Archive for abril, 2010


ESCOLAS ESPREMIDAS

posted by Jary Cardoso @ 3:21 PM
26 de abril de 2010

Ilustração de BRUNO AZIZ

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texto de NELSON PRETTO*

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Tenho saudade de uma Salvador dos espaços generosos. Não imagino que o tempo tenha que parar, que o chamado progresso e o avanço do cimento e do asfalto tenham que ser contidos na marra. Mesmo que nestes últimos tempos de chuvas fortes eles tenham dificultado o movimento da água para seu lugar natural, longe de mim pensar em simplesmente voltar para o passado.

Também não quero falar do tempo das praças sem grades, dos chafarizes, fontes de água, casas sem muros ou com eles ainda baixinhos, onde podíamos sentar para prosear e matar o tempo. Para estes temas, os arquitetos, urbanistas, engenheiros, todos os articulistas de várias áreas já vêm escrevendo em A Tarde desde muito.

Quero falar, no entanto, de um espaço que para mim é muito caro: o das escolas.

Nossas escolas encolheram. E muito. Acabaram-se os  amplos campos para o futebol, babas, garrafão ou similares, acabaram as áreas para o tão esperado recreio, também esse espremido entre os poderosos 50 minutos da sequência de aulas. Aulas que normalmente acontecem em salas que, praticamente, mantêm a mesma configuração de muitos anos, quem sabe séculos, e, o que é pior, também elas encolhidas.

São os mesmos móveis, a distribuição das cadeiras, o quadro negro – depois verdes e, nas mais modernas, até digitais –, estes quase todos colocados na frente, para que uma “plateia” de estudantes possa acompanhar as “emissões” dos professores.

No campo de interseção da arquitetura com a educação pouca coisa mudou e Bahia é repleta de experiências nessa área.

De um lado, com a triste proposta de se construir grandes escolas, todas iguaizinhas, replicadas pelo interior do Estado, e ainda por cima com o mesmo nome, antecedido do terrível adjetivo “modelo”. Nada a ver com educação, que precisa mesmo é ir para além dos modelos e caminhar em busca da criação.

De outro lado, tivemos uma rica experiência que não deveria ser esquecida, como a Escola Parque, implantada no bairro da Caixa D’Água por educadores e arquitetos baianos. Idealizada pelo educador Anísio Teixeira em conjunto com o arquiteto Diógenes Rebouças e o engenheiro Hélio Duarte, ali podemos ver, de forma cristalina, uma clara compreensão da importante relação da educação com a arquitetura. Relação essa que nós, da Faculdade de Educação da UFBA, insistimos ser básica para pensarmos a educação no presente e para o futuro.

Tentamos – com sucesso muito pequeno, é bem verdade – uma maior aproximação com a nossa Escola de Arquitetura, para montar um grande projeto para se estudar a relação entre essas duas grandes áreas. Um programa que fosse buscar em Anísio, Diógenes e Hélio inspiração e resgate histórico. Mas que não ficasse só neles. Que fosse também estudar e aprender, por exemplo, com Charles Mackintosh, o arquiteto da Escola de Artes de Glasgow, idealizador de um projeto de escola básica denominado Scotland Street School, hoje belíssimo museu sobre a história da educação na Escócia, onde é possível ver como eram as salas de aula e o funcionamento da escola ao longo dos anos naquele país.

A Escola Parque, pensada por Anísio – que hoje também está aqui em A Tarde na [revista] Muito –, era um conjunto generoso de espaços livres, que incluía, com uma incrível centralidade, um enorme campo de futebol, rodeado de um teatro a la Teatro Castro Alves, uma magnífica biblioteca a la Brasília, um pavilhão para oficinas, repletos de obras de arte de Jenner Augusto, Carybé, Mario Cravo (aliás, como estão esses painéis, alguém sabe?!) e uma ala administrativa com refeitório, padaria e espaço para professores e alunos. Tudo, absolutamente tudo, imerso numa área verde de frondosas mangueiras que, felizmente, ainda lá estão.

Nesse complexo educacional, dizia Anísio, os filhos dos pobres teriam acesso àquilo que os filhos dos ricos têm nas suas casas. Ali estaria sendo formada uma juventude para fazer diferença.

Aqui, num hoje espremido no tempo e no espaço, nossa juventude é deformada para caber, literalmente, nas grades, curriculares e das salas de aulas. Quebrar estas amarras, na busca de uma formação mais ampla, é algo que demanda ações mais corajosas. E isso, não pode mais ser protelado para amanhã.

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*Nelson Pretto – professor da Faculdade de Educação da UFBA – www.pretto.info

(artigo publicado originalmente na editoria de Opinião do jornal A Tarde, de Salvador-BA, em 25.4.2010)

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DATAS DO BRASIL

posted by Jary Cardoso @ 3:09 PM
24 de abril de 2010

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texto de zédejesusbarrêto*

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O Descobrimento

Quarta-feira, 22 de abril de 1500:

pela manhã, topamos aves, a que chamam fura-buchos. E neste dia, a hora da véspera (entre as 15 hs e o sol posto – NR), houvemos vista de terra, isto é, primeiramente d’um grande monte, mui alto e redondo, e d’outras serras mais baixas a sul dele e de terra chã com grande arvoredos, ao qual monte alto o capitão pôs o nome o Monte Pascoal e à terra de a Terra Vera Cruz” …

Acima, um trecho da Carta de Pero Vaz de Caminha a El-Rei D. Manuel, dando conta do achamento dessas terras brasileiras, no além mar, terras avistada que estão ao sul da Bahia, na região da Costa do Descobrimento, município de Porto Seguro.

A carta de Caminha , com a boa nova, foi escrita na Ilha de Vera Cruz (já em terra firme) em 1º de maio de 1500, e enviada ao rei com todas as alvíssaras.

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Dia de Jorge

23 de abril é dia de São Jorge da Capadócia, o cavaleiro da lua.

Jorge guerreiro, o Ogum da Umbanda, senhor das demandas.

Jorge, o cavaleiro das matas, identificado no Candomblé da Bahia com Odé, Oxóssi, o caçador, o protetor dos terreiros de Keto/nagôs.

São Jorge, o milagreiro para milhões de católicos que têm em suas casas, entronizado, uma imagem majestosa sua, com manto vermelho, montado num cavalo branco, empunhando uma lança que subjuga um dragão e protege a donzela, aos fundos prisioneira numa torre medieval. Retrato simbólico atribuído à luta de Jorge, o jovem santificado da Capadócia, contra os infiéis, protegendo a Igreja de Jesus Cristo.

Histórias ou estórias da tradição católica que o povo agrega, na ânsia ancestral humana da fé. Pois que assim seja, como o povo crê. Missa pra São Jorge, ebó nas matas para Odé, para Ogum, e que todas as forças do desconhecido nos cubram, nos guardem… Amém.

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Brasília, Tiradentes…

21 de abril de 1960.

Brasília é semente de profecias

Fruto de um sonho gerado nas brenhas

Em traços, gestos de poesia.

Ontem, saga de candangos; hoje, praga de corruptos.

Amanhecer de uma nova era; anoitecer de desigualdades.

Alvorada de JK, vassouradas a Jânio, chumbo grosso de milicos, desvario collorido, tumba de Tancredo, altar de Lula, galho podre de Arruda…

Que os anjos Lúcio Costa e Niemeyer nos perdoem

E que São João Bosco nos acuda !

Cidade símbolo do modernismo

Canteiro, sepulcro de burrocracismo.

Planalto, paralelo, umbigo, telúricos mistérios

Sanatório de loucos, pensão de sabidos, éden de otários…

Brasil, Brasília, cerrado, secura…

Dias tão claros, vidas obscuras…

Esse seu céu azul pincelado de rosa, alaranjado, parece

Nos deixa assim mais perto de Deus, numa prece…

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21 de abril de 2010, 50 anos!

21 de abril de Brasília, de Tiradentes

Liberdade, ainda que tardia!”

Brasil, 2010… ainda agora como antes

Igualdade! Democracia!

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*zédejesusbarrêto, jornalista, escrevinhador

22abril/2010.

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IDEIAS PARA O CENTRO HISTÓRICO DE SALVADOR

posted by Jary Cardoso @ 7:00 PM
21 de abril de 2010

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Seguem dois textos de DIMITRI GANZELEVITCH, francês nascido no Marrocos e radicado na Bahia desde 1975. Dimitri fundou a Associação Viva Salvador, que desenvolve ações de educação para a arte. Colecionador de peças de arte popular, ele transformou sua residência, situada no Centro Histórico de Salvador, na Casa Museu Solar Santo Antônio, que reúne seu acervo particular.

Crítico contumaz das ações e omissões dos governantes em relação à Cidade da Bahia, nestes dois textos Dimitri apresenta propostas para um melhor uso do Centro Histórico.

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VIVER NO CENTRO HISTÓRICO

DE SALVADOR

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texto de DIMITRI GANZELEVITCH*

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Voltando ao mau uso do Centro Histórico de Salvador. A rejeição deste bairro pela classe média baiana é uma realidade cultural. Ninguém quer saber se aqui moraram os poderosos, clérigo e nobreza de outras épocas. Nem os responsáveis pela conservação do bairro, seja de primeiro ou segundo escalão, nem o próprio arcebispo, apesar do magnífico palácio arquiepiscopal da Praça da Sé.

Quem manda seus filhos passar férias em Miami e Orlando dificilmente aceitará viver em moldura histórica sem o glamour dos condomínios com playground, zelador e garagem de controle remoto. O escudo invocado sempre é “por causa dos filhos”. Mas lamentar não adianta.

O Centro Histórico necessita de leque sociocultural mais amplo se quiser sobreviver. Há muitos anos defendo a implantação de repúblicas de estudantes, como houve antes da reforma, antes das vaias a um irascível governador. Sangue novo, risos, violões, atitudes rebeldes fazem parte da qualidade de vida de antigos bairros onde espíritos irrequietos e contestadores encontraram refúgio.

Que seria de Salamanca sem suas tunas ou de Coimbra sem suas estudantinas?

Que também fique aqui registrada minha sugestão aos governantes de atribuir, talvez na forma de prêmio, uns ateliês amplos e arejados a alunos recém-diplomados das Escolas de Música, Dança, Antropologia, Belas-Artes etc. Poderia ser sob forma de convênio para um mínimo de dois ou três anos, sem ônus para o contemplado, incluindo luz e água. Uma bolsa-artista. Por que não? Sairia muito mais barato que campanhas publicitárias na televisão e outdoors na Paralela.

Pequenos eventos com programação regular como feiras livres de produtos orgânicos no Terreiro de Jesus e no Largo de Santo Antônio, apresentações semanais de mamulengos e tantas outras formas de atrair e manter uma qualidade de vida diferenciada poderiam mudar os preconceitos da sociedade soteropolitana.

Precisamos reintegrar o Centro Histórico à cidade que dele nasceu. O que não se pode é imaginar que a abertura de um shopping no Santo Antônio ou shows de rock ou de pagode no Pelô solucionarão a previsível decadência do bairro.

Tombado pela Unesco no final do século XX, ou tombando pela falta de visão nos primórdios do século XXI?

(Salvador, 7 de abril de 2010)

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*Dimitri Ganzelevitch – Presidente da Associação Cultural Viva Salvador

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UM CENTRO DE CONVENÇÕES

NO CENTRO HISTÓRICO

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texto de DIMITRI GANZELEVITCH*

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Na década de 90 discordei do espírito que liderou a restauração do Centro Histórico de Salvador. Continuo discordando do aproveitamento leviano que ainda vitimiza este pedaço de cultura e história, ora confundido com um banal Wet’n Wild, ora palco de folclorizações para turismo de massa.

Não me conformo com as “baianas de receptivo”, suas roupas e torços, verdadeira traição à elegância das vestimentas tradicionais. Você conhece cariocas, sevilhanas ou cusquenhas de receptivo? Não me conformo com um monte de erros de como se deve usar este bairro.

Há uns dois anos mandei pela internet uma sugestão de centro de convenções no Pelourinho. Receptividade excelente. De que se trata? Simplesmente de mapear e usar as possibilidades – e são numerosas – para atrair um público variado de profissionais oriundos de todas as partes do mundo.

Temos salas de reunião e auditórios suficientes, hotéis e pousadas para todos os bolsos, restaurantes, bares, sorveterias e teatros para o laser. E mais: não será preciso construir um monstrengo de ferro e concreto para abrigar seminários e congressos. Por que concentrar todos os serviços no mesmo espaço?

Em 1999, fui convidado pela Unesco a um congresso sobre Turismo Cultural em Puebla, no México, cidade tombada como patrimônio mundial. O centro de convenções fica a cinco minutos a pé do Zócalo, coração da cidade. Adaptaram, com desmedido talento, um conjunto de antigas usinas, respeitando os edifícios originais e até as ruínas, levando os participantes a andar de uma sala a outra por jardins, áreas descobertas e velhos depósitos. Passeios para ninguém criticar ou achar penoso. Muito pelo contrário, todos apreciam o aproveitamento da memória material e cultural da região.

Para mudar o perfil do mau uso de nosso Centro Histórico, basta fazer um levantamento exaustivo de suas possibilidades. Senac, Teixeira Leal, Faculdade de Medicina, Ipac (Instituto do Patrimônio Artístico Cultural da Bahia), igrejas…

E assim poderia também se programar a reabilitação dos cinemas Excelsior, Jandaia e Pax, espaços ideais para grandes audiências e exposições. Não, instrumentos de trabalho e bons operários não faltam. O que falta são bons empreiteiros.

(Salvador, 29 de março de 2010)

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*Dimitri Ganzelevitch – Presidente da Associação Cultural Viva Salvador

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