O OLHAR CRÍTICO DE DIMITRI GANZELEVITCH

postado por Jary Cardoso @ 6:00 PM |
26 de junho de 2010

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NOTA DO EDITOR – Seguem três textos em que o baiano-marroquino Dimitri Ganzelevitch lança sua visão crítica sobre a Cidade da Bahia de hoje em dia. Os artigos foram publicados originalmente em Opinião do jornal A Tarde.

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Para um Museu

de Cultura Popular

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texto de DIMITRI GANZELEVITCH*

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E nossa cultura popular? Alguém pode informar qual órgão se dedica especificamente a ela? Apostamos que não. Não existe, em todo o Estado da Bahia, um único espaço reservado à documentação, memória e resgate das expressões culturais do povo baiano. Em exposição encontrar-se-ão, talvez, umas poucas peças de caráter comercial no Instituto Mauá, muitas vezes sem especial relevância e com total deficiência de pesquisa.

A italiana arquiteta Lina Bo Bardi bem que tentou constituir, no início dos anos 60, um acervo de qualidade. A ditadura militar e o evidente desinteresse dos governantes locais por qualquer coisa que não tivesse o glamour europeu ou norte-americano relegaram o acervo aos porões do Solar do Unhão, e não se falou mais nisso.

Temos algo comparável à pernambucana Fundação Joaquim Nabuco, ao carioca Museu do Folclore Edson Carneiro, ao mineiro Museu de Artes e Ofícios? Nada! A coleção Pardal de carrancas hoje pertence a um colecionador português.

A maioria dos centros de olaria do Recôncavo e do Interior, fossilizada, está sobrevivendo no ostracismo. As rendeiras de Saubara só podem contar com uma Márcia Ganem, dentro de seu potencial de mercado. E os outros? Os que fabricam brinquedos, apetrechos de couro, cestas, mocós e balaios, montarias para jegues e cavalos, ferramentas? E as expressões e iniciativas privadas, que podemos rotular de artes espontâneas: gravadores, escultores e pintores que, sem o mínimo apoio, acabam massificando a produção para o predador mercado de turismo?

Precisamos documentar, sem mais demora, as danças, as procissões, as rezadeiras, as festas de largo, os curandeiros, os fazedores de máscaras, as lendas e crenças, o cancioneiro dos morros, das praias e da caatinga, os carnavais, as receitas tradicionais – passando por conventos, mosteiros, ocas e terreiros – as pinturas dos caminhões e carroças, o delicado e forte emaranhado dos vendedores ambulantes, tanto urbano como interiorano, os garimpeiros, pastores e boiadeiros.

Temos um material tão rico e tão ignorado! Respeitar um povo é também respeitar suas expressões. Sua essência.

Salvador, 21 de junho de 2010

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Entre cartão postal e entulho

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texto de DIMITRI GANZELEVITCH*

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Não podemos sonhar em viver numa gravura de Debret ou num cartão postal do princípio do século XX. Seria pretensão desvinculada da realidade e em absoluta contracorrente à evolução da sociedade. No entanto, os marcos da história devem permanecer evidenciados, pontuando nossa memória e permitindo referências e símbolos civilizatórios.

Já beirava os quarenta anos quando cheguei a Salvador, mas logo edifícios e monumentos formaram à minha volta uma teia de fortes laços com a cidade. Como qualquer cidadão para quem a cultura é tão importante quanto comer e respirar – faço parte de uma espécie em via de extinção –, aprendi a reconhecer a individualidade desta cidade ao passar por seus pontos mais significativos.

E a cada derrubada, sofri como a morte de algum amigo. O belo templo anglicano do Campo Grande, os solares do corredor da Vitória, os casarões da Soledade, a mansão dos Correia Ribeiro e a Vila Serena na Ladeira da Barra… Mais tarde a descaracterização da residência do arcebispo – tiraram da fachada os azulejos do século XIX para colocar cerâmica de sanitário público! –, a derrubada da elegante torre que parecia benzer a Avenida Contorno e a violenta agressão, num fim de semana, à mansão Wildberger foram alguns dos tristes momentos que marcaram estes 35 anos.

Não pretendo falar de tantas outras agressões na Ribeira, Boa Viagem ou Saúde. Os furos na canoa são inúmeros. Será que a cidade não pode evoluir sem negar seu passado?

Agora temos o absurdo da demolição da Fonte Nova, obra ímpar de Diógenes Rebouças para um evento que deverá durar o tempo de uma rosa, deixando uma montanha de entulho em algum esconderijo dos arredores da capital e novas dores de cabeça em manutenção, segurança e transportes. Na mesma vassourada, pretendem eliminar sem remorso a piscina olímpica e o Balbininho.

Será que essa obra megalomaníaca [a nova Fonte Nova] é mesmo indispensável, ou é mera atitude de pretensa modernidade? Fora as costumeiras construtoras que, melhor que alquimista medieval, sabem transformar a areia em ouro, quem irá realmente lucrar com o gasto? O contribuinte soteropolitano?

Salvador, 7 de junho de 2010

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As lindas fogueiras

de São João

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texto de DIMITRI GANZELEVITCH*

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Celebrando o solstício de verão nos países europeus, as fogueiras são muito anteriores à festa cristã de São João. Aqui, hemisfério sul, louvamos o solstício de inverno na noite mais longa do ano. A partir do dia seguinte, ela começará a encurtar, os dias a alongar.

As fogueiras têm sido, especialmente no Nordeste, elemento indispensável à festa. E como são gostosos os quitutes – canjicas, tortas e bolos, licores etc. – que cada família, mesmo a mais humilde, oferece ao visitante em torno da fogueira!

Mas vejamos o outro lado da medalha.

Pesquisadores avaliam a meros 20 milhões o número de habitantes no planeta, nos séculos X e XI. Densas florestas cobriam a quase totalidade do globo e, na Europa medieval, lobos e ursos rondavam os vilarejos. A neve, os ventos gelados e a fome, frequente até a descoberta do Novo Mundo, eram dura realidade. A partir do São João, voltava a esperança de colher frutos, semear, abrir as janelas e viver em harmonia com a natureza. Para festejar a noite de São João, era fácil encontrar galhos e troncos caídos.

Hoje temos quase 7 bilhões de habitantes devorando as reservas naturais do planeta, a maioria por necessidade de sobrevivência. Cada árvore tornou-se uma raridade digna de todos os cuidados. Então, como aceitar o massacre de resquícios de matas para alimentar milhares e milhares de fogueiras? Quem viajar pela Bahia afora, ficará assombrado ao constatar os montes de árvores, recém cortadas, comercializados na beira das estradas.

Nossa sociedade tem que se conscientizar: certas tradições, por lindas e poéticas que sejam, podem ter consequências desastrosas sobre o meio ambiente e afetar o futuro da humanidade.

E na cidade – estou pensando em particular no Centro Histórico de Salvador – as fogueiras ameaçam resultar em incêndios devastadores. Com a maioria das casas construídas em estrutura de madeira, a mais discreta faísca poderá acabar com um quarteirão inteiro em 15 minutos.

Vamos adequar estas tradições à nossa realidade?

Salvador, 20 de maio de 2010

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*Dimitri Ganzelevitch – Presidente da Associação Cultural Viva Salvador

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One Response to “O OLHAR CRÍTICO DE DIMITRI GANZELEVITCH”

  1. Déu Tosta  Says:

    Caro Dimitri,

    Devo admitir que nos dois primeiros textos, concordo em maioria das partes com você, salvo, a reconstrução da Fonte Nova, que eu concordo de um lado, e discordo de outro… mas entendo que realmente Salvador está ficando com cara de São Paulo, como foi dito em outro texto daqui do site.

    Bem, mas você vai me perdoar, as fogueiras de São João não são as responsáveis pela devastação da Mata Atlântica! Bem antes de toda essa @#$&* acontecer, sempre foram feitas as fogueiras, em louvor a São João. Não é questão de aquecer o frio, nem de espantar animais selvagens, como foi citado. É questão de TRADIÇÃO! Não se pode pagar pelo erro alheio… façamos campanhas contra o desmatamento comercial, contra a caça predatória, contra a falta de educação quando se joga lixo em qualquer lugar, contra a dizimação da Mata Atlântica com queimadas, para transformá-la em pasto para gado… Mas francamente, as fogueiras de São João??? Essas são um símbolo da cultura nordestina, são um símbolo, até, da preservação do que é antigo e saudável. Consciência sim! Radicalismo desmedido, Não!

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