Archive for maio, 2010


CAETANO VELOSO: “OU NÃO?”

posted by Jary Cardoso @ 3:21 PM
31 de maio de 2010

Caricatura criada por CAU GOMEZ

Não me importo com Dilma ou Serra. Sou Marina de todo o coração”

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texto de CAETANO VELOSO

(reproduzido do jornal A Tarde, que publicou este artigo simultaneamente com O Globo, em 30.5.2010)

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Mesmo que tenha sido uma confusão nascida da ignorância de alguns humoristas, é uma honra para mim ter herdado o bordão “ou não” de Walter Franco. Há quem diga que mereço, não a proximidade de Walter, mas as sugestões pejorativas do bordão. Muita gente vê indefinição suspeita no que para mim é independência política. Em tempos de eleição essas reduções tornam-se mais grosseiras. Pois bem: vou pensar em voz alta. Não me importo com Dilma ou Serra. Sou Marina de todo o coração. Se tiver de escolher entre os outros dois, acho que prefiro Dilma, já que, como eu disse na entrevista ao “Estadão” (que ficou famosa por causa da palavra “analfabeto”), Serra está à esquerda da política econômica de Lula (a matéria no Globo com Serra dizendo a Miriam Leitão que “o Banco Central não é a Santa Sé” — com aquelas fotos apavorantes — poderia ser criticada pela “Caros amigos” como alarmismo suspeito, imposto pelo poder dos rentistas). Ou seja, eu prefiriria Dilma porque ela defende a independência do Banco Central.

Aconselho a leitura de “Aqui ninguém é branco”, de Liv Sovik. É a mais complexa e corajosa reflexão sobre raça no Brasil dentre as que vêm do lado dos racialistas. Mas meu comentário, dirigido a Felipe Hirsch, contrastando o racismo popular com o racismo de elite, eu o reenviaria a Sovik. Acabo de chegar da inauguração do Centro Cultural Waly Salomão, em Vigário Geral: grupos de garotas locais, pretas, mulatas e brancas, chegavam bem arrumadas e tomadinhas-banho, sorrindo entre si. Liv diz, com ironia, que “têm razão os que contrastam os EUA com o Brasil, valorizando o quadro brasileiro: para os brancos, especialmente, ele é muito melhor”. Nem uma gota de ironia em minha recomendação do livro. Leiam e verão que ela vai muito além dessa canelada.

Tenho 67 anos. Cresci, amadureci e envelheci ao som da “Aquarela do Brasil”, o nosso hino nacional oficioso, em cujo segundo verso o país é chamado de “mulato inzoneiro”. Nunca vi ninguém estranhar o uso da palavra “mulato” para definir o país. Mas nada me dizia que não houvesse brancos no Brasil. Meu pai era mulato. Minha mãe é branca. Sendo ela de extração mais humilde, era ela quem usava a expressão popular “eles que são brancos, que se entendam”, quando se alegrava por não ter de entrar em certas disputas. Mesmo que fossem entre meu pai e Luís de Gaspar, um preto retinto que era amigo dele. Gaspar era o português que tinha uma loja de ferragens onde Luís trabalhava. Depois Luís abriu a sua própria. Todos diziam “segunda é dia de branco” — quer dizer: dia de trabalharmos para os patrões. Isso independentemente da cor de quem dizia — e mesmo da dos patrões. A ideia arraigada de que somos um país mulato não nos impedia de distinguir explicitamente entre brancos e pretos, ou mulatos, caboclos, sararás. E sempre foi evidente que “branco” indicava vantagens estéticas, econômicas e sociais.


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Liv vai além do habitual: fala da invisibilidade do branco e analisa a mídia. Tudo bem que ela comente textos da “Veja”, mas por que nem ela comenta textos em que Paulo Francis, o mais adorado e imitado jornalista brasileiro, louvava a retomada do projeto de eugenia por trabalhos como “A curva do sino”, que diz provar ser a inteligência média dos estudantes negros americanos inferior à dos brancos? Exibir simpatia por coisas assim era reação aos movimentos negros. Esses movimentos eram necessariamente racialistas. Passou a haver, então, uma reação antirracialista, como, por exemplo, a de Antonio Risério, e uma reação racialista, como a de Francis. A menina que disse a Liv, em Salvador, “aqui ninguém é branco” tem posição próxima à minha, que é próxima à de Risério e avessa à de Francis.

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O presidente Lula ensaiou o anúncio de uma negociação de peso com o Irã. Vejo Lula como um grande personagem épico. Ele pode ser atraído pelas baixezas do populismo. Mas, até aqui, tem pesado mais sua vocação para representar o que o Brasil tem de original. Parte da sua euforia — que pode ser intragável — é reconhecimento disso. É narcisismo salutar, abençoada vaidade histórica. A tentativa de costurar um papo entre os aiatolás e a capitalistada tem, por mais que a analogia com Chamberlain (lembrada por Diogo Mainardi) proceda, mais peso do que todas as outras bolas na trave que ele e Amorim deram antes.


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Sou anticarlista, não fundaria a Embrafilme, não julgo Pinochet pelo que ele deu de útil ao Chile. “The Economist”, falando do óleo no Golfo do México, diz que “o congresso americano deve endurecer a vigilância e aumentar as penas para os faltosos. Mas, infelizmente, não haverá nenhum esforço para dar conta dos maléficos efeitos colaterais do petróleo. Pois vazamentos estão longe de ser o efeito mais deletério da dependência do petróleo de que sofrem os EUA: aquecimento global e financiamento de déspotas estrangeiros vêm no topo da lista”. Essas são palavras editoriais de uma revista liberal inglesa. É por coisas assim que os princípios liberais resistem mais em mim do que a hipótese comunista. O que se sobrepõe a ambas as visões é o sebastianismo de Agostinho da Silva. Este era claramente antiliberal em economia, mas tinha horror a regimes de força. Muitas das suas tiradas são espetaculares. A minha preferida é: “Portugal já civilizou Ásia, África e América — falta civilizar Europa”. Gosto porque falamos português. O mundo lusófono tem sido, há já séculos demais, um ridículo histórico. A mera existência do Brasil parece dizer “chega!”.

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WILSON MELO – GENTE DA BAHIA

posted by Jary Cardoso @ 2:59 PM
31 de maio de 2010

WILSON MELO. Foto do arquivo da Agência A Tarde – 23.5.1986

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Wilson Melo e nós

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texto de EDSON RODRIGUES*

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Centenas de atores, diretores e artistas de teatro jovens, que hoje constituem a diversificada cena local, foram batizados em mesas de bar por Wilson Melo. Primeiro, faziam lá as audições para o Curso Livre do Teatro Castro Alves, para o mesmo curso depois deslocado para a Escola de Teatro da Ufba, para os cursos regulares oferecidos por esta faculdade, ou mesmo, como eu, entravam na cena por outros caminhos. Isso era a parte “acadêmica” do início da viagem.

Adentrado ao barco, ao visitante ainda carecia um outro encontro, que mais cedo ou mais tarde iria acontecer em alguma mesa de bar da cidade. Um encontro com Melão. E era ali, cercado por garrafas de cerveja e risos estrondosos, que o postulante a homem ou mulher de teatro passaria a sentir o vigor de outras energias que movem o artista: a da constante renovação, da alegria, da repulsa ao status quo e às sádicas convenções do cotidiano. Melão era o melhor professor que o teatro baiano contemporâneo conheceu nestes quesitos.

Melão morreu na manhã de um sábado [29.5.2010], dia que costumava sorver por inteiro por conta de sua opção de vida boêmia e festiva. Mas seria muito limitado lembrar desse ator apenas pela sua grande amizade com Dionísio, o deus grego que entre os romanos era conhecido como Baco. Tal qual essa figura mitológica, Melão também adorava os líquidos inebriantes, as festas, o divertimento; mas, por outro lado, era um ator de currículo extenso e admirado, um conselheiro sem vestes de professor dos artistas mais jovens, um filósofo da vida. E também era, aqui é bom frisar, um marido e pai atencioso, o que reforçava seu posto de exemplo para os mais jovens, como que a mostrar que é possível fazer rimar divertimento com responsabilidade na vida.

WILSON MELO como Quincas Berro D'Água. Foto de ADRIANA CAMPELO SANTANA – 29.5.2003

Entrevistei Wilson diversas vezes na função de repórter e outras tantas viabilizei entrevistas com ele nas posições de pauteiro e editor. Isso em jornais e na tevê. Também troquei tantas e tantas ideias sobre arte e vida com ele, em mesas de bar. De uns tempos para cá, estávamos mais ausentes, mas sempre que nos víamos, era como se tivéssemos tomado um porre juntos no dia anterior. Melão não foi o que muito estraga uma grande parte das pessoas que fazem arte hoje em dia: não era pretensioso, não era o dono da verdade, não era ganancioso, não achava que a história do teatro baiano havia começado por ele.

O currículo de Melão é enorme. De minha parte e até onde vi seu desempenho, não esqueço de seu duo com a tão enorme quanto Nilda Spencer em Lábios que beijei, peça na qual os dois importantes atores, em um ato de demonstração do caráter renovador da arte, emprestaram seus prestígios ao projeto de um diretor e dramaturgo então desconhecido e iniciante, Paulo Henrique Alcântara. O resultado foi um marco para quem teve a oportunidade de assisti-lo.

Há também Horário de visitas, de Ewald Hackler, interpretação que deveria ter lhe rendido, à época, o título de melhor ator da temporada pelo então prêmio Braskem de Teatro. Não levou, mas foi um erro daquela comissão que até hoje deve penitenciar-se pelo equívoco. Seus Quincas Berro D’água (fez esse personagem em três montagens, em três décadas diferentes, sob o comando de três diretores) são sempre lembrados. Trabalhou com outros tantos diretores, tantos atores, em tantos projetos… seu currículo é tão extenso que é melhor dispensá-lo desse texto, para que haja mais espaço para conversar sobre o homem e o ator.

WILSON MELO em O Cego. Foto do arquivo da Agência A Tarde – 7.9.1989

A saída de Wilson Melo da cena deixa uma lacuna no teatro baiano. Seu exemplo de dedicação sem vaidades à arte do teatro é seguido por poucos. Mas a morte de Melão deixa-nos também a pensar sobre que tipo de valorização nós, jornalistas, dedicamos às pessoas que constroem a cena artística local.

Wilson Melo era um gigante, assim como Nilda Spencer, João Augusto, Carlos Petrovich e Mário Gusmão, dentre outros, o foram; e Yumara Rodrigues, Harildo Deda, Mário Gadelha, Sônia Robatto, Cleise Menses, Ewald Hackler, dentre outros, o são. Isso falando de teatro, pois ainda há a dança, o cinema, o circo, a música. Com suas histórias, um bom número de artista baianos coloca nosso Estado na história do teatro e das artes do Brasil. Para falar outro exemplo, Nélson de Araújo (morto em 1993) também não é lembrado como merecia, posto que é o autor de um dos mais importantes estudos sobre a trajetória do teatro, no mundo e no Brasil, já publicados por um autor em português. E isso não é culpa de um jornal ou de um programa de tevê; não é culpa de um grupo de pesquisadores ou jornalistas. É resultado, sim, de uma forma adotada tacitamente, em que se ama o que é longínquo, no que não há nenhum pecado, mas se minimiza o poder do que está próximo, e reside aí o erro.

Em tempos nos quais o jornalismo da Bahia segue cada vez mais comandado por pessoas de formação longínqua às nossas fronteiras, e aqui não vai nenhuma crítica, mas uma constatação (e isso acontece na tevê, no rádio e nos impressos), restam as questões, no tangente ao conteúdo: vamos valorizar nossas origens ou nos transformaremos na geleia geral onde qualquer coisa tem o mesmo valor das nossas coisas?; daremos em nossos noticiários espaço àqueles que fazem a diferença dentro de nossas fronteiras ou vamos esperar, da melhor forma provinciana, que alguns desses valores tenham o crivo dos intelectuais, críticos e jornais do Rio de Janeiro e São Paulo para, aí sim, “redescobri-los”?; seremos autênticos valorizando os nossos esforços, nossos talentos e nossas produções, ou adotaremos a postura de sempre dar maior dimensão e valor ao que vem de fora?

WILSON MELO. Foto do arquivo da Agência A Tarde – 24.2.1980

Faça uma experiência. Jogue o nome Wilson Melo no Google e veja o que você recolhe. Adianto-me: irá conseguir muito pouco sobre a vasta história desse grande artista, porque, a bem da verdade, nós falamos muito pouco sobre os nossos grandes artistas.

Vejo você mais adiante, amigo Melão. Certa vez, fui um Castro Alves tendo você no papel de Fagundes Varela. Naquela experiência eu, vindo do teatro feito em escolas, comunidades e igrejas, senti-me ator profissional pela primeira vez. Não pelos meus dotes de interpretação (que sempre foram pequenos), não por estar realizando aquela montagem em um teatro com aparato profissional; mas sim porque contracenava com dois verdadeiros atores – Yumara Rodrigues interpretava a atriz Eugênia Câmara, amante de Castro Alves. E se aqueles atores me olhavam tão confiantes, trocavam diálogos tão compenetrados e interessados comigo, acreditavam tanto em mim como parceiro de cena, era porque eu também era ator. Ou estava sendo ator. Tenho ainda hoje a lembrança daquele sentimento que se achegou em meio à cena e isso me fez aprender que não se tem só saudade de pessoas e de fatos; tem-se também saudade de um sentimento.

Ergam-se as taças: um brinde ao grande homem Wilson Melo! E obrigado, Melão.

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*Edson Rodrigues – Jornalista

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WALTER SMETAK – GENTE DA BAHIA

posted by Jary Cardoso @ 10:48 PM
30 de maio de 2010

Ilustração de BRUNO AZIZ

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MAIS UM PATRIMÔNIO CULTURAL

BAIANO ESTÁ EM RISCO

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texto de ENIO ANTUNES REZENDE*

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Dia 30 de maio, há 26 anos atrás, falecia Anton Walter Smetak. Apesar de ter nascido em 1913 na Suíça, este violoncelista virtuoso, compositor, luthier, escultor, escritor, inventor de instrumentos e “plásticas sonoras” (cerca de 150); viveu o auge de sua carreira em Salvador, trabalhando como professor na Escola de Música da UFBA desde 1957 até a sua morte, em 1984.

Sua obra inscreve-se em uma linhagem que inclui E. Varèse, J. Cage, A. Schoenberg e J. Carrillo – compositores que tiveram uma contribuição-chave na difusão do atonalismo, dodecafonismo e microtonalismo.

Ao buscar romper com as bases rítmica, harmônica e tonal predominantes na música “erudita” europeia de sua época, e incorporar timbres e outros sons pouco usuais às suas composições, Smetak foi vanguarda na Bahia e da Bahia, pois também integrou de maneira genial a música à escultura.

Focando seus esforços no estudo da atomização microtonal e do “som prolongado” através de instrumentos experimentais produzidos com cabaças e outros recursos naturais nativos – inclusive através de instrumentos produzidos por indígenas brasileiros – Smetak não estava apenas pesquisando novos sons e revalorizando sons tidos como “corriqueiros”. Seu objetivo foi o de ampliar a consciência auditiva dos indivíduos como um passo necessário para o despertar de novas faculdades sensoriais e valores sociais.

Para Smetak a função da música é a de celebrar o presente, não em seu sentido festivo, alienante e reificado da nossa sociedade on line, tão dependente de eventos impactantes sucessivos e cujo efeito principal é ignorar o passado, a própria história e a possibilidade de mudanças no futuro. Ao contrário, a sua forma criativa de celebrar o presente através do exercício musical pode ser entendida como um método revolucionário e necessário para a reinvenção de novas formas de se viver, socialmente mais justas e generosas.

A importância do seu legado é que ele não foi apenas um homem com preocupações estéticas, mas também sociais e espirituais. Afinal, como a expressão musical é a forma de arte mais abstrata, ele acreditava que caberia à nova música dar vazão a um ímpeto criador capaz de plasmar novos homens e também uma nova sociedade.

De Caetano a Gil, passando por Tom Zé, Rogério Duarte e Tuzé de Abreu a genialidade das suas contribuições inspirou e inspira muitos artistas e intelectuais. No entanto, seu legado material está inacessível ao público de hoje, e inclusive, corre sério risco de se perder.

Até 2007, grande parte das suas obras encontrava-se em uma sala da Biblioteca Central da UFBA, mas com o término da Exposição “Smetak – Imprevisto” no Museu de Arte Moderna, a Biblioteca decidiu dar novo uso ao espaço, e não se dispôs a receber o acervo de volta. A única opção restante foi alojá-lo temporariamente em uma sala nos fundos do Museu de Arte da Bahia, uma sala precária, que não oferecia condições minimamente adequadas.

Com as chuvas torrenciais deste inverno soteropolitano a situação agravou-se, e as caixas (molhadas e mofadas) com as obras de Smetak foram levadas em caráter emergencial para o Museu de Arte Moderna.

Esse caráter provisório e mambembe do “depósito” das obras de Smetak revela que há muito pouco o que comemorar nessa data, uma vez que a situação perdura sem qualquer manifestação das autoridades responsáveis, e sendo veladamente consentida com o silêncio dos agentes culturais.

Isso reflete o triste quadro de desvalorização da memória cultural em nosso estado. Afinal, o legado de outros baianos ilustres como Dorival Caymmi Glauber Rocha, Hansen Bahia, Emanoel Araújo e Jorge Amado também padece com a falta de uma política cultural que encampe a preservação e a utilização dos acervos dos nossos grandes artistas.

Não se trata apenas de dar um lugar adequado para estas obras repousarem cristalizadas. Mais do que um gesto político, trata-se de acompanhar o gesto de um conjunto de iniciativas coordenadas e continuadas que lhe deem vida. Boas práticas de gestão do patrimônio cultural que permitam que esses objetos perdurem, sejam apreciados, conhecidos e divulgados por toda a sociedade.

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*Enio Antunes Rezende – Professor da Universidade Estadual de Feira de Santana

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