Archive for setembro, 2010


UM JEITO BAIANO DE VIVER BRASÍLIA

posted by Jary Cardoso @ 11:44 AM
19 de setembro de 2010

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texto de zédejesusbarrêto*

Brasília, sáb 18set/2010

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O dia amanheceu com o horizonte turvo, o ar seco fumacento, visibilidade ruim e um cheirão de mato queimado invadindo as narinas congestionadas. Calor de forno, olhos ressecados e lábios rachando. Uma quase primavera árida, há quatro meses não pinga chuva. O planalto parece fogueira.

Brasília em brasa.

O centro do poder se move por influências, interesses e propinas. Grana e cargos no balcão. Gabinetes blindados pelo luxo e batalhões de servidores refrigerados. Tem crachá, qualé a senha? Gravata, saltos altos, boa recomendação e carimbos.

A burocracia processa os trâmites.

Nada é certo ou previsível, muito menos a Justiça. Cega, surda e imunda. Tudo depende dos arreglos. Assim se faz a política pelaqui e acolá, assim acontecem as decisões da república.

As ideologias partidárias servem apenas para justificar as ações, nem sempre republicanas. O povo não passa de uma peça no tabuleiro eleitoreiro. Manipulável e essencial no contexto.

Assim funciona ‘o sistema’ (aquele que a cada novo escândalo ‘está fora do ar’).

Degraus abaixo… o hospital público não tem raio x, o buzu matraca e o crack degrada.

Só Jesus salva!’, bradam os pastores nos templos, negociando o voto dos fiéis.

Entrementes…

Lula paira sobre a nação. Nada o assombra. O ‘grande líder’ dita o ritmo com palavras toscas. Tem o gosto da massa rude.

O IBGE alerta: somos um país de ignorantes. Que importa?

Bater um prato de feijão com farinha diante da tela emburrecedora da TV já nos sacia.

Na propaganda dela… esse nosso Brasil tá lindo de se ver.

Quem é Dilma? É a mãe!

13 nela. E amém.

Sou um ser só.

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*zédejesusbarrêto – Escrivinhador baiano que atualmente está trabalhando como profissional numa campanha eleitoral em Brasília


RISÉRIO DEFENDE UM NOVO LITORAL PARA SALVADOR

posted by Jary Cardoso @ 10:43 PM
12 de setembro de 2010

Num fim de semana de sol em Salvador, em março do ano passado, recém colocado no ar o Jeito Baiano, estava eu curtindo um peixe frito com cerveja e água de coco na barraca de Aloisio, na Praia dos Artistas, Boca do Rio, e aproveitei para fazer uma pesquisa com ele para o blog. Comecei a explicar que um dos meus propósitos era discutir a baianidade… Aloisio não esperou eu concluir e, como num lance de capoeira, me cortou:

A baianidade perdeu a essência…

Eu não disse mais nada, fiquei a pensar. E registrei no blog esse sintético depoimento de Aloisio, que na época se queixava dos transtornos para o seu negócio causados pelas obras de construção do emissário submarino, bem próximas da área onde estava a barraca.

Talvez ingenuamente, ele dizia acreditar que Jaques Wagner, frequentador da barraca antes de ser governador, iria reverter a situação. Ninguém imaginava àquela altura que um ano e meio depois essa e centenas de outras barracas da orla marítima da Cidade da Bahia seriam derrubadas pela prefeitura por ordem judicial.

Logo depois de derrubadas as primeiras barracas, quando ainda não se tinha uma dimensão exata do que estava para ocorrer, recebi, como editor de Opinião do jornal A Tarde, um artigo de Antonio Risério saudando essa operação. Mas por uma regra de periodicidade que rege a editoria, o texto só poderia ser publicado uma semana depois. Nesse meio tempo aconteceu o espetáculo sombrio da derrubada total das barracas com as cenas catastróficas de tratores em ação, desespero, choro, revolta dos barraqueiros, manifestações de protesto, incêndio de barracas…

Risério, que está trabalhando em Brasília, começava o artigo assim: “Soube, aqui em Brasília, que finalmente começaram a cumprir a determinação judicial para demolir as chamadas ‘barracas de praia’ (…)”. Na hora de publicar o texto, tive a ousadia de fazer a seguinte alteração: “(…) finalmente cumpriram a determinação judicial (…)” A operação estava consumada.

Mas o artigo saiu sem nenhuma referência a todo esse drama que se escancarou no final da operação. Resolvi, então, produzir um post aqui no Jeito Baiano que rediscuta a questão com Risério. Neste domingo, enviei um e-mail para ele com uma pergunta precedida de longas considerações e ele devolveu de imediato uma resposta com considerações muito mais longas ainda, e mais amplas que as minhas. Acho-as muito pertinentes em função de tudo o que se debate neste blog.

Confira abaixo esta entrevista de uma só pergunta e uma só resposta. No final, reproduzo o artigo de Risério “Viva a Praia Livre”, mas antes vamos rever as contundentes e hilariantes charges sobre o mesmo tema, duas de autoria do cubano-baiano Simanca e uma do mineiro abaianado Cau Gomez, também publicadas originalmente no espaço de Opinião de A Tarde e copiadas de outro blog deste portal, O Ferrão do Humor (http://oferrao.atarde.com.br/).

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CHARGES DE SIMANCA:

CHARGE DE CAU GOMEZ:

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ENTREVISTA COM ANTONIO RISÉRIO

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JARY CARDOSO – A retirada das barracas da faixa de areia, como você bem demonstrou no artigo “Viva a Praia Livre”, era uma necessidade óbvia e medida de bom senso. No entanto, o jeito em que foi feita pelo desprefeito provocou a revolta geral por não ter preparado nada para aplicação imediata em substituição ao absurdo sistema antigo, que mesmo sendo absurdo empregava um batalhão de gente, que ficou ao deus dará, e era utilizado – por falta de outra opção – por milhares de usuários, que também ficaram ao desamparo: as famílias não têm mais onde fazer suas necessidades fisiológicas, nem como tirar a areia do corpo e ficaram mais expostas ao ataque de marginais.

Certos barraqueiros chegaram a criar história e integrar uma certa cultura, como Juvená (que baixou em UTI quando derrubaram a barraca dele) e Aloísio da Praia dos Artistas, que estão com o futuro incerto. Lembro de um barraqueiro que você me apresentou e cuja barraca frequentávamos, quando você morava em Itapoã, um simpático e belo negão cujo nome não consigo lembrar.

A derrubada das barracas propiciou cenas dantescas, de gente berrando, desespero, protesto, depois o fogo queimando o que sobrava, tudo levou até Wagner a repudiá-las, classificando as cenas de horripilantes.

Tudo isso rolou logo depois de chegar o seu artigo, e pensei até em ligar para você para ver se você não teria algo a acrescentar no texto levando em conta essas coisas, mas acabei não o fazendo.

Então, pergunto agora: você encara hoje a questão dessas barracas antipraia de um ponto de vista exclusivamente da racionalidade, não sobra nem um tiquinho de nostalgia de um tempo que se foi?

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ANTONIO RISÉRIO – Você toca em diversos aspectos importantes da questão. Cheguei a pensar neles, é claro. Mas preferi me centrar no principal – a necessidade de banir da beira do mar as barracas antipraia ou antipraieiras –, porque, no jornal, o espaço onde escrevo (4.050 caracteres espacejados) é pouco.

Hoje, domingo de manhã, dia de sol aqui em Brasília – com Dilma dando um passeio no país e Wagner dando um baile na Bahia –, vou aproveitar para falar algumas coisas, respondendo à sua pergunta.

Antes disso, o barraqueiro de Itapoã, a quem você se refere, é meu amigo Mário Boceta. Eu ia à barraca dele, que era onde podia encontrar meus amigos, mas reclamava sempre, não só das barracas, como das pessoas que, em sua ignorância da orla de Salvador, chamavam aquilo ali de “Placa Ford”.

Na verdade, eu gostava mesmo era do boteco de Mário, numa subida para o Largo do Jenipapeiro, onde eu tomava cerveja, beliscava guaricemas e jogava sinuca. Eu tinha conta lá, pagava por mês.

Mas vamos ao assunto. É claro que as barracas tinham de ser retiradas. Mas o modo de fazer foi desastroso. Não poderia ter sido diferente, na triste conjuntura da cidade.

O que temos hoje em Salvador, como insisto sempre, não é um prefeito, mas um desprefeito. O cara, além de incompetente e suspeito, se conduz, na prática, como inimigo da cidade. Em vez de providenciar há tempos a retirada das barracas, fez a estupidez cultural, estética e urbanística de incrementar o lance, favelizando Piatã. Chegou a dizer que as barracas só seriam retiradas por cima do cadáver dele, assim fazendo de si mesmo uma caricatura hilária de Joana Angélica e me trazendo à lembrança um velho ditado do Recôncavo: não se deve gastar vela com defunto ruim.

O erro todo esteve aí, do ponto de vista da gestão. O desprefeito fez tudo errado. Deveria ter olhado o equipamento comercial da orla carioca, com peças vazadas e desmontáveis, por exemplo. Deveria ter preparado as pessoas – inclusive, em termos ocupacionais.

Poderia ter implantado projetos existentes para a nossa orla, como os balneários propostos por João Filgueiras Lima (Lelé), com perfeita inserção topográfica, sem atrapalhar a visão do mar, dispondo de instalações sanitárias e cápsulas de observação. O problema é que Salvador não tem prefeito. Daí, essa confusão toda.

Por outro lado, baiano não só é muito comodista, como, ultimamente, parece encarnar o “tipo ideal” da personalidade grosseira, sem o mínimo de educação urbana. Se deixar, as pessoas vão querer estacionar seus carros na areia, com o espraiar das ondas se dando sob pneus.

Esse papo de “não ter onde tirar a areia do corpo” é ridículo. Tira no mar, é óbvio. Fizemos isso durante séculos, desde os tempos dos tupinambás até, pelo menos, a década de 1970.

Quanto a “ataques de marginais”, o problema não é botar barraca, mas ter policiamento. Se os que perderam postos de trabalho estão no desamparo, a culpa não é da praia. É da administração pública, que não quis fazer a transição. Deles mesmos, que acharam que nada ia acontecer, que não buscaram alternativas. Da população, que fez de conta que não estava acontecendo nada.

Mas várias coisas poderiam – e ainda podem – ser feitas. O Ronan [Ronan Rebouças Caires de Brito, biólogo e pintor], por exemplo, já tinha sugerido, há tempos, uma parceria entre prefeitura, cervejarias, fornecedores de alimentos, etc., para desenvolver um trabalho social de formação de equipes de vendedores ambulantes. Um programa educacional e profissional, para que os vendedores aprendessem, inclusive, a lidar com a praia.

Mas o desprefeito não quis saber disso. Pensou que podia peitar as coisas – e, irresponsavelmente, deixou os vendedores em situação difícil.

Então, nem acho que Wagner tem o direito de reclamar disso. Ele tinha era de ter cobrado ações do desprefeito, que se conduziu obtusa e irresponsavelmente nisso tudo, e alertado todo mundo para o assunto.

Ronan sugeriu, também, a criação do Parque Municipal Oceânico, alongando-se entre as pistas: “um imenso clube popular onde conjuntos de barracas estariam permeados por arborização adequada, quadras esportivas e onde ficariam todos os estacionamentos”.

O que quero dizer, com isso, é que existiam e existem propostas e projetos, pontos de partida para equacionar a questão. Mas nem o desprefeito (por incompetência e arrogância, repito), nem os barraqueiros (desavisados ou mal influenciados) quiseram saber disso.

Quanto ao “tiquinho de nostalgia”, é o seguinte: olhando a praia infestada de barracas, eu tinha saudade de como as coisas eram antes, tão limpas e bonitas.

Na minha adolescência, no Porto da Barra, Marco Polo vendia coco lá em cima, antes da amurada – e Cara de Cágado circulava pela areia, cantando os produtos que vendia. Caetano, aliás, chegou a incluir o pregão moderno de Cara de Cágado numa apresentação dele no Teatro Vila Velha (outro trambolho a ser transferido para outro lugar, deixando que a gente recupere o Passeio Público original, em toda a sua beleza, sem que aquele galpão de fabriqueta suburbana fique ali atrapalhando nossa visão do mar).

Caetano cantava “gil-engendra em gil-rouxinol” (verso de Sousândrade, que ele musicou) e, no improviso, tascava o pregão de Cágado, modulando sem centro tonal definido: “água mineral pepsi-cola cerveja skol”…

Quando você fala da barraca de Aloísio, que sempre se vestia de capoeirista moderno, na praia “dos artistas”, me lembro de uma historinha que bem mostra uma certa cretinice soteropolitana diante do nosso litoral.

A Boca do Rio, em inícios da década de 1970 (morei lá em 1973-1974), tornou-se um reduto de artistas, jornalistas e pessoas variavelmente intelectualizadas. Moravam ali escritores, como José Agripino de Paula, autor de Panamérica. Gente de teatro – atores, diretores, atrizes –, a exemplo de José Possi Neto. Um dublê de artista plástico e intelectual como Renato da Silveira, que se especializaria como antropólogo em Paris, para depois escrever O Candomblé da Barroquinha, livro indispensável, definitivo. Músicos como a rapaziada da Banda do Companheiro Mágico e a turma do Bendegó, capitaneada por João Santana, hoje conselheiro do presidente Lula e do presidente Mauricio Funes, de El Salvador. Etc. Enfim, era a levada baiana do desbunde contracultural.

Andávamos todos por ali, mesmo os que ali não moravam. Inclusive, Caetano e Gil, então de volta do exílio londrino. E íamos à praia que ficava atrás do campo de futebol, protegida por uma elevação da areia.

Entre os meses de dezembro e fevereiro, a galera local era reforçada pelos que tomavam o rumo da cidade, a fim de viver o verão, como a moçada dos Novos Baianos e até o poeta Paulo Leminski.

Com o tempo, repórteres descobriram isso. Teve uma rádio que chegou a organizar excursão de ouvintes à praia, onde eles poderiam “ver de perto” artistas famosos. Abandonamos o local, é claro. Que, aliás, nessa época, passou a ser chamado de “praia dos artistas”. Uma idiotice só.

E acho, por falar nisso, que devemos lançar uma campanha para recuperar os nomes das praias baianas, que eram muito bonitos, colocando-os na sinalização da cidade. Por exemplo: o trecho a que hoje os ignorantes das coisas da cidade se referem como “terceira ponte”, tem nome. É Praia dos Alecrins. Por que a “mídia” não faz uma campanha? Por que não trazer de volta esses nomes, como Areia Preta, Baleia Branca, Carimbamba, Chega-Nego e tantos outros?

Penso que a retirada das barracas antipraia, a volta ao visual praieiro limpo, poderia ser acompanhada da volta dos nomes antigos. Vamos lançar essa campanha?

Além disso, volto a insistir: a demolição das barracas antipraia é só o começo do que deve ser feito. Há muito mais coisas impedindo que Salvador seja uma cidade democraticamente aberta para o mar, onde todos possam ver e viver seu litoral. Temos de levar adiante, por isso mesmo, uma saudável bota-abaixo na cidade.

Não vamos demolir apenas as construções dos mais pobres, mas também a dos mais poderosos e privilegiados. Derrubar aqueles insultos visuais que são os galpões entre o Solar do Unhão e o Comando Naval. Derrubar os galpões do porto, no Comércio, para dar vida nova ao local. Transferir a igreja nova do Rio Vermelho. Indenizar e demolir as casas entre o Instituto Mauá e o rio Camurujipe, ali onde o Caramuru naufragou. Os bares entre a sereia de Itapoã e a pista para Stella Maris. A sede do Esporte Clube Bahia. Etc.

Salvador precisa de um novo litoral. Tem de cultivar o que tem de mais precioso, que é a abertura ampla e irrestrita para o mar, salvo raras exceções de construções históricas de alto valor arquitetônico e de umas poucas outras que não representam um estorvo na contemplação de nossa marinha. Em resumo, é isso.

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ARTIGO PUBLICADO ORIGINALMENTE NO ESPAÇO DE OPINIÃO DO JORNAL A TARDE, EM 4 DE SETEMBRO DE 2010:

Ilustração de FAEL 1º

Ilustração de FAEL 1º

VIVA A PRAIA LIVRE

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texto de ANTONIO RISÉRIO*

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Soube, aqui em Brasília, que finalmente cumpriram a determinação judicial para demolir as chamadas “barracas de praia”. Parabéns. Baianos civilizados agradecem. Aquelas construções, para fazer jus ao papelão que desempenhavam na orla marítima da cidade, deveriam ser chamadas, mais propriamente, de barracas antipraia. Porque, interpondo-se entre o observador e as ondas, bloqueavam a visão do mar. Com sua profusão pavorosa de mesas e cadeiras, nos impediam de andar livremente pela praia. Com seu cacofonismo pseudomusical, perturbavam o ambiente e não deixavam a gente ouvir o som do mar. E porque caprichavam na poluição visual – sujando a visualidade marinha, que se ofertava em tons de verde e azul, entre espumas brancas.

Quando eu era criança, morando na então tranquila rua Visconde de Itaboraí, no bairro de Amaralina, inexistiam barracas de praia. Elas começaram a aparecer quando eu já entrava na adolescência, me mudando de um prédio ali pelo Jardim de Nazaré para a também então tranquila Airosa Galvão, vizinhança do Morro do Cristo, na Barra. Mas não eram muitas. Foi a partir do final da década de 1970 que a coisa explodiu. Tudo excessivo e feio. Praias desfiguradas num gigantesco e ruidista bar dançante. Mas é claro que a culpa não era das barracas. E sim de sucessivas administrações municipais e dos moradores da cidade, ambos fortemente empenhados em avacalhar nossos sítios marinhos. Tudo na base do embalo da onda de grossura que foi tomando conta de Salvador.

Não faz muito tempo, o pintor e biólogo Ronan Rebouças Caires de Brito escreveu, em artigo publicado aqui mesmo neste jornal: “Culpamos sempre as barracas… O problema não está aí, o problema está em nós, que concordamos em transformar as praias neste espaço privatizado de incalculável mau gosto e insalubre… O problema é comportamental”. Mais: “O pior de tudo é que esta nossa ignorância foi acatada e até estimulada por todos os gestores públicos que por aqui passaram e nenhum deles teve a clareza para compreender a insensatez desta privatização agressiva e nem tampouco a coragem de barrar esse processo insidioso”.

Já no tempo em que o desprefeito João Henrique cometeu a insanidade de permitir a implantação de uma favela barraqueira em Piatã, o economista e sociólogo Armando Almeida bateu no ponto certo: “Não é o número de barracas que está em questão. São elas”. Para abrir o foco: “É preciso que tomemos uma posição definitiva quanto ao uso de nossa beira-mar… Pensada para preservar e garantir para as gerações futuras uma cidade ventilada e sempre aberta para o mar”. Armando estava mais do que certo. As barracas tinham de ser detonadas, proibidas de invadir predatoriamente a praia. Mas não só elas precisam ser demolidas.

Foi muito bom ver o Clube Português no chão, devidamente demolido. Mas ainda há outros mondrongos e monstrengos que desfiguram a orla e nos fecham a visão do litoral. Como a sede do Esporte Clube Bahia, na Boca do Rio. A igreja nova, no Rio Vermelho, que pode muito bem ser construída em outro espaço. Os galpões do cais, no Comércio, que ganharia outra vida com a abertura para o mar. Os galpões entre o Solar do Unhão e o Comando Naval, insultos visuais, abrigando coisas supostamente chiques. Os bares que obstruem a contemplação do mar, entre a sereia de Itapoã e o começo da pista para Stella Maris. E outros absurdos que atravancam o caminho do olhar. Em suma, Salvador deveria promover um amplo e saudável bota-abaixo dessas porcarias visuais que enfeiam ao extremo a cidade.

Como bem defendem meus queridos amigos Armando e Ronan, sempre se movendo em função da elevação de nossa qualidade de vida, a Cidade do Salvador da Bahia de Todos os Santos precisa de um novo litoral. Temos de ser uma cidade inteiramente aberta para a linha do mar. Com vista limpa e desimpedida de nossas praias. Praias de areia e ondas, não de barracas e outros trambolhos. Praias onde possamos ficar, andar, nadar. Uma cidade, enfim, onde as pessoas tenham o direito de ver e viver o mar.

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*Antonio Risério – Escritor.

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TUZÉ NÃO VAI VOTAR EM DEPUTADO NEM SENADOR

posted by Jary Cardoso @ 12:18 AM
9 de setembro de 2010

É com grande alegria que volto a postar um texto de Tuzé de Abreu, músico excepcional, pessoa fantástica. Tive o privilégio de conviver com ele por um tempo, no início da década de 70, quando eu era assessor do empresário de showbusiness Guilherme Araújo e Tuzé, instrumentista da banda de Caetano Veloso, artista contratado por Guilherme. O melhor de Tuzé era o astral de gente simples que sabe muito.

Aqui e agora, no Jeito Baiano, Tuzé de Abreu exerce o seu senso crítico de cidadão sempre preocupado com a ética nas relações sociais.

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FENÓTIPO

texto de TUZÉ DE ABREU

José Simões e Silva (meu avô materno, falecido), Caetano Veloso e Elena Rodrigues (flautista) são objetos de grande admiração minha pela sua integridade ética. Muitas vezes os percebi tomando posições “contra a maré” em prol de uma ideia, um ideal, uma crença. Coincidentemente ou não os três tem fenótipos assemelhados e tiveram origem social parecida (ainda mais, Caetano e Elena nasceram no mesmo dia, em anos diferentes). O que me motivou este texto foi o fato dos três sempre terem defendido as eleições, e sempre terem gostado de declarar seus votos e sua confiança no sistema. Caetano alega ter aprendido com seu pai, que coincidentemente tinha o nome de José e mais ou menos o menos fenótipo e origem social dos outros.

Infelizmente sou diferente, embora tenha José no nome, seja católico e tenha feito os juramentos de escoteiro e de médico.

No caso das eleições não vou contra a maré. Tento explicar. Embora pense que a democracia ainda é o melhor sistema de governo e, em tese, aceite os três poderes como pilares do sistema, tenho uma imensa bronca com a relação custo/benefício do legislativo. Acho também que o judiciário e o executivo poderiam ganhar menos, mas estes têm uma grande carga de trabalho, facilmente verificável e dificílima de zerar. Sobretudo o judiciário. Poder-se-ia dizer que o legislativo também tem. Pode ser. Mas a conduta de quase total descaso que eles têm para com esta carga é revoltante. E não me venham com churumelas de quadros como Cristóvão Buarque, Fernando Gabeira, o Arns lá do Paraná e outros com fama de íntegros, porque eles recebem o mesmo salário, as mesmas vantagens, as mesmas insultantes (para nós) mordomias que os outros, de bico calado. Uma das minhas muitas fantasias, que certamente nunca vai ser realizada, é ter um mandato legislativo (vereador, deputado estadual, deputado federal ou senador) e, mensalmente, ao receber as polpudas vantagens, chamar (talvez demagogicamente, não importa) a imprensa e dizer: “Estou recebendo X, preciso de Y para viver confortavelmente. Aqui, de público, dôo a diferença para um sistema de bolsas para educação de gente pobre (por exemplo)”. Outro dia fui informado pela TV que cerca de 60% do que cada brasileiro ganha vai para impostos diretos ou indiretos. E, naturalmente, grande parte disto para os parasitas legislativos.

Neymar, jovem jogador do Santos, um dos grandes ídolos do futebol brasileiro atual, deve ganhar uma fortuna por mês. Mas o que ele nos dá em troca, vale. No outro extremo, um(a) gari tem seu custo/benefício bem desfavorável para ele(a). E que dizer dos professores(as) primários(as)? De vez em quando circula pela internet uma tabela dizendo quantos professores(as) primários(as) seriam mantidos(as) pelo custo de um deputado, um senador, um vereador. É chocante. Não importa se é um vereador da menor cidade do país ou um senador por São Paulo. O custo/benefício de cada um deles (naturalmente incluindo aí os deputados estaduais e federais) é um dos nossos maiores escândalos. Por isso não voto para o legislativo.



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