Archive for setembro, 2010


ENTREVISTA DE CAETANO VELOSO À RÁDIO A TARDE FM

posted by Jary Cardoso @ 9:51 PM
28 de setembro de 2010

 

Caetano Veloso veio à Bahia para comemorar os 103 anos de Dona Canô e ao voltar de Santo Amaro deu uma entrevista para o programa Conversa Brasileira, da rádio A Tarde FM (103.9), de Salvador, que foi ao ar neste domingo dia 26.

Caetano fala sobre sua relação com a imprensa, a política, o convite para se tornar colunista de jornal (os artigos são publicados domingo n’O Globo e n’A Tarde), a carreira no exterior, as tecnologias e muito mais.

Clique aqui e ouça


HOMENAGEM A VIVALDO DA COSTA LIMA

posted by Jary Cardoso @ 1:42 AM
26 de setembro de 2010

O antropólogo Vivaldo da Costa Lima no escritório de sua casa, em Salvador. Foto de FERNANDO VIVAS | Agência A Tarde – 11.9.2008

Este post homenageia Vivaldo da Costa Lima reunindo uma série de textos sobre o antropólogo falecido na última quarta-feira, que é referência imprescindível para quem estuda a cultura baiana de raízes africanas.

Aqui neste blog ele é citado muitas vezes, como se pode constatar colocando-se seu nome na busca (“search”), no alto à direita (em cada post pesquisado, pode-se apertar as teclas “Control” e “f” para localizar rapidamente os trechos em que aparece o nome “Vivaldo”).

Um desses posts contém o primeiro artigo dominical de Caetano Veloso publicado n’O Globo e n’A Tarde e reproduzido em 19.5.2010 pelo blog Jeito Baiano, “Política: o Largo da Ordem”. Nele, ao falar do Pelourinho, Caetano lembra de Vivaldo da Costa Lima:

(…) ACM voltou em glória nas eleições seguintes. A essa altura, ele já tinha feito as avenidas de vale (um projeto de 1942), ligando entre si partes distantes da cidade (outrora com tráfego apenas nas cumeadas). E atraído quadros de alto nível técnico. Na sua volta, retomou os trabalhos do Pelourinho, que floresceu. O escolhido para dirigir o projeto foi o antropólogo Vivaldo da Costa Lima. Vivaldo, cujo amor pela cultura do povo baiano não pode ser superestimado, não acolheria decisões malévolas. Seja como for, a restauração, com os atrativos para quem quisesse estabelecer negócios ali, mudou a cara da cidade. Jovens que até os anos 80 nunca tinham ido ao Centro Histórico lotavam os bares do Pelourinho. Isso deu ao baiano uma nova autoimagem”.

Já o antropólogo Vilson Caetano de Sousa Júnior está presente no acervo do Jeito Baiano citando Vivaldo da Costa Lima em três artigos. Num deles, “Candomblé e modernidade”, de 2.5.2010, Vilson destaca importante formulação de Vivaldo, o conceito de “nações de candomblé”.

As fotos deste post, de autoria de Fernando Vivas, da Agência A Tarde, foram feitas especialmente para a ótima entrevista com Vivaldo da Costa Lima realizada pelo repórter Marcos Dias e publicada pela revista Muito, suplemento dominical de A Tarde, em 21.9.2008. Leia a entrevista por meio deste link:

http://revistamuito.atarde.com.br/?p=5601

Foto de FERNANDO VIVAS | Agência A Tarde – 11.9.2008

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Inicio, então, a série deste post em homenagem a Vivaldo da Costa Lima com um minitexto de Zeno Millet, neto de Mãe Menininha do Gantois:

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PROF. VIVALDO DA COSTA LIMA

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texto de ZENO MILLET

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Se existe um ícone que resume a pluralidade e o conhecimento sobre a cultura da Bahia este é Vivaldo da Costa Lima. Irmão, sábio, presente, filho de Ogum.

Embora Vivaldo não acabe com o fim, porque nos deixou o DNA do conhecimento e da definição do termo Antropologia, que lacuna irremediavelmente abissal teremos a partir de agora no nosso “panteão”.

Que tenhamos a honra de merecer o seu legado. Obrigado, professor, amigo e irmão.

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Texto extraído do Portal da UFBA (Universidade Federal da Bahia), com data de 22.9.2010:

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UFBA SE DESPEDE DE

VIVALDO DA COSTA LIMA

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O antropólogo Vivaldo da Costa Lima, Professor Emérito e docente aposentado da UFBA, um dos fundadores do Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO), um dos principais estudiosos da cultura africana na Bahia, ao lado do francês Pierre Verger, faleceu na madrugada desta quarta-feira (22 de setembro), na Fundação Baiana de Cardiologia, onde estava internado. O sepultamento é às 16h30 de hoje, no Cemitério do Campo Santo.

Vivaldo foi também diretor do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC), sendo um dos principais responsáveis pelas obras de recuperação do Pelourinho.

Nasceu em Feira de Santana, Bahia, no dia 10 de abril de 1925. Graduou-se em Odontologia, profissão que exerceu por pouco tempo, como resultado de sua paixão pelos estudos antropológicos.

Sofisticadamente erudito e conhecedor do pensamento antropológico de matriz europeia, compartilhou com George Agostinho da Silva a criação do Centro de Estudos Afro-Orientais da UFBA em 1959.

Cedo seguiu para a África, onde tornou-se Leitor de Estudos Brasileiros, na Universidade de Ibadan, na Nigéria e na Universidade de Gana. Em 1966, substituiu o professor Thales de Azevedo, na cadeira de Antropologia, na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA.

Vivaldo não seria apenas o acadêmico, ele queria interferir na realidade e assim tornou-se fundador e Diretor da Fundação do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia, inicialmente voltada para a restauração e valorização do Pelourinho em Salvador.

Foi responsável por romper com a mentalidade de restauração do patrimônio urbano com exclusão social, criando no Pelourinho o que denominava uma “universidade do fazer”, aliando teoria e prática, envolvendo uma equipe multidisciplinar composta por arquitetos, educadores, restauradores, assim como antropólogos e médicos, entre outros profissionais.

Mais que um professor, Mestre de Gerações, pois, como repetia: ensinar, transmitir conhecimento era fundamental a sua vida. Suas aulas, palestras, conferências sempre foram conduzidas com rigorosa indisciplina.

Cada texto, cuidadosamente elaborado com se fosse para ser submetido a um periódico de primeira linha, tinha sua leitura intercalada por comentários e referências que aprofundavam cada frase, cada ideia, cada achado, impressionando a todos que o ouviam e prendendo a atenção de estudantes, colegas, leigos. Todos mimetizados por sua retórica e sempre perfeitamente colocados comentários, com pitadas de ironia e tempo perfeitamente calculado para aguçar a curiosidade intelectual dos que o ouviam.

Aulas memoráveis, em todos os sentidos, até no destempero das palavras e imprevisibilidade do curso que tomariam!…. Todas, contudo, críticas, instigantes, desafiadoras!…

Continuam a reverberar nos ouvidos e sentimentos dos que foram docemente desafiados e agredidos por suas ideias. Personalizava a relação com cada estudante, perguntava e comentava sobre suas genealogias, relações familiares, ascendentes e descendentes; ao encontrar seus amigos e ex-alunos a pergunta sobre a família, pais, irmãos, esposas, filhos era feita de maneira sempre esperada, mas, surpreendente.

Em 2005, quando completou 80 anos foi homenageado por seus discípulos com a realização de um evento que trouxe a Salvador vários de seus amigos e admiradores para falar sobre seu trabalho. Agradeceu a homenagem com a magistral e inesquecível conferência em que reconstruiu a história social da alimentação na Bahia com o Acarajé como parte da culinária afro-baiana.

Foi homenageado com título de Professor Emérito pela UFBA e recebeu a Medalha Roquette Pinto da ABA por sua destacada contribuição para o campo da Antropologia.

Avesso a finalizações, escreveu e re-escreveu muito, mas privou os que conheciam e desejavam ler seus trabalhos de fazê-lo publicando só esparsamente e, quase sempre, textos “tomados” de suas mãos por outros que, muitas vezes, contra sua vontade pois sempre considerava todos inacabados, os levaram a publicação.

Destaca-se de sua produção intelectual o clássico sobre a Família-de-santo no Candomblé Gêge Nagô que tem reconhecimento nacional e internacional.

Nos últimos anos dedicou-se aos estudos de Antropologia da Alimentação, temática que dominava como poucos. Preparava vários livros para publicação através da Editora Corrupio.

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Texto do antropólogo Peter Fry publicado pela Wikipédia, a enciclopédia livre:

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LANÇAMENTO DA EDITORA CORRUPIO

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A Família de Santo nos Candomblés

Jejes-Nagôs da Bahia – Um Estudo de

Relações Intragrupais, de Vivaldo da

Costa Lima

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texto de PETER FRY*

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A Família de Santo nos Candomblés Jejes-nagôs da Bahia, publicado em edição limitada pela Universidade da Bahia, em 1977, logo se tornou um valiosíssimo item nas bibliotecas dos aficionados do candomblé.

É uma referência fundamental, não apenas pela sua contribuição importantíssima ao estudo da organização interna dos terreiros, pautada no parentesco engendrado na iniciação ritual, como, também, pelas valiosíssimas informações sobre os grandes e pequenos pais e mães-de-santo na época da pesquisa, a solidariedade e o desentendimento que o parentesco ritual ou de sangue parece sempre produzir, e as informações inéditas sobre os heróis e heroínas fundadores dos terreiros mais preeminentes de Salvador.

A discussão sobre incesto, exogamia e homossexualidade, no contexto do parentesco ritual, é primorosa e inovadora. O livro contém dados coletados pelo autor e seus alunos de graduação em Antropologia, assim representando o que tem de melhor no ensino da Antropologia, uma disciplina que se constrói sobre o diálogo entre teoria e etnografia.

Mas, o que dá a este texto um valor maior, é a clareza de exposição e a erudição do autor, e, sobretudo, a sua intimidade e admiração pelo povo de santo de Salvador. Este não é um relato distante e desinteressado. É um depoimento engajado de um pesquisador de mão cheia, de um membro de uma longa linhagem de grandes intelectuais baianos, para quem o candomblé é muito mais que um simples objeto de estudos ou curiosidade étnicos. É um modo de vida para grande número dos baianos de todas as classes e cores.

O leitor deste livro de Vivaldo da Costa Lima aprenderá muito sobre a história, a organização interna e, porque não, sobre as brigas e desavenças do povo de santo da Bahia, mas, também, aprenderá muito sobre seu autor e de como faz ele a sua antropologia.

A editora Corrupio está de parabéns por tornar disponível este clássico para um público maior.

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*Peter Fry – Professor titular de Antropologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro

Foto de FERNANDO VIVAS | Agência A Tarde – 11.9.2008

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Agora, duas matérias publicadas em 24.9.2010 pelo Caderno 2+ do jornal A Tarde, uma do repórter Chico Castro Jr. e a outra, uma análise do antropólogo Cláudio Pereira:

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QUATRO LIVROS ELEMENTARES DA

OBRA DE VIVALDO DA COSTA LIMA

SÃO RELANÇADOS PELA CORRUPIO

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Obras integram o conjunto de textos de referência do antropólogo, que encerrou sua trajetória aos 85 anos, quarta-feira (22.9.2010)

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texto de CHICO CASTRO JR.*

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O pesar causado pela perda do antropólogo Vivaldo da Costa Lima, morto na manhã de anteontem, aos 85 anos, ganha um alívio com a notícia de que sua obra, de relevância inquestionável para a cultura brasileira, permanece disponível em seus livros, publicados em novas e bem cuidadas edições da editora Corrupio.

O conjunto de quatro volumes, revisado pelo próprio Vivaldo, já teve, desde fevereiro, o primeiro livro relançado: Família de santo nos candomblés jejes-nagôs da Bahia: Um estudo de relações intragrupais (Corrupio, 216 páginas, R$ 45).

Considerado seu maior clássico, foi publicado originalmente em 1977. “Trata-se de uma nova tiragem da segunda edição, revista pelo autor em 2003, com novo design de capa“, conta a editora Cida Nóbrega, da Corrupio.

Os outros três volumes devem sair até o final de outubro. Dois deles estão em fase de diagramação: Leffé Orixá e A anatomia do acarajé e outros artigos. O último será Comida de santo no Terreiro de ketu da Bahia“, enumera.

Todos os quatro livros saem com a ortografia ajustada ao acordo ortográfico de unificação da língua portuguesa.

Leffé Orixá, expressão iorubá que significa “aos pés do santo“ trará 18 textos. Entre eles estão seus primeiros artigos, publicados em 1959 no jornal Diário de Notícias, além de textos analíticos sobre assuntos diversos, como simbolismo de direita e esquerda, a morte, transe e possessão, candomblé no centro da cidade e o conceito de nação. “Esse artigo é importantíssimo, ele definiu o padrão ideológico dos terreiros“, aponta Cida.

A anatomia do acarajé e outros artigos traz seus textos mais recentes, datados de 2005. “É um livro sobre etnoculinária. Trata da alimentação sob o viés antropológico, abordando a cozinha baiana, dietas africanas e a culinária nas obras de Jorge Amado, Gilberto Freyre, Câmara Cascudo e Manuel Querino“, descreve.

O último volume é Comida de santo no terreiro de ketu da Bahia, transcrição de uma longa entrevista de Vivaldo com a mãe de santo Olga de Alaketu, feita em 1965. “A edição virá com introdução e notas do próprio Vivaldo, comentando e destrinchando as comidas, suas origens, significados, simbologia e o modo de servir as comidas de santo neste terreiro específico“, conta Cida Nóbrega.

A importância dessas publicações é que elas reúnem o que há de mais significativo na obra de Vivaldo – e tudo selecionado e revisado pelo próprio, cobrindo um período que vai desde 1959 até 2005“, resume.

Anteriormente, a Corrupio também lançou Cosme e Damião: O culto aos santos gêmeos no Brasil e na África (R$ 20).

Órgão de consulta

A editora comenta que trabalhou com Vivaldo “até dois dias antes de ele se internar. Trabalhávamos dois dias por semana e ele estava bem feliz com a publicação de sua obra. De início, ele resistiu um pouco, mas depois, quando viu a coisa tomando forma, relaxou“, diz.

Cida lamenta a perda do intelectual, que considerava um amigo. “Tenho um grande respeito por ele, como homem e como estudioso“, diz.

A despeito de suas grandes realizações em 85 anos de vida, sua morte entristeceu a intelectualidade baiana. O antropólogo Ordep Serra lembra que ele foi responsável por formar “um grande numero de discípulos, muitos ativos e produzindo bastante. Inclusive, ele trouxe alguns deles da África“, lembra.

Ele teve uma participação forte na fundação e consolidação do Centro de Estudos Afro-orientais da Ufba (CEAO). O papel do CEAO é importantíssimo, sendo inclusive órgão de consulta do Itamaraty (Ministério das Relações Exteriores). Tudo isso é fruto da sua obra“, avalia Ordep.

Contra o nagocentrismo

Já o sociólogo Milton Moura destaca que Vivaldo, mesmo sendo ogã de um grande terreiro de Salvador (o Ilê Axé Opô Afonjá) e “tendo sido próximo de Mãe Menininha e Mãe Senhora, desde o início de sua carreira, se colocou contrário ao nagocentrismo, afirmando sempre a importância das matrizes jeje e angola para a formação das religiões de matriz afro-brasileiras“, aponta Milton.

Leitor dos textos de Vivaldo sobre etnoculinária, o antropólogo Raul Lody, idealizador do Museu de Gastronomia Baiana no Pelourinho, lamenta a perda do colega. “Foi um dos mais notáveis pesquisadores da cultura baiana, especialmente sobre as religiões de matriz africana“, define.

Assim, ele contribuiu com estudos muitos importantes, como o trabalho Família de santo nos candomblés jejes-nagôs da Bahia e pesquisas na área da culinária, especialmente a que ele realizou no terreiro do Alaketu“, destaca.

Lody lembra que Vivaldo foi um dos intelectuais que ajudaram a desvendar as ligações culturais entre Bahia e África, quando para lá viajou em 1960 e passou três anos, realizando pesquisa de campo.

Ele foi um dos intérpretes dessa ponte cultural entre Bahia e África e teve uma grande experiência por lá, estudando temas que se relacionam com a cultura baiana“, observa Lody.

Uma das intelectuais mais ligadas a Vivaldo, a etnolinguista Yeda Pessoa de Castro, considera que “ele sempre será uma referência no campo dos estudos sobre religiões e culturas africanas no Brasil. Foi um pioneiro“, disse, emocionada.

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*Chico Castro Jr. – Repórter

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VIVALDO, SABEDOR DE COISAS

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texto de CLÁUDIO PEREIRA*

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Vivaldo era um homem laborioso. Ele sabia que “Deus está nos detalhes” e, por isto mesmo, em sua labuta foi um artesão minucioso. Sua trajetória intelectual é impar. Nasceu em Feira de Santana, em 1925, foi jovem prodígio da odontologia, largou tudo e quis ser antropólogo, num tempo em que tornar-se isto requeria um gesto heroico. Tornou-se, qual Hamlet, como ele costumava dizer, um “louco com método”, e disto nunca se arrependeu.

Também pudera, sendo Vivaldo um homem dotado de uma memória extraordinária, aliada a uma inteligência sofisticada, diligente e crítica. A combinação disto, aliás, fez dele uma personalidade forte e digna, portadora de uma sinceridade desconcertante. Ninguém, assim, passava indiferente ao seu convívio, e sua presença era transformadora.

Vivaldo ensinou gerações de cientistas sociais. Sua definição do que era antropologia era ampla, geral e enigmática: “antropologia é tudo aquilo que a gente quiser chamar de antropologia”. E talvez seja, por isso mesmo, que em suas mãos os livros corriam em um fluxo contínuo, caudal, eclético. Isto o tornava um sabedor de coisas, funcionário das palavras e da língua, fazedor de sínteses. Enciclopédico inventor de sentidos, como o são os verdadeiros intérpretes do mundo e do espírito dos tempos.

O intelectual

Vivaldo escreveu de maneira profícua. Não movido por um vago sentido banal de que escrever dá publicidade e notoriedade, mas certo de que as verdades bem ditas são econômicas, justas, exatas. A Família de santo nos candomblés da Bahia, por exemplo, é obra de posição ímpar na etnologia brasileira, o que o coloca como autor no patamar de Nina Rodrigues, Edson Carneiro e todos os grandes cientistas sociais brasileiros. E tão valiosos foram seus textos dispersos, no qual ele descortinou o mundo afro-brasileiro, debruçando-se sobre o candomblé, as línguas africanas, a religiosidade popular, o valor do negro na cultura nacional. Sua contribuição intelectual por meio de suas obras e orientações acadêmicas alicerça as bases do mundo afro-baiano atual. Intérprete da cultura por excelência, se tornou seminal nesta cultura mesma.

Vivaldo era um mestre da conversação fluente. Com o mesmo élan com que dialogava com sacerdotes e sacerdotisas, anônimos ou famosos, do candomblé da Bahia, tornando-se protegido e protetor destes e destas, dialogava com sumidades do mundo intelectual moderno, com artistas, literatos e com cientistas.

Curioso, Vivaldo explorou temas como quem desbrava continentes perdidos. Era astucioso ao inventar ideias. Tinha fome de leitura, sede de verdades. Tinha gosto por coisas insólitas, por assuntos desafiantes, pelo diferente só por ser diferente. Tinha obsessão por autores – queixava-se que no mundo hoje faltam leitores para Proust –, por gêneros literários – consumia literatura policial com fervor –, e tanto por coisas novas que podem ser ditas por serem novas, como por coisas que sendo antigas, precisam continuar a ser ditas.

Vivaldo foi amiúde um reformador social, e pretendeu construir mundos como quem sonha utopias. Arquitetou planos que, seguramente, não viu realizados. Foi cosmopolita e, como tal, sabia que mesmo o nosso pequeno mundo, esta província em que somos náufragos, se encontra em expansão inevitável em direção ao futuro.

Ironias agnósticas

Vivaldo foi obsequioso. Prova disto é que seus verdadeiros amigos eram amigos fiéis. Ele acreditava piamente na generosidade, na reciprocidade e naquilo que vagamente podemos indicar como o “dom” humano. Por isso mesmo sofria com os tempos modernos, em que já não há mais a cortesia das relações pessoais, dos gestos desinteressados de simpatia, do gosto por aquilo que ele aprendeu como sendo as boas coisas da vida.

Vivaldo, nas últimas semanas, sabia também que “a mais indesejada das gentes”, como ele costuma falar da morte, evocando Bandeira, estava para chegar. Disse-me, divertido, em uma das nossas últimas conversas, que ele seria absolvido pela providência divina por duas razões: era ele que, quando criança, conduzia de mãos dadas Irmã Dulce até o escritório do pai, Paulo Costa Lima, quando ela, mensalmente, passava na Fábrica da Jurubeba Leão do Norte para pegar as ofertas para suas obras de caridade; e, também, porque ele compartilhara, num congresso Eucarístico, do mesmo aposento do jovem Karol Wojtyla, que depois se tornaria o Papa João Paulo II. Vê-se como se torna doce a ironia contida na lógica da vida e da morte para um agnóstico convicto, como ele de fato era.

Com 85 anos bem vividos Vivaldo da Costa Lima foi-se vitorioso na primeira manhã desta primavera.

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*Cláudio Pereira – Doutor em antropologia e professor da Ufba

Foto de FERNANDO VIVAS | Agência A Tarde – 11.9.2008

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Concluo esta série de textos em homenagem a Vivaldo da Costa Lima com um artigo de Cléo Martins publicado originalmente na coluna de Religião de A Tarde, em 15.4.2005 (os artigos dela saíam sempre às sextas-feiras). A soteropaulistana Cléo, que hoje vive num mosteiro em Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, ao saber do falecimento de Vivaldo enviou o seguinte e-mail como apresentação do artigo que se segue:

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Queridos amigos,

Segue homenagem que fiz para Vivaldo faz longos cinco anos por ocasião de seus 80 anos. Ele adorou. Quase todas as sextas-feiras me telefonava após ler meus artigos. Para elogiar ou descer a lenha, conforme os intensos azeites. Deliciosos como a comida baiana que costuma comer em sua casa. Memorável um almoço a 4. Ele, o Gerson a Yeda Pessoa de Castro e eu… Saudades desta Bahia de todas as querências.

Com carinho,

Cléo Martins (I.Teresa Paula do Espírito Santo)

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MESTRE, FILHO DE OGUM,

ELEMAXÓ E OBÁ

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texto de CLÉO MARTINS*

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A terra de santos e Orixás celebra o aniversário de Vivaldo da Costa Lima, seu ilustre filho nascido em Feira de Santana, em 1925, ano em que duas grandes personalidades do universo dos terreiros chegaram ao Aiê, a terra: Stella de Oxóssi, aos 2 de maio e Olga de Alaketu, 9 de setembro.

Vivaldo, filho de Ogum, o vanguardeiro, viera antes, aos 10 de abril.

Dia 12, terça-feira, o professor emérito da Universidade Federal da Bahia foi homenageado pelo Conselho Estadual de Cultura, presidido por Oscar Dourado. Em sua casa, o Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (IPAC), onde esteve à frente por dezessete anos. Hoje, a direção do importante Instituto cabe a Júlio Braga.

Festa sóbria e bonita. Discursos, lágrimas furtivas e brincalhonas, risos e aplausos. Calor e sensibilidade nas palavras solenes de Júlio Braga, o filho de Oiá. Graça e sentimento nas falas de Ildásio Tavares, Tânia Simões, Geraldo Machado, outros e outras.

Presenças marcantes: Sônia Bastos, a secretária interina da Cultura e Turismo da Bahia; Armando Bião, Miriam Fraga, Heitor Reis, tantos e tantas; acadêmicos e povo de santo; baianos legítimos e de coração. Nas cabeceiras da mesa de honra, as imponentes Olga de Iansã e Stella de Oxóssi. A ialorixá do Alaketu é comadre do mestre Vivaldo; Mãe Stella é sua irmã de Axé.

Quem é up to date sabe who is who e Vivaldo é pessoa notória e pública.

Vou dividir com vocês, leitores, o Vivaldo que sinto, respeito e aprendi a amar como amara meu mestre, o juslaboralista Antonio Ferreira Cesarino Júnior, a quem simplesmente chamava “o professor”.

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“Erudito viajante;

Superlativo;

Levado.

Fidelíssimo,

Pertinaz,

Destemido,

Consagrado.

Acérrimo sensível.

Disputado

Combatente.

Invejado

Impaciente

Vive a vida apaixonado.

Brasileiro gentilíssimo,

Voz firme, elegante.

Amável, solidário;

Cem por cento galante.

Cidadão participante

Festejado maestro

Memória memorável

Humor bruxuleante.

Bravíssimo, irascível

Justo e eloquente.

Destemido veterano

Encantador de serpentes

Odofim de Xangô

Elemaxó pensador

Boêmio de Ogum

Baiano, compadre, doutor

Seletivo autor

Conservador e liberal

Totalmente artista,

intensamente intenso,

total.

Anfitrião; comensal,

Desperto, inteligente,

Generoso, valentão,

Aclamado e prudente.

Amado, odiado,

Transparente, loquaz.

Cavalheiro cultuado

Pioneiro, ímpar, sagaz.

Vivo, verdadeiro, atirado

Vero, rápido, vivaz.

Viva Vivaldo, minha gente,

Alegria, saúde e paz.”

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*Cléo Martins – Advogada e escritora, Agbeni Xangô do Axé Opô Afonjá

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O DIA-A-DIA MUSICAL DE TUZÉ DE ABREU

posted by Jary Cardoso @ 8:39 PM
19 de setembro de 2010

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EXTREMOS

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texto de TUZÉ DE ABREU

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Este ano classifiquei uma, digamos, canção, entre as cinquenta no festival da Rádio Educadora. Fiquei lisonjeado quando o doutor em composição Wellington Gomes, recentemente premiado com um primeiro lugar em Berlim, ouviu e falou bem da minha composição, inclusive usando termos pertinentes a um analista musical experimentado. Ele também conhece bem (e ensina) análise musical tonal e pós tonal.

Outro dia, caminhando pela Rua do Salete em busca de material de informática, fui abordado por um homem mestiço, magro, com cabelos grandes estilo rastafari, tendo um machado de Xangô impresso na frente da camisa e exalando cannabis sativa. Este cidadão me abraçou e disse (não lembro bem das palavras, mas o sentido foi este) que há muito não ouvia uma música como ONDE OLHO (a minha composição). Ele a ouviu pelo rádio e ficou muito impressionado e comovido. Brotaram imediatamente lágrimas dos meus olhos.

***

Na noite de 17 de setembro, fui com minha filha e amigas assistir a uns shows no Pelô. Gostei muito do Capitão Cometo que foi auxiliado pelo Capitão Parafina e teve uma participação de Irmão Carlos (que eu já conhecia com o seu grupo, O Catado). Estou falando de rock bem humorado, com alguns números (bons) apenas instrumentais, tocados por um power trio (guitarra, contrabaixo elétrico e bateria).

Há muito não me divertia tanto com o que Ricardo Luedy chama de música hormonal. Gostei mais deles do que da atração principal, Móveis Coloniais de Acaju, que conheci em São Paulo quando fui um dos curadores do Itaú Cultural. Os Móveis soaram melhor no CD avaliado por nós na Sampa (aprendi esta com Tom Zé). Eles ao vivo são muito barulhentos, com raros momentos de transparência. Ouvindo-os, lembrei do meu querido amigo Perinho Albuquerque que, certa vez ouvindo um determinado grupo tocar, perguntou de quem era o aniversário. Perguntei a ele por que a pergunta, e ele: “o bolo já está aí”.

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Na noite seguinte fui com João e Rosa (meus filhos) mais Ane, a namorada de João, à ópera O Barbeiro de Sevilha, de Rossini, no TCA. Uma montagem extraordinária onde os cantores interagem com desenho animado o tempo todo. Além da alta qualidade dos cantores e da orquestra, a montagem originalíssima, nunca vi nada igual, deu não apenas um relevo formidável como tornou a ópera muito mais atraente, sobretudo para as crianças, os jovens e os preconceituosos para com esta linguagem lírica. O desenho e a animação também eram de alto nível. Fiquei muito impressionado com a sincronia. A manutenção do andamento musical deve ter dado um trabalhão. Todos saímos encantados.



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