GIL VICENTE TAVARES SEM MEIAS PALAVRAS

postado por Jary Cardoso @ 7:54 PM |
28 de agosto de 2010

GIL VICENTE TAVARES – Foto de JÔNATHAS ARAÚJO

Penso neste blog como espaço virtual de um acervo temático em construção permanente, sempre disponível à pesquisa imediata e estudos futuros. Neste acervo cabem tanto textos exclusivos quanto transcrições, e entre estas incluo algumas que circulam pela internet, desde que, evidentemente, contemplem os temas relacionados com o jeito de o baiano ser e estar no mundo, que tenham credibilidade e que apresentem argumentações dignas de nota, mesmo quando polêmicas.

É o caso do artigo deste post, autoria de Gil Vicente Tavares, que recebi de dois colaboradores. O primeiro, que incluiu o meu e-mail numa lista de mais de 350 destinatários, foi Dimitri Ganzelevitch, o franco-marroquino-baiano que vive criticando com dureza, e de maneira independente, o que vê de errado no dia a dia da Cidade da Bahia, especialmente da região do Pelourinho, onde reside e de onde preside a Associação Cultural Viva Salvador. O texto de Gil Vicente Tavares chegou apresentado por Dimitri apenas com a palavra “Lucidez” digitada no “Assunto” do e-mail.

Dias depois recebi o mesmo artigo desta vez repassado pelo mentor deste blog, zédejesusbarrêto, acompanhado do seguinte recado:

(…) o nosso Enéas Guerra me mandou esse artigo de Gil Vicente Tavares, excelente. E tem tudo a ver com o nosso blog, agita a discussão sobre a pobreza cultural vigente na Cidade da Bahia…

vale a pena postá-lo

abração

barreto

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Gil Vicente Tavares – compositor, dramaturgo e diretor teatral (saiba mais sobre ele no endereço www.myspace.com/gilvicentetavares) – puxou o pai, o grande poeta e escritor Ildásio Tavares, no jeito “boca-do-inferno” de ser. Confira:

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A POBREZA CULTURAL DE SALVADOR

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texto de GIL VICENTE TAVARES

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Há um equívoco grave em relação ao que se pensa sobre a cultura, em Salvador.

Por conta desse pensamento comiserado de incensar os oprimidos – doença nefasta que é um dos grandes equívocos reforçados pela era Lula –, a exaltação da cultura própria, endógena, popular chegou a uma hiperbólica cegueira sobre a pobreza cultural que nos assola.

Todos os países intelectualmente espertos souberam dialogar com outras culturas, outros povos, outros modos de produção, criação e identidade, para se reinventarem. Há, ao redor do mundo, programas de intercâmbio, de residência e de estudos de outras culturas que fazem com que, dessa mistura, possam florescer novas formas de pensar, de agir e de criar.

Aqui, em Salvador, há esse pensamento equivocado de que somos uma cultura forte e rica. Mentira. Somos uma cultura fraca e pobre, justamente porque nos fechamos em nossa própria cultura, folclorizando e exaltando ela como algo maravilhoso, especial, diferente de tudo.

Por trás dessa baianidade, se esconde a opressão de nos caracterizarmos como pessoas que falam alto, cospem no chão, mijam na rua, são felizes em sua miséria, não estudam, não crescem. Há uma opressão em relação ao negro soteropolitano, pois legitimar a imagem do negro falastrão, esculhambado, folgado, malandro, ignorante e cheio de ginga é a pior forma de se lutar contra o preconceito e a segregação. Devíamos, sim, lutar para termos mais “miltons santos”, e não legitimar o que nos empobrece, indignifica e nos folcloriza.

Azelites baianas são as mais estúpidas que eu conheço. Poderíamos pensar que esse baiano raso, de cultura pobre, estaria nas camadas baixas, mas basta ver as atrações da “chopada de medicina” pra percebermos que nazelites o problema é bem pior. Onde se poderia ter um acesso diferenciado à educação privilegiada, livros, concertos, exposições, a coisa fica mais feia ainda, pois, ao menos, as pessoas menos favorecidas, financeiramente, de Salvador, trazem em si a pobreza cultural própria, autêntica e legítima.

Sinto muito, mas é pobre, sim. Uma população precisa ter acesso a todos os meios culturais para enriquecer sua cultura. Dizer que sambar, comer acarajé, ir pro candomblé e jogar capoeira é ter uma riqueza cultural é balela. É pouco. Como é pouco alguém que passa o dia ouvindo Mozart e nunca viu o Ilê Aiyê subir o Curuzu.

É natural que, num povo onde se exalta a mediocridade de se bastar com sua cultura endógena, a cultura seja rasa e as possibilidades exíguas. Com isso, não tem teatro, música, dança nem literatura que se sustente. E, o pior, começa-se a pensar que o “especial” povo de Salvador tem suas particularidades, num egocentrismo pateta que serve de desculpa à falta de educação e cultura de nossa população.

Enquanto os governos, as instâncias privadas e públicas responsáveis por diretrizes culturais, enquanto os pseudo-intelectuais que se valem de modismos pra serem publicados e incensados, enquanto esse pessoal todo continuar legitimando nossa pobreza cultural, não haverá como melhorar nossa miséria. Não poderemos pensar em uma economia da cultura, em um mercado de trabalho digno pro artista, onde ele não precise de emprego paralelo, nem tampouco depender 100% do estado, pra poder sobreviver e fazer sua arte.

Salvador tem um potencial imenso, pelos pensadores e artistas que tem, pelos recursos, pela inventividade, pra se tornar uma cidade do século XX. Desde a década de 50 que tentamos. Mas a persistência no amadorismo, no folclorismo e no medo de crescer que acomete as províncias, em geral, faz com que o século XXI seja um futuro inalcançável, por enquanto. Tornemo-nos modernos, por enquanto. Já é um começo.

Vamos parar de achar que Salvador é linda, que seu povo é lindo, que sua cultura é linda. Um bom começo é ensinar as pessoas a ver a poesia das coisas. Estamos petrificados frente à poesia do mundo.

E pra que se aguce a possibilidade de ler a poesia das coisas é preciso educação e cultura. Outra cultura. A cultura que não querem dar ao povo; seja porque acham lindo o povo ser do jeito que é, seja porque é mais difícil fazer uma revolução cultural sólida, ou seja, principalmente, porque um povo culto vai perceber melhor a merda em que está vivendo e os merdas que estão no comando.

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NOTA DO EDITOR – Este post fica mais completo terminando com o comentário que o próprio Gil Vicente Tavares postou e que trago agora para o primeiro plano:

Caro Jary,

Primeiro, quero agradecer pelo “diálogo”. Seria bom você divulgar o site do meu grupo, http://www.teatronu.com, que tem mais coisas sobre meu trabalho e dá acesso ao blog onde postei o artigo.
O blog vem há mais de 4 anos discutindo arte, cultura e sociedade e muitas águas e discussões já rolaram por lá.
Ficarei mais atento ao seu blog, aqui, e quando puder dê uma olhada lá no blog do Teatro NU.

grande abraço,

GVT.

ps: O endereço do myspace que você colocou se resume mais à minha carreira na música, mas é superválido como referência, também.

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4 Responses to “GIL VICENTE TAVARES SEM MEIAS PALAVRAS”

  1. Maria Cláudia Rodrigues  Says:

    “Eu vou pra Bahia. Lá que é a terra da oportunidade, da Curtura… Eu vou pra Bahia, meu Senhor. Lá é a capitá do Estado. Lá eu vou ter curtura…”

    Vamos começar com a seguinte colocação. Hoje a “Bahia” é o celeiro cultural do estado. Para mim que sou do interior – tenho orgulho de ser da roça, sempre ouvi a mesma frase durante toda a minha existência. Porque lá na “Bahia” tudo é melhor. Lá você tem opção pra tudo, inclusive no que tange à cultura universal.

    Depois, ficando gente grande, vim a desvendar a “Bahia” e vi realmente: a contextualização cultural mambembe onde o estado se encontra – em todas as esferas -, nos seus mas diversos aspectos culturais.

    Suas citações foram da mas alta pertinência. Só que o contexto não se resume à “Bahia” e sim a todo o estado da Bahia. Pois se pudermos dar um 360º em todo o estado, o nível de cultura da população é de uma pobreza generalizada em todas as classes sociais, de mamando a caducando.

    Na minha cidade, Valença, existe um centro cultural – Centro de Cultura Olívia Barradas, administrado pela Fundação Cultural do Estado da Bahia – FUNCEB, onde “nós artistas”, ou fazedores da dita arte, tentamos a grosso modo, tornar a cultura mais acessível à população, com o Projeto Ocupação Cultural, que é 0800, e que tem como base a mostra e intercâmbio com todas as linguagens no nosso município e no território do Baixo Sul.

    Desculpa pelo jabá, mas tive que citar…

    Mas eis que vem o questionamento.
    Como é que se estimula uma população de quase 100 mil habitantes para a prática e participação cultural se ela não tem o mínimo de educação básica? Como contextualizar um adolescente, que só ouve arrocha e pagode, a ouvir Noel Rosa, Pixinguinha, Batatinha, Caetano Veloso (o básico da cultura popular brasileira)?
    Isso, meu caro, acontece na “Bahia” imagine na “roça”, onde o acesso às ferramentas culturais é quase nulo.

    Quem tem um pouco de conhecimento cultural universal quer transmitir, mas o difícil é lutar contra o Golias da ignorância social.

  2. Gil Vicente Tavares  Says:

    Caro Jary,

    Primeiro, quero agradecer pelo “diálogo”. Seria bom você divulgar o site do meu grupo, http://www.teatronu.com, que tem mais coisas sobre meu trabalho e dá acesso ao blog onde postei o artigo.
    O blog vem há mais de 4 anos discutindo arte, cultura e sociedade e muitas águas e discussões já rolaram por lá.
    Ficarei mais atento ao seu blog, aqui, e quando puder dê uma olhada lá no blog do Teatro NU.

    grande abraço,

    GVT.

    ps: O endereço do myspace que você colocou se resume mais à minha carreira na música, mas é super válido como referência, também.

  3. Emilio Palestra  Says:

    O texto é muito mal escrito e cheio de lugar-comum. Pensamento rasteiro, óbvio, conversa de esquina, que acontece todo dia… Imagina escrever e publicar uma conversa de esquina como se fosse um artigo??? Só se for artigo indefinido. Ou definido da seguinte forma: artigo canhestro, com um vernáculo tão pobre quanto a suposta pobreza da cultura baiana… E ainda o erro elementar de português: “e exaltando ela”!!!! Isso para não falar da quantidade excessiva de adjetivos, o gênero mais pobre de uma língua… Se é assim que querem mudar a cultura baiana, prefiro acarajé, que ao menos é realmente gostoso

  4. Rodrigo Fortuna  Says:

    Gil Vicente sem meias palavras? Esse é o problema! Palavras inteiras sem qualquer originalidade. Chovendo no molhado o tempo inteiro, e com um “linguajá” paupérrimo… Quem é que não fala tudo isso sobre a Bahia???????? Até um gari anda falando isso… Com a diferença que os garis têm colhões para citar nomes… E têm o direito de cometer erros de português.

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