Archive for março, 2010


SALVADOR COMPLETA HOJE 461 ANOS

posted by Jary Cardoso @ 11:47 AM
29 de março de 2010

Foto de EDUARDO MARTINS | Agência A Tarde – 18.12.2009 | As fotografias utilizadas neste post são fruto da pesquisa feita no arquivo digital de A Tarde pelo diligente colega de redação LUIZ CRISTIANO V. PARAGUASSÚ

Palafitas na Invasão da Pedra Furada, Península de Itapagipe, Cidade Baixa. Foto de FERNANDO AMORIM | Agência A Tarde – 3.7.2009

O menino Luca Andrade, de 2 anos, na Praia da Barra. Foto de IRACEMA CHEQUER | Agência A Tarde – 27.2.2010

Igreja da Conceição da Praia, aparecendo ao fundo o Elevador Lacerda. Foto de FERNANDO VIVAS | Agência A Tarde – 20.6.2008

Largo do Pelourinho. Foto de LÚCIO TÁVORA | Agência A Tarde – 12.01.2010

Porto da Barra – Em primeiro plano, à direita, o Marco da chegada de Thomé de Souza. O primeiro governador-geral do Brasil desembarcou ali em 29 de Março de 1549. Foto de EDUARDO MARTINS | Agência A Tarde – 18.12.2009

Estátua de Thomé de Souza na Praça Municipal. Foto de EDMAR MELO | Agência A Tarde – 27.4.2006

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São Salvador da Bahia

461 anos da Mãe Preta

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texto de zédejesusbarrêto

(especial para o blog Jeito Baiano)

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Era uma sexta-feira de dia claro, aquele 29 de março de 1549, quando despontou no azul infindo de céu e mar, na entrada norte da Baía de Todos-os-Santos, a armada portuguesa de três naus, duas caravelas e um bergantim com mais de mil pessoas a bordo, sob o comando do fidalgo Thomé de Souza, a serviço do rei D.João III.

Chegavam com uma missão estabelecida, a cumprir: a fundação de uma cidade, porto e fortaleza, planejada para ser (e seria) a primeira capital do Brasil-Colônia, sede do governo, base de toda a administração e do povoamento das terras portuguesas d’além mar recém descobertas nessa costa atlântica da América do Sul.

Tinham embarcado em Lisboa, com a bênção real, em 1º de fevereiro e vinham determinados, sabiam muito bem onde aportar e o que queriam. Entre a tripulação, alguns nobres, seis jesuítas, navegadores, mais de uma centena de artífices – entre pedreiros, carpinteiros, calafates, oleiros, ferreiros, serralheiros, barbeiros, até cirurgiões… –, trabalhadores braçais e degredados, homens fortes jovens e destemidos aventureiros.

Entre eles, destacava-se uma figura especial, pela missão que lhe fora confiada: o mestre de obras Luis Dias, que trazia consigo um esboço traçado em Portugal do que seria “a cidade do Salvador da Baía de Todos os Santos, que foi a Lisboa da América e competiu, como empório, com Goa e Malaca, erguida por ordem régia, pormenorizada e clara” (cito o autor português Luis Silveira, na obra ‘Ensaio de Iconografia das Cidades Portuguesas do Ultramar’).

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Monumento a Thomé de Souza, tendo ao fundo a primeira Casa Legislativa do país, que hoje abriga a Câmara de Vereadores. Foto de ELÓI CORRÊA | Agência A Tarde – 23.3.2007

A Chegada

Thomé de Souza, o primeiro governador-geral do Brasil, trazia com ele também, naquele longínquo 29 de março, um roteiro detalhado, por escrito e datado de 17 de dezembro de 1548, do que fazer quando aqui chegasse. Todas as instruções de D. João III em forma de um Regimento.

Como estava previsto, Thomé de Souza desembarcou na enseada de águas mansas do Porto da Barra, onde foi recebido de forma cortês e pacífica por um grupo de algumas dezenas de moradores da Povoação do Pereira (ou Vila Velha) – um aldeamento que se estendia pela costa até o alto da Graça criado por Caramuru (Diogo Álvares Correia), seus amigos tupinambás, e pelo inábil capitão donatário Pereira Coutinho (da capitania hereditária da Bahia) que, à chegada da armada, já havia sido enxotado de lá pelos nativos.

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À frente do grupo receptivo estava o experimentado capitão-cavaleiro da Casa Real, Gramatão Teles, que já fora enviado antes por D. João III no intuito de preparar o ambiente para a chegada da armada real, ao lado de Caramuru – um portuga que aqui naufragou, bem jovem, por volta de 1510, deu na praia, caiu nas graças dos nativos, casou-se com uma filha do chefe tubinambá, estabeleceu-se e tornou-se um pioneiro no comércio ultramarino do Pau Brasil, dando início também ao processo de miscigenação dos baianos/brasileiros.

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O Local

Mas ali, naquele porto tão próximo da entrada norte da baía, não seria o local ideal para a construção da nova cidade – que haveria de ser um porto e fortaleza. Era preciso achar um local mais apropriado, mais protegido, mais estratégico, mais para o interior da baía.

O achado do local exato, hoje a rampa do antigo Mercado Modelo, aquelas águas diante de Igreja da Conceição da Praia, deu-se alguns dias depois do 29 de março de 1549.

Essa data que hoje se comemora, de fato, é a data da chegada de Thomé de Souza com sua armada e não a data da fundação do novo sítio, pois demorou meses até que se erguessem casas e fizessem os arruamentos pioneiros.

Elevador Lacerda, Cidade Baixa e Cidade Alta. Foto de HAROLDO ABRANTES | Agência A TARDE – 18.3.2010

A nova urbe seria, assim, construída bem no alto, no cume do morro, cimo de uma escarpa de mais de 60 metros acima do nível das águas, num local de onde se descortinava o horizonte do mar. O sítio escolhido foi cercado de uma forte paliçada de madeira, para evitar o ataque dos índios, e tudo foi erguido a mão em pedra, barro, cal e madeira, sob a diretriz do ‘arquiteto e engenheiro’ Luis Dias, tal e qual fora traçado em Lisboa.

Poderíamos dizer que o traçado original cercado tinha como limites: a Barroquinha, o rio das Tripas que hoje passa por baixo da Baixa dos Sapateiros, o Taboão e a escarpa, com o marzão batendo nas pedras, lá embaixo, onde hoje é o Comércio (o aterro foi feito bem depois).

Esse foi o traçado original da cidade.

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As Águas

E essa é a história verdadeira desta cidade-mãe que tem como referência o mar, as águas, o azul do céu, a luminosidade do infinito. Vocação de mar.

Cidade Baixa vista da Cidade Alta: Elevador Lacerda, Mercado Modelo e Praça Cairu. Foto de MARCO AURÉLIO MARTINS | Agência A TARDE – 2.12.2009

Aqui nessa bacia kirimurê (o nome como os nativos tupinambás chamavam o caldeirão de águas da Baía de Todos-os-Santos) de águas limpas, tépidas e plácidas, doces e salgadas, misturadas, deu-se a grande mescla humana de caboclos nativos, negros africanos, brancos europeus… e depois asiáticos, árabes, judeus… todos que aqui aportaram e bem contribuíram com suas crenças, costumes e fazeres para essa nossa baianidade ou baianice, como queiram.

Porque a Bahia é fruto de mistura. Com muito tempero africano, porque tudo que aqui se fez tem o suor dos negros – construções, comida, hábitos, religião, alegrias, manhas…

A Cidade da Bahia tornou-se uma acolhedora mãe-preta (ou mulata) de colo farto e braços sempre abertos para o mundo. Uma cidade das águas, sempre porto e sempre fortaleza.

Como cantam Gerônimo e Vevé Calazans: ‘Nesta cidade todo mundo é d’Oxum’. Oxum, a divindade das águas doces, das nascentes, da fecundidade. Os aqui nascidos trazem em si a força, a luz, o axé das águas. Disso sejamos cientes. E cuidemos.

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O Porto

Durante séculos, Salvador foi o maior entreposto comercial do Atlântico Sul, parada obrigatória dos navegadores que faziam o Caminho das Índias, ida e volta, pelo entorno sul da África. A vida girava em torno do porto. Caravelas, naus de todas as bandeiras, saveiros, mercadorias das índias, novidades da Europa, especiarias, açúcar, fumo, frutas, pescados, a fartura do Recôncavo… E as notícias, as futricas, o sobe e desce dos carregadores, o suor e a sabedoria dos negros. A vida ocorria em função do porto, das águas e dos ventos do mar.

Assim foi se escrevendo a nossa história.

Salvador foi também o ponto mais concorrido da costa brasileira em função do tráfico de escravos africanos – ativo de 1551 à segunda metade dos anos 1800, três séculos desse comércio infame. No início do século XIX a população escrava e afrodescendente era absoluta maioria na cidade. Os negros formigavam pelas ladeiras. Daí ter sido chamada por muitos historiadores europeus de ‘a Roma Negra’ .

A escravidão foi uma ignomínia e deixou nódoas, ainda hoje indeléveis, bem visíveis. Mas, quem sabe, veio da Mãe África também a nossa graça, a nossa diferença, pois a negritude fez de nós uma gente muito especial. Malditas, benditas heranças.

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Sim sinhô, e que os orixás, inquices e voduns, divindades ancestrais, todos os encantados das matas e santos do céu nos guardem e protejam… E conservem sã essa Mãe tão amada e tão prenhe de pecados. Preservem suas coisas boas, quantas! Que ela seja sempre um abrigo de encontro das diversidades, todas. Seja essa a nossa singularidade, tão plural.

Espaço de respeitosa convivência humana, de fortes e igrejas barrocas, sobrados e casebres, terreiros e regaços, palácios e shoppings, modernidades e tradições, tantas traduções, quantos ritmos, cores, cheiros, crenças, sentimentos…

Que as diferenças e dessemelhanças aqui se achem em harmonia, sempre.

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O Espaço

A Salvador de hoje é uma metrópole. Mais de 3 milhões de habitantes. Uma cidade moderna e desigual. Opulenta para uns e injusta para muitos. A mancha urbana espalhou-se sobre toda a grande península, com duas faces: uma voltada para o mar aberto, atlântica; outra para as águas interiores da baía, maré mansa, áreas de mangue, cênica.

Invasão Quilombo, bairro de Paripe, no Subúrbio. Foto de MARCO AURÉLIO MARTINS | Agência A Tarde – 28.9.2009

A velha cidade perdeu, sim, alguns encantos, mas preserva íntimos mistérios. Anda à volta com novos costumes, tormentos.

Sem mais espaço disponível ao tranquilo bem viver, sem ter mais para onde crescer, a histórica cidade enfrenta, aos seus 461 anos, todos os problemas de uma metrópole superpovoada, inchada, sem infraestrutura suficiente para todos os seus filhos e agregados, sem planejamento e pobre de recursos. Com muitos a padecer, por falta do que fazer, por não saber onde morar, por carência do que comer.

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A Pobreza

Cito o grande mestre Cid Teixeira (professor, historiador, escritor, jornalista, radialista e assumido mulato nascido em Salvador em 11 de novembro de 1924) – Entrevista concedida à Revista da Bahia, edição nº 29, de março de 1999, quando se comemoravam os 450 anos da cidade. Com sabedoria, ele disse ao repórter Nestor Mendes Jr.:

A grande tragédia de Salvador é que ela deixou de ter somente pobreza – e pobreza sempre existiu – e passou a ter uma coisa trágica que é a miserabilidade, que é a porta aberta da marginalidade.

Olha, eu não quero achar culpados. Essas coisas não são tão policiais para se indicar alguém e, a partir daí, transformar esse alguém em réu. Mas, realmente, nenhuma cidade do mundo aguenta uma curva de crescimento demográfico como a que incidiu sobre Salvador nos últimos 50 anos. Nenhuma cidade do mundo tem condições de suportar, de absorver o crescimento demográfico que nós tivemos, desordenado em todos os sentidos, seja no sentido físico de sua ocupação do espaço, seja no sentido sociológico do destino da força do trabalho”.

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Merece uma reflexão.

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A Poesia

Cidade amada. Canto meu.

Flocos alvos soltos, de toda forma e tamanho,

brincam de desenho no vazio azul do céu

e me enchem de paz.

Êpa Babá!

O corredor de bambuzal que dá acesso ao aeroporto

é um túnel de Axé do Pai, onde se passa em silêncio

na chegada e na saída, à espera da luz.

Oxalá seja Senhor do Bomfim

Coisas da terra.

As águas da Baía de Todos-os-Santos são mornas, sinuosas

e têm escamas que prateiam seu azul-esverdeado

único, profundamente belo!

Odoiá, rainha dos mares!

No escuro das águas do Dique, do Abaeté,

a princesa faceira dos fios dourados

pede agrados e enfeitiça os homens.

Ora Iêiê ô!

No tacho de azeite dourado,

as ‘bolas de fogo’ recendem a prazeres em chamas.

Senhora dos ventos e dos raios!

Êpa Hei!

Ah, cidade amada da Bahia!

Do branco, azul, dourado e encarnado.

Diante de tanta grandeza,

de tamanho mistério e tamanha beleza

seu filho chora e ora…

Feliz, prostrado.

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(zédejesusbarreto) .

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Texto:

zédejesusbarrêto – jornalista, escrevinhador, filho da Cidade da Bahia.

Mar/2010 (aniversário – 461 anos de Salvador)

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A UTOPIA URBANA DE SALVADOR

posted by Jary Cardoso @ 1:00 AM
29 de março de 2010

Ilustração de CAU GOMEZ

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texto de LOURENÇO MUELLER*

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Utopia é sinônimo de projeto irrealizável, quase um sonho. Não obstante, a esfera do sonho, da fantasia, antecipa o real; não há realização construída se esta concretude não for em algum momento sonhada, imaginada ou projetada.

Por isso gostei quando ouvi um representante do governo dizer que precisamos TER a nossa utopia urbana. Talvez tenha sido uma afirmação inócua mas toda realidade ocupacional desta metrópole leva `a conclusão de que Salvador não pode mais resolver os seus problemas urbanos dentro dos limites territoriais do município, e deveria lançar mão de terrenos exteriores a este, promover urgentemente um plano diretor metropolitano e adaptar as sedes dos municípios limítrofes ao crescimento acelerado da sede metropolitana.

Seguindo regras universais do urbanismo, empregos devem estar localizados próximos às moradias, pois assim podem-se, digamos todos em coro, minimizar custos e tempo de deslocamento.

Repensando a Região Metropolitana de Salvador (RMS), alguns municípios como Camaçari, Lauro de Freitas, Simões Filho e Candeias emergem como geradores de emprego e renda, seja pelas indústrias instaladas, seja pelo setor terciário já desenvolvido com destaque para a localização de empreendimentos de hotelaria na Estrada do Coco e na Linha Verde.

Estes municípios estão na área de influencia da via CIA-Aeroporto, que interliga a baía ao litoral leste. Perpendicular a esta, estudada pela urbanista Maria Elisa Costa, filha de Lúcio, uma nova via denominada “Linha Viva” atravessaria Salvador longitudinalmente, configurando uma espécie de “T”. As duas vias têm natural vocação para o desenvolvimento de atividades urbanas e para o assentamento populacional, podendo abrigar nas suas margens a expansão demográfica metropolitana por muitos anos… Se bem projetadas.

A oportunidade de se agregar sustentabilidade a esse sistema é agora, ao promover a organização de variáveis físicas, econômico-sociais e político-institucionais.

Experiências históricas na direção das utopias urbanas, de Ebenezer Howard a Le Corbusier, não favorecem muito a condição da utopia aplicada ao planejamento urbano. Mas Brasília sim. Há 50 anos, num país que não dominava tecnologias, sonhou-se uma cidade a partir de um sinal gráfico no dizer do célebre urbanista e ela reúne muitas das utopias anteriores.

Ao mesmo tempo em que se afirmou a arquitetura personalíssima de Niemeyer perdeu-se, no plano diretor de Brasília, a oportunidade única de inaugurar e incentivar um modelo de cidade auto-sustentável no país inteiro. Mas não poderiam adivinhar que o automóvel, inquestionável herói da década de 60, quando o Brasil começou a produzi-lo, se transformaria no vilão do século 21 e se tornasse capaz de desestruturar qualquer plano diretor bem intencionado. Oscar e Lúcio estão perdoados.

Poderíamos, agora, aproveitar a oportunidade da “Linha Viva” e da CIA-Aeroporto para desenvolver a nossa utopia urbana : a partir de um modelo paradigmático de tendências mundiais em que é valorizada a mobilidade assim como a ênfase ao transporte publico não poluente, o privilegio do pedestre e do ciclista sobre os automóveis e legislando o solo como uma propriedade estatal, incorporando ideias de urbanistas do passado.

Precisamos dar forma a essas intenções e redesenhar as margens desse T: dimensionar um programa, seguir critérios onde a densidade liquida não exceda 500 habitantes por hectare com uma densidade bruta de 50 mil habitantes por km2 na zona intensamente urbanizada ao longo da faixa das vias onde os terrenos, desapropriados, só poderiam voltar a ser ocupados mediante concessão de uso pelos poderes públicos.

A ocupação obedeceria a uma configuração de zoneamento adaptada a condicionamentos legíferos e geomorfológicos existentes com setores de densidade maior nas centralidades e rarefeita nos extremos, passível de ser atravessada por pedestres em menos de uma hora nos oito rumos da rosa-dos-ventos e permanecendo com os pavimentos térreos vazados.

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*Lourenço Mueller – Arquiteto

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COTAS E RACIALISMO

posted by Jary Cardoso @ 11:00 PM
28 de março de 2010

Ilustração de GENTIL

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texto de PEDRO DE A. VASCONCELOS*

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É simpático e considerado “politicamente correto” defender cotas para acesso ao ensino superior. Mas, para tanto seria necessário dividir arbitrariamente a sociedade brasileira para definir quem tem ascendência africana ou ameríndia numa sociedade em que até irmãos gêmeos têm cores diferentes.

O atual debate sobre cotas leva ao questionamento da importação de políticas afirmativas para aplicação no caso brasileiro. Nos Estados Unidos, por exemplo, os escravos eram uma minoria e, após a abolição, os descendentes de africanos, mesmo mestiços, foram considerados “negros”, segregados e discriminados, formando uma cultura específica. Naquele país as políticas afirmativas destinaram-se a um grupo social bem definido e, mesmo assim, ocorreram problemas de ordem constitucional.

No caso brasileiro, a situação é bem mais complexa. Aqui a escravidão foi geral, muito longa e incluiu negros, mestiços e parte dos índios. Afora isso, desde cedo, o número de libertos foi muito elevado e, além dos brancos, os africanos, os crioulos e os pardos também adquiriam escravos, ressalvando que, por opção ou por pobreza, muitos brancos, tais como os agregados urbanos e moradores rurais, não possuíam escravos. Com a abolição, a República abandonou os escravos e seus descendentes, mas a sociedade não se dividiu em segmentos raciais: a miscigenação continuou junto com uma enorme desigualdade social.

A tentativa de aplicar cotas raciais no Brasil vem da dificuldade, entre outras, de definir o grupo que seria beneficiado. Como não recebemos famílias completas no período colonial (com exceção localizada de casais açorianos), e como os brancos eram minoria, a mestiçagem generalizou-se ante o menor número de mulheres brancas. Assim, os mestiços formaram um grupo à parte (irmandades, tropas), nem todos foram escravizados e, diferente dos negros, obtiveram privilégios nas alforrias, nas heranças e até na legislação pombalina.

Entretanto, os atuais movimentos negros incluem “pardos” e “pretos” como “negros” ou “afro-descendentes” (uma cópia dos “afro-americanos”) embora com a mestiçagem a maioria dos pardos poderia ser considerada também como “euro-descendente” ou “índio-descendente”.

Como pano de fundo, persiste um sentimento difuso de culpa que levou o presidente Lula a pedir perdão na África, esquecendo a responsabilidade dos estados escravistas africanos, que enviaram embaixadas para a Bahia e para Lisboa pleiteando monopolizar a exportação de escravos. Na verdade, os africanos não participaram do tráfico atlântico por não disporem de navios de porte. Não se há de esquecer que a escravidão na África antecedeu à chegada dos europeus.

Mesmo em Angola, onde o controle europeu foi uma exceção, os pombeiros (intermediários entre os portugueses e nativos) se abasteciam em feiras de escravos organizadas pelos africanos. Isso, evidentemente, não diminui a responsabilidade dos europeus e brasileiros no tráfico nem na longa e cruel escravidão no Brasil.

Se usarmos o critério norte-americano de ascendência africana (e adicionarmos a ameríndia) quase toda população do Norte e do Nordeste teria “direito” às cotas, o que diluiria os efeitos da medida. Por outro lado, se a opção for ter frequentado escola pública, cai-se na contradição de priorizar os originários do sistema de ensino de qualidade inferior (ao contrário das universidades) e de responsabilidade principal dos estados e municípios.

A meu ver, o mais grave é tentar dividir a população brasileira em uma classificação arbitrária, e, sobretudo, tornar a questão racial um problema grave, criando novas tensões e ampliando preconceitos. É possível imaginar um futuro de recusa a serviços prestados por médicos ou engenheiros “cotistas”.

As cotas, na verdade, não oneram o Estado. Mas, investir no ensino público fundamental, que deveria ser de qualidade e de tempo integral, mesmo em detrimento do ensino universitário público, é o que transformaria a situação dos pobres, independentemente da cor de cada um.

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*Pedro de Almeida Vasconcelos Ph.D em Geografia pela Universidade de Otawa

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NOTA DO EDITOR – O artigo acima, publicado originalmente em Opinião, do jornal A Tarde, recebeu pelo menos uma crítica de leitor, que reproduzo abaixo, seguida da “tréplica” de Pedro de Almeida Vasconcelos.

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CRÍTICA DE MARCOS JORGE ALMEIDA SANTANA:

Estranhei, bastante, a imaginação do Dr Pedro de A. Vasconcelos sobre o futuro dos cotistas. É fato que o mesmo conhece, por demais, as obras e o brilhantismo do nosso genial Milton Santos, negro, mais do que Ph.D em Geografia, que honrou e honra a Bahia e o Brasil em várias partes do mundo, tendo inclusive recebido o que se poderia chamar de “Prêmio Nobel” de Geografia. Embora ele não tenha entrado na universidade através de cotas, temos exemplos já divulgados de excelentes estudantes em engenharia e medicina, que atestam a importância desta política.

Portanto não concordo com a frase: ” É possível imaginar um futuro de recusa a serviços prestados por médicos ou engenheiros ‘cotistas’.” Conforme consta no seu artigo “Cotas e Racialismo” publicado em A Tarde no dia 26/03/10, pg. A2.

Marcos Jorge Almeida Santana – Lauro de Freitas

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RESPOSTA DE PEDRO VASCONCELOS:

Prezado Marcos Jorge,

Recebi a cópia da mensagem que v. enviou para o jornal A Tarde.

O exemplo do Milton Santos que v. deu (assim como os demais negros e mestiços que se destacaram desde o Império) mostra que o problema não é racial e sim social, pois eles tiveram acesso a um ensino de qualidade. O problema, para mim, está na massa dos pobres (sobretudo negros e mestiços aqui na Bahia) que são abandonados no ensino público fundamental de baixa qualidade.

Uma solução mais radical seria acabar com o ensino público universitário gratuito e reverter esses recursos para o ensino fundamental (com bolsas para os mais carentes). Meus melhores alunos em Geografia foram negro-mestiços que tinham cursado a antiga Escola Técnica Federal, melhores que os branco-mestiços de classe média.

Informo que escrevi um artigo em homenagem ao Milton Santos, na revista Afro-Ásia, número 25-26, 2001, p. 369-405.

Cordialmente,

Pedro Vasconcelos

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