O JEITO BURRO DE BAIANO PESCAR

postado por Jary Cardoso @ 11:49 PM |
23 de outubro de 2010

                 

    PESCANDO DE BOMBA

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texto de JOLIVALDO FREITAS

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Maninho, que vem a ser Manoel Vitorino de Castro, herdeiro de solar e terrenos no antigo Porto da Lenha, que fica ali na zona itapagipana, perto do Largo dos Papagaios, mais para o Bonfim que para a Ribeira, perdeu dois dedos. Foi pescar de bomba e a bomba estourou na mão.

Sua família tinha muitas posses desde quando seus antepassados eram fornecedores de pregos e cordoaria para as naus que atracavam na Ribeira para conserto. E depois produtos de carvoaria vindos do Recôncavo.

Diz ele – que nunca provou – que o próprio Imperador D. João VI esteve um dia em sua casa. Que deixou uma carta agradecendo pelo seu trabalho ao tataravô, relativo a conserto de uma galeota imperial – documento este que nunca foi mostrado – porque ele diz hora que as traças comeram e outra que se perdeu nas mudanças ou alguma empregada jogou fora. Também às vezes se confunde, mistura a história e diz que foi Pedro II que lá esteve e as informações históricas não batem, mas achamos que é por conta de tanta cachaça de raízes na cachola.

Interessante é que Maninho sempre nos disse que tinha visões. Que se quisesse poderia ser vidente e ganhar a vida com isso. Garantia que era coisa de família e que os mais antigos praticavam a arte de ver o futuro entre eles mesmo; que era para não ficarem “queimados” na comunidade ou vistos como fofoqueiros ou mentirosos, embora garanta que nunca ocorreu de olhar o futuro e ter erro.

Diz ter ouvido desde menino que a família tinha origem lá pelas bandas de Salinas das Margaridas, mas que a pedido do governador Virgílio Damásio foi instada a vir para a Bahia de São Salvador, para dar apoio àqueles que chegavam de alto-mar e paravam para abastecimento no Porto dos Mastros lá do outro lado da enseada ou para conserto na Ribeira.

Chegaram e foram ficando, pois o pedido de material crescia a cada dia e eles faziam vir também do sertão todo o material que precisavam para calafetar embarcações, empanar as velas ou cordames. Vinha sisal, piaçava, cedro, breu e outras resinas.

A família foi ficando rica, comprando áreas à beira-mar e viu o logradouro crescendo aos poucos. Presenciou a cena dos mastros se multiplicando na praia, que não era de areia, mas de lama com alguns pontos do perau onde dava para fundear os barcos e jogar suas âncoras quando a maré estava alta. E viu rareando os mastros com o passar dos anos.

Maninho diz q ue ainda pegou um pouco de riqueza, mas que com o tempo a situação foi ficando complicada. Seis tios não tiveram o mesmo tino comercial e nem a força de trabalho dos parentes antigos e ao invés de construir destruíram. O dinheiro foi escasseando ao mesmo tempo em que o Porto da Lenha desaparecia gradualmente com os saveiros também ficando escassos e as naus foram substituídas por vapores e em seguida por navios de grandes calados que nem sequer passavam perto.

A própria memória dos moradores foi se extinguindo com a morte dos fundadores e o crescimento do bairro do Bonfim, da Avenida Beira-Mar, Largo do Papagaio e Madragoa. Hoje só se lembra da Ladeira da Lenha, por onde subiam os negros carregando sacos de aniagem com carvão descarregados dos saveiros, em dia de Lavagem do adro da Igreja do Bonfim. Mesmo assim porque os bêbados descem desequilibrados das pernas, para mijar na praia.

Foi então que Maninho teve visão de tudo isso, de forma retrospectiva e se assustou quando um parente já morto sussurrou que devia deixar este negócio de pescar de bomba. Justamente no dia em que mandara buscar um petardo de trezentos gramas de pura pólvora e pedaços de pedra cabeça-de-nego lá em Encarnação de Salinas. Preparava-se para explodir a manta de tainha – coisa que mais gostava de ver são os buchos estourados e a peixada boiando – e veio a visão alertando e era tarde. Distraiu-se dos afazeres e quando se deu conta tinha acendido o pavio e só deu tempo largar a bomba que mesmo assim explodiu perto da mão e levou o dedo médio e o anelar.

Menos mau, mandou dizer com carta escrita com a mão esquerda em letras irregulares. Pior seria se tivesse afundado e perdido a canoa. Agora era só deixar curar que voltava à lide. Quem pesca de bomba se avicia, conclui a missiva.

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