O LIVRO AINDA HÁ DE REINAR NA BAHIA

postado por Jary Cardoso @ 12:04 AM |
17 de agosto de 2010

Esta bela imagem foi encontrada no site da 21ª Bienal do Livro de São Paulo-2010

Este blog é encabeçado por pessoas que cultivam muitos amores, não só pela Bahia e pelos baianos. E entre os mais fortes destes outros amores, está a nossa paixão, verdadeira devoção pelos LIVROS!!! Repare que aí do lado esquerdo eles constituem uma categoria à parte do Jeito Baiano. Já passei horas copiando trechos de livros para enriquecer posts e tenho ainda muitas outras leituras a postar tratando somente de baianidade.

zédejesusbarrêto, conselheiro-mor deste blog, “escrivinhador” como se define, fiel praticante desta devoção, com incontáveis horas de leitura e escrita, só agora, sessentão, está conseguindo lançar seus primeiros livros em que ele é o único autor – tem outros feitos em parceria. Pois Barreto teve o privilégio de estrear numa supereditora baiana, a Solisluna, que é “super” especialmente em termos de qualidade gráfica, artística e de conteúdo. A Solisluna está lançando 16 obras na 21ª Bienal do Livro de São Paulo e duas delas de autoria de José de Jesus Barreto.

Neste texto apaixonado, Barretinho junta a experiência do repórter brigador e do intelectual inquieto, rebelde, com o baiano criado entre a gente simples e energética do Subúrbio Ferroviário de Salvador, e conta a vivência instigante que foi sua ida de Brasília (onde atua, como profissional, na campanha de um candidato ao governo do Distrito Federal) até São Paulo para o lançamento de suas obras na Bienal do Livro. Arrepie-se, caro leitor:


O SECRETÁRIO DE CULTURA

NÃO ESTÁ NEM AÍ…


texto de zédejesusbarrêto*


Voo para SP, à Bienal do Livro, no Anhembi. O lançamento de ‘Candomblé da Bahia’ e de ‘Cacimbo’, os primeiros livros absolutamente meus. Um feito com a cabeça, guiado pela alma, baiana e negra – sobre a fé nos Orixás, a religião da deusa-mãe Natureza. O outro, feito e guiado pelo coração, afrobaiano – as dessemelhanças entre Luanda e Salvador, cidades fêmeas, debruçadas sobre as águas atlânticas, e sua gente tão irmã, tão diversa, reluzente. Angola, vó da Bahia.

Deixo a secura – umidade do ar a 12 pontos – do planalto central e voo no azul. O céu é limpo e lá embaixo o verde é amarronzado e constante, um cerrado imenso, a perder de vista. Depois, só nuvens brancas esparsas e o sem fim igual…

Hora e pouco depois o avião vai baixando e dá pra ver outra paisagem: pastagens, aguadas, rios, o solo com várias tonalidades de verde, o chão retalhado, dividido, cultivado. É São Paulo. O sol do ocaso é uma gema e sua luz entra pelas janeletas do avião, dourando tudo. Na medida em que nos aproximamos de Campinas/Viracopos, o céu fica sujo, a poluição prejudica a visibilidade. Isso é também São Paulo com seu progresso.

Faz 26º centígrados, confortável. De Campinas à capital, de ônibus, pistas largas e livres, muitos caminhões, glebas e glebas à beira da estrada ainda desocupadas, olhos na janela vendo o tempo e as coisas passarem acelerados… então, invade a alma um sentimento de solidão.

Sinto-me uma formiguinha sem rumo, nessa perdição de mundo, num desamparo só. Antes que chegue a depressão, penso na Mãe Zuite (ou ela me chega, como sempre, na hora exata?), e de repente sinto-me feliz, um ser privilegiado pelas lembranças, saudades, pela amada que me ama, pelos filhos, pelos bichinhos caseiros, pelo trabalho, pelos livros que vou lançar… e uma paz dos céus me deixa pleno. Bença, mãe!

Anoitece nublado e janela se enche com outra paisagem de luzes, prédios, barulho, filas imensas sem fim de carros saindo e entrando por todos os cantos, travando o tempo e os espaços. Isso é São Paulo, sexta-feira à noite.

Salto no terminal da Barra Funda, metrô e ônibus, um formigueiro humano, uma gente concentrada, sem muita palavra, apressada, num ir e vir vertiginoso. Isso é São Paulo. Com sacola e computador, pesados, preciso andar um bocado até chegar a um ponto de táxi. Fila, espera. O hotel para onde vou é perto, em Santana/Tietê, mas o táxi dá voltas buscando fugir sem êxito dos engarrafamentos. Todos têm pressa e querem ir… paciência.

Depois de uma noite mal dormida (cama, travesseiros, viagem, expectativas…), acordo com o corpo congelado. O novo dia será frio, bem frio, me dizem no café da manhã. Meias grossas, camiseta, camisa, blusão, o écharpe de mãe, rumo ao imenso barracão do Anhembi.

Filas a perder de vista para pegar o buzu até a feira, filas para entrar, uma multidão incalculável já circulando e entrando nos stands de livrarias, livreiros, editoras… um frenesi de proporções impensáveis na cidade da Bahia para um evento desse segmento. Filas, filas, filas para entrar em alguns stands, para comprar, para pagar, para lanchar, para mijar, para tomar um cafezinho… filas, isso é São Paulo. Todos obedecem ordeiramente, ninguém reclama.

Impressiona-me o número de famílias inteiras com seus filhos pequenos, adolescentes, jovens… interagindo, manuseando os livros, curiosos… Isso me dá um alento: Viva São Paulo, nem tudo está perdido. Enquanto houver leitura, há esperança.

"Viva São Paulo, nem tudo está perdido". Foto de PAULO CHAGAS

Ao mesmo tempo, penso na minha Bahia, na minha gente misturada, na minha cidade amada. A última feira de livros por lá foi um desastre. Stands que mais pareciam cacetes-armados, um centro de convenções em estado deplorável, uma ninharia de editoras e livrarias, chuvas e goteiras por todo canto, molhando os livros, afugentando o público, uma pobreza! Um desrespeito à palavra, o verbo.

Quando teremos de novo uma Bahia civilizada, voltada para sua verdadeira história, sua cultura – que é muito mais do que carnaval, axé-music, pagode, bundinha, acarajé, berimbau e fitinha do Senhor do Bonfim ?

Lembro do longínquo ano de 1962, eu quase menino ainda, encantado com um Congresso Internacional de Povos Subdesenvolvidos, no campus da Universidade Federal da Bahia. Os barbudos de Cuba nos enfeitiçavam com seus charutos e exemplos revolucionários. A cidade efervescia de vida, cultura, arte, ideias, eventos, manifestações… nascia o cinema novo, a tropicália, tinha o teatro no Vila Velha, os seminários de música, a escola de dança, os saraus poéticos, o amor pelo jornalismo, a avidez pela leitura, rolava a discussão sobre a estética, os enigmas filosóficos, os rumos da vida… a ética. Outros tempos. A Bahia já foi assim. Foi.

Sonho com uma bienal do livro na minha cidade, cheia de meninos e meninas negras, mulatas, sararás, branquelinhos, misturados, circulando com seus pais, interessados nos livros, folheando-os, olhinhos grudados nas tecnologias, nos e-books, nos encantamentos da imaginação… ah, minha terrinha amada, quanto a quero, como a sonho mais bela, mais limpa, mais igual, mais justa, mais criativa… além, muito além dos seis dias de carnaval no verão escaldante cheio de turistas…

O stand da Solisluna Editora é pequeno, singelo, gostosinho e belo; belo como seus livros, como seus responsáveis – Valéria e Enéas, amigos diletos, criativos e ousados. Valeu! Uma marca da Bahia. O estado devia se orgulhar deles. Agradeço pelo instante vivido.

Valeu pelo encontro com Gustavo Falcón, com Goya, Vicente Sampaio… Mais gente nova conhecida, novas amizades, o interesse de gente desconhecida pelos livros, pelas letras baianas… e um vazio pelos ‘amigos’ baianos-paulistanos contatados, prometidos… e que não compareceram, nem deram sinal. C’est la vie!

O sábado no Anhembi foi esfriando, esfriando… à noite já fazia menos de 10º e os baianos tremelicavam, quase congelando. À noite, diziam, vamos a 3º. Cuido de dormir sem o banho costumeiro, sob uma colcha grossa e um edredon imenso amarronzado de pelo falsificado. As orelhas e a ponta do nariz estão gelados.

O domingo será de volta a Brasília. O trabalho vil me espera. Outro mundo. Vou retomar a campanha, lidar com a tal política. Cuido de não me melar, não me contaminar com a sujeira.

Juro, prefiro os livros. Sonho um dia viver só escrevendo coisas do coração, deixando apenas a alma falar…

Os dedos já meio endurecidos pedem para teclar outras palavras… gostaria de atendê-los enquanto há tempo, antes que travem com a artrose dos anos que passam inexoráveis, enquanto a mente ainda se manifesta com alguma lucidez…

Juro, essa campanha será a derradeira. Vou encontrar um jeito de sobreviver sem precisar disso.

Os Orixás me apontarão o caminho. Senhor do Bonfim me acenderá essa luz …peço a ajuda de minha madrinha, a Senhora dos Mares. Já mereço.

*

No retorno, pongado no pássaro metálico barulhento, acima das nuvens, fui agraciado pelas divindades com um crepúsculo espetacular, inesquecível. Hora e meia de um show de cores no horizonte reto, infindo, sem curva, sem nuvens, fantástico. Um degradê, da linha escura pra cima, em vermelho chama, brasa, rubro, rosa, laranja, cenoura, dourado,amarelos de todas as tonalidades, até o bege esbranquiçado, cinza, a fundir com o azul de todos os matizes até o marinho escuro, quase negro… escurecendo os tons a cada minuto… um delírio, um presente da Mãe Natureza. Fico a pensar quantos artistas, desde o início da humanidade quiseram chegar a essas tonalidades de cores com suas tintas, dedos, pincéis, misturas… Mas não chegam a algo parecido… a grandeza da manifestação da divindade.

Só apreciar esse espetáculo me enche de encantamento e felicidade. O belo é amor puro.

*

PS: O secretário de Cultura do Estado da Bahia, Márcio Meirelles, rodou pelos espaços da Bienal, no Anhembi, no domingo, dia 16, Mas ignorou o stand da Solisluna Editora, verdadeira representante do livro baiano, com edições modernas, como os recentes da Fundação Pierre Verger: ‘Carybé & Verger – Gente da Bahia’ e ‘Carybé, Verger & Caymmi – O mar da Bahia’; além de outros livros do próprio Verger, sobre museus baianos, de autores como Renato da Silveira, Sônia Rangel, Goya, Edsoleda Santos, Gustavo Falcón, Enéas Guerra… algumas ‘obras de arte’ editoriais.

Pena que o nosso secretário ignore parte de nossa cultura. Livros? Pobre Bahia!


*zédejesusbarreto, jornalista e escrevinhador

SP/Brasília – ago2010

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6 Responses to “O LIVRO AINDA HÁ DE REINAR NA BAHIA”

  1. Ascom Secult  Says:

    O fato do secretário não ter visitado o stand não significa que ele ignora o setor livreiro. A agenda do secretário é bastante apertada. Graças à Secretaria de Cultura do Estado da Bahia e em parceria com a Câmara Baiana do Livro 500 títulos baianos, entre romances, cordéis, contos e poesia, estão presentes na Bienal do Livro de São Paulo. Mais informações no http://www.bahianabienal.blogspot.com/

  2. Márcio Almeida  Says:

    É possível adquirir os livros de Zédejesusbarrêto aqui em Brasília? Pergunto porque sou mais um baiano residente no Planalto Central. Um abraço!

  3. Nadja  Says:

    Bela reportagem!

    A educação é tudo! Não digo apenas a educação escolar (matemática, português, ciências etc.), refiro-me à educação de forma ampla, incluindo os valores, o respeito, o comportamento, o modo de falar, o modo de andar, de se vestir…
    O que falta a nós Baianos é o Ser educado! Infelizmente hoje o que sobressai na Bahia é o carnaval.
    O que sobressai é a Secretaria do Turismo mostrando os 6, 7 dias de carnaval em vez de as secretaria da Educação, do Esporte, da Cultura mostrando museus, histórias da Bahia, livros/escritores, músicos seguindo a linha das famílias Caymmi, Veloso…

  4. Glaucia Dantas  Says:

    Que emoção ler o texto desse escrevinhador, que transmite emoção, clareza, sensibilidade… Triste lembrar da última Feira de Livros de Salvador… Triste ler a justificativa da Secult… Não houve tempo… Ou não houve prioridade… Triste Bahia!!!

  5. Jary Cardoso  Says:

    Caro Márcio,

    Liguei para Barrêto, que está trabalhando aí em Brasília, e ele disse que iria encaminhar a sua reivindicação à Solisluna, editora dos livros.

  6. barreto  Says:

    márcio,
    respondendo: o e-mail da editora Solisluna (baiana) é “editora@solislunadesign.com.br’.
    ACESSE: http://www.solislunaeditora.com.br

    terás a informação de como adquirir os livros…
    teremos lançamento tb em Salvador, depois das eleições
    abração

    grato a todos pelos comentários.

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