O PENSAMENTO ELEGANTE DE ROSANA JATOBÁ

postado por Jary Cardoso @ 12:38 AM |
18 de agosto de 2010

ROSANA JATOBÁ

Rosana Jatobá é o maior sucesso do Jeito Baiano. Em quase um ano e meio de existência deste blog nenhum outro post alcançou tanta repercussão quanto o que reproduziu dias atrás um texto de autoria da belíssima baiana, jornalista, apresentadora de telejornais da Globo.

O post que intitulei “Rosana Jatobá ataca os preconceitos” (http://jeitobaiano.atarde.uol.com.br/?p=2364) reproduz um daqueles muitos textos que com frequência chegam às nossas caixas de entrada de e-mails repassados de internautas para internautas. O texto, com o título “O insustentável preconceito do ser”, é tão belo quanto sua autora, mas ficou uma dúvida no ar: será que foi mesmo escrito por ela?

Cau Gomez, um dos grandes cartunistas de A Tarde, foi um dos que reforçaram a dúvida. “Há vários falsos artigos com a assinatura de celebridades, como Herbert Viana, circulando pela internet”, advertiu ele.

Tentou-se por vários canais o contato com Rosana Jatobá. Até que Lourenço Mueller – meu querido amigo arquiteto e urbanista, um visionário que planeja implantar ciclovias em toda a Cidade da Bahia –, a mesma pessoa que me repassou o e-mail, acabou descobrindo o e-mail de Rosana através de uma amiga em comum.

No fundo eu não tinha dúvida que a autora era ela. Isso dava para sentir em alguns dos mais de 60 comentários, aqueles escritos por pessoas que diziam ter conhecido Rosana aqui na Bahia antes de ela partir para o sucesso em Sampa e no Rio.

Escrevi para Rosana e poucas horas depois veio a confirmação. Era ela mesmo a autora do libelo contra os preconceitos e explicou que este é um dos oito textos de uma série sobre sustentabilidade postada num blog integrado ao site da CBN. Rosana os colocou à disposição do Jeito Baiano, dos quais escolhi um – “Muito além de um elegante vestido preto” –, que reproduzo neste post depois de transcrever os e-mails que trocamos.

Deliciem-se:

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-) 13.8 – 12h

Prezada Rosana Jatobá,

Recebi um artigo assinado com o seu nome, intitulado “O insustentável preconceito do ser”, que achei maravilhoso e o postei no meu blog, Jeito Baiano, com uma foto sua que colhi através do Google. Veja o post:

http://jeitobaiano.atarde.uol.com.br/?p=2364

Houve grande repercussão: em dois dias mais de 60 comentários, a grande maioria de aplausos ao texto e à sua pessoa, alguns se dizendo muito próximos a você no tempo em que você ainda estava na Bahia.

Mas de repente o responsável pelos conteúdos do portal A Tarde On Line, onde o blog está inserido, veio me questionar sobre a autenticidade do texto. Procuramos no Google a origem do artigo e não conseguimos apurar. Há muitos blogs e sites que o citam. Num dos comentários, o autor conta que ele, seis meses atrás, foi quem “disseminou” o seu texto na internet. No entanto, como têm sido frequentes os casos de fraude na rede, muitos deles envolvendo celebridades cujo nome aparece assinando falsos artigos, resolvemos contatar você para saber se é mesmo de sua autoria.

O artigo me foi enviado – como conto na apresentação – por Lourenço Mueller e foi ele quem conseguiu o seu e-mail através da amiga dele Celeste Valverde.

Aguardo o seu retorno, embora no fundo eu tenha a certeza de que o artigo é mesmo seu.

Abraços, Jary Cardoso

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-) 13.8 – 13h

Oi, Jary

Uma amiga me ligou e comunicou a ótima noticia! Corri pra ver o Jeito Baiano e confesso que fiquei muito orgulhosa com os comentários. Obrigada. Este e outros textos sobre Sustentabilidade são de minha autoria, sim, e foram inicialmente publicados no site da CBN, no blog do Milton Jung. Veja lá:

http://colunas.cbn.globoradio.globo.com/miltonjung/category/rosana-jatoba/

E fique à vontade pra publicar outros, pois minha família se derrete… Beijos

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-)13.8 – 16h

Rosana,

Estou aqui contendo a euforia depois de ter recebido os três e-mails seus. Enviei a Lourenço Mueller a sua saudação a Celeste que ele já passou para ela.

Como foi levantada aquela dúvida sobre a autenticidade do artigo, estou querendo postar no blog esta sua resposta – pode?

Pretendo também postar o texto que você enviou – mais tarde olharei os outros textos que estão no site indicado.

Serão sucessos na certa. Com pouco mais de um ano de existência do Jeito Baiano, o libelo contra os preconceitos foi o post que provocou o maior número de comentários até agora.

Queria lhe fazer mais um pedido: poderia enviar algumas fotos suas bem atuais? Um colega viu você no CQC e disse que você está esperando nenê. É verdade? E você tem uma ou mais fotos da gestante Rosana Jatobá para eu colocar no Jeito Baiano junto à sua mensagem e textos?

Obrigado por tudo, beijos, Jary

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-) 13.8 – 19h

Oh, querido conterrâneo

Fico muito feliz em saber de tamanha repercussão. Cresci lendo o Jornal A Tarde, veículo que se manteve íntegro em meio a tantas ingerências na Bahia, sobretudo de ordem política.

Pode publicar os textos.

Em breve terei o meu blog sobre Sustentabilidade no G1, Portal de notícias da Globo. Te aviso.

Pois é. Estou em estado de graça, esperando gêmeos!!! Mas ainda não fiz fotos. Assim que tiver, te envio com prazer, afinal a Bahia – me deu régua e compasso – e merece prioridade na divulgação deste fato abençoado.

Obrigada pelo carinho.

(No e-mail seguinte, até agora sem resposta, eu disse a Rosana que me senti muito honrado por ser chamado de “conterrâneo”, mas na verdade sou natural de Sampa e migrei para a Cidade da Bahia há 23 anos. Me tornei um soteropaulistano…)

-) 2.4.10 – blog Mílton Jung/CBN/globo.com

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Muito além de

um elegante vestido preto

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texto de ROSANA JATOBÁ*

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Ela surgiu para esconder as vergonhas, mas hoje em dia revela o íntimo de cada um. A roupa é o sinal instantâneo da auto-imagem que queremos exibir. E, na visão da grande dama da moda, ela pode ser uma arma poderosa e infalível:

Vista-se mal, e notarão o vestido. Vista-se bem, e notarão a mulher.”

Mademoiselle Chanel revolucionou, não apenas porque libertou a mulher dos trajes desconfortáveis e rígidos do fim do século 19. Mas porque valorizou o senso crítico:

O mais corajoso dos atos ainda é pensar com a própria cabeça”.

Se os tempos modernos desafiam nossas escolhas em nome da Sustentabilidade, invocar a genialidade de Coco Chanel pode ser norteador. Foi o que eu fiz quando recebi um presente, que chegou cheio de recomendações:

Tenha muito cuidado, guarde-o em lugar fresco e escuro, e, se sujar, leve a um especialista. Esta pele pertenceu à sua avó. É um vison!

Vesti e imediatamente senti o poder de transformação do visual. A peça macia e felpuda de cor castanha tinha a pelagem espessa, brilhante e vistosa. Embora com mais de meio século, mantinha um design atemporal. Envolta na altura dos ombros, proporcionava uma sensação de conforto e proteção. Era a mais perfeita tradução do luxo, o acessório que permitia a metáfora: os diamantes estão para as orelhas, assim como a pele está para o corpo.

Chegou o dia de exibi-la. A noite do casamento estava mesmo fria em São Paulo, coisa rara nos últimos invernos. A festa era de gala, num endereço tradicional da cidade, o Jockey Clube. Escolhi um vestido de seda preto, me enrolei no vison e me perfumei, afinal, segundo nossa musa:

Uma mulher sem perfume não tem futuro!”

Mas a última olhada no espelho, em vez de glamour, revelava inquietação:

Eu sabia que o animal havia sido morto numa época em que não existia o risco de extinção da espécie. Tinha certeza de que ninguém iria me hostilizar na festa, pois grande parte das mulheres estaria ostentando a sua estola ou casaco de pele. Possuía o aval da papisa da moda, Anna Wintour, editora da vogue americana, fã incondicional de peles e uma das responsáveis pela “fur mania” atual, um boom que não se via desde os anos 80.

Tinha, portanto, razões de sobra para usar o bicho, mas nenhuma tão contundente quanto a deixada pelo legado de Chanel:

A moda não é algo presente apenas nas roupas. A moda está no céu, nas ruas, a moda tem a ver com ideias, a forma como vivemos, o que está acontecendo.”

Não poderia ignorar que, se usasse o vison, vestiria a capa da indiferença diante de um mercado cruel e fútil, que não para de crescer. De acordo com a Peta (Pessoas pela Ética no Tratamento de Animais), a indústria da pele mata 50 milhões de animais por ano no mundo. Só na China, a produção atingiu números entre 20 e 25 milhões em 2010, ao passo que no ano 2000, oscilava entre 8 e 10 milhões de peles. A organização beneficente invade desfiles de moda e aterroriza as donas do acessório, jogando baldes de tinta para inutilizar a peça. É uma forma de protestar contra os maltratos dispensados aos bichos, que passam suas vidas confinados em minúsculas gaiolas.

Para a extração da pele, são eletrocutados, asfixiados, envenenados, afogados ou estrangulados. Nem todos morrem imediatamente, alguns são esfolados ainda vivos! Em alguns locais, para que as peles fiquem intactas, corta-se a língua do animal, deixando-o sangrar até morrer.

A voz da consciência soprou mais uma vez ao meu ouvido e ouvi o conselho da mestra das agulhas:

Elegância é recusar.”

Abri mão da gostosa sensação térmica da pele morta do vison e fui às bodas.

No salão ricamente enfeitado, a fauna mórbida desfilava à minha frente. Era uma profusão de visons, chinchilas, raposas, zibelinas, cabras e cordeiros. Bichos montados, pendurados, entrelaçados em mulheres superproduzidas. …e bem agasalhadas.

Toda concessão tem seu preço.

O ar gelado entrava pelas janelas e resfriava até a minha alma, obrigando-me a contorcer os músculos.

Mas toda renúncia, a sua recompensa.

O desconforto em pouco tempo desapareceu, quando me senti envolvida pelo calor dos braços de um certo alguém. Como dizia Gabrielle Coco Chanel:

Uma mulher precisa de apenas duas coisas na vida: um vestido preto e um homem que a ame”.

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*Rosana Jatobá é jornalista da TV Globo, advogada e mestranda em gestão e tecnologias ambientais da USP

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13 Responses to “O PENSAMENTO ELEGANTE DE ROSANA JATOBÁ”

  1. Marcone  Says:

    O texto é extremamente interessante, assim como os outros. Parabéns pela genialidade e pela maneira que consegue nos fazer refletir através destes textos tão bem elaborados.
    Mérito o suficiente para estar onde está.

  2. Valdenor Souza  Says:

    Brilhante como sempre a querida Rosana Jatobá.
    Estou lendo seus textos e estou muito satisfeito com a leveza em retratar dados sobre a sustentabilidade. Textos limpos e concisos, poéticos e sobretudo humanos.
    Parabéns…

  3. Válter Feitosa  Says:

    Jary quero lhe agradecer por tudo que aqui está transcrito a respeito da Rosana. Não a conheço, mas o seu jeito de apresentar o tempo no jornal da Globo dá um charme todo especial ao noticiário. Não sabia da sua baianidade e fico feliz em saber que ela é da nossa terrinha e disso se orgulha. Li o maravilhoso texto ao qual você se refere, e fiz um comentário aqui mesmo no jornal A Tarde. Talvez eu tenha sido um pouco rude em algum momento do que escrevi, mas o fiz por achar que naquele instante ela traduzia uma inconformidade com algo que talvez a tivesse atingido por ser ela baiana. Se fui rude peço desculpas a quem leu o meu comentário. Mais uma vez agradeço a você, Jary. Desejo muita saúde para os gêmeos da Rosana.
    Válter Feitosa
    Santa Rita – PB

  4. Najara Sousa  Says:

    O texto de Rosana Jatobá, embora fale sobre o assunto da “moda”: sustentabilidade, está delicioso de se ler e, realmente, Jary, tem a elegância peculiar da autora. Estou adorando companhar o Jeito Baiano. Continue nos informando e entretendo. Abs.

  5. Rebeca  Says:

    Perfeita!! Virei fã de Rosana Jatobá. Já tinha lido o texto anterior em um e-mail q recebi. E este também não fica atrás!! Parabéns a Rosana, essa baiana q venceu os preconceitos e mostrou para que veio.

  6. josias  Says:

    Já gostava dela na previsão do tempo.
    E agora, mais ainda. Perfeita transparência e riqueza nos detalhes,
    Obrigado Rosana.

  7. Leandro  Says:

    Desconsiderando a beleza considerável da autora do texto, parabenizo pelo fechamento do mesmo com uma mensagem clássica, e ao mesmo tempo contemporânea! Nada mais quente do que alguém que te ama, e o principal, ao teu lado. Parabéns, Jatobá!

  8. Jose Carlos  Says:

    O texto é interessante, só não entendo porque o autor desse blog glorifica tanto a Rosana. Ela é uma pessoa normal, de carne e osso, competente como centenas de outros jornalistas baianos, que atuam aqui ou fora. Ponto final! Pra que ficar trocando e-mails com a moça, endeusando-a – “Estou aqui contendo a euforia depois de ter recebido os três e-mails seus”. Aff! Parece que o autor desse blog tem 15 anos de idade e quer pedir um autógrafo da Rosana. Tenha paciência, o fato dela está na Globo em horário nobre não garante que ela seja tão top assim.
    O que sobra de talento da Rosana, falta aqui no blog.

  9. Graça Moradillo  Says:

    Você merece um PARABÉNS bem grande! Uma amiga havia me falado desse artigo da Rosana e estava em busca quando ao ler o jornal de hoje vi através do seu comentário. Que bom que na Bahia existam pessoas como você (que apesar de ser paulista) talvez seja mais baiano que muitos nascidos aqui, pelo fato de adotar a Bahia como mãe! E Rosana uma exímia jornalista como poucas que também existem. Obrigada mesmo!
    Abraços

  10. Lourenço Mueller  Says:

    Antes de comentar o artigo da Rosana quero dizer ao José Carlos que um bom jornalista não fica insensível à beleza. Essa sua estranheza e implicância em relação aos elogios do bloguista não se justificam, acredite. Eu próprio já era admirador da moça, só por aquele jeitinho baiano de falar coisa tão insossa – mas tb tão esperada – como o tempo. E nem sabia que ela defendia uma bandeira tão importante como a sustentabilidade. Por isso peço a você um pouquinho mais de consideração ao Jary – que, tenho a certeza, não é um bajulador – pelo simples fato de ele dar essa divulgação a alguém que só aparece por sua beleza fisica.

    Imagino agora essa moça, nua – me permitam a liberdade de imaginação, como diz Millôr, livre pensar é só pensar – apenas com o casaco de peles sobre o corpo, os cabelos negros e o rosto reto, beleza originalíssima, desistir, como ela contou, de usá-lo em respeito aos animais… É uma cena antológica.
    Gostaria que ela defendesse as bicicletas, agora, as ‘magrelas’, a forma mais poética e sustentável de se locomover.
    Disse ao bloguista que ela poderia ser a MUSA DOS CICLISTAS e dos ativistas cicloviários. Falo como arquiteto e urbanista que tenta, entre os chapa-brancas, fazer a sua parte e transformar a Bahia numa referência nacional das bicicletas: Ajude-nos Rosaninha, os bebês gêmeos agradecerão por um mundo melhor, com mais mobilidade e menos poluição.

  11. EDNA  Says:

    VOCÊ TÁ MUITO LINDA COM ESSE BARRIGÃO! DESEJO QUE SEUs BEBÊS TE TRAGAM AINDA MAIS FELICIDADES… FIQUE COM DEUS. BJ.

  12. antonio joao  Says:

    Rosana, sou seu fã, te acho muito

    linda e simpática, agora em estado avançado

    de gestação, está mais bonita, fique com De-

    us e tudo de bom.

  13. antonio joao  Says:

    Rosana, sou seu fã, te acho muito

    linda e simpática, fique com Deus e tudo

    de bom.

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