Archive for maio, 2010


De bola, flores e abandonos

posted by Jary Cardoso @ 10:00 PM
30 de maio de 2010

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texto de zédejesusbarrêto*

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Queria só falar de flores neste final de outono. Ou de bola, apenas, de olho na África do Sul. Queria ouvir o grito de GOOOOL feito um signo sonoro único, universal, chamando a paz, congregando a humanidade, estabelecendo a igualdade humana.

Porque diante da bola somos todos um, iguais, independente de origem, cor, crença, ideologia, sexo, idade, tamanho…

A bola é o signo mais acabado de Deus. Não tem início, não tem fim… plena de mistérios, grávida de encantamentos. Fêmea!

Bola… Alfa e ômega. Universo, planeta terra, útero, cabeça, gota, ponto, grão, quietude e movimento, tudo!

Flores à bola, todas! Rosas, rosas de todos os tons, e orquídeas, cravos, margaridas, jasmins, magnólias, angélicas, gérberas… Flores à bola!

E que venha a Copa, que os olhos se abram para a África. Não com olhos de cobiça. Mas com o sentimento de reencontro com a nossa humanidade. Simples, pó (lodo e amálgama), semente.

Que o milagre da Bola nos permita ver, compreender a humanidade, pensar num novo amanhã… a partir da África-Mãe! Ave, deusa Bola!

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Vistas turvas

O noticiário engajado mostra, os marqueteiros do poder me empurram, o presidente Lula brada convicto e eu até quero acreditar que a pobreza diminuiu de verdade, está mesmo quase que acabando ‘como nunca antes neste país’! Pronto. Que bom que fosse!

Pois ando pelas ruas e praças centrais de minha Cidade da Bahia e tropeço em molambos humanos arriados pelas calçadas, famílias inteiras dormindo sobre papelões na praça dos Mares, de Nazaré, da Piedade, sob marquises e viadutos, numa miséria, num desamparo, num abandono de cortar coração.

Carros, buzus, transeuntes passam lotados, nem olham, parece que nem se dão conta… feito os governantes. Esses não contam, já não fazem parte dos números, das estatísticas… quem sabe nem mais humanos como nós serão.

Viajeiro, passo por cidades menores do interior sertanejo e deparo-me com pedintes pra todo lado, bodegas cheias de cachaceiros desdentados, os posto de saúde abarrotados, meninas barrigudas já com criança nos braços e olhos embaçados, envelhecidas e mal vestidas, jovens perambulando sem ter o que fazer, aquela feira murcha, a desgraceira das drogas desgraçando tudo e, em cada esquina, relato de violência de todo tipo e sem controle, às portas. Balas que matam é o papo, antes da bola e da Copa.

Ah, vejo circulando muito carrão, picapes bonitas rasgando estrada voando na contramão… deve ser a tal ‘nova’ classe média de que tanto falam. Passam tão azoados que nem dá tempo de ver os meninos e meninas na beira da estrada vendendo frutas e bichinhos do mato, pedindo esmolas, molambentos. Lembro-me dos carros-de-boi cantando dolências estrada afora.

Acho que a idade andou me deformando a mente. Ou careço de um daqueles óculos 3D – dos que se usam no cinema pra pessoa ‘entrar na realidade’ – pra que eu possa enxergar direito as coisas.

Tô esperando o horário eleitoral gratuito, em agosto, pra desanuviar. Lá é que a gente vê coisa bonita e o coração ufana!

Crendeuspai! Onde perdi minha esperança?

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Atentado ao Pelô

Desafio qualquer autoridade a, sozinha no seu carrão, estacionar num dos estacionamentos oficiais pagos da área do Pelourinho, à noite. Escuridão total, nem dá pra enxergar os carros, sem uma viv’alma lá dentro, um terror! O serviço é uma porcaria, despreparo e falta de educação na porteira. Insegurança absoluta, um convite aos bandidos, risco total, dá medo de verdade. Inconcebível manter uma grande empresa do ramo (???) prestando aquele (des)serviço. Afugenta qualquer um. Não vão lá, pelamôdedeus!

O jeito é mesmo estacionar nas ruas próximas/distantes: Chile, Misericórdia, Ajuda… onde os malandros assediam e retomar o volante, já mais tarde, é um risco.

Por essas e outras o Pelô está esvaziado, entregue a drogados e traficantes, sobretudo à noite. Cara de abandono. São João vem aí, Copa do Mundo também… É esse o serviço que oferecemos, é assim que queremos chamar as famílias, os turistas para festejar?

Enquanto isso, o ‘projeto de ‘re-re-revitalização do Centro Antigo’ rola, há anos, em blá-blá-blás de gabinetes.

Sinto falta do brado dos movimentos negros baianos: ‘Salvem o Pelô!’ Cadê? Só o mestre Clarindo clama? Quero o ijexá do Gandhy, os tambores do Olodum, o baixo do reggae, os berimbaus angoleiros clamando, gritando em pedido de socorro. O Pelô chora de desamparo.

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Ler é viver

Releio aos poucos e pela terceira vez ‘Viva o Povo Brasileiro’ do baiano João Ubaldo Ribeiro. A cada releitura mais fantástico ainda. É o nosso ‘Cem Anos de Solidão’, a saga latinoamericana do colombiano Gabriel Garcia Marquez.

O texto e a abordagem histórica de Ubaldo, que mais recentemente lançou o belo ‘O Albatroz Azul’, são brasileiros e baianíssimos. E tá rebocado o baiano que não ler. Ubaldo é essencial.

Os versos de Pessoa, a prosa de Ubaldo, os toques de Verissimo, os fraseados de Millor… Quedo-me, diante deles, pequeno.

Mas insisto, aqui e ali, com minhas palavras toscas, letras em garranchos.

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PS: – Elogiável, sob todos os aspectos, a lei do dep. Lobbe Neto (PSDB-SP) sancionada esta semana pelo presidente Lula que prevê a instalação de bibliotecas em todas as escolas públicas e privadas do país, num prazo de 10 anos. Acho o prazo longo, mas… já é um adianto, arre! Sem leitura não saímos desse atoleiro.

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Ói a Copa!

… mas a Copa do Mundo da África tá em cima e, quando a bola rola, a vida quica com ela, gracejante. Só que o mesmo grito de gol, que empolga, entristece. O goleador vibra, o goleiro chora. A vida é uma bola.

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Pensamentando…

O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”

(João Guimarães Rosa)

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*zédejesusbarrêto, jornalista e escrevinhador (26mai/2010)

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O CORREDOR DA VITÓRIA SEGUNDO JOLIVALDO

posted by Jary Cardoso @ 9:00 PM
27 de maio de 2010

Foto de CLÁUDIO NIEDERAUER

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O REINO DE SHANGRILÁ

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texto de JOLIVALDO FREITAS*

(especial para o Jeito Baiano)

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Mais de 99 por cento da Bahia não sabe que existe uma praia chamada Shangrilá, em Salvador, e que nem está no mapa, nem no roteiro turístico e nem em nada. A não ser na cabeça dos maconheiros e dos pescadores que a frequentaram nos anos 60 e 70.

Todo mundo sabe da praia da Ribeira, Porto da Barra, Itapuã e até as do Litoral Norte, que já nem pertencem à capital, mas ignoram a lúdica e única praia da cidade que está localizada numa falésia.

Para quem não sabe e nem tem mesmo a obrigação de saber, justamente por não ser tão importante assim ou algo que vá impedir a hora do Harmagedon, a praia fica no logradouro com o metro mais caro da cidade. Está abaixo do Corredor da Vitória, onde hoje estão os mais caros apartamentos e os mais altos edifícios da moderna metrópole.

O Corredor da Vitória foi para onde, no período colonial e principalmente no limiar do século XX, os grandes fazendeiros de cana-de-açúcar, que não queriam passar a vida eternamente de forma bucólica, decidiram montar seus casarões. No final do século vieram os comerciantes franceses, italianos, ingleses e outros alienígenas e montaram casarões coloniais, fugindo das ruas irregulares do centro da cidade.

Ainda restam alguns casarões de importância histórica, mas a maioria absoluta, mesmo se tratando de um importante acervo, um patrimônio histórico, foi destruída pela sanha dos construtores.

Um exemplo recente é o do casarão neocolonial, parecendo daqueles americanos do filme E o Vento Levou, que pertencia ao reputado jornalista Jorge Calmon, que, segundo dizem as más-línguas, foi vendido para uma construtora com a garantia de que a casa seria preservada e o prédio construído na parte de trás. Ainda, segundo dizem por aí, a construtora derrubou o casarão nas madrugadas de um final de semana, decidindo pagar a multa pela nefasta ação, coisa que seria pouco em relação ao faturamento com o projeto. Foi-se a memória, ficaram os granitos da fachada do arranha-céu.

O Corredor da Vitória, que ganhou seu nome de batismo durante o período da guerra da Independência da Bahia – por onde as forças nativas marcharam quando da vitória contra o Exército Português de Madeira de Mello –, sempre foi o sonho de consumo da classe mais abastada da cidade, por sua posição privilegiada.

Fácil acesso às praias da área sul da cidade e próximo ao Centro Histórico. Também com uma paisagem privilegiada, debruçado sobre a Baía de Todos os Santos e com vista para a Ilha de Itaparica, Ilha de Maré, Madre de Deus e subúrbio ferroviário. Uma dádiva.

Abaixo, um imenso paredão de pedras de fogo e vegetação rasteira, com águas límpidas que dá até para ver os cardumes passando. Hoje o acesso para as praias abaixo das escarpas é fácil. Os prédios milionários fizeram piers e montaram chariots que descem sobre trilhos.

Antigamente ninguém tinha coragem de descer. Para chegar lá era preciso vir de barco, saindo do Solar do Unhão, na zona do Comércio ou do Porto da Barra.

Nos anos 60, quando a repressão aos hippies era imensa e fumar maconha dava com a polícia batendo de cassetete de borracha ou “fanta” (cassetete de madeira de lei) no lombo, os chincheiros encontraram o lugar perfeito e foram para lá se juntar a grupos de artistas que já frequentavam o lugar pela sensação de estar fora do burburinho da cidade.

A lenda urbana reza que quem batizou a área de Shangrilá foi o compositor baiano Caetano Veloso.

Carlito Mau Mau, Zé Diabo e Arquimedes Maluco frequentavam a área, descendo pela rua e se arranhando todo nas pedras e nos feixes de tiriricas. Naquele dia Mau Mau levava em sua bolsa de couro curtida e pintada com o símbolo de Paz e Amor um novo tipo de cogumelo que um argentino mais doido ainda tinha dado de presente no Porto da Barra, para fazer chá. Fizeram e provaram. Tirando umas luzes piscantes, uma sensação de dormência na língua e uma comichão que não parava nas pernas, nada demais aconteceu.

Os três moravam no Edifício Apolo XXVIII (o nome em homenagem aos foguetes norte-americanos), na época o maior da cidade com 28 andares, cheio de problemas como elevador que não funcionava e o cara tinha de subir a pé até o último andar para chegar em casa; faltando água, luz cortada e limpeza zero. Saíram do Sahngrilá e decidiram subir a montanha de escadas para apreciar a paisagem do telhado do Apolo.

Talvez pelo esforço, foram chegando e recebendo a rebordosa. O chá começava a fazer seu efeito. O sol, na ótica de Mau Mau, estava parecendo se dissolver como tinta a óleo: escorrendo no horizonte após a Ilha.

Zé Diabo viu passar uma revoada de araras e Arquimedes Maluco decidiu voar atrás. Jogou-se. Deu sorte de cair sobre uma plataforma poucos metros abaixo e ficou lá com o braço quebrado. Pelo susto o efeito passou em todos. Os moradores chamaram os Bombeiros.

Os soldados subiram todos os andares, cheios de equipamentos, retiraram o maluco do local de risco e foram descendo com os três. Os moradores tinham se alinhado nas escadas. Cada degrau um morador.

Os três drogados descendo e levando cascudos, piparotes, piabas, telefone sem fio, cusparadas, chutes, beliscões, ofensas e dedadas no toba, e os bombeiros fazendo de conta que não estavam vendo. Chegaram roxos até o andar onde moravam.

Por coincidência, depois disso nunca mais o Shangrilá voltou a ser frequentado. A loucura deles chamara a atenção da imprensa e a polícia passou a dar batidas e colocar para correr qualquer um que não fosse morador da área.

Hoje, os três, pessoas bem situadas na sociedade baiana, garantem que não lembram da história. Juram por Senhor do Bonfim que não foi com eles.

E ninguém, no edifício, se lembra do caso. A praia de Shangrilá não é mais a mesma. Está cercada de edifícios cujos apartamentos valem milhões de dólares.

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*Jolivaldo Freitas – Jornalista e escritor

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Que viva São João, mas salvem o Pelô

posted by Jary Cardoso @ 9:21 PM
26 de maio de 2010

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texto de zédejesusbarrêto*

(especial para o Jeito Baiano)

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Acho correta a posição do IPHAN de não permitir grandes palcos no Terreiro de Jesus, no Largo do Pelô e também no Farol da Barra. Muito menos na Praça da Sé, entre o Palácio Arquiepiscopal e o Memorial das Baianas, encobrindo o monumento da Cruz Caída, obra genial de Mário Cravo que, parece, os baianos nem se deram conta.

O Pelourinho, o nosso Centro Histórico tem de ser revitalizado de outra maneira, valorizando sua cultura, sua gente, seus fazeres, templos, casarões, ritmos… Até cabem, aqui e ali, shows, ambientações, espetáculos, tudo dentro dos conformes.

Pode ter batuques sim, contanto que não daqueles de derrubar pilastras. Pode ser jazz, blues, reggae, ijexá, samba-reggae, sim. Cabe, sim, o bom forró pé-de-serra e temos também, sim, bons artistas que podem atrair público como Ademário Coelho, Virgílio, Fechinne, Amazon, Targino, Bule-Bule, um Xangai… entre tantos outros, também de fora.

Mas não precisa levar banda e potência de trio elétrico pra lá, pelamôdedeus! Chega de zoadeira, de pancadão o ano inteiro em todo o lugar, até nos fundos dos carros, furando os ouvidos!

São João é, sempre foi diferente. Ué, agora, pelaqui, pra se atrair gente… tudo tem de virar carnaval… por quê? Quem estabeleceu isso? Os grandes palanques acabaram com o carnaval do interior. Em Cruz das Almas um tal ‘Forró do Bosque’ (é isso?) detonou a festa, é só molecada, zoeira e violência. E assim por diante, sertão afora, feito uma tsunami do barulho.

Meteram na cabeça, de uns tempo pra cá, que São João tem de ter guitarras elétricas, teclados plugados, banda pesada, aquelas mulheres exibindo os fundos das calcinhas, machos duvidosos ciscando, tudo a pretexto de um forró moderninho, agudíssimo e com letrinhas fáceis. Estilo Mastruz com Leite, Calcinha Preta… uma praga. Ninguém mais se lembra de Luís… o gênio Gonzagão. Sem ele, o forró nem existiria. Acabaram com o baião, o xote, o xaxado, o resfolego do pé-de-bode, o rasta-pé. Tá tudo estilizado, plastificado, poluído.

A indústria nordestina do forró eletrônico vem dominando tudo, impondo, exigindo, destroçando… Pois, não aqui no Pelô! São João é roça, é reza, novena, cantoria, é fogueira, comida gostosa, sanfoninha chorada, é rela-bucho, é arraiá, licor de jenipapo, namorico, alegria, noite úmida quente de fogos e viva Xangô menino!

Ninguém quer ver o Pelourinho esvaziado, desmotivado, muito pelo contrário. Mas é preciso se pensar o que realmente cabe e valoriza aquele espaço rico e diferenciado da cidade.

E vamos cuidar do nosso patrimônio cultural, arquitetônico com carinho, antes que tudo desmorone de uma vez, como aliás já vem ocorrendo. Dos prédios e das pessoas (moradores, empresários, trabalhadores, visitantes, perambulantes…).

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Então, que sejam criados novos espaços na cidade para essas grandes festas de patrocinadores, que arrastam a massa sem cérebro. Vão lá para a área do antigo aeroclube, na Boca do Rio, sem serventia. Ou Parque de Exposições. Né dinheiro que querem?

Mas não no Pelô, não diante das centenárias igrejas, não derrubando a Cruz Caída, não rachando o Farol da Barra, um marco, não entupindo de lixo as águas plácidas do Porto da Barra! Parem com isso! Respeitem a Bahia!

Palmas para o IPHAN.

E vamos abrir os olhos, prefeitura, governo, autoridades… senão os empresários gananciosos enchem o rabo de dinheiro derrubando tudo pela frente. Vêm fazendo isso já há algum tempo, cada dia mais audaciosos e gritando alto.

 

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Microconto:

Atirou-se do oitavo, corpo estendido. Escondera de todos a avassaladora paixão. Cada novo encontro era um salto no desconhecido.

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*zédejesusbarrêto, jornalista e escrevinhador (19mai/2010)

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