Archive for maio, 2011


FAMÉLICOS AVANÇAM NA GRAMÁTICA

posted by Jary Cardoso @ 1:44 PM
24 de maio de 2011

 

Posso falar, cumpanhêro?

texto de zédejesusbarreto*

Não imaginem que escrevo com melancolia e sim com reconhecimento: com o advento consolidado da ‘era Lula’ e a comunização irreversível e crescente das redes digitais interativas a versão brasileira da língua de Camões não será a mesma. Corram os gramáticos, dicionaristas, escrevinhadores… porque os ‘famélicos’ globais avançaram na sintaxe, na concordância e na grafia das palavras sem pudores. E nóis tá antenado pq sñ a gente viramo dinossáurico e de direita.

O universo digital constrói aos poucos, e está bem próximo de conseguir, um novo código (sinais) de comunicação (relacionamento) único e universal. É uma meta, o amanhã. Mais por urgência do que por decisão ou experimento os internautas com seus tablets e celulares, em micro-papos de letrinhas e imagens rápidas estão usando e consolidando outros signos na comunicação à distância. Novos comportamentos humanos. Há uma revolução em curso. Urgente, comunitária, desembestada.

Algo tão marcante na história como foram o invento da escrita, os hieróglifos, Gutemberg, o telefone, o cérebro eletrônico… O mundo agora gira em megavelocidades. Jornalista do século passado, vivi o teletipo, o linotipo, a telefoto… já me considero uma traça da civilização do papel, era que se finda. Mas a escrita impressa resiste, há nela um certo lume de encantamento… bruxuleante.

Mutações globais de lado, o linguajar oral corriqueiro de uma população desprovida de escolaridade básica ganhou status – ‘modo politicamente correto de expressão’. Está nos livros didáticos do MEC distribuídos nas escolas. Diretrizes educacionais da nossa república sindicalista, dominante e empoderada na ‘era Lula’, em vigor. A politização ou ideologização da escrita rasgando a gramática. – O que seria a gramática senão a organizada chancela acadêmica do falar do povo? Argumentariam. É, mas não foram os petistas que descobriram o dizer popular. Patativa, Guimarães Rosa, Jorge Amado, João Ubaldo Ribeiro, Dias Gomes, Ordep Serra… A linguagem do povo sempre foi referência e inspiração na literatura, teatro, na TV…

Nas escolas é necessário ensinar às crianças a grafia, a pronúncia correta das palavras, a sintaxe, a concordância, a conjugação verbal… mesmo nos confins de Amazonas, na secura da caatinga, porque só se expressando clara e corretamente o jovem pode crescer, partilhar de um novo mundo que se abre, onde conhecimento é fundamental. Escrever e falar bem são requisitos para inclusão e respeito num mercado de trabalho que é competitivo, seletivo.

Ou vamos de vez estabelecer que a universidade, os melhores cargos e salários, os postos de comando e criação estejam sempre ocupados por alguns, os mesmos de sempre, brancos, ‘bem nascidos’ e aquinhoados, vindos de colégios particulares, de preferência dos grandes centros urbanos, do sul do país. A excelência, a inclusão global reservadas para eles, pronto.

Já para a periferia, os nordestino, os trabaiadô, a negrada, os curintiano… esses, com seu jeito próprio de falar e escrever – deixa lá, eles não vão querer aprender mesmo! –, para esses, de quem se quer apenas o voto e basta que tenham bolsa-família e feijão na panela, restam a lida doméstica, o lixo urbano, o ofício de pedreiro, cortador de cana, de peão de fábrica… É, quem sabe, um deles ainda algum dia chega de novo à Presidência da República? Ora, o povo quer falar decente no celular, quer escrever direito no computador… até para que o universo lhe compreenda.

*zédejesusbarreto – jornalista e escrevinhador.

(23/mai/2011)


BEMBÉ DE SANTO AMARO, SEGUNDO JORGE VELLOSO

posted by Jary Cardoso @ 12:01 AM
13 de maio de 2011

Pesco estas informações no site da Fundação Casa de Jorge Amado:

 

JORGE VELLOSO LANÇA LIVRO NA

FUNDAÇÃO CASA DE JORGE AMADO

Hoje, dia 13 de maio, sexta-feira, das 18 horas às 21 horas, ocorre na Fundação Casa de Jorge Amado, no Pelourinho, o lançamento do livro-reportagem de Jorge Velloso, Candomblé de rua – O Bembé de Santo Amaro (195 páginas, Editora Casa de Palavras, Salvador), que busca retratar o Bembé do Mercado como um fenômeno social e religioso de relevância na cultura do Recôncavo Baiano. O lançamento também será comemorado dentro das celebrações do Bembé do Mercado, amanhã, dia 14, no Barracão do Bembé, Largo do Mercado, em Santo Amaro.

Através da criação da obra, Jorge Velloso teve como objetivo mostrar cada detalhe da festa, se baseando nos motivos históricos e culturais que são de fundamental importância para a realização deste movimento. O autor buscou ainda ir além da simples abordagem do ritual e o reconstruiu para o leitor.

Todos os anos, desde 1889, em Santo Amaro da Purificação, Recôncavo Baiano, os negros e mestiços da cidade se juntam para celebrar o fim de um triste período da história do nosso país. Treze de maio, Dia da Abolição da Escravatura, é dia de festa em Santo Amaro. É dia do Bembé do Mercado, manifestação cultural que tem como foco principal o Candomblé. Vale salientar que Santo Amaro da Purificação é o único lugar do Brasil, onde acontece Candomblé de rua.

O Bembé já se tornou uma festa tradicional do Recôncavo Baiano, mas ainda é inédita a publicação de um livro-reportagem a seu respeito. Jorge Velloso afirma que escolheu o tema devido à sua “proximidade com a religiosidade afro-descendente, cercada de símbolos que enchem ainda mais a cultura negra de beleza e magia”.

Jorge Velloso nasceu em Salvador, mas sempre esteve ligado aos movimentos culturais do Recôncavo Baiano, já que sua família é de Santo Amaro da Purificação. Formado em Comunicação Social/Jornalismo – pela Universidade Jorge Amado, ele havia escrito dois livros de poesia Menino da Arraia Azul e Dia com Menino na Janela aos 6 e 8 anos, respectivamente. Passou pelos jornais Tribuna da Bahia e Correio da Bahia e atualmente é assessor de imprensa no Rio de Janeiro.

No dia do evento, o livro será vendido por um preço promocional de R$ 20,00.


DIA DO REGGAE EM SALVADOR

posted by Jary Cardoso @ 10:35 PM
11 de maio de 2011
A paixão pelo mito Bob Marley é muito forte na Bahia, como mostra esta cena da plateia durante o show “República do Reggae”, no Wet’n'Wild, em Salvador. Foto de WALTER CARVALHO – 20.11.2010

O canto de Bob
na cidade negra

texto de Zédejesusbarreto*

Rolava o ano de 1978 quando ouvi pela primeira vez aquele som diferente, aquela voz negra rouquenha que parecia arrancada do mais fundo das entranhas, um ritmo latejante, o fraseado em inglês que pouco me interessava o significado, aquela guitarra baixo pulsando como o coração no peito, feito o vaivém do mar, o respirar da vida… Tomado por aquela sonoridade, desviei-me de tudo e parti em direção àquele canto encantado, que vinha de uma loja, ali bem perto.

Era a mesma sensação que já sentira quando ainda menino ouvi Luís Gonzaga, mais tarde adolescente ouvi pela primeira vez Beatles, João Gilberto, depois Bethânia cantando ‘É de manhã!’ e, mais tarde, Caetano pregando ‘Alegria Alegria’… São instantes na vida em que sentimentos afloram sem controle a partir dos ouvidos e a alma se enche de uma agonia feliz, inesquecível, e temos a certeza de que jamais seremos os mesmos depois de escutar aquilo.

Era Bob Marley executado em disco, o LP ‘Kaya’ girando na vitrola da lojinha da esquina da Rua d’Ajuda, quase defronte da antiga livraria Civilização Brasileira. A canção primeira que ouvi de Bob, um dos gênios da música do século XX, naquele dia, foi ‘Time Will Tell’ e a ‘fender bass guitar’ que me tirava o fôlego era executada por Aston ‘Family man’ Barret, da banda The Wailers, a cozinha do astro (cantor e compositor) jamaicano. ‘Kaya’ me arrepiou, então, e guardo esse vinil comprado no ato como relíquia.

Naquele tempo – Deus meu, parece uma era bíblica –, trabalhava como repórter na sucursal do jornal Estado de S. Paulo, uma redação com sete jornalistas, situada no prédio alto da rua estreita que liga a Rua Chile à Ajuda, centro e agito da cidade, onde tudo acontecia, então. Livrarias, lojas, farmácias, cafés, bares, restaurantes, o Adamastor, os hotéis Chile e Palace, a Sloper ditando modas, a loja Duas Américas cheia feito um shopping, o frenesi e as fofocas da política na Praça Municipal, o terminal de ônibus na Praça da Sé, anos em que os trios elétricos ainda desciam a Rua Chile e paravam na Praça Castro Alves no Carnaval e os blocos afros com seus tambores eram a grande novidade cultural da cidade negra.

Um ano depois o reggae de Bob apontava caminhos novos: Gilberto Gil gravando o sucesso ‘No Woman, No Cry’ , a ditadura militar se esvaindo, as cores e o fumo da Jamaica, Caribe-África fazendo cabeças em nome de Jah, gorros e atitudes, Pelô, Calabar e Curuzu dançando Jimmy Cliff, Peter Tosh, Alpha Blondy, Muzenza, Olodum, Malê, Ilê, Badauê… A sonoridade urbana jamais seria a mesma.

Em 1981, quando Bob Marley morreu, negros e brancos choraram e fumaram juntos repassando as letras, a poesia de suas canções, cujas mensagens de paz e igualdade entre os homens nos tocavam a todos, embora minha alma libertária sempre se opusesse ao culto rastafariano direcionado ao ditador Hailê Sellassiê. Nada é perfeito, afinal. Os americanos espalharam que, ao morrer de câncer no cérebro num hospital dos EUA, os médicos teriam encontrado mais de treze espécies diferentes de piolhos aninhados nos ‘dread’ de Bob. Vi muito branco rindo. Como se piolhos pudessem macular o ser humano, o artista, a lenda… Coço a cabeça em lêndeas.

Trinta anos depois, o CD ‘Catch A Fire’ (guardo o vinil de 1978) a tocar no carro, revejo aquelas mesmas ruas do centro da cidade amada, maltratada, agora abandonadas. Ouço ‘Stir it Up’, uma das canções mais belas do repertório de Bob, emociono-me com o contraponto sonoro de Peter Machintosh nos teclados, entristecido com o que vejo em volta: a Rua d’Ajuda virou um deserto fedorento, dá medo; a Rua Chile está às moscas, o Adamastor fechado, lojas e hotéis de um lado e outro, da Rua do Pau da Bandeira até a Praça Castro Alves de portas arreadas, os passeios esburacados e imundos, molambos humanos arrastando-se em direção ao nada, sacis. O grito de liberdade e de respeito ao homem de Bob Marley está vivo, mais que oportuno. Calado e só, choro pela minha cidade, Mãe Preta!

*Zédejesusbarreto, jornalista e escrevinhador (11 mai/2011)

***
MARLEY, MORTE E VIDA AOS 30 ANOS

texto de ANTONIO GODI*

“Tempo, tempo, tempo”: 30 anos após a passagem gloriosa de Bob Marley, Rei do Reggae, é preciso pensar no movimento cíclico do nascer e morrer. Em Salvador a cada 11 de maio, “Dia do Reggae”, tudo se resignifica. Vida, morte e a continuidade reconstruída de uma cultura contemporânea plural e inusitada revitaliza-se.

Marley é como um cometa que por aqui passou destinando para a humanidade um legado filosófico e estético inigualável. Messias da paz e do amor, amante do outro e das diferenças. Militante da sustentabilidade de nós e do planeta ele apontou suas balas musicais na direção de tantos corações. Através da batida cardíaca do reggae roots ele sacou que ritmo e tempo dão conta do movimento de nosso corpo e do mistério do planeta. Talvez por isso tenha viajado tão rapidamente no feminino mês de maio.

O conhecimento temporal é uma conquista determinante da humanidade plural. Através dele buscamos acompanhar o movimento de nossas andanças existenciais. É certo que a cultura ideológica eurocêntrica e colonizadora utilizou a lógica dos calendários como instrumento de dominação. Os calendários da colonização e do capitalismo imprimiram ações ideológicas de dominação e poder sobre os aparentemente submetidos. Os calendários gregoriano e litúrgico são exemplos cruciais dessa estratégia. Que desde o início da modernidade capitalista insiste em administrar o movimento de nossas vidas e subjetividades.

Ao curso de cada ano vivemos imersos em dias e meses datados por símbolos históricos dos pretensamente poderosos. Datas cívicas e religiosas como fantasmas no decorrer de cada ciclo anual em nossa existência. Eis que no século XX com mudanças políticas, tecnológicas e comunicacionais desenham-se novas datas. E o mês de maio na Bahia e no Brasil contextualiza-se de forma inusitada. Maio, mês das Marias católicas e das mães do capitalismo comercial. Um mês diferenciado para todos que ao longo do tempo lutam por igualdade e liberdade. O primeiro dia de maio, longe de ser o dia do trabalho, é o dia de luta do trabalhador. Assim como 13 de maio é a datação ideológica de uma libertação fantasmagórica.

Já o dia 11 de maio é uma datação diferenciada de nossa contemporaneidade. Conquista simbólica de história recente nas comemorações e rememorações das nossas lutas étnicas e culturais. É como o 20 de novembro, dia da morte de Zumbi. Datado hoje como o Dia da Consciência Negra no Brasil. O 11 de maio reverencia a morte do Rei do Reggae, Bob Marley que, através do rápido mercado eletrônico do rádio, do disco e, ultimamente das redes de informática, influencia e continua contaminando novas gerações, reafirmando a cristalização de uma Diáspora Afro-Cultural para além das fronteiras do capitalismo babilônico. Com o decreto do “Dia do Reggae”, o Rei passa a ser cidadão soteropolitano, baiano e brasileiro. Um monarca de uma atualidade cultural e estética longe da verticalidade, geografia e prepotência da Babilônia. Um Rei igual aos seus iguais: “I and I” é a soma de nós. Viva o Rei que não teme ser visto nu.

*Antonio Jorge Victor dos Santos Godi – Ator, antropólogo e Prof. Da Universidade Estadual de Feira de Santana-UEFS/DCHF/NUC



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