Archive for junho, 2010


NOVIDADES DA BAHIA

posted by Jary Cardoso @ 4:00 PM
26 de junho de 2010

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texto de RUY ESPINHEIRA FILHO*

(publicado originalmente em Opinião do jornal A Tarde de 17.6.2010)

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Um amigo distante pede-me que lhe conte novidades da Bahia. Pergunta-me, em especial, acerca do nosso desenvolvimento, nosso progresso. Respondo-lhe que, de fato, temos progredido bastante em certas coisas: no crime, por exemplo.

Sim, nunca se matou tanto na Bahia quanto nos últimos tempos. Toda a imprensa sai diariamente carregada de cadáveres: vítimas de assaltantes, sequestradores, traficantes, além das cada vez mais certeiras balas perdidas. Mata-se com imenso entusiasmo, nem mesmo delegado está a salvo. E ainda temos o secretário de Segurança para nos mostrar, com sociologias e estatísticas, como lemos neste jornal, que se trata de um progresso devidamente assegurado.

É o que se pode chamar de desenvolvimento sustentável – porque, quando os bandidos não matam, mata a polícia. A PM, por exemplo, tem uma atuação particularmente admirável – pois, além de matar, oculta os corpos. E mata logo em quantidade, da forma mais democrática possível, como aconteceu em Vitória da Conquista e em Pero Vaz, tendo direito ao fogo homens, mulheres, velhos, adolescentes, crianças.

Também vamos avançando muito na derrubada de árvores e aterramento de lagoas. Alguns reclamam, dizem que estamos acabando com a flora e a fauna, mas há sempre os insatisfeitos. Os animais não têm mais onde morar? Ora, eles se adaptam, já tem raposa comendo lixo e jiboia procurando apartamento para se mudar. Nosso amado prefeito, que é bom em autorizar derrubadas e aterramentos, não faz muito abandonou uma residência na região da Paralela para que barbeiros e escorpiões ficassem à vontade, já que não havia mais mato para eles.

Nosso progresso está a mil, de fazer inveja a paulistano, escrevi ao meu amigo. Lembrava-se ele de quando São Paulo não podia parar? Pois progrediu tanto que parou, agora o trânsito por lá está praticamente imobilizado. Mas São Paulo já não nos pode olhar com superioridade: nosso trânsito aqui está também chegando à total imobilidade.

Enfim, hoje faz gosto receber pedidos de notícias sobre a Bahia, só temos coisas boas para contar.

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*Ruy Espinheira Filho – Escritor, jornalista, membro da Academia de Letras da Bahia

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A CASA DE RETIRO, NÃO!

posted by Jary Cardoso @ 9:00 PM
24 de junho de 2010

Fachada da CASA DE RETIRO DE SÃO FRANCISCO – Foto de WALTER DE CARVALHO | Agência A Tarde – 24.6.2010

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texto de JORGE PORTUGAL*

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Existe no coração de Salvador, na rua Waldemar Falcão, em Brotas, ao lado do Candeal, um oásis de calma e sossego, um monumento aberto ao silêncio e à paz, uma fonte concreta daquilo que chamamos “qualidade de vida”. Inúmeras pessoas que para lá se dirigem, a fim de passar algumas horas, uma tarde, ou mesmo dias sabem que aquele santuário vivo é um dos grandes bens espirituais e humanos que ainda restam de uma cidade estressada, corrompida, deformada, apartada, aviltada pela velocidade e o lucro.

Esta cidade já se esqueceu de que foi criada para as pessoas e não o contrário. Continua, assim, ameaçando a vida com seus automóveis, sua poluição, seu abismo social e, sobretudo, com a ganância insaciável dos que se julgam seus donos.

Pois são esses “pretensos donos da cidade” que agora afiam suas garras e dirigem seu instinto predador para a Casa de Retiro de São Francisco. Como uma fera voraz capaz de rasgar as entranhas e comer os próprios filhos, essa gente insana trama a destruição de um dos últimos refúgios que resistem em uma metrópole terminal.

A Casa de Retiro é o resultado de uma “articulação do bem” que contou com doações de famílias baianas de boa vontade e do empreendedorismo humanista do Dr. Norberto Odebrecht, que a construiu.

Tudo isso sob a liderança da fé do frei Hildebrando Krutaup como uma dádiva à plenitude espiritual, e também como um centro de assistência médica, odontológica e psicológica a tantos que necessitam.

Seus magníficos jardins, a capela de Lourdes a céu aberto sob a copa de uma frondosa mangueira, seus corredores e pátios de convidativo silêncio, o abraço materno e aconchegante das freiras que lá vivem falam-nos de um mundo de reflexão e de profunda entrega do que temos de melhor em nós mesmos.

Vale a pena conhecê-la, leitor(a) querido(a). Conhecê-la e defendê-la, como sempre fazemos quando identificamos uma boa causa por que lutar.

Vamos dar um basta à especulação inconsequente e aos falsos “bons negócios” que só geram lucros para os poucos de sempre.

Pela vida, pela paz, pela solidariedade e pelo sonho de uma cidade mais humana, vamos dizer em alto e bom som: a Casa de Retiro, não!

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*Jorge Portugal – Educador e membro do Conselho Nacional de Política Cultural

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MILTON SANTOS – GENTE DA BAHIA

posted by Jary Cardoso @ 8:00 PM
24 de junho de 2010

Ilustração de GENTIL

Sinto-me autorizado a pleitear a possibilidade da efetivação da estátua ou um busto do nosso Milton Santos, enriquecendo a cidade e expondo um modelo de talento e superação (Jaime Sodré)

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A MILTON SANTOS POR MERECIMENTO

ou:

TIRANOS ESPINHOS

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texto de JAIME SODRÉ*

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Permitam-me apresentar o currículo:

Professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP; pesquisador 1A do CNPq; visiting professor, Stanford University, 1997/98; bacharel em Direito, Universidade Federal da Bahia, 1948; doutor em Geografia, Université de Strasbourg, França, 1958; doutor honoris causa das universidades de Toulouse, Buenos Aires, Complutense de Madrid, Barcelona, Nacional de Cuyo-Barcelona, Federal da Bahia, de Sergipe, do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina, Estadual de Vitória da Conquista, do Ceará, Unesp e de Passo Fundo.

Prêmios:

Internacional de Geografia Vautrin Lud, 1994; USP/1999 (orientador de melhor tese em ciências humanas); Mérito Tecnológico, 1997 (Sindicato dos Engenheiros do Estado de São Paulo); Personalidade do Ano, 1997 (Instituto dos Arquitetos do Rio de Janeiro); Jabuti, 1997 (melhor livro de ciências humanas: A Natureza do Espaço, Técnica e Tempo).

Medalhas:

Mérito Universitário de La Habana, 1994; Comendador da Ordem Nacional do Mérito Científico, 1995; Colar do Centenário do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, 1997; Anchieta, da Câmara Municipal de São Paulo, 1997; Diploma de Gratidão da Cidade de São Paulo, 1997.

Lecionou nas universidades de Toulose, Bordeaux, Paris, Lima, Dar-es-Salaam, Columbia, Venezuela e do Rio Janeiro. Consultor da ONU, OIT, OEA e Unesco junto aos governos da Argélia e Guiné-Bissau e ao Senado da Venezuela.

Publicou mais de quarenta livros e trezentos artigos em revistas científicas em português, francês, inglês e espanhol.

Baiano de família de professores, com o avô e avó professores primários, mesmo antes da Abolição, que o ensinaram a olhar mais para frente do que para trás. Família remediada, os pais ensinaram boas maneiras, francês e álgebra. Foi aluno interno, neste ambiente começara a ensinar antes da faculdade, ingressando na Faculdade de Direito e se formando em 1948.

O fato: segundo o mesmo Milton, seu maior desejo era a Escola Politécnica em Salvador – “havia uma ideia generalizada que esta escola não tinha muito gosto de acolher negros, então fui aconselhado fortemente pela família (tinha um tio advogado) a estudar Direito, e daí mudei para a Geografia, que comecei a ensinar desde os quinze anos”. Havia uma crença na sociedade da época que na Politécnica os obstáculos eram maiores.

Escrevera no jornal A Tarde, como correspondente na região do cacau onde lecionava, por iniciativa do ministro Simões Filho que o descobriu para a imprensa. Ensinara na Universidade Católica e preparava-se para entrar na pública, onde fez concurso em 1960, após o doutorado em Geografia na França.

O pleito:

Quando saíamos do Colégio Central, em turma, na direção da Sé, era comum a brincadeira entre as estátuas do Barão do Rio Branco e Castro Alves, diziam:

Castro Alves estendia a mão em direção ao Barão pedindo uns trocados para libertar os negros, Rio Branco, com a mão no bolso, dizia “tenho mais não dou”.

Coisas da juventude.

Recentemente, a Semur [Secretaria Municipal da Reparação, de Salvador] solicitou-me uma relação de estátuas e monumentos de negros e negras em nosso espaço urbano, e inspirou-me para o que segue.

Diante do currículo exposto do professor Dr. Milton Santos, sinto-me autorizado a pleitear, quem sabe à própria Semur, a possibilidade da efetivação da estátua ou um busto do nosso Milton Santos, enriquecendo a cidade e expondo um modelo de talento e superação. Ainda de posse de uma das suas brilhantes frases, que estaria no monumento merecido:

Quem ensina, quem é professor, não tem ódio.

Em tempos de cotas, melhor local não seria adequado, senão em pleno ambiente acadêmico da Escola Politécnica, cumprindo um desejo do grande mestre, calado outrora pela mentalidade maldosa, inibidora da época. Aposso-me de uma frase, lugar comum neste gesto, na certeza do apoio de muitos, “ao mestre com carinho”.

Esta justíssima homenagem traduzirá, com certeza, a admiração do povo brasileiro aos seus filhos ilustres, registrando aqui homenagem a alguém que o mundo não se cansou de reconhecer e homenagear. Placidez, serenidade, sorriso permanente aberto, humanidade, sabedoria, sem perder a ternura diante das dificuldades, poderão inspirar o escultor a modelar, em material nobre, este nobre baiano.

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*Jaime Sodré – Professor universitário, mestre em História da Arte, doutorando em História Social

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Foto de LUIZ CARLOS SANTOS

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UMA NOVA FORMA DE OLHAR

E COMPREENDER O MUNDO

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texto de LIDICE DA MATA*

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A Câmara dos Deputados prestou homenagem ao geógrafo e professor Milton Santos, um dos mais brilhantes e respeitados intelectuais do nosso tempo, que faleceu há nove anos, deixando uma imensa lacuna, mas também nos legando uma obra incomparável que hoje é referência em todo o mundo. Não é nenhum exagero dizer que Milton Santos fundou uma nova Geografia, reescreveu os fundamentos desta disciplina, nos ensinando uma nova forma de olhar e compreender o mundo.

Negro, nascido em Brotas de Macaúbas, no interior da Bahia, nunca se deixou abater pelo racismo, pelo preconceito social e nem pelas imensas dificuldades que enfrentou ao longo dos seus 75 anos de vida. Milton Santos foi um vencedor, um mensageiro da esperança, um guerreiro da palavra que, sempre com um sorriso amável, nunca parou de lutar e nos legou um arsenal de ideias sobre a problemática do mundo globalizado e as possibilidades de construirmos um futuro melhor para todos.

Nada mais apropriado para homenagear esse brasileiro de espírito crítico e inovador do que discutir a sua obra, debater e divulgar as suas ideias. Por isso, a Comissão de Educação e Cultura, da qual eu faço parte, promoveu no mês de maio, em que se comemora o Dia do Geógrafo, um seminário que contou com a participação de muitos parlamentares e representantes do meio acadêmico.

Neste momento, em que vivemos a mais grave crise do capitalismo no mundo, considero necessária e oportuna uma reflexão sobre o pensamento de Milton Santos. Ele nos inspira novos caminhos, nos aponta o rumo de uma outra globalização, em que o desenvolvimento seja voltado para o homem e não apenas para o beneficio das corporações nacionais e transnacionais.

Brasileiro, apaixonado por sua terra, Milton Santos é um pensador universal. E nesse aspecto, devemos destacar que não foi por acaso que, em 1994, ele recebeu o Prêmio Vautrim Lud, considerado o Nobel da Geografia. Sem dúvida o coroamento de uma trajetória que começou na Bahia, onde além de professor, foi jornalista e um intelectual engajado, um combatente das causas políticas e sociais.

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*Lidice da Mata – Deputada federal pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB)

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Foto de LUCIANO DA MATA | Agência A Tarde – 14.7.1997

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MILTON SANTOS, UMA BIOGRAFIA

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texto de FERNANDO CONCEIÇÃO*

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Em vida ele repudiaria o uso de seu nome para homenagens vãs. Cuidado, portanto. Em junho de 2011 completam-se 10 anos da morte do geógrafo Milton Santos, baiano para o qual setores da política e da intelligentzia local deram as costas. Tanto assim que seus restos mortais jazem em cemitério de São Paulo, cidade que o acolheu nos seus profícuos anos de projeção intelectual pós exílio forçado pela ditadura de 64.

A obra miltoniana, zelada por Marie-Helène, sua viúva, vem toda ela sendo republicada pela Editora da Universidade de São Paulo, para usufruto de quem queira. Mas afora especialistas, é certo que muitos dos que vêm se apropriando do seu nome quase nada leram dele. Ou ao menos prestaram atenção no que disse. Fariam melhor à sua memória se a difundissem apropriadamente, estimulassem a adoção de seus escritos pelas escolas possíveis. Os mesmos não se restringem à Geografia, mas expandem-se a outras áreas do conhecimento: filosofia, história, planejamento urbano, educação, economia, comunicação…

É pretensão minha entregar ao público brasileiro, daqui a um ano, a biografia de MS. Livro que narre sua trajetória, desde o nascimento em Brotas de Macaúbas. A 12 meses da efeméride, tento costurar apoios. Falta prosseguir a pesquisa necessária ao levantamento de dados, informações e depoimentos. Considerável parte desse material acha-se lá fora, por onde buscou seu sustento. Países europeus, africanos, da América Latina, Estados Unidos, Canadá e mesmo Haiti, onde se casou pela segunda vez. Também Brasil afora. O custo do trabalho não é baixo. Requer investimento que não está à mão. Mas a importância daquele intelectual exige agora dedicação quase exclusiva à tarefa. Autorizada por ele, aliás.

Cumprir a meta é o desafio. Há dificuldades naturais de percurso, objeções advindas da natureza independente do personagem a ser retratado. Daí, é de valor inestimável qualquer informação, detalhe, documento a ser oferecido para a completude da obra. Valho-me de A Tarde, no qual ele trabalhou por anos, para solicitar a colaboração de todos os que possam fazê-lo. Milton Santos, patrimônio do Brasil, é para ser rememorado sempre.

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*Fernando Conceição – Jornalista, professor da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (Facom/UFBA), biógrafo autorizado de MS

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Foto de MARIA ADÉLIA DE SOUZA | SescTV

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