OH QUÃO DESSEMELHANTE…

postado por Jary Cardoso @ 8:00 PM |
31 de janeiro de 2010

Transcritos do espaço de Opinião do jornal A Tarde, seguem três textos que falam com paixão de mazelas da Cidade da Bahia, triste Bahia…

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Medonha realidade

e mal dita verdade

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texto de zedejesusbarreto

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No Arraial do Retiro, pleno dia, grupos de jovens circulam com armas na mão e na cintura, à mostra, exibindo força, a população amedrontada. Dia sim dia não, aparecem corpos de jovens semelhantes executados nas quebradas do bairro.

Outro dia, no Saboeiro, apanharam uma garota de 16 anos com drogas e uma submetralhadora azeitada, no ponto. Faz medo passar de carro no Alto da Santa Cruz, Bairro da Paz, Massaranduba, São Cristóvão, quebradas suburbanas, esquinas pitubanas, Beiru, Valéria… onde gangues ditam leis, fecham o tempo, executam e são executadas por rivais, justiceiros e policiais. Rotina.

A média de assassinatos a cada fim de semana na Grande Salvador já ultrapassa a casa dos 20. Chacinas aqui e ali. Nunca se viu. Morrem, na absoluta maioria, jovens pobres sem educação doméstica ou escolar e nenhuma perspectiva. Para que se sintam inseridos na sociedade de consumo só veem um caminho diante e rápido: o mundo das drogas.

Dinheiro, poder, sexo, farra… e pactos de morte. Para nossos meninos e meninas, a vida vale um bom pagode, todo enfiado, apenas. O que mais lhes ensinam?

Os cadáveres boiam nos passeios, às portas, e nas telas da tevê, entre anúncios de grife, moto barata, latões de cerveja e belas bundas. Ao alcance dos olhos, do bolso, das mãos armadas.

Semana passada, duas e meia da tarde em plena Paralela, um homem branco, bem vestido, meia idade, sentiu-se ameaçado por um doido ao volante que o raspou em velocidade e, na sinaleira vermelha próxima, saiu de dentro do carrão bradando ódio com uma pistola reluzente em punho, dedo no gatilho, pondo dezenas de motoristas em pânico, aos gritos.

Às madrugadas, já é comum o cidadão acordar assustado com os pipocos, sem direito a olhar pela janela, balas perdidas, crianças chorando.

No Centro Histórico da maltrapilha cidade tropeçamos sob o sol em restos humanos, lixos do crack e do álcool, que amedrontam e nos envergonham.

Às vésperas do BaVi em Pituaçu, turmas da Bamor e da Imbatíveis marcam a porrada já rotineira pela internet. Não torcem por gols, querem sangue. Ignora-se.

Aos poucos, mesmo sem querer, a velha Bahia vai incorporando o pavor, criando novos comportamentos, modificando sua índole, sua alma, em função da violência que sobe os muros feito hera daninha, sem controle, permeando e trancafiando vidas.

Tempos de guerra, dizem as autoridades, acenando com mais armas, confrontos e novos presídios. Bala com bala, dente por dente. A lógica do extermínio. Ué, é o caminho?

Ano de eleição, repasso o discurso de tantas campanhas: Projetos preventivos, câmaras nas ruas, desarmamento, polícia comunitária e cidadã, uso da inteligência e de ações sócio-educativas, escola, iluminação e transporte decentes, programas-piloto nos bairros, inserção de jovens no mercado de trabalho, sem o fedor de lixo nas calçadas, sem discriminações e com oportunidades para os que mais precisam.

Mas, o que conseguimos? Os marqueteiros do ‘horário eleitoral gratuito’ afiam a pena das ilusões. Já contam os votos. É o jogo!

Diante da barbárie estabelecida, leio sobre a criação do Programa Nacional de Direitos Humanos e sonho com assombrações reaparecidas dos túmulos da ditadura. A Constituição da redemocratização, parece, não tem mais serventia.

Estabelece-se, então, a ‘Comissão da Verdade’. Apesar dos ‘bons propósitos’, sinto ranço de inquisição, até no nome. Leio-o em voz alta e comadre Zefa, ao lado, me pergunta em bom baianês:

“Mas que verdade é essa assim que o sinhô fala?”

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zédejesusBarrêto, jornalista e escrevinhador.

20jan/2010.

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FAROL, CARNAVAL E POESIA

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texto de WALTER QUEIROZ JR.

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Quando essa bela cidade do mar ainda nem sonhava ser uma metrópole, o xaréu prateava as redes com fartura e as serenatas no Abaeté eram possíveis. O Bahia e o Vitória respeitavam o Ypiranga, o Botafogo, o Galícia.

As sorveterias Cubana e Primavera, todas as tardes, percorriam com seus carros os principais bairros da cidade e tocavam um sininho para renovar nossos doces desejos. A gente vibrava com as regatas da Ribeira, a Festa da Lapinha era um primor e, particularmente, me comovia o terno da Rosa Menina.

Nosso centro de cidade muito pouco devia aos das melhores capitais com seu mosteiro, seus palácios, cinemas, magazines, cujo o acesso aos mesmos se fazia por democráticos bondes que a nossa miopia ancestral se encarregou de deletar.

Quando o Farol da Barra reinava como espaço lindo e lúdico para onde acorriam pressurosos pais e filhos e netos, enamorados de todas as idades para comer pipoca, acarajé e assistir o seu sempre deslumbrante por do sol, o seu entorno era todo verdinho, apenas enfeitado por margaridas do campo.

Assim foi um dia (óh têmpora, óh mores!) e certamente nada será como antes, mas faço um apelo ao prefeito João Henrique que tem demonstrado especial carinho pelas praças e outros sítios: reponha a grama do Farol! Não é justo que, em nome da festa, palanques, camarotes, edificações de qualquer natureza danifiquem os espaços públicos.

Além disso, Excia., é imperioso incentivar as bandas e orquestras com seus sonoros metais (alô Fred Dantas, alô Reginaldo, alô Paulo Primo!) em Salvador no justo momento em que renascem vigorosas no Carnaval carioca e continuam brilhando em Recife.

Venho há quatro anos pleiteando um poético espaço alternativo. Um oásis acústico no Rio Vermelho, um bairro de notória vocação boêmia, para manter acesa a chama dos eternos carnavais e o Para o Ano Sai Milhó viria conosco! Um espaço inovador e alto astral onde foliões de todas a idades possam brincar em paz. Com a palavra, o vice-prefeito Dr. Edvaldo Brito, coordenador do carnaval.

Tomara que este ano eu lhe encontre de novo…” W.Q.

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*Walter Queiroz Jr. – Compositor, membro da Confraria dos Saberes

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SALVADOR MUDOU-SE

PARA O RIO DE JANEIRO

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texto de ARMANDO AVENA*

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O Rio continua lindo e, para apreciá-lo, abri a janela em frente ao mar de Ipanema. Qual não foi meu espanto! As areias da praia onde passeava a garota de Tom e Vinícius estavam cheias de barracas.

Esfreguei os olhos, mas elas estavam lá, com horrorosas cadeiras de plástico espalhadas pela areia. Eram barracas de alvenaria com cozinhas e sanitários imundos despejando dejetos na areia da mais badalada praia do Brasil.

Em volta delas, um emaranhado de gatos puxados dos postes da rua e outro emaranhado de tubos de PVC que se afunilavam em chuveiros onde banhavam-se clientes e moradores das barracas (sim, havia pessoas morando nelas!).

Ao longo da orla uma floresta de cactus escondia o mar (o que fazem os cactus na praia, pergunta o meu coração?) e, vez por outra, deles emergia um transeunte aliviado de suas necessidades fisiológicas, ou um marginal que espreitava para assaltar o transeunte.

Uma favela havia se instalado nas areias de Ipanema e, por um momento, pareceu-me que o Morro Dois Irmãos deixava de apontar o céu, torcendo-se em direção à praia, para denunciar a aberração.

Meus olhos buscaram a beleza no lado oposto e deram com um circo meio desmantelado, armado em pleno canteiro central da Avenida Vieira Souto, ao lado de uma inconcebível pista de bicicross.

Um anjo, pendurado em meu ombro esquerdo, lembrou-me que o circo tinha relevante papel social, mas um diabinho, devidamente postado no ombro direito, avisou-me que se ele tinha tal privilégio, todo os demais circos da cidade deveriam ter o mesmo direito.

Voltei-me para o Arpoador e a bela praia estava escondida pela sede desmantelada do meu querido Esporte Clube Bahia e mais perplexo fiquei quando vi, em frente à Casa de Cultura Laura Alvim, o parque do Aeroclube, semiabandonando, escondendo o mar de Ipanema.

A ciclovia que permitia aos ciclistas pedalar apreciando o mar e as Ilhas Cagarras havia se deslocado para cima do passeio e bicicletas se misturavam perigosamente com transeuntes.

Já estava convencido da minha loucura quando percebi que o Barril 2000 havia se mudado para o lado da praia e travestido do Caranguejo e Cia, ou sei lá o que, obstruía o mar e jogava seus esgotos na ciclovia que margeava a praia.

Foi então que tive uma dolorosa certeza: o Rio copiou Salvador e Ipanema havia se transformado em Piatã.

O anjo em meu ombro cutucou-me afirmando que a prefeitura estava tentando melhorar esse quadro, iluminando a orla, criando uma praça no terreno do Clube Português, pintando os postos salva-vidas e que o responsável pela manutenção das barracas e pelo abandono do Parque do Aeroclube era a Justiça e sua proverbial morosidade.

Mas o diabinho, do outro lado, gritou irritado que era muito pouco, que a orla de Salvador era o maior lazer dos baianos e a vitrine da Bahia e que, por isso, o governo do Estado, a prefeitura, o governo federal e quem mais fosse deveriam unir-se em prol do maior patrimônio natural de Salvador, como, aliás, fez o governador João Durval Carneiro, o último a perceber que a orla é auréola que faz de Salvador uma cidade santa.

Anjos e diabos sempre terminam por me irritar, por isso, espantei a ambos, mas continuei perplexo ao ver que na bela orla de Ipanema havia dezenas de terrenos baldios, supermercados, concessionárias de automóveis, borracharias e cabarés, todos devidamente postados de frente para o mar. E que todo o tipo de comércio conseguia alvará para mirar as ondas de Ipanema.

Foi então que tive a certeza de que a orla de Salvador havia se mudado para o Rio de Janeiro.

Mas de repente, suando frio pela força do pesadelo, acordei e Ipanema estava lá, sem barracas, sem construções escondendo o mar, sem prédios abandonados, linda como a cidade maravilhosa. Estava lá como Tom e Vinícius a deixaram e como Caymmi esperava que tivessem deixado as praias da sua querida Salvador.

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*Armando Avena – Escritor, economista, ex-secretário do Planejamento do Estado da Bahia

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No Responses to “OH QUÃO DESSEMELHANTE…”

  1. silviacmoreira  Says:

    O Gregório de Mattos tinha razão quando escreveu Triste Bahia e Males em que padece a Bahia em todos os seus membros. Viva o Boca do Inferno! Viva!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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