Archive for novembro, 2010


REFLEXÕES DO EXÍLIO – EDMUNDO CARÔSO

posted by Jary Cardoso @ 11:40 PM
20 de novembro de 2010

Está de volta ao Jeito Baiano Edmundo Carôso, agora em colaborações tipo pílulas, pelo motivo que ele explica abaixo. Do blog DE MIM E DAS COISAS (http://blogs.abril.com.br/edmundocaroso), extraí seu perfil:

Edmundo Carôso é um letrista e poeta baiano parceiro de geração de Carlinhos Brown, Luiz Caldas e Daniela Mercury com quem trabalhou até seu mega sucesso em O Canto da Cidade. Vive em Salvador, já colaborou para jornais do interior e capital publicou dois livros de poesia. Tem perto de 100 músicas gravadas em sua discografia, sendo a mais conhecida delas o clássico de carnaval há mais de 20 anos, feito com Carlos Pita: COMETA MAMBEMBE.

Leia-o:

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DESEMPREGADO TAMBÉM

TEM SAUDADES

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texto de EDMUNDO CARÔSO

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Já faz algum tempo que não saio. Desempregado oficial, vivo enfurnado ultimamente numa caverna de apostilas estudando feito um nerd espinhento para o próximo concurso. E qual o próximo concurso? Só Deus sabe; aquele que ocorrer, já que, aos 54 anos, o cidadão, se não for por essa via, pastará pelos verdes campos do desemprego até o tatu virar bola. E, com esse exílio voluntário, mesmo morando no Costa Azul, morro de saudades de Salvador.

Por falar nisso, sentir saudades de Salvador é o mesmo que senti-las dos buracos – essa instituição soteropolitana. Não importa aonde você vá, sob que administração a cidade esteja ou qual o probo ou canalha que a represente, lá estarão eles, mordendo nossos amortecedores e comendo com farofa as suspensões de nossos carros.


TRÊS LIVROS PARA ENCANTAR

posted by Jary Cardoso @ 6:59 PM
17 de novembro de 2010

Mais uma vez este blog convoca a todos para um lançamento literário afinado com os temas do Jeito Baiano. Quinta-feira, dia 18, às 18 horas, três livros da série Traços do Encantamento (Solisluna Editora) têm apresentação para o público baiano no Museu Carlos Costa Pinto, em Salvador, com a presença dos seus autores para autógrafos e um debate. São eles:

José de Jesus Barreto, “escrevinhador”, conselheiro e colaborador deste blog, assina duas das publicações: Candomblé da Bahia – Resistência e identidade de um povo de fé e Cacimbo – uma experiência em Angola.

Goya Lopes, artista plástica, e Gustavo Falcón, historiador, respondem em parceria pelo livro Imagens da Diáspora.

Candomblé da Bahia, de Barreto, já teve trechos transcritos por este blog num post que homenageou os 100 anos do Ilê Axé Opô Afonjá (http://jeitobaiano.atarde.uol.com.br/?p=2294). O destaque agora vai para um capítulo que pode ser considerado polêmico (embora não se mostre como tal), “Sincretismo – Uma herança da escravidão que o povo não apagou da memória”, tratado com diplomacia pelo autor, ao colocar lado a lado posições diferentes de duas autoridades do Candomblé sobre a questão do sincretismo. Confira:

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(…) Na Bahia, a palavra sincretismo tem um peso religioso que nos remete aos tempos do Brasil colônia, à sina da escravidão negra e à rígida catequese jesuítica (…)

Resumindo: Os missionários queriam a todo custo “salvar as almas” dos nativos e dos africanos, apagando quaisquer lembranças de suas divindades e incutindo neles a fé no Deus e nos santos católicos. Os negros, na luta diária pela sobrevivência, acharam por bem se adequar aos novos ensinamentos, ao tempo em que procuravam preservar seus valores e crenças familiares às escondidas, disfarçadamente.

(…) os catequizadores falavam num Deus Supremo, o Criador, os negros associavam a ideia a Olorum (ou Olodumaré), Senhor do Bonfim, Jesus, o filho de Deus, os remetia a Oxalá, o orixá maior, que tudo pode. Santa Bárbara, que a todos acudia durante as tormentas tropicais, confundia-se com Oyá, Iansã, a deusa das tempestades. Os Ibeji dos iorubas (babaças para os bantos) foram identificados com São Cosme e São Damião. São Jorge com Oxóssi, o caçador; Ogum, o guerreiro, com o imbatível Santo Antônio português (…) E assim por diante, foi se dando essa simbiose, de uma forma aceitável e conveniente para todos, à época.

(…) Muitas das grandes ialorixás baianas chegaram a frequentar cultos católicos, outras criaram relações de diálogo e respeito com padres e bispos.

(…) Uma integração maior e respeito mútuo têm sido cultivados entre as lideranças das duas religiões.

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E agora, as duas posições, quase opostas, mas sintetizadas no final por Barreto:

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Não há crime nenhum no sincretismo, porque, se não fosse o sincretismo, não haveria candomblé hoje”, afirmou, em junho de 2001, o oluô Agenor Miranda Rocha, aos 93 anos, respeitável sabedor dos mistérios das divindades africanas.

(…) Sem ignorar as justificativas e explicações históricas, em 1983, durante a realização da II Conferência Mundial da Tradição e Cultura dos Orixás, a ialorixá Stella de Oxóssi, do Opô Afonjá, falou com clareza para o povo de santo:

Essa história do povo de candomblé dizer que sua religião é a católica, acabou, Isso é do tempo da escravidão., Nossa religião é o Candomblé. Cada um, agora, tem a liberdade de adorar se Deus ou Deusa conforme sua origem. Todo ser humano tem direito à liberdade, às suas heranças e testamentos […] Negar o sincretismo é prova da independência de uma religião. Você pode até ir à missa e ao candomblé, mas não se deve misturar santo católico com orixá. São energias diferentes. O sincretismo é resquício da escravidão. Mas agora somos livres, não precisamos mais disso. [Trechos da palestra da ialorixá durante o evento]

Todos concordam. A Igreja Católica defende hoje o respeito ao Candomblé como a todas as outras religiões. Afinal, essa postura ecumênica faz parte das recomendações do Concílio Vaticano II, diretrizes romanas em vigor desde os anos 60 do século passado.

Mas, ainda por força do calendário católico (reflexo do sincretismo?), por exemplo, os terreiros fecham suas portas em resguardo durante a quaresma e semana santa, e os candomblés de ketu reabrem, batendo para Oxóssi, na quinta-feira de Corpus Christi, uma das mais tradicionais festas católicas, feriado nacional. Até hoje assim é.

O fato é que se tornou mesmo difícil apagar de uma vez o cabedal histórico do propagado sincretismo religioso baiano, arraigado no inconsciente coletivo de seu povo, alimentado por uma fé difusa, ecumênica e uma cultura festeira.

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Outro exemplo, acrescento eu, editor deste blog, é o próprio Jeito Baiano, sincrético e miscigenado por natureza…

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Sobre Cacimbo – uma experiência em Angola, a outra obra de José de Jesus Barreto incluída neste lançamento que tem o apoio da Fundação Pedro Calmon, cito trecho da contracapa:

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Este livro, na linguagem de um jornalismo-literário tipicamente baiano, retrata as heranças e dessemelhanças entre Luanda e Salvador, cidades fêmeas, filhas das águas (…) “Angola é avó da Bahia e dengo tem origem banto-quimbundo”, resume o autor.

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E, finalmente, no belíssimo livro Imagens da Diáspora, destaco também a mistura cultural com predominância africana, como demonstrada pela apresentação de Gustavo Falcón, intitulada “Ancestralidade e Presença Africana no Brasil”:

Este livro assinala a influência africana na formação social e cultura do maior país da América do Sul – o Brasil – e destaca o intercâmbio entre negros, índios e brancos no vasto território tropical incorporado por Portugal ao seu império ultramarino após a descoberta e anexação em 1500.

(…) Sucede ao achamento o projeto de colonização baseada no trabalho escravo sob o qual as três raças desenvolveram complexo relacionamento, processo do qual resultou uma cultura ímpar, impregnada dos valores dos dominantes ibéricos, mas amplamente marcada pela herança ameríndia e, sobretudo, pela presença africana.

A designer Goya Lopes resgata essa trajetória sublinhando, no seu trabalho criativo, através dos seus desenhos, os momentos marcantes da diáspora africana e o aculturamento das diferentes etnias no Brasil. E, mais que isso, chama a atenção para a renovada intervenção dos afrodescentes no quadro artístico e cultural brasileiro contemporâneo.


QUEREM CALAR O BADALAR DO SINO

posted by Jary Cardoso @ 7:29 PM
13 de novembro de 2010

Fachada da Igreja de São Francisco, situada no Pelourinho, Centro Histórico de Salvador – Foto de IRACEMA CHEQUER | Agência A TARDE – 25.8.2010

texto de Zédejesusbarreto*

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Não quero crer na notícia que estou lendo: “Prefeitura autua a Igreja de Santana por poluição sonora do seu sino”. Tá na Tarde de sábado, dia 13 de novembro de 2010. Acreditem!

Fora qualquer querela de ordem religiosa, que só nos remeteria à Idade Média, aos tempos da Reforma e da Contra-Reforma, com fogueiras, bruxas, matanças, inquisições… Passando bem longe também de quaisquer questões político-partidárias, eleitoreiras, não é o caso…

Intolerâncias à parte, a questão da intransigência municipal ao badalar dos sinos da Igreja de Santana, do Rio Vermelho, é puro obscurantismo cultural e histórico.

Mais um factoide, tipo aquele outro do xixi na rua, que só nos envergonha perante a nação. “Baianada”, no dizer preconceituoso dos sulistas.

E logo na Cidade da Bahia, de suas cantadas 365 igrejas, onde os sinos dos campanários coloniais marcavam as horas, os eventos do dia-a-dia: desde a chegada de navio no porto a um casamento; a “hora do ângelus” e o enterro; o chamado à missa e as comemorações cívicas… cada instante com seu toque diferente, com seu repique próprio para que a população soubesse, ao ouvir o badalar, do que se tratava.

Claro que os tempos são outros, um clic nos põe em contato com o mundo, aldeia global, espaço cibernético… e tal e coisa.

Mas é o respeito a certos costumes que alimentam a alma de um povo, preservam a identidade, enriquecem a sua história, atraem o turista. Isso é cultura.

O estranho nessa notícia é que as pessoas, pagas por nós, que deveriam cuidar da conservação de determinados valores… ignorem o que é esta cidade. Desconhecem a história, pensam que cultura baiana é mexer a bunda no carnaval e pronto. Triste Bahia!

Gostaria de lembrar que, na administração municipal passada, início dos anos 2000, foi feito um convênio entre a prefeitura, a Arquidiocese, o São Bento, São Francisco, a Catedral Basílica etc. para que os sinos voltassem a badalar às seis da tarde, como antigamente. Alguns jovens até foram treinados nos conventos e pagos pelo município para executarem os toques.

Fachada da Igreja de Santana, Centro Histórico de Salvador – Foto de EDSON RUIZ | Agência A Tarde - 18.11.2005

Era bonito ouvir os sinos das igrejas do Centro Histórico na hora da Ave Maria. Mas… acabou. Como acabaram também com as concorridas trezenas de Santo Antônio, na Praça da Sé, e ainda com a encenação da Paixão de Cristo, durante a semana santa, nas águas do Dique do Tororó. Era um espetáculo, as bordas do dique tomadas de gente. Acabaram. Não me perguntem o porquê!

Agora, querem apagar o badalar dos sinos. Breve, se a gente vai permitindo, vão querer matar os galos que descobrem o manto da noite e anunciam o novo dia com sua cantoria; sufocar o latido dos cães na madruga, o trinado dos bem-te-vis e das rolinhas fogo-pagô ao amanhecer; vão brecar o relincho dos jegues que anunciam o meio-dia, calar os atabaques, o foguetório das alvoradas e dos festejos…

Isso tudo já, de fato, abafado na grande cidade pelo buzinaço dos carros, pelo motor do buzu que esfumaça o clarão do dia, pela histeria dos neuróticos, pelos incontroláveis decibéis dos carros de som e dos mal-educados de porta-malas arreganhados berrando pagodeira em cada esquina. Ah, tudo liberado aê! Os 120 e tantos decibéis dos trios elétricos a qualquer hora e oportunidade também! Faz parte!

Ora, o badalar dos sinos! Home quá sinhô me deixe!

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*Zédejesusbarreto – Jornalista e escrevinhador – 13/nov2010

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