

Sob o mesmo manto de segredo, o prefeito anunciou a divulgação de duas novas avenidas: a paralela da Paralela (sic) atropelando a represa de Pituaçu e a paralela da BR-324 (A Tarde,13/01).

Onde foram feitos esses projetos e sob encomenda de quem? Nem mesmos os técnicos da prefeitura têm conhecimento.

Logicamente, todos nós queremos o desenvolvimento da cidade, mas esses projetos precisam ser discutidos com a sociedade, avaliados em seus impactos ambientais e sociais e compatibilizados com os demais. O Conselho da Cidade, criado no início de 2008 por exigência do Estatuto da Cidade, instância de diálogo entre o poder municipal e a sociedade, nunca foi instalado pelo prefeito.

Fala-se ainda num projeto sintomaticamente chamado de skyline de Salvador, que estaria sendo elaborado para a orla da Bahia de Todos-os-Santos e do Atlântico financiado por um dos maiores grupos imobiliários de Salvador, além de um novo PDDU, para atender aos novos compromissos, todos desenvolvidos em silêncio e segredo.

Para quem não acredita no desmonte do Estado, leia A Tarde do último dia 13, onde o secretário de Infraestrutura diz que precisa de autorização da TWB, exploradora do ferryboat acusada de irregularidades, para divulgar o conteúdo do contrato, porque embora o contrato seja público foi firmado com um ente privado.

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*Paulo Ormindo de Azevedo – Arquiteto e urbanista



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