Archive for fevereiro, 2011


ONDE JÁ SE VIU UM ABSURDO DESTE?

posted by Jary Cardoso @ 8:03 PM
8 de fevereiro de 2011

Ilustração de CAU GOMEZ

texto de LOURENÇO MUELLER*

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Na Bahia, claro! Ciclovias com quebra-molas!!! Que molas? As molas dos neurônios dos aspones da prefeitura que permitiram esse absurdo, confirmando mais uma vez a frase de Mangabeira sobre a precedência dos absurdos nesta terra; esta agora vai virar gozação nacional.

O novo trecho de um e meio quilometro entre Placaford e Itapuã merece elogios – e parabenizo o prefeito pela obra, inaugurada sábado passado por ele próprio. Sou justo algumas vezes: o prefeito está carecendo de melhorias na imagem e é oportuno que use a bandeira cicloviária – uma das mais contemporâneas no urbanismo das grandes cidades – como propaganda, mas desse modo é tiro no pé e gozação certa pelo jornalismo do sul por mais essa tipica baianada, e com razão.

Também registro o completo descaso desses projetistas – seriam arquitetos? – com a segurança de pedestres no trecho sobre a praia, sem um simples gradil que impeça idosos e crianças despencarem no abismo e se esfacelarem sobre a rocha que os espera la embaixo. Exagero? Vá lá, leitor, e confira pessoalmente.

Mas quero aqui falar de outro assunto, sem sair do tema, urbanismo.

Os ingleses começaram a mudar a paisagem de Salvador em princípios do século 19, quando ocuparam o Campo Grande e a colina da Vitória com casarões isolados no meio do terreno, ao contrário das casas de arquitetura colonial portuguesa, estreitas, coladas umas às outras, com quintais e típicas da ocupação original de Santo Antônio, Carmo e Pelourinho, nos séculos 16 a 18.

Nesse percurso o processo de expansão desenhou-se descendo a ladeira da Barra em busca do mar tranquilo da pequena enseada do Porto e os ingleses construíram um cemitério privado no meio da encosta, protegido por um muro alto que retira de quem passa toda a perspectiva do mar. Pertencia ao governo inglês e coincidiu com a implantação de um farol no forte de Santo Antônio (esse conjunto passou a chamar-se Farol da Barra). Corrija-me o doutor Pedro Vasconcelos se não foi mais ou menos assim.

Malgrado Salvador seja um promontório, seus belvederes são raros e os pontos de descortino do mar, hoje, foram bloqueados por construções horizontais e verticais.

A prefeitura teve em mãos um projeto que restituiria aos baianos (detesto esse nome feio dado aos habitantes de Salvador, derivado da toponímia pretensamente culta, que faz rimar a cidade com o própolis produzido pelas abelhas) uma parte da perspectiva marinha e deixou passar essa oportunidade de deslumbrar-nos com a recuperação desta paisagem escondida pelo muro.

Retomo agora essa ideia, já que recebi pedido de falar sobre questões de tombamento e o autor de um projeto de substituição do muro alto do cemitério por um gradil bem desenhado, arquiteto Deraldo Tourinho, mandou-me a simulação gráfica da intervenção, que teria baixo custo.

Quem vê se fascina. É a continuidade do deleite visual do meio da ladeira. Se for agregado ao projeto o alargamento da calçada, criando a nossa rambla tropical inclinada, sem malditos quebra molas… a cidade começaria cedo a se preparar para a Copa de 2014. Não esquecer que esse é o único acesso à igreja no topo da colina ao lado e qualifica o percurso em tempos de devoção a Santo Antônio.

Nao sei bem que démarches “burrocráticas” seriam necessárias entre os donos do Cemitério, a dona da colina em frente, os donos do instituto do patrimônio e outros possíveis “donos” das leis que ultimamente se arvoram o direito de mandar no urbanismo, todos grandes entendidos do assunto. Nem sei se há vontade política para tanto, mas penso que é dever do funcionalismo público, e nisso incluo o próprio Executivo municipal, dedicar-se à melhoria da qualidade de vida do habitante, incluindo também a afirmação da paisagem urbana e não a sua negação.

Não só a cidade ganharia com essa intervenção mas os próprios ingleses moradores daqui, que seriam lembrados com simpatia pelo gesto de urbanidade e não mais como colonizadores privilegiados.

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*Lourenço Mueller é arquiteto e urbanista


O EXÍLIO DE CAETANO E GIL, SEGUNDO GENETON

posted by Jary Cardoso @ 11:54 PM
7 de fevereiro de 2011

Caetano Veloso no documentário dirigido por Geneton Moraes Neto

Gilberto Gil no documentário dirigido por Geneton Moraes Neto

Quem está ligado no jeito baiano de ser e estar no mundo não pode perder o documentário que começa a ser exibido no Canal Brasil nesta terça-feira à noite (21h na Bahia, ou 22h em Brasília, em três episódios de 50 minutos).

Dois filhos da terra – Caetano Veloso, de Santo Amaro, e Gilberto Gil, de Salvador –, líderes do movimento Tropicália, desencadeado em plena ditadura militar, acabaram presos e forçados ao exílio. O documentário realizado pelo repórter Geneton Moraes Neto parte da última fase dessa experiência de vida, que lhe dá o título – As canções do exílio – Uma labareda que lambeu tudo – e que serve também de ponte tanto para o passado imediato, desde o desencadeamento da Tropicália até as duas prisões, quanto para o momento seguinte, a volta ao Brasil ainda sem liberdades democráticas.

O documentário vai virar filme, ambos certamente imperdíveis. Geneton tem se revelado grande repórter e entrevistador, especialmente nas entrevistas exibidas pela Globo News que apresentam personagens fortes, entre eles algumas autoridades da ditadura militar, hoje aposentadas.

Geneton, pernambucano que se projetou no Rio, tem a voz firme e forte, porém doce, lembra Glauber Rocha no programa Abertura, que foi ao ar pela TV Tupi no período final do regime discricionário. Ele dialoga de igual para igual com os generais da linha dura, como Newton Cruz e Leônidas Pires, deixando-os à vontade, mas sempre os questionando do ponto de vista dos direitos humanos.

Segundo matéria assinada por João Máximo, distribuída pela Agência O Globo e publicada hoje, terça-feira, 8.2.2011, no caderno 2+ de A Tarde, de Salvador, “Geneton inspirou-se na foto em que, aos 15 anos [1973], aparece entrevistando Caetano para o ‘Diário de Pernambuco’”.

Caetano e Geneton - Recife 1973

Na mesma época o “foca” (jornalista iniciante) Geneton Moraes Neto também entrevistou Gil:

Gil e Geneton - Recife 1973

Falo de Geneton com carinho porque – e isto será motivo de outro post – ele um dia me telefonou na redação de A Tarde e perguntou se eu ainda tinha a gravação da entrevista que fiz em 1978 com Glauber Rocha, publicada no “Folhetim”, suplemento dominical da “Folha de S.Paulo” então editado por meu grande mestre Tarso de Castro. Respondi que sim, a gravação estava numa fita cassete embolorada.

Mande-a pra mim que providencio a limpeza e cópia digital, com a condição de você doar uma cópia ao Tempo Glauber [onde se concentra o acervo do cineasta de Vitória da Conquista].

Adianto que – com muita emoção – já tenho em mãos as duas cópias, uma minha e a outra que será enviada a Dona Lúcia Rocha, mãe de Glauber.

Voltando ao documentário, destaco que nele Geneton entrevista outras duas grandes cabeças, Jorge Mautner e Jards Macalé, ambos apresentados como companheiros de Caetano e Gil na última fase do exílio.

Jorge Mautner no documentário de Geneton de Moraes Neto

Jards Macalé no documentário de Geneton de Moraes Neto

Mesmo quem leu Verdade Tropical, de Caetano, ou as caudalosas entrevistas concedidas ao longo dos anos por ele e Gil a jornais, revistas e TV, vai ouvir novidades, porque Geneton sabe criar um clima para as revelações…

Jorge Mansur, produtor, e Geneton na edição do documentário

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EDGARD SANTOS, O REITOR VISIONÁRIO

posted by Jary Cardoso @ 11:40 PM
6 de fevereiro de 2011

EDGARD SANTOS (1894-1962), fundador e primeiro reitor da Universidade da Bahia, que, graças à sua articulação, tornou-se uma instituição federal, a UFBa. Foto: ARQUIVO A TARDE

Depois de um período de reciclagem, estou de volta ao blog Jeito Baiano, e recomeço saudando a notícia de que Antonio Risério vai escrever a biografia de Edgard Santos, o fundador da Universidade Federal da Bahia (UFBa), em 1946, e seu primeiro reitor. Durante os 15 anos de seu reitorado, ele abriu as portas e caminhos para um renascimento multicultural na Bahia que se expandiu para São Paulo e Rio e gerou o Cinema Novo e a Tropicália.

Quem deu a notícia dessa biografia foi o editor José Enrique Barreiro em entrevista publicada em 30.1.2011 pela revista Muito (suplemento dominical do jornal A Tarde). Barreiro convidou Risério para tal empreitada certamente levando em conta que o escritor baiano é o autor de avant-garde na bahia, editado em 1996 pelo Instituto Lina Bo e P.M. Bardi.

avant-garde na bahia, originalmente, a tese apresentada por Risério para a obtenção do grau de Mestre em Sociologia pela UFBa, trata daquele período liderado pelo reitor Edgard Santos, que trouxe para a universidade grandes cabeças de fora da Bahia, como o compositor erudito de vanguarda, maestro, flautista e crítico de arte Hans-Joachim Koellreutter, de origem alemã e que dirigiu os Seminários Livres de Música em Salvador; o filósofo, poeta e ensaísta português Agostinho da Silva, que criou o Centro de Estudos Afro-Orientais (Ceao); a polonesa Yanka Rudzka, diretora da Escola de Dança; e o cenógrafo e diretor de teatro Eros Martins Gonçalves, pernambucano, que dirigia a Escola de Teatro.

A UFBa, sob o comando de Edgard Santos, avançava e fazia convergir os movimentos de arte e cultura existentes na Cidade da Bahia que tinham como protagonistas o crítico de cinema Walter da Silveira, o geógrafo Milton Santos, o arquiteto e urbanista Diógenes Rebouças, o artista plástico Mário Cravo, o antropólogo Vivaldo da Costa Lima, o artista plástico baiano-argentino Carybé, o arquiteto (como fazia questão de ser chamada) Lina Bo Bardi, italiana, que estava à frente do Museu de Arte Moderna da Bahia, o fotógrafo e etnógrafo Pierre Verger, francês, o músico inventor Walter Smetak, suíço, entre outros.

E entre os jovens que despontavam na época, muitos deles alunos da UFBa, figuravam Glauber Rocha, Caetano Veloso, Waly Salomão, João Ubaldo Ribeiro, Rogério Duarte, Roberto Pinho, José Carlos Capinan, Gilberto Gil, Carlos Nelson Coutinho, Duda Machado.

Toda essa gente contribuía para um ambiente de invenção e ousadia cultural, regido pelo visionário Edgard Santos. Sobre ele escreveu Jorge Amado, em Bahia de Todos os Santos – Guia de Ruas e Mistérios (citado por Risério em avant-garde na bahia):

Mestre Edgard Santos era um fidalgo da Renascença e ao mesmo temo dinâmico cidadão do mundo de hoje… Quando o tiraram de sua Universidade, ou seja do formidável trabalho que estava realizando, já não teve motivos para viver, foi-se embora primeiro para o Rio, depois para sempre. A ele se deve, em grande parte, o atual prestígio cultural da Bahia, o desenvolvimento não apenas dos estudos universitários mas de toda nossa vida intelectual”.

Caetano Veloso dá seu depoimento na apresentação do livro avant-garde na bahia:

“(…) O fato de a Universidade estar tão presente na vida da cidade, com seu programa de formação artística levado a cabo por criadores arrojados chamados à Bahia pelo improvável Reitor Edgard Santos, fazia de minha vida ali um deslumbramento. (…)

O que aconteceu na Bahia do final dos anos cinquentas ao início dos sessentas é ainda um aspecto pouco conhecido – embora determinante – da história recente da cultura brasileira. Este livro vem fazê-lo inteligível. Para mim, Risério revela nele o sentido de minha própria inserção no mundo (…)

A biografia a ser escrita por Antonio Risério certamente irá contribuir para um melhor conhecimento da “Era Edgard Santos” e nos ajudará a entender e a definir o quanto falta atualmente para haver um novo renascimento civilizatório da Cidade da Bahia.

Entrevista de Barreiro à Muito

José Enrique Barreiro é o criador e CEO (Chief Executive Officer, o mais alto cargo executivo) da Editora Versal, com sede no Rio, mas ele mesmo é gente da Bahia – e de sucesso: começou, aos 16 anos, como jornalista do Jornal da Bahia, comandou a TVE no governo Waldir Pires, coordenou o núcleo de publicações da Odebrecht. Pois as duas respostas finais da entrevista de Barreiro à Muito me interessam em especial como blogger do Jeito Baiano.

Na primeira, José Enrique Barreiro responde à repórter Tatiana Mendonça que entre os futuros lançamentos de suas duas editoras (além da Versal, ele é o novo dono da editora carioca Guarda-Chuva), está prevista a biografia de Edgard Santos.

Na segunda resposta, instigada pela repórter, Barreiro faz coro com os descontentes (todos nós) e reclama de tanta coisa errada na Cidade da Bahia, uma situação que está nas antípodas do tempo em que Edgard Santos, o personagem destacado na pergunta anterior, era o reitor da Universidade Federal da Bahia.

TATIANA – Quais são os próximos lançamentos das suas editoras?

BARREIRO – (…) sobre a Bahia, vamos publicar [pela Versal], dentro do Prêmio Clarival do Prado Valladares, da Odebrecht, um livro de arte sobre o Mosteiro de São Bento. E estou fechando com Antonio Risério uma biografia de Edgard Santos. É uma figura que precisa ser resgatada e conhecida. Se houve Tropicalismo, se houve Cinema Novo, isso deve ser creditado largamente a ele. Foi Edgard Santos quem deu um ambiente cultural a esta cidade, propiciou a circulação de ideias. Porque talento nós temos de sobra. Talvez isso seja até um problema, porque a gente fica acomodado no talento, e aí é pouco rigoroso, pouco estudioso, pouco elaborativo… Porque a Bahia, realmente… Nossa gente é maravilhosa. Estou fazendo 20 anos no Rio. Mas venho sempre a Salvador. Tenho até um apartamento aqui, pago IPTU.

TATIANA – Então tem muito do que reclamar.

BARREIRO – É, a cidade está sem… Tenho visto algumas cidades brasileiras, como o Rio e São Paulo, andando para a frente, tentando resolver seus problemas. E Salvador, se não andou para trás, também não andou para frente. Tem problemas de trânsito, tem a questão da especulação imobiliária fortíssima… Tenho receio de que assim a gente possa vir a perder aquilo que nos é mais especial, nossa hospitalidade, nosso jeito tranquilo de ser, nossa amizade. Tomara que se faça algo nesse sentido, e também no sentido cultural. Alguma coisa precisa acontecer para que a gente dê um salto maior. Nós exportamos o Tropicalismo, foi um feito notável. Mas, depois disso, a gente se concentrou muito no Carnaval. A força desse esquema é tão grande, envolve tanta gente, que acabou tomando conta das nossas possibilidades culturais. Não podemos chegar ao resto do País só com o Rebolation. É muito pouco. Temos capacidade para produzir muito mais.



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