Archive for agosto, 2010


SALVE A FESTA DA BOA MORTE-VIDA!

posted by Jary Cardoso @ 12:58 PM
15 de agosto de 2010

Cortejo da sexta-feira anuncia a morte de Maria. Foto de REGINALDO PEREIRA | Agência A Tarde – 13.8.2010

A data de hoje, dia principal da Boa Morte, em Cachoeira, festa esta liderada há quase dois séculos por bravas mulheres negras, não poderia passar em branco no Jeito Baiano. O tema vem sendo muito bem tratado aqui no portal A Tarde On Line – leia neste link http://mundoafro.atarde.com.br/?p=3373 o texto belo, simples, didático e sintético da cachoeirana Cleidiana Ramos, timoneira do blog Mundo Afro.

Foto de REGINALDO PEREIRA | Agência A Tarde – 13.8.2010

Veja também as excelentes matérias publicadas sexta, sábado e hoje no jornal A Tarde. Estas leituras contêm muitas informações sobre as origens da Irmandade da Boa Morte, instituição independente, criada e sustentada por ex-escravas e suas descendentes, carregada de história e cultura, amálgama de crenças religiosas luso-jeje-nagô-brasileiras.

Missa pelas almas das irmãs falecidas. Foto de REGINALDO PEREIRA | Agência A Tarde – 13.8.2010

Transcrevo trechos do capítulo AS IRMANDADES – Uma página da história que resiste às traças do tempo, do livro Candomblé da Bahia – Resistência e identidade de um povo de fé, de José de Jesus Barreto (Solisluna Editora), que está sendo lançado na Bienal do Livro, em São Paulo:


IRMANDADE DE

NOSSA SENHORA DA BOA MORTE


texto de zédejesusbarrêto


Das dezenas de irmandades religiosas criadas pelos escravos africanos e seus descendentes na Bahia, duas tiveram papel de maior relevância na sobrevivência, libertação e afirmação social de grupos negros e miscigenados, e estão vivas e ativas, resistindo às pragas da discriminação e às mudanças naturais e históricas dos tempos. São as irmandades de Nossa Senhora do Rosário, que tem como sede a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no Pelourinho, centro de Salvador; e a de Nossa Senhora da Boa Morte (…).

(…) irmandade que, a despeito da voracidade destes tempos digitais, resiste e preserva seus costumes à base da tradição oral é a de Nossa Senhora da Boa Morte, hoje abrigada na cidade histórica de Cachoeira, um presépio plantado às margens do rio Paraguaçu, no Recôncavo.

É uma confraria exclusivamente feminina, fundada, de acordo com os estudiosos, na antiga igreja da Barroquinha, em Salvador, ainda no século XVIII, por africanas nagôs libertas e vinculadas ao candomblé.

A Boa Morte é uma referência à crença católica de que Maria, a Mãe de Jesus, não morreu, apenas dormiu e seu corpo foi levado pelos anjos ao céu. É a chamada Assunção de Nossa Senhora, mistério de fé que os católicos celebram em 15 de agosto, data de missa solene e grande procissão dos festejos da irmandade das negras de Cachoeira.

Foto de REGINALDO PEREIRA | Agência A Tarde – 13.8.2010

O culto à chamada “boa morte” ou “dormição de Maria” já existia há tempo na Bahia, trazido pelos portugueses e materializado em imagens e templos de Nossa Senhora da Glória ou da Vitória.

Para as negras nagôs, entretanto, o culto a Nossa Senhora nunca siginificou a negação da tradição e da fé nos Orixás africanos. Tanto assim foi que, em torno de 1830, essas corajosas mulheres fundaram, bem próximo do templo da Barroquinha, um terreiro dedicado a Xangô, denominado Iyá Omi Axé Airá Intillè, tido como o primeiro candomblé nagô da Bahia.

Salvador, então, formigava de negros e os malês lideravam revoltas que inquietavam a cidade, dando razão e abrindo espaço à intolerância ainda maior da época. Adveio, então, um período de forte repressão às manifestações dos negros, que mais tarde tangeu o terreiro das proximidades da Igreja da Barroquinha e dispersou muitos agrupamentos africanos em toda a cidade.

Alguns desses afrodescendentes, mais aquinhoados, retornaram à África. Outros, de pouca ou nenhuma posse, fugiram para o mato, esconderam-se nos arredores urbanos ou foram para o Recôncavo, onde se agregaram ao cultivo de roças, à labuta no cais e atracadouros de saveiros, ou puseram-se aos serviços do senhorio nas casas-grandes, nos engenhos de cana ou no plantio do fumo.

Foi assim que mulheres nagôs, muitas de herança jêje (de língua fon, do Daomé) levaram a devoção de Nossa Senhora da Boa Morte para vários sítios do Recôncavo. Resistiu ao tempo e preserva-se hoje a Irmandade na cidade de Cachoeira, mantendo a fé em Maria e a tradição daqueles tempos, lado a lado com o culto jêje, bem vivo também nos terreiros de candomblé espalhados pela região.

Como sempre aconteceu, desde a fundação, a memória da prática dos rituais de devoção a Maria, Mãe de Jesus, dormida e gloriosa, acontece todo mês de agosto e atrai centenas de turistas. Os rituais misturam orações, raza do terço, ladainhas, cânticos, procissões, comilanças, danças e missas solenes a cerimônias secretas, como o culto a Nanã Buruku – divindade mais antiga das águas, rainha dos pântanos, mãe de Exu e Omolu – e a Dã, a serpente cultuada pelos jêjes.

O povo participa dos festejos de rua, onde há jantares com comidas sagradas, e beleza rara nos cerimoniais seculares e nos trajes tradicionais – roupas brancas, torços, colares, joias, balangandãs e panos da costa. Tudo termina com exibições de manifestações folclóricas típicas do Recôncavo, como rodas de samba e chula de terreiro.

A Irmandade sobrevive de doações arrecadadas na comunidade pelas iniciadas, de algum auxílio dos poderes públicos – que, afinal, se beneficiam da tradição que atrai e incentiva o turismo – e da ajuda de algumas organizações internacionais, como universidades que estudam e pesquisam essas manifestações da tradição popular.

As dificuldades para a preservação dos costumes são imensas e as relações com as autoridades da Igreja Cat´lica nem sempre foram ou são fraternas, não obstante os anos de convivência. Mas a Irmandade da Boa Morte resiste. Como diz o antropólogo e professor Sebastião Heber Vieira Costa, autor do livro A Irmandade da Boa Morte e o Ícone da Dormição de Maria:

A expressão afro dessa festa, na sua reinterpretação da crença cristã, é exuberante, plástica e mística. As irmãs não se “apresentam” apenas uma vez por ano, mas vivem o seu dia a dia em torno do evento, que se projeta nas suas vidas. É como se quisessem entrar, mergulhar no movimento morte-vida que a festa celebra. É como se todas estivessem também celebrando as suas próprias “boas mortes” que a primeira, a de Maria, quer, de algum modo, anunciar. (SINCRETISMO. A Tarde, Salvador, 6 ago.2005. Suplemento Cultural)

Foto de REGINALDO PEREIRA | Agência A Tarde – 13.8.2010


SÓ ACONTECE EM SALVADOR!!!

posted by Jary Cardoso @ 11:50 PM
13 de agosto de 2010

 

Colaboração de uma colega de redação de A Tarde, a produtora Meire Ellen.

São coisas que só acontecem na Cidade da Bahia:

 

SER PRESO NA LIBERDADE.

FUMAR NO CAMPO DA PÓLVORA.

TOMAR BANHO DE MAR NO RIO VERMELHO.

PASTOR EVANGÉLICO MORAR NA CAPELINHA DE SÃO CAETANO.

ATRAVESSAR A RUA NA CALÇADA.

MORAR NO URUGUAI E TRABALHAR EM ROMA.

FALTAR AGUA NA CAIXA D’ÁGUA.

UM ADULTO TOMAR BANHO NA ÁGUA DE MENINOS.

CANDOMBLÉ NO TERREIRO DE JESUS.

IR EM ROMA E NÃO VER O PAPA.

CONFUSÃO NA RUA DO SOSSEGO.

ASSASSINATO NA RUA DA PAZ.

NÃO ENCONTRAR APOIO NA RUA D’AJUDA.

JOVENS NA PRAÇA DOS VETERANOS.

NÃO DAR ESMOLAS NA PRAÇA DA PIEDADE.

CASAS VELHAS NA CIDADE NOVA.

LAGOA DE ÁGUA DOCE DENTRO DE VILAS DO ATLÂNTICO.

ACIDENTE AUTOMOBILÍSTICO NA BOA VIAGEM.

ASFALTO NO CAMINHO DE AREIA.

LAVAGEM DO BONFIM TERMINAR EM BRIGA.

COLHER MANGA, UMBU, LARANJA E OUTRAS FRUTAS NAS CAJAZEIRAS.

PERDER ALGUMA COMPETIÇÃO NO CORREDOR DA VITÓRIA.

LUZ NA MATA ESCURA.

LER “A TARDE” TODOS OS DIAS PELA MANHÃ.

ADOECER NA SAÚDE.

MORRER NA SEXTA E SER ENTERRADO NAS QUINTAS.

 


ROSANA JATOBÁ ATACA OS PRECONCEITOS

posted by Jary Cardoso @ 12:19 AM
10 de agosto de 2010

ROSANA JATOBÁ

Orgulhem-se, conterrâneos de Rosana Jatobá, esta baiana, além de lindíssima, pensa grande e decidiu passar um sabão em todo mundo que cultiva aberta ou veladamente algum tipo de preconceito. E ela começa com uma tunda certeira na cabeça dos sudestinos de São Paulo e Rio que discriminam baianos e “paraíbas”.

Este texto de Rosana Jatobá está circulando pela internet e quem o enviou para mim, já pensando em publicá-lo no Jeito Baiano, foi meu amigo Lourenço Mueller, arquiteto, urbanista, colaborador deste blog e do espaço de Opinião no jornal A Tarde, que, como todo baiano autêntico, é também um artista.

A única indicação existente sobre a origem do artigo de Rosana Jatobá está no final: “Esse texto é parte da série de crônicas sobre Sustentabilidade publicada na CBN”. Em seguida vem o seguinte endereço:

http://www.geledes.org.br/em-debate/o-insustentavel-preconceito-do-ser.html

Pesquisando no Google, encontrei vários sites e blogs que o citam e as datas mais frequentes que aparecem são de junho e julho. Suponho então que seja um texto recente.

Já a foto que abre este post foi copiada de uma página de um site de álbuns de fotos. Veja o endereço e o que diz sobre Rosana Jatobá o ardoroso fã e autor dessa página:


http://lindissimas.fotopages.com/?entry=1234432

Eu (Alexandre Figueiredo) sou meio suspeito para falar, porque fui colega dessa mulher fantástica que se tornou jornalista da Rede Globo.

Ela foi minha colega em 1990 na Universidade Federal da Bahia e ela ainda estudou Direito na Universidade Católica de Salvador (vale lembrar que este curso eu não fiz).

Lindíssima, inteligente e muito simpática, Rosana conquistou seu posto, no entanto, por seu talento e iniciativa. Rosana começou na TV Bandeirantes, de Salvador, em 1995, e depois passou a morar em São Paulo. Da TV Bandeirantes de lá, ela foi para a Rede Globo.


Vamos, afinal, ao libelo contra os preconceituosos.


O INSUSTENTÁVEL

PRECONCEITO DO SER


texto de ROSANA JATOBÁ*


Era o admirável mundo novo! Recém-chegada de Salvador, vinha a convite de uma emissora de TV, para a qual já trabalhava como repórter. Solícitos, os colegas da redação paulistana se empenhavam em promover e indicar os melhores programas de lazer e cultura, onde eu abastecia a alma de prazer e o intelecto de novos conhecimentos.

Era o admirável mundo civilizado! Mentes abertas com alto nível de educação formal. No entanto, logo percebi o ruído no discurso:

Recomendo um passeio pelo nosso “Central Park” – disse um repórter. Mas evite ir ao Ibirapuera nos domingos, porque é uma baianada só!

Então estarei em casa, repliquei ironicamente.

Ai, desculpa, não quis te ofender. É força de expressão. Tô falando de um tipo de gente.

A gente que ajudou a construir as ruas e pontes, e a levantar os prédios da capital paulista?

Sim, quer dizer, não! Me refiro às pessoas mal-educadas, que falam alto e fazem “farofa” no parque.

Desculpe, mas outro dia vi um paulistano que, silenciosamente, abriu a janela do carro e atirou uma caixa de sapatos.

Não me leve a mal, não tenho preconceitos contra os baianos. Aliás, adoro a sua terra, seu jeito de falar….

De fato, percebo que não existe a intenção de magoar. São palavras ou expressões que, de tão arraigadas, passam despercebidas, mas carregam o flagelo do preconceito. Preconceito velado, o que é pior, porque não mostra a cara, não se assume como tal. Difícil combater um inimigo disfarçado.

Descobri que, no Rio de Janeiro, a pecha recai sobre os “Paraíba”, que, aliás, podem ser qualquer nordestino. Com ou sem a “Cabeça chata”, outra denominação usada no Sudeste para quem nasce no Nordeste.

Na Bahia, a herança escravocrata até hoje reproduz gestos e palavras que segregam. Já testemunhei pessoas esfregando o dedo indicador no braço, para se referir a um negro, como se a cor do sujeito explicasse uma atitude censurável.

Numa das conversas que tive com a jornalista Miriam Leitão, ela comentava:

O Brasil gosta de se imaginar como uma democracia racial, mas isso é uma ilusão. Nós temos uma marcha de carnaval, feita há 40 anos, cantada até hoje. E ela é terrível. Os brancos nunca pensam no que estão cantando. A letra diz o seguinte:

“O teu cabelo não nega, mulata

Porque és mulata na cor

Mas como a cor não pega, mulata

Mulata, quero o teu amor”.

É ofensivo – diz Miriam. Como a cor de alguém poderia contaminar, como se fosse doença? E as pessoas nunca percebem.

A expressão “pé na cozinha”, para designar a ascendência africana, é a mais comum de todas, e também dita sem o menor constrangimento. É o retorno à mentalidade escravocrata, reproduzindo as mazelas da senzala.

O cronista Rubem Alves publicou esta semana na Folha de São Paulo um artigo no qual ressalta:

“Palavras não são inocentes, elas são armas que os poderosos usam para ferir e dominar os fracos. Os brancos norte-americanos inventaram a palavra ‘niger’ para humilhar os negros. Criaram uma brincadeira que tinha um versinho assim:

‘Eeny, meeny, miny, moe, catch a niger by the toe’ …que quer dizer, agarre um crioulo pelo dedão do pé (aqui no Brasil, quando se quer diminuir um negro, usa-se a palavra crioulo).

Em denúncia a esse uso ofensivo da palavra, os negros cunharam o slogan ‘black is beautiful’. Daí surgiu a linguagem politicamente correta. A regra fundamental dessa linguagem é nunca usar uma palavra que humilhe, discrimine ou zombe de alguém”.

Será que na era Obama vão inventar “Pé na Presidência”, para se referir aos negros e mulatos americanos de hoje?

A origem social é outro fator que gera comentários tidos como “inofensivos”, mas cruéis. A Nação que deveria se orgulhar de sua mobilidade social é a mesma que picha o próprio Presidente de torneiro mecânico, semi-analfabeto. Com relação aos empregados domésticos, já cheguei a ouvir:

A minha “criadagem” não entra pelo elevador social!

E a complacência com relação aos chamamentos, insultos, por vezes humilhantes, dirigidos aos homossexuais? Os termos bicha, bichona, frutinha, biba, “viado”, maricona, boiola e uma infinidade de apelidos, despertam risadas. Quem se importa com o potencial ofensivo?

Mulher é rainha no dia oito de março. Quando se atreve a encarar o trânsito, e desagrada o código masculino, ouve frequentemente:

Só podia ser mulher! Ei, dona Maria, seu lugar é no tanque!

Dependendo do tom do cabelo, demonstrações de desinformação ou falta de inteligência, são imediatamente imputadas a um certo tipo feminino:

Só podia ser loira!

Se a forma de administrar o próprio dinheiro é poupar muito e gastar pouco:

Só podia ser judeu!

A mesma superficialidade em abordar as características de um povo se aplica aos árabes. Aqui, todos eles viram turcos.

Quem acumula quilos extras é motivo de chacota do tipo: rolha de poço, polpeta, almôndega, baleia …

Gosto muito do provérbio bíblico, legado do Cristianismo: “O mal não é o que entra, mas o que sai da boca do homem”.

Invoco também a doutrina da Física Quântica, que confere às palavras o poder de ratificar ou transformar a realidade. São partículas de energia tecendo as teias do comportamento humano.

A liberdade de escolha e a tolerância das diferenças resumem o Princípio da Igualdade, sem o qual nenhuma sociedade pode ser Sustentável.

O preconceito nas entrelinhas é perigoso, porque, em doses homeopáticas, reforça os estigmas e aprofunda os abismos entre os cidadãos. Revela a ignorância e alimenta o monstro da maldade.

Até que um dia um trabalhador perde o emprego, se torna um alcoólatra, passa a viver nas ruas e amanhece carbonizado:

Só podia ser mendigo!

No outro dia, o motim toma conta da prisão, a polícia invade, mata 111 detentos, e nem a canção do Caetano Veloso é capaz de comover:

Só podia ser bandido!

Somos nós os responsáveis pela construção do ideal de civilidade aqui em São Paulo, no Rio, na Bahia, em qualquer lugar do mundo. É a consciência do valor de cada pessoa que eleva a raça humana e aflora o que temos de melhor para dizer uns aos outros.

PS: Fui ao Ibirapuera num domingo e encontrei vários conterrâneos…


*Rosana Jatobá é jornalista, graduada em Direito e Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia, e mestranda em gestão e tecnologias ambientais da Universidade de São Paulo. Também é apresentadora do departamento de jornalismo da Rede Globo.



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