Archive for março, 2011


A BRIGA LÁ DO FIM DO MUNDO

posted by Jary Cardoso @ 10:21 AM
26 de março de 2011

texto* de JOLIVALDO FREITAS

Obama que chegou ao Rio de Janeiro em busca das mulatas, embora sua mulata Michelle, pode-se notar os detalhes, daria numa excelente madrinha de bateria na Mocidade Independente ou União da Ilha, está dando uma de frouxo com relação a Kadafi. Que muitos chamam de Gadafi, como se tivesse gofando que nem criança com refluxo.

Já era para ter entrado com tudo, tomado conta do espaço aéreo, meter lá umas bombas, mandar que os marines sujassem as botas e dessem um cagaço no ditador líbio. Também a Angela Mercury, lá da Alemanha, está segurando o mijo. Quando fala em revolta nos países muçulmanos ela se treme toda. Kadafi não. O cara é macho, disse que não sai e que venham os ianques com a Sétima Cavalaria ou o Nimitz que leva pau.

O problema é que desde que os índios cheyennes massacraram o general Custer e sua Sétima Cavalaria, comandados pelo chefe Cavalo Louco, os americanos parece que perderam a fleuma, a coragem e a capacidade de vencer guerras, a não ser que conte com a ajuda da FEB. Os caras já foram escorraçados da Coreia, pagaram mico no Vietnã, só faltaram pedir penico para Fidel Castro, amargaram amarguras no Iraque e estão pedindo aos céus um meio de saírem do Afeganistão. Agora não querem entrar na Líbia, pois sabem que podem pedir pepeú de novo.

Os americanos estão errados? Estão é certo. Quem pariu Mateus que balance. Muito embora saibamos que americano não pode viver longe de problemas. Seu imperialismo demanda ação de proteção ao planeta, aos povos e a defesa irrestrita da democracia. Claro que americano não é besta e cada vez que vai à guerra sua economia ganha pujança. O que é deixar morrer umas centenas de soldados se a riqueza e o poder do país crescem? Nada.

Vou contar uma história interessante, que mostra o lado humanista do baiano frente à guerra. Todo mundo sabe que nós, que nascemos na Cidade Baixa, não temos medo de nada e já botamos para correr invasores franceses, holandeses, espanhóis e portugueses, sendo que este últimos deram um pouco mais de trabalho porque choravam muito e a gente ouvia os lamentos vindos lá do Forte do Mont Serrat e dava pena invadir.

Mesmo assim, certa vez a Coroa Portuguesa cercou a Ponta do Humaitá, sei por ser meu bisavô Armando um dos heróis das batalhas pela Independência da Bahia, o que quer dizer que é a mesma do Brasil. Nossos homens olharam as embarcações, viram vindo por terra o exército imperial e depois de extensa confabulação ficou decidido enviar um ultimato para os portugueses. Teor da missiva:

“Suas bichas. Seus piratas, bucaneiros e pernas de pau invasores da terra brasilis. Se rendam imediatamente. Temos duzentos homens, 20 traineiras, dois saveiros, cem canoas, 10 cavalos e 50 bacamartes”, assinado o comando.

Os portugueses respondem: “Aceitamos a luta. Nosso Exército tem 50 mil soldados. Temos 20 navios de guerra, 2 mil canhões, 30 mil bacamartes, 600 cavalos e vocês estão cercados”.

Depois de um dia inteiro de discussão os brasileiros respondem: “Certo. Não vamos mais aceitar a rendição de vocês, pois não temos como alojar tantos prisioneiros”.

*(texto escrito em 19 de março de 2011)


RESSACA DA PERCUSSÃO

posted by Jary Cardoso @ 9:46 PM
17 de março de 2011

 

Grande saque tiveram este ano os organizadores do Carnaval de Salvador com a ideia de homenagear os percussionistas. Foi uma catarse coletiva, de altíssimo astral, que afagou o coração de milhões de nós, os órfãos de Neguinho do Samba, o criador do samba reggae, falecido em 31.10.2009. Pudemos assim saudar não só Neguinho do Samba como todos os grandes percussionistas do passado e do presente, não só os famosos como também os anônimos geniais que garantem a pulsação enebriante da música baiana.

NEGUINHO DO SAMBA – Foto de MARGARIDA NEIDE | Agência A Tarde, em 10.5.2005

Este post contém três textos que exaltam essa gente dos tambores, um especial para o Jeito Baiano escrito por zédejesusBarrêto e dois publicados durante o Carnaval na página de Opinião do jornal A Tarde, um de autoria de Jaime Sodré e o outro de Walter Queiroz Jr.

***

BATUQUES DO UNIVERSO

 

texto de zédejesusBarrêto*

 

Da tenra infância vivida numa avenida aos fundos da Igreja dos Mares e que dava para a Rua do Imperador, restaram ecos de batucadas de rua que saiam de dia com mascarados e fantasiados bagunçando alegrias pelas ruas do Uruguai e outros bairros pobres da cidade nos carnavais espontâneos dos anos 1950.

Um pouco mais tarde, já morando no Subúrbio Ferroviário – Baixa do Cacau, à beira da linha do trem, na rua Voluntários da Pátria, antes de chegar no Lobato –, as batucadas de rua continuaram carnavalescando a infância.

Mas os tambores suburbanos que marcaram ouvidos e alma de criança foram os batucajés da noite, os baticuns das festas nos terreiros de Caboclo e de Angola que alumiaram minha escuridão com a fagulha da curiosidade e do medo do desconhecido…

Foi o chamamento dos batuques para a minha baianidade.

Já com o pé fora de casa, na rua Chile e na avenida Sete de olhos arregalados para ver o desfile da folia com a mão pequena suada grudada na mão enorme do Pai Zé, impressionava-me com a figura do Cavaleiro de Bagdá, um negão forte, enorme, de cabeça raspada e torso nu em cima de um belo carro alegórico, carregando e fazendo ecoar avenida afora um enoooorme tambor.

NELSON MALEIRO – Foto de ARLINDO FÉLIX | Arquivo A Tarde

NELSON MALEIRO – Arquivo A Tarde

Era Nelson Maleiro que enchia os olhos e os ouvidos de todos naqueles carnavais antigos de préstitos, fantasias, mascarados, lança-perfume, bailes noturnos nos clubes e cadeiras amarradas de cordas e arames pelas calçadas, onde as ‘famílias de bem’ se sentavam com roupa domingueira pra ver o carnaval passar.

Jovens e rueiros, sentávamos na Barraca de Juvená (um grande amigo, colega dos tempos de seminário de padre e faculdade no Terreiro de Jesus) tomando cuba libre, embasbacados com as loucuras do grande Fia Luna arrebentando com seu atabaque, em cima de uma mesa. Um espetáculo! Fia Luna era um preto baixo e troncudo, de cara grande e riso imensos, peito e braços reluzentes, sempre de calça de algodão cru e mãos avassaladoras batendo no couro. Quebradeira pura. Um semi-deus negro!

Daí, vi e ouvi alabês mágicos, conheci Naná Vasconcelos, apreciei Djalma Corrêa, curti o berimbau de Camafeu e depois as artes de Pintado do Bongô, a suingueira dos Apaches na avenida, as invencionices de Neguinho do Samba, chorei nas arquibancadas acompanhando a levada do Ijexá na palma das mãos a ecoar na Fonte Nova Nova, dique do Tororó afora com o meu Tricolor em campo, e Mestre Prego, Olodum, Muzenza, Malê Debalê, Ilê Aiyê…

E o extraordinário Carlinhos Brown, hoje a agora nosso músico maior!

Nesse carnaval 2011, os baianos homenageiam a percussão, os tambores, os grandes mestres do ritmo… baticuns da felicidade. Viva Emília Biancardi, Viva Bahia!

Axé !!!

*

Um dia, a pretexto de um projeto que não foi adiante (como tantos em nossas vidas) escrevi e passo agora adiante … porque vem a calhar:

**

TAMBORES

Enganam-se os que dizem que tambor é uma invenção humana.

O tum-tum-tum do tambor precede à razão humana.

É o pulsar da vida… no Universo.

Pulsar que ecoa e que vibra no bater do coração, por todo o corpo,

numa prece rítmica e contínua ao Criador.

O tambor é arte de Deus.

O homem, apenas, iluminado, captou o baticum da vida no cosmos

e o transformou em canto, louvor, rito, sinal de alegria ou dor …

signo de comunicação entre os seres, elo sonoro do finito com o eterno, Ilê-Orum.

Deus e homem, Criador e criatura a partilhar da magia da música.

Depois do próprio corpo – a pulsação, a voz, o assovio, as palmas –,

o tambor é o mais antigo dos instrumentos musicais.

Primitivos tambores. Africanos, asiáticos, eurobárbaros, ameríndios, oceânicos…

Eco do mundo.

Tambores de louvores, tambores dançantes, tambores de guerra, tambores de santo.

Tribais tambores sinfônicos, zabumbas, latas, cabaças, couro, madeira, fibras… caixas sonoras…

Senhor das trovas, forrós, sambas, pagodes, axés, afoxés…

canto-chão do barro, do asfalto, repinique dos morros,

rumpilés de terreiros, batuque das matas, timbaus de rua,

bateras rockabiles, bumbos, bundas dançantes, suspiros da vida…

Fogo e ar, chão e águas…

pele, madeira, ferro, mãos, baquetas, sapateados…

Ruídos humanos, barulhos urbanos, ronco do mato, estalos da caatinga, ronrono do mar, das águas que rolam e levam, limam as pedras do mundo …

mantra sideral…

Big-band, alfa e ômega, “após-calipse”.

São Salvador da Bahia de Todos os Santos, Caboclos e Orixás, tambor do planeta.

Que os tambores, todos, ecoem o fazer (a cultura, as artes)

e o pensar dessa gente baiana, síntese/mistura de todas as cores, de todas as sonoridades, de todo o movimento… caldeirão de todas as crenças

mandala, mosaico de toda a diversidade e tendências dessa grande arte que é

o viver.

Que os tambores baianos nunca parem de tocar, criar… em celebração à vida.

E que assim seja.

Axé!

*

*zédejesusBarrêto, jornalista e escrevinhador

(março 2011- é carnaval)

***

A REVOLUÇÃO

DOS TAMBORES

 

texto de JAIME SODRÉ

 

Homenagens são bem vindas, no caso da percussão homenageada neste Carnaval, soa como reparação frente à longa história de resistência, não ocultando uma trajetória dolorosa. Pensando nesta odisseia, compomos, eu e o brilhante parceiro Saul Barbosa, uma canção que intitulamos de Nobre Guerreiro: “Agora posso compreender toda mediocridade, das coisas que acontecem em nossa cidade, o negro que toca tambor, pra combater nossa dor, deve ser mais respeitado, ele é um nobre guerreiro, é um batalhador…” era a desconstrução do estigma negativo de “nego batuqueiro”.

Soavam nas savanas, nas costas africanas, nas florestas os tambores, cumprindo variadas funções, desde atividades guerreiras, lúdicas, de rituais, “telégrafo” ou “tambores de léguas”, estes definiam o espaço geográfico de uma determinada tribo, até onde o seu som chegasse. Tínhamos o “tambor do rei”, pelo qual todos os outros deveriam ser afinados. Escravizados, atravessaram o mar com as suas memórias rítmicas, apesar de passar pela “Árvore do Esquecimento”, e no novo solo não poderiam exercer a “arte dos compassos”. Enquanto o Kalundu se fazia com as palmas (paô), o Conde dos Arcos liberou aos domingos, para o descontentamento de muitos outros, os tambores, criando o Batucagé, se era audácia soar os tambores mexendo o corpo, imagine convocar os “santos”. A vigilância era intensa. Por volta de 1896, os “Batucagé” eram alertados pelos jornais sobre esta prática no Engenho Velho, informavam que: “com estrondos de atabaques e chocalhos e vozeria dos devotos… concorrem às desordens que não são raros surgem às questões de ciúmes aguardentados dos ogans… inquestionavelmente este é um caso de que a polícia deve contar” nos informa Kátia Silva em sua dissertação de Mestrado. Era preciso, diz o Diário da Bahia, “extirpá-lo da sociedade”.

Entramos nos tempos do Pândega Africana e da Embaixada Africana, entidades carnavalescas negras de 1895, e proibidas em 1905. Nas proximidades dos terreiros, era a vez dos afoxés que vieram às ruas, os blocos, as batucadas, artesãos de instrumentos e tocadores preservavam os rítmicos africanos. Blocos de índios eram africanizados, com os seus ritmos próprios, vieram as escolas de sambas, redutos de excelentes passistas e ritmistas. A negritude pede mais espaço, e vêm o Ilê Aiyê, Olodum, Muzenza, Malê e outros. O primeiro, na década de setenta, foi vigorosamente criticado. Alegavam pela imprensa, típico nos moldes de outrora, que aqueles estavam estimulando o racismo por “saírem” apenas com negros, e a polícia estava vigilante. As mulheres, prematuramente excluídas dos tambores pela repressão policial, têm a sua história percussiva nas artes das Filhas de Gandhy, que comemoram 32 anos, no início com a percussão de Mônica Millet, pérola do Gantuá. O bloco de mulheres da Aurora, Lá Vem Elas, as fabulosas percussionistas da Banda Didá – criação de Neguinho do Samba (justa homenagem) –, tendo por maestrina Adriana e Vivian. Tem a Mulherada da divina Mônica Kalili, esta iniciada com o maestro Carcará, e 25 meninas de 9 a 14 anos com o nome de Kalundetes, percutindo enxadas, panelas, frigideiras (para trazer o agudo). A Didá, com o projeto “Sódomos”, ou seja, criar as crianças como se fossem o seu filho, grupo de excelentes “tocadoras” e ativistas, traz o feminino às ruas, audaciosas, não se limitam a tocar caixa, marcação ou repique, tocam tudo, cantam e encantam.

Salvem todos os mestres e maestrinas, em nome de Fia Luna, Pintado do Bongô, Emília Biancardi, Jorjão, Tata dos Negões, Memeu, Mário Pan, Marivaldo, Gatinha, Cacau, Ninha, Galo Cego do Bongô, Ramiro Munsoto, Mestre Prego, Bastola e Neguinho do Samba.

O Olodum escolheu a percussão como elemento da cidadania e combate ao racismo, o valoroso João Jorge sabe bem, os seus tambores ostentam as cores da unidade africana. Se querem homenagear, ouçam a sua voz que pleiteia “sair” no carnaval às 16 horas, horário apropriado por outros. Por antiguidade, somos os primeiros a fazer na rua o carnaval.

***

NELSON MALEIRO com seu tambores e malas – Foto de SHIRLEY STOLZE

TRIBUTO A NELSON MALEIRO

 

texto de WALTER QUEIROZ JR.

 

Quando a televisão chegou nos anos 60, ainda éramos os inocentes em progresso. Durante a semana que antecedeu a inauguração da emissora, as pessoas ficavam horas defronte da telinha, hipnotizadas pela imagem padrão (um índio que não se mexia!), mas prometia uma nova era de grandes transformações.

Rapidamente, a TV Itapoan modificou os hábitos noturnos da cidade, formando o seu próprio “cast” e revelando novos artistas e personagens, como Nelson Maleiro, que encarnava a simpática e cultuada figura do gigante Itapoan, o homem que gongava os calouros com muito bom-humor num programa chamado a “Grande Chance” (Alô, Armandinho!).

Acontece que Nelson Maleiro foi muito mais que o seu personagem televisivo. O fundador dos Mercadores de Bagdá foi um inventor carnavalesco incrível para o seu tempo, sendo responsável pelas espetaculares alegorias dos préstitos, com seus carros imitando os carnavais venezianos com dragões soltando fogo e outras façanhas que tais.

Mais ainda, muito mais, Nelson Maleiro foi mestre de bateria, líder de comunidade, inventor de instrumentos, como o tamborim quadrado, e afinava o tarol com uma mestria invejável.

Tese de mestrado aprovada com louvor (alô, Leo), é inexplicável que um artista e carnavalesco da sua importância não tenha sido lembrado com o respeito e o devido reconhecimento, justo neste ano em que se homenageia a percussão.

Quando as avenidas forem outras vez devolvidas ao povo, sem cordas e sem camarotes, a talentosa “mão no couro” de Nelson será lembrada e ele, com toda a justiça, será nome de circuito, honrando a incansável luta de Ivan Lima pela causa, um deficiente visual que enxerga tudo com o seu lúcido coração.

É imperioso que se faça justiça à memória dos grandes carnavalescos, porque deles provém a paixão imprescindível ao vigor da grande festa.

Viva Renato Mendonça e Jairo Simões: “Saia rendada, colar de ouro…” Viva Armando Sá e Guilherme Brito: “…Colombina eu te amei…” Viva Walter Levita: “…Índio quer apito, se não der pau vai comer…” Feliz Carnaval!


A REVOLUÇÃO DA TROPICÁLIA

posted by Jary Cardoso @ 12:52 AM
2 de março de 2011

(O texto deste post, escrito por zédejesusbarreto, está intimamente relacionado com os dois anteriores, inspirados pelos 70 anos do poeta José Carlos Capinan, um dos “pais-fundadores” do movimento tropicalista. Os três posts reproduzem textos, conversas, pensamentos e rememorações desenvolvidos nos dias que precederam e durante a festa do aniversário de Capinan, produzida por Jorge Portugal e Rita, na residência do casal, em Itapoã. Naquele sábado, 19 de fevereiro próximo passado, bem cedinho, o educador, e também poeta, Jorge Portugal dirigiu-se a sua cidade natal, Santo Amaro, e de lá trouxe uma enorme panela de maniçoba… Imagine que festa! JC)

JOSÉ CARLOS CAPINAN na festa dos seus 70 anos. À esquerda Jorge Portugal e à direita, Rita. Foto de WALESKA NASCIMENTO – 19.2.2011

JOSÉ DE JESUS BARRETO e JORGE PORTUGAL. Foto de VILMA NASCIMENTO – 19.2.2011

JARY e BARRETO. Foto de VILMA NASCIMENTO – 19.2.2011

CAPINAN. Foto de Vilma Nascimento – 19.2.2011

A revolução da Tropicália

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texto de zédejesusbarreto*

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Ano de 1979, a ditadura militar vivia seus estertores, com o general Figueiredo segurando a ‘abertura lenta e gradual’ preconizada pela dupla da ESG Geisel/Golbery.

Então, fui parar meio desbundado em la ciudad de México, à época bom abrigo para exilados do Cone Sul militarizado das Américas. A UNAM-Universidade Autônoma do México era uma ‘república’ da chamada esquerdalha (por favor, nenhuma conotação pejorativa) latino-americana. Lá encontrei muitos brasileiros, baianos, professores e ex-colegas de sociologia da UFBa, ‘na luta, na resistência contra a ditadura’.

Jornalista, repórter ativo recém-saído do Estadão e depois da Veja, levava pra eles informações novas e quentes sobre a tal ‘distensão lenta e gradual’ que ocorria no nosso Brasil, sob descrédito, desconfianças e discordâncias da esquerda politizada de dentro e de fora do país. “Mas as coisas estão, de fato, mudando por lá”, eu dizia pra eles, sem agradá-los, claro.

E estavam. Depois do presidente-generale Geisel peitar o núcleo mais duro das forças armadas (Frota, Ednardo, Fiuza, Hugo Abreu etc…) por volta de 1978, a censura arrefecia, as torturas já não aconteciam com a intensidade dos anos anteriores e, a despeito dos atentados terroristas da direita armada, via-se uma luz no fim do túnel com o retorno de alguns exilados ao país e a discussão aberta de uma possível transição pacífica para um regime democrático… que não se sabia ainda como aconteceria. Ou seja, o período de trevas parecia ir se dissipando, mesmo com o plantão dos generais.

Em 1978 eu tinha feito uma longa entrevista com o genial cineasta e livre pensador Glauber Rocha, tido como louco e perigoso pela direita e pela esquerda. Deu página inteira no Estadão. Glauber, que me recebeu nu e depois enrolou-se numa toalha, num apartamento do Hotel da Bahia, falou duas horas seguidas, aos berros, sem me deixar perguntar quase nada, na sua dialética profético-libertária. Nem precisava. Dizia tudo o que se queria ouvir. E, para desespero das esquerdas, afirmava que a mudança no país se daria sim pela via militar, através da autoridade de Geisel e do gênio de Golbery.

Pois bem, eu que vivi o golpe militar de 1º de abril 1964, ainda adolescente mas esperto, ciente e consciente do que estava acontecendo, que participei dos movimentos estudantis de 67 e 68 como estudante de sociologia da UFBa, que me arrepiei de pavor com o AI-5 de dezembro de 69 – que significou o início, de fato, das trevas, dos anos de chumbo… que acompanhei de perto a prisão, tortura e sumiço de amigos, companheiros, colegas, conhecidos… que tive minhas simpatias pela AP, que pude ajudar, aqui e ali em algumas ações de resistência e combate à ditadura, que até sonhei em ir pra guerrilha do Araguaia, que usei boina de Che Guevara e recitei frases do livrinho vermelho de Mao, do combatente Ho Chi Min e acreditei em Fidel…

Eu, o mesmo que desde menino cantei Luiz Gonzaga, que voei com os Beatles, que atinei pras dissonância de Tom e João, que namorei ouvindo Roberto, que por todo e sempre fui apaixonado pela bola, pelo gênio Pelé, pelo meu Bahêa…

Eu mesmo, assumido libertário desde que saí do seminário de padres, que quase despiroquei das ideias ao ouvir Alegria Alegria, que chorei no show de despedida de Caetano e Gil no TCA, que cantei versos de Capinan e Torquato e Tom Zé… e me apaixonei pela canção amorosa do ‘carcará’ sertanejo Bethânia… eu que vi, nos anos mais cruéis da ditadura, jovens como eu perderem a vida sem conseguir nada… nada além de uma triste ilusão…

…pois, tive a felicidade de vivenciar, fazer parte das mudanças e transformações, revolução perene de comportamento, de postura, de pensamento, de atitude, de criatividade, de resistência, de luta pelas liberdades, todas… de crer, de falar, de assumir, de se manifestar, de ir e vir, de pensar livremente… por que estava dito, escrito, gravado para sempre:

É Proibido Proibir!

E lá no México, naquele instante, em 1979, aos brasileiros sofridos e esperançosos ainda numa ‘revolução popular’ (armada?) que derrubaria a ditadura militar tupiniquim, eles distantes das realidades diversas de um país imeeenso que crescia, de todo modo, que tinha já uma classe média urbana consumista e influente, que queria paz para trabalhar e fazer sua história… eis que diante desse grupo de ‘compatriotas esquerdistas revolucionários sonhadores’ tive a ousadia de falar, um dia: ‘Olha, a Tropicália fez uma revolução libertária, cultural e política no país, mesmo sob o tacão dos ditadores, que a esquerda, com todos os mártires, não ousou conseguir, jamais.’ Não desmerecia ninguém, jamais. Era uma constatação minha, vivida, apenas.

Mas foi como uma bomba da direita terrorista da época! Pra eles. Foi um risco, doidice libertária. Vi-me cercado, taxado de direitista… como nos tempos de 68 fui chamado de festivo e desbundado porque gostava de Pelé, de Caetano… E terminei por mandar a militância às favas!

Mas minha alma libertária jamais se vendeu. Nem a cartilhas, catecismos, tampouco aos encantos do capital sujo. Vendo conscientemente minha força de trabalho, aqui e ali,dentro de limites que me imponho, mas não me rendo a ideologias e muito menos a negócios. Continuo me indignando contra as injustiças, os preconceitos, as desigualdades, lutando bravamente contra a falta de liberdade e a ignorância. Essa é minha bandeira.

Caminho ainda contra o vento, sem lenço e sem documento, nada no bolso ou nas mãos; é proibido proibir, meu irmão; Meu coração vagabundo quer apenas guardar o mundo em mim; Y el cielo como bandera, soy loco por ti América!

No mais…

Viva a Bossa, Viva a Palhoça, Viva a Mata, Viva a Mulata, Viva Maria, Viva a Bahia!!!

**

No meu livro mais recente, lançado e nas livrarias – Cacimbo- Uma experiência em Angola (Editora Solisluna) – escrevo:

Não

Não acredito em dogmas

Muito menos em cartilhas

Creio só no impossível

No improvável

Desconhecido

Em sonhos

Utopias

Essa é minha crença

Minha fé

**

PS:

No mais, salve Caetano e Gil, salve Capinan, Torquato, Tom Zé, Bethânia… e salve Darcy Ribeiro e Jorge Portugal, porque ‘só a educação e a liberdade salvam!’. E viva Glauber! que tanta falta faz com sua louca lucidez. Questionar é preciso, sempre.

**

*zédejesusbarreto – jornalista e escrevinhador libertário, em 1º de março/2011.



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