Archive for agosto, 2010


GIL VICENTE TAVARES SEM MEIAS PALAVRAS

posted by Jary Cardoso @ 7:54 PM
28 de agosto de 2010

GIL VICENTE TAVARES – Foto de JÔNATHAS ARAÚJO

Penso neste blog como espaço virtual de um acervo temático em construção permanente, sempre disponível à pesquisa imediata e estudos futuros. Neste acervo cabem tanto textos exclusivos quanto transcrições, e entre estas incluo algumas que circulam pela internet, desde que, evidentemente, contemplem os temas relacionados com o jeito de o baiano ser e estar no mundo, que tenham credibilidade e que apresentem argumentações dignas de nota, mesmo quando polêmicas.

É o caso do artigo deste post, autoria de Gil Vicente Tavares, que recebi de dois colaboradores. O primeiro, que incluiu o meu e-mail numa lista de mais de 350 destinatários, foi Dimitri Ganzelevitch, o franco-marroquino-baiano que vive criticando com dureza, e de maneira independente, o que vê de errado no dia a dia da Cidade da Bahia, especialmente da região do Pelourinho, onde reside e de onde preside a Associação Cultural Viva Salvador. O texto de Gil Vicente Tavares chegou apresentado por Dimitri apenas com a palavra “Lucidez” digitada no “Assunto” do e-mail.

Dias depois recebi o mesmo artigo desta vez repassado pelo mentor deste blog, zédejesusbarrêto, acompanhado do seguinte recado:

(…) o nosso Enéas Guerra me mandou esse artigo de Gil Vicente Tavares, excelente. E tem tudo a ver com o nosso blog, agita a discussão sobre a pobreza cultural vigente na Cidade da Bahia…

vale a pena postá-lo

abração

barreto

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Gil Vicente Tavares – compositor, dramaturgo e diretor teatral (saiba mais sobre ele no endereço www.myspace.com/gilvicentetavares) – puxou o pai, o grande poeta e escritor Ildásio Tavares, no jeito “boca-do-inferno” de ser. Confira:

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A POBREZA CULTURAL DE SALVADOR

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texto de GIL VICENTE TAVARES

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Há um equívoco grave em relação ao que se pensa sobre a cultura, em Salvador.

Por conta desse pensamento comiserado de incensar os oprimidos – doença nefasta que é um dos grandes equívocos reforçados pela era Lula –, a exaltação da cultura própria, endógena, popular chegou a uma hiperbólica cegueira sobre a pobreza cultural que nos assola.

Todos os países intelectualmente espertos souberam dialogar com outras culturas, outros povos, outros modos de produção, criação e identidade, para se reinventarem. Há, ao redor do mundo, programas de intercâmbio, de residência e de estudos de outras culturas que fazem com que, dessa mistura, possam florescer novas formas de pensar, de agir e de criar.

Aqui, em Salvador, há esse pensamento equivocado de que somos uma cultura forte e rica. Mentira. Somos uma cultura fraca e pobre, justamente porque nos fechamos em nossa própria cultura, folclorizando e exaltando ela como algo maravilhoso, especial, diferente de tudo.

Por trás dessa baianidade, se esconde a opressão de nos caracterizarmos como pessoas que falam alto, cospem no chão, mijam na rua, são felizes em sua miséria, não estudam, não crescem. Há uma opressão em relação ao negro soteropolitano, pois legitimar a imagem do negro falastrão, esculhambado, folgado, malandro, ignorante e cheio de ginga é a pior forma de se lutar contra o preconceito e a segregação. Devíamos, sim, lutar para termos mais “miltons santos”, e não legitimar o que nos empobrece, indignifica e nos folcloriza.

Azelites baianas são as mais estúpidas que eu conheço. Poderíamos pensar que esse baiano raso, de cultura pobre, estaria nas camadas baixas, mas basta ver as atrações da “chopada de medicina” pra percebermos que nazelites o problema é bem pior. Onde se poderia ter um acesso diferenciado à educação privilegiada, livros, concertos, exposições, a coisa fica mais feia ainda, pois, ao menos, as pessoas menos favorecidas, financeiramente, de Salvador, trazem em si a pobreza cultural própria, autêntica e legítima.

Sinto muito, mas é pobre, sim. Uma população precisa ter acesso a todos os meios culturais para enriquecer sua cultura. Dizer que sambar, comer acarajé, ir pro candomblé e jogar capoeira é ter uma riqueza cultural é balela. É pouco. Como é pouco alguém que passa o dia ouvindo Mozart e nunca viu o Ilê Aiyê subir o Curuzu.

É natural que, num povo onde se exalta a mediocridade de se bastar com sua cultura endógena, a cultura seja rasa e as possibilidades exíguas. Com isso, não tem teatro, música, dança nem literatura que se sustente. E, o pior, começa-se a pensar que o “especial” povo de Salvador tem suas particularidades, num egocentrismo pateta que serve de desculpa à falta de educação e cultura de nossa população.

Enquanto os governos, as instâncias privadas e públicas responsáveis por diretrizes culturais, enquanto os pseudo-intelectuais que se valem de modismos pra serem publicados e incensados, enquanto esse pessoal todo continuar legitimando nossa pobreza cultural, não haverá como melhorar nossa miséria. Não poderemos pensar em uma economia da cultura, em um mercado de trabalho digno pro artista, onde ele não precise de emprego paralelo, nem tampouco depender 100% do estado, pra poder sobreviver e fazer sua arte.

Salvador tem um potencial imenso, pelos pensadores e artistas que tem, pelos recursos, pela inventividade, pra se tornar uma cidade do século XX. Desde a década de 50 que tentamos. Mas a persistência no amadorismo, no folclorismo e no medo de crescer que acomete as províncias, em geral, faz com que o século XXI seja um futuro inalcançável, por enquanto. Tornemo-nos modernos, por enquanto. Já é um começo.

Vamos parar de achar que Salvador é linda, que seu povo é lindo, que sua cultura é linda. Um bom começo é ensinar as pessoas a ver a poesia das coisas. Estamos petrificados frente à poesia do mundo.

E pra que se aguce a possibilidade de ler a poesia das coisas é preciso educação e cultura. Outra cultura. A cultura que não querem dar ao povo; seja porque acham lindo o povo ser do jeito que é, seja porque é mais difícil fazer uma revolução cultural sólida, ou seja, principalmente, porque um povo culto vai perceber melhor a merda em que está vivendo e os merdas que estão no comando.

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NOTA DO EDITOR – Este post fica mais completo terminando com o comentário que o próprio Gil Vicente Tavares postou e que trago agora para o primeiro plano:

Caro Jary,

Primeiro, quero agradecer pelo “diálogo”. Seria bom você divulgar o site do meu grupo, http://www.teatronu.com, que tem mais coisas sobre meu trabalho e dá acesso ao blog onde postei o artigo.
O blog vem há mais de 4 anos discutindo arte, cultura e sociedade e muitas águas e discussões já rolaram por lá.
Ficarei mais atento ao seu blog, aqui, e quando puder dê uma olhada lá no blog do Teatro NU.

grande abraço,

GVT.

ps: O endereço do myspace que você colocou se resume mais à minha carreira na música, mas é superválido como referência, também.


O PENSAMENTO ELEGANTE DE ROSANA JATOBÁ

posted by Jary Cardoso @ 12:38 AM
18 de agosto de 2010

ROSANA JATOBÁ

Rosana Jatobá é o maior sucesso do Jeito Baiano. Em quase um ano e meio de existência deste blog nenhum outro post alcançou tanta repercussão quanto o que reproduziu dias atrás um texto de autoria da belíssima baiana, jornalista, apresentadora de telejornais da Globo.

O post que intitulei “Rosana Jatobá ataca os preconceitos” (http://jeitobaiano.atarde.uol.com.br/?p=2364) reproduz um daqueles muitos textos que com frequência chegam às nossas caixas de entrada de e-mails repassados de internautas para internautas. O texto, com o título “O insustentável preconceito do ser”, é tão belo quanto sua autora, mas ficou uma dúvida no ar: será que foi mesmo escrito por ela?

Cau Gomez, um dos grandes cartunistas de A Tarde, foi um dos que reforçaram a dúvida. “Há vários falsos artigos com a assinatura de celebridades, como Herbert Viana, circulando pela internet”, advertiu ele.

Tentou-se por vários canais o contato com Rosana Jatobá. Até que Lourenço Mueller – meu querido amigo arquiteto e urbanista, um visionário que planeja implantar ciclovias em toda a Cidade da Bahia –, a mesma pessoa que me repassou o e-mail, acabou descobrindo o e-mail de Rosana através de uma amiga em comum.

No fundo eu não tinha dúvida que a autora era ela. Isso dava para sentir em alguns dos mais de 60 comentários, aqueles escritos por pessoas que diziam ter conhecido Rosana aqui na Bahia antes de ela partir para o sucesso em Sampa e no Rio.

Escrevi para Rosana e poucas horas depois veio a confirmação. Era ela mesmo a autora do libelo contra os preconceitos e explicou que este é um dos oito textos de uma série sobre sustentabilidade postada num blog integrado ao site da CBN. Rosana os colocou à disposição do Jeito Baiano, dos quais escolhi um – “Muito além de um elegante vestido preto” –, que reproduzo neste post depois de transcrever os e-mails que trocamos.

Deliciem-se:

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-) 13.8 – 12h

Prezada Rosana Jatobá,

Recebi um artigo assinado com o seu nome, intitulado “O insustentável preconceito do ser”, que achei maravilhoso e o postei no meu blog, Jeito Baiano, com uma foto sua que colhi através do Google. Veja o post:

http://jeitobaiano.atarde.uol.com.br/?p=2364

Houve grande repercussão: em dois dias mais de 60 comentários, a grande maioria de aplausos ao texto e à sua pessoa, alguns se dizendo muito próximos a você no tempo em que você ainda estava na Bahia.

Mas de repente o responsável pelos conteúdos do portal A Tarde On Line, onde o blog está inserido, veio me questionar sobre a autenticidade do texto. Procuramos no Google a origem do artigo e não conseguimos apurar. Há muitos blogs e sites que o citam. Num dos comentários, o autor conta que ele, seis meses atrás, foi quem “disseminou” o seu texto na internet. No entanto, como têm sido frequentes os casos de fraude na rede, muitos deles envolvendo celebridades cujo nome aparece assinando falsos artigos, resolvemos contatar você para saber se é mesmo de sua autoria.

O artigo me foi enviado – como conto na apresentação – por Lourenço Mueller e foi ele quem conseguiu o seu e-mail através da amiga dele Celeste Valverde.

Aguardo o seu retorno, embora no fundo eu tenha a certeza de que o artigo é mesmo seu.

Abraços, Jary Cardoso

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-) 13.8 – 13h

Oi, Jary

Uma amiga me ligou e comunicou a ótima noticia! Corri pra ver o Jeito Baiano e confesso que fiquei muito orgulhosa com os comentários. Obrigada. Este e outros textos sobre Sustentabilidade são de minha autoria, sim, e foram inicialmente publicados no site da CBN, no blog do Milton Jung. Veja lá:

http://colunas.cbn.globoradio.globo.com/miltonjung/category/rosana-jatoba/

E fique à vontade pra publicar outros, pois minha família se derrete… Beijos

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-)13.8 – 16h

Rosana,

Estou aqui contendo a euforia depois de ter recebido os três e-mails seus. Enviei a Lourenço Mueller a sua saudação a Celeste que ele já passou para ela.

Como foi levantada aquela dúvida sobre a autenticidade do artigo, estou querendo postar no blog esta sua resposta – pode?

Pretendo também postar o texto que você enviou – mais tarde olharei os outros textos que estão no site indicado.

Serão sucessos na certa. Com pouco mais de um ano de existência do Jeito Baiano, o libelo contra os preconceitos foi o post que provocou o maior número de comentários até agora.

Queria lhe fazer mais um pedido: poderia enviar algumas fotos suas bem atuais? Um colega viu você no CQC e disse que você está esperando nenê. É verdade? E você tem uma ou mais fotos da gestante Rosana Jatobá para eu colocar no Jeito Baiano junto à sua mensagem e textos?

Obrigado por tudo, beijos, Jary

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-) 13.8 – 19h

Oh, querido conterrâneo

Fico muito feliz em saber de tamanha repercussão. Cresci lendo o Jornal A Tarde, veículo que se manteve íntegro em meio a tantas ingerências na Bahia, sobretudo de ordem política.

Pode publicar os textos.

Em breve terei o meu blog sobre Sustentabilidade no G1, Portal de notícias da Globo. Te aviso.

Pois é. Estou em estado de graça, esperando gêmeos!!! Mas ainda não fiz fotos. Assim que tiver, te envio com prazer, afinal a Bahia – me deu régua e compasso – e merece prioridade na divulgação deste fato abençoado.

Obrigada pelo carinho.

(No e-mail seguinte, até agora sem resposta, eu disse a Rosana que me senti muito honrado por ser chamado de “conterrâneo”, mas na verdade sou natural de Sampa e migrei para a Cidade da Bahia há 23 anos. Me tornei um soteropaulistano…)

-) 2.4.10 – blog Mílton Jung/CBN/globo.com

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Muito além de

um elegante vestido preto

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texto de ROSANA JATOBÁ*

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Ela surgiu para esconder as vergonhas, mas hoje em dia revela o íntimo de cada um. A roupa é o sinal instantâneo da auto-imagem que queremos exibir. E, na visão da grande dama da moda, ela pode ser uma arma poderosa e infalível:

Vista-se mal, e notarão o vestido. Vista-se bem, e notarão a mulher.”

Mademoiselle Chanel revolucionou, não apenas porque libertou a mulher dos trajes desconfortáveis e rígidos do fim do século 19. Mas porque valorizou o senso crítico:

O mais corajoso dos atos ainda é pensar com a própria cabeça”.

Se os tempos modernos desafiam nossas escolhas em nome da Sustentabilidade, invocar a genialidade de Coco Chanel pode ser norteador. Foi o que eu fiz quando recebi um presente, que chegou cheio de recomendações:

Tenha muito cuidado, guarde-o em lugar fresco e escuro, e, se sujar, leve a um especialista. Esta pele pertenceu à sua avó. É um vison!

Vesti e imediatamente senti o poder de transformação do visual. A peça macia e felpuda de cor castanha tinha a pelagem espessa, brilhante e vistosa. Embora com mais de meio século, mantinha um design atemporal. Envolta na altura dos ombros, proporcionava uma sensação de conforto e proteção. Era a mais perfeita tradução do luxo, o acessório que permitia a metáfora: os diamantes estão para as orelhas, assim como a pele está para o corpo.

Chegou o dia de exibi-la. A noite do casamento estava mesmo fria em São Paulo, coisa rara nos últimos invernos. A festa era de gala, num endereço tradicional da cidade, o Jockey Clube. Escolhi um vestido de seda preto, me enrolei no vison e me perfumei, afinal, segundo nossa musa:

Uma mulher sem perfume não tem futuro!”

Mas a última olhada no espelho, em vez de glamour, revelava inquietação:

Eu sabia que o animal havia sido morto numa época em que não existia o risco de extinção da espécie. Tinha certeza de que ninguém iria me hostilizar na festa, pois grande parte das mulheres estaria ostentando a sua estola ou casaco de pele. Possuía o aval da papisa da moda, Anna Wintour, editora da vogue americana, fã incondicional de peles e uma das responsáveis pela “fur mania” atual, um boom que não se via desde os anos 80.

Tinha, portanto, razões de sobra para usar o bicho, mas nenhuma tão contundente quanto a deixada pelo legado de Chanel:

A moda não é algo presente apenas nas roupas. A moda está no céu, nas ruas, a moda tem a ver com ideias, a forma como vivemos, o que está acontecendo.”

Não poderia ignorar que, se usasse o vison, vestiria a capa da indiferença diante de um mercado cruel e fútil, que não para de crescer. De acordo com a Peta (Pessoas pela Ética no Tratamento de Animais), a indústria da pele mata 50 milhões de animais por ano no mundo. Só na China, a produção atingiu números entre 20 e 25 milhões em 2010, ao passo que no ano 2000, oscilava entre 8 e 10 milhões de peles. A organização beneficente invade desfiles de moda e aterroriza as donas do acessório, jogando baldes de tinta para inutilizar a peça. É uma forma de protestar contra os maltratos dispensados aos bichos, que passam suas vidas confinados em minúsculas gaiolas.

Para a extração da pele, são eletrocutados, asfixiados, envenenados, afogados ou estrangulados. Nem todos morrem imediatamente, alguns são esfolados ainda vivos! Em alguns locais, para que as peles fiquem intactas, corta-se a língua do animal, deixando-o sangrar até morrer.

A voz da consciência soprou mais uma vez ao meu ouvido e ouvi o conselho da mestra das agulhas:

Elegância é recusar.”

Abri mão da gostosa sensação térmica da pele morta do vison e fui às bodas.

No salão ricamente enfeitado, a fauna mórbida desfilava à minha frente. Era uma profusão de visons, chinchilas, raposas, zibelinas, cabras e cordeiros. Bichos montados, pendurados, entrelaçados em mulheres superproduzidas. …e bem agasalhadas.

Toda concessão tem seu preço.

O ar gelado entrava pelas janelas e resfriava até a minha alma, obrigando-me a contorcer os músculos.

Mas toda renúncia, a sua recompensa.

O desconforto em pouco tempo desapareceu, quando me senti envolvida pelo calor dos braços de um certo alguém. Como dizia Gabrielle Coco Chanel:

Uma mulher precisa de apenas duas coisas na vida: um vestido preto e um homem que a ame”.

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*Rosana Jatobá é jornalista da TV Globo, advogada e mestranda em gestão e tecnologias ambientais da USP


O LIVRO AINDA HÁ DE REINAR NA BAHIA

posted by Jary Cardoso @ 12:04 AM
17 de agosto de 2010

Esta bela imagem foi encontrada no site da 21ª Bienal do Livro de São Paulo-2010

Este blog é encabeçado por pessoas que cultivam muitos amores, não só pela Bahia e pelos baianos. E entre os mais fortes destes outros amores, está a nossa paixão, verdadeira devoção pelos LIVROS!!! Repare que aí do lado esquerdo eles constituem uma categoria à parte do Jeito Baiano. Já passei horas copiando trechos de livros para enriquecer posts e tenho ainda muitas outras leituras a postar tratando somente de baianidade.

zédejesusbarrêto, conselheiro-mor deste blog, “escrivinhador” como se define, fiel praticante desta devoção, com incontáveis horas de leitura e escrita, só agora, sessentão, está conseguindo lançar seus primeiros livros em que ele é o único autor – tem outros feitos em parceria. Pois Barreto teve o privilégio de estrear numa supereditora baiana, a Solisluna, que é “super” especialmente em termos de qualidade gráfica, artística e de conteúdo. A Solisluna está lançando 16 obras na 21ª Bienal do Livro de São Paulo e duas delas de autoria de José de Jesus Barreto.

Neste texto apaixonado, Barretinho junta a experiência do repórter brigador e do intelectual inquieto, rebelde, com o baiano criado entre a gente simples e energética do Subúrbio Ferroviário de Salvador, e conta a vivência instigante que foi sua ida de Brasília (onde atua, como profissional, na campanha de um candidato ao governo do Distrito Federal) até São Paulo para o lançamento de suas obras na Bienal do Livro. Arrepie-se, caro leitor:


O SECRETÁRIO DE CULTURA

NÃO ESTÁ NEM AÍ…


texto de zédejesusbarrêto*


Voo para SP, à Bienal do Livro, no Anhembi. O lançamento de ‘Candomblé da Bahia’ e de ‘Cacimbo’, os primeiros livros absolutamente meus. Um feito com a cabeça, guiado pela alma, baiana e negra – sobre a fé nos Orixás, a religião da deusa-mãe Natureza. O outro, feito e guiado pelo coração, afrobaiano – as dessemelhanças entre Luanda e Salvador, cidades fêmeas, debruçadas sobre as águas atlânticas, e sua gente tão irmã, tão diversa, reluzente. Angola, vó da Bahia.

Deixo a secura – umidade do ar a 12 pontos – do planalto central e voo no azul. O céu é limpo e lá embaixo o verde é amarronzado e constante, um cerrado imenso, a perder de vista. Depois, só nuvens brancas esparsas e o sem fim igual…

Hora e pouco depois o avião vai baixando e dá pra ver outra paisagem: pastagens, aguadas, rios, o solo com várias tonalidades de verde, o chão retalhado, dividido, cultivado. É São Paulo. O sol do ocaso é uma gema e sua luz entra pelas janeletas do avião, dourando tudo. Na medida em que nos aproximamos de Campinas/Viracopos, o céu fica sujo, a poluição prejudica a visibilidade. Isso é também São Paulo com seu progresso.

Faz 26º centígrados, confortável. De Campinas à capital, de ônibus, pistas largas e livres, muitos caminhões, glebas e glebas à beira da estrada ainda desocupadas, olhos na janela vendo o tempo e as coisas passarem acelerados… então, invade a alma um sentimento de solidão.

Sinto-me uma formiguinha sem rumo, nessa perdição de mundo, num desamparo só. Antes que chegue a depressão, penso na Mãe Zuite (ou ela me chega, como sempre, na hora exata?), e de repente sinto-me feliz, um ser privilegiado pelas lembranças, saudades, pela amada que me ama, pelos filhos, pelos bichinhos caseiros, pelo trabalho, pelos livros que vou lançar… e uma paz dos céus me deixa pleno. Bença, mãe!

Anoitece nublado e janela se enche com outra paisagem de luzes, prédios, barulho, filas imensas sem fim de carros saindo e entrando por todos os cantos, travando o tempo e os espaços. Isso é São Paulo, sexta-feira à noite.

Salto no terminal da Barra Funda, metrô e ônibus, um formigueiro humano, uma gente concentrada, sem muita palavra, apressada, num ir e vir vertiginoso. Isso é São Paulo. Com sacola e computador, pesados, preciso andar um bocado até chegar a um ponto de táxi. Fila, espera. O hotel para onde vou é perto, em Santana/Tietê, mas o táxi dá voltas buscando fugir sem êxito dos engarrafamentos. Todos têm pressa e querem ir… paciência.

Depois de uma noite mal dormida (cama, travesseiros, viagem, expectativas…), acordo com o corpo congelado. O novo dia será frio, bem frio, me dizem no café da manhã. Meias grossas, camiseta, camisa, blusão, o écharpe de mãe, rumo ao imenso barracão do Anhembi.

Filas a perder de vista para pegar o buzu até a feira, filas para entrar, uma multidão incalculável já circulando e entrando nos stands de livrarias, livreiros, editoras… um frenesi de proporções impensáveis na cidade da Bahia para um evento desse segmento. Filas, filas, filas para entrar em alguns stands, para comprar, para pagar, para lanchar, para mijar, para tomar um cafezinho… filas, isso é São Paulo. Todos obedecem ordeiramente, ninguém reclama.

Impressiona-me o número de famílias inteiras com seus filhos pequenos, adolescentes, jovens… interagindo, manuseando os livros, curiosos… Isso me dá um alento: Viva São Paulo, nem tudo está perdido. Enquanto houver leitura, há esperança.

"Viva São Paulo, nem tudo está perdido". Foto de PAULO CHAGAS

Ao mesmo tempo, penso na minha Bahia, na minha gente misturada, na minha cidade amada. A última feira de livros por lá foi um desastre. Stands que mais pareciam cacetes-armados, um centro de convenções em estado deplorável, uma ninharia de editoras e livrarias, chuvas e goteiras por todo canto, molhando os livros, afugentando o público, uma pobreza! Um desrespeito à palavra, o verbo.

Quando teremos de novo uma Bahia civilizada, voltada para sua verdadeira história, sua cultura – que é muito mais do que carnaval, axé-music, pagode, bundinha, acarajé, berimbau e fitinha do Senhor do Bonfim ?

Lembro do longínquo ano de 1962, eu quase menino ainda, encantado com um Congresso Internacional de Povos Subdesenvolvidos, no campus da Universidade Federal da Bahia. Os barbudos de Cuba nos enfeitiçavam com seus charutos e exemplos revolucionários. A cidade efervescia de vida, cultura, arte, ideias, eventos, manifestações… nascia o cinema novo, a tropicália, tinha o teatro no Vila Velha, os seminários de música, a escola de dança, os saraus poéticos, o amor pelo jornalismo, a avidez pela leitura, rolava a discussão sobre a estética, os enigmas filosóficos, os rumos da vida… a ética. Outros tempos. A Bahia já foi assim. Foi.

Sonho com uma bienal do livro na minha cidade, cheia de meninos e meninas negras, mulatas, sararás, branquelinhos, misturados, circulando com seus pais, interessados nos livros, folheando-os, olhinhos grudados nas tecnologias, nos e-books, nos encantamentos da imaginação… ah, minha terrinha amada, quanto a quero, como a sonho mais bela, mais limpa, mais igual, mais justa, mais criativa… além, muito além dos seis dias de carnaval no verão escaldante cheio de turistas…

O stand da Solisluna Editora é pequeno, singelo, gostosinho e belo; belo como seus livros, como seus responsáveis – Valéria e Enéas, amigos diletos, criativos e ousados. Valeu! Uma marca da Bahia. O estado devia se orgulhar deles. Agradeço pelo instante vivido.

Valeu pelo encontro com Gustavo Falcón, com Goya, Vicente Sampaio… Mais gente nova conhecida, novas amizades, o interesse de gente desconhecida pelos livros, pelas letras baianas… e um vazio pelos ‘amigos’ baianos-paulistanos contatados, prometidos… e que não compareceram, nem deram sinal. C’est la vie!

O sábado no Anhembi foi esfriando, esfriando… à noite já fazia menos de 10º e os baianos tremelicavam, quase congelando. À noite, diziam, vamos a 3º. Cuido de dormir sem o banho costumeiro, sob uma colcha grossa e um edredon imenso amarronzado de pelo falsificado. As orelhas e a ponta do nariz estão gelados.

O domingo será de volta a Brasília. O trabalho vil me espera. Outro mundo. Vou retomar a campanha, lidar com a tal política. Cuido de não me melar, não me contaminar com a sujeira.

Juro, prefiro os livros. Sonho um dia viver só escrevendo coisas do coração, deixando apenas a alma falar…

Os dedos já meio endurecidos pedem para teclar outras palavras… gostaria de atendê-los enquanto há tempo, antes que travem com a artrose dos anos que passam inexoráveis, enquanto a mente ainda se manifesta com alguma lucidez…

Juro, essa campanha será a derradeira. Vou encontrar um jeito de sobreviver sem precisar disso.

Os Orixás me apontarão o caminho. Senhor do Bonfim me acenderá essa luz …peço a ajuda de minha madrinha, a Senhora dos Mares. Já mereço.

*

No retorno, pongado no pássaro metálico barulhento, acima das nuvens, fui agraciado pelas divindades com um crepúsculo espetacular, inesquecível. Hora e meia de um show de cores no horizonte reto, infindo, sem curva, sem nuvens, fantástico. Um degradê, da linha escura pra cima, em vermelho chama, brasa, rubro, rosa, laranja, cenoura, dourado,amarelos de todas as tonalidades, até o bege esbranquiçado, cinza, a fundir com o azul de todos os matizes até o marinho escuro, quase negro… escurecendo os tons a cada minuto… um delírio, um presente da Mãe Natureza. Fico a pensar quantos artistas, desde o início da humanidade quiseram chegar a essas tonalidades de cores com suas tintas, dedos, pincéis, misturas… Mas não chegam a algo parecido… a grandeza da manifestação da divindade.

Só apreciar esse espetáculo me enche de encantamento e felicidade. O belo é amor puro.

*

PS: O secretário de Cultura do Estado da Bahia, Márcio Meirelles, rodou pelos espaços da Bienal, no Anhembi, no domingo, dia 16, Mas ignorou o stand da Solisluna Editora, verdadeira representante do livro baiano, com edições modernas, como os recentes da Fundação Pierre Verger: ‘Carybé & Verger – Gente da Bahia’ e ‘Carybé, Verger & Caymmi – O mar da Bahia’; além de outros livros do próprio Verger, sobre museus baianos, de autores como Renato da Silveira, Sônia Rangel, Goya, Edsoleda Santos, Gustavo Falcón, Enéas Guerra… algumas ‘obras de arte’ editoriais.

Pena que o nosso secretário ignore parte de nossa cultura. Livros? Pobre Bahia!


*zédejesusbarreto, jornalista e escrevinhador

SP/Brasília – ago2010



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