CABEÇA FEITA NA LIBERDADE

postado por Jary Cardoso @ 2:45 PM |
22 de novembro de 2010

Estava eu e minha família, neste domingo pela manhã, na fantástica e maravilhosa Igreja de São Lázaro, na Rua Lima e Silva, bairro da Liberdade, na Cidade da Bahia, participando dos rituais de batizado da afilhada Nicole, de 3 anos, quando comecei a reparar no corte de cabelo de alguns rapazes ali presentes. As cabeças são feitas com muita criatividade no bairro de maior população afrodescendente fora da África, mas desta vez identifiquei uma novidade – pelo menos para mim – no desenho do corte. Abordei um desses jovens e perguntei se ele topava posar para o Jeito Baiano, dando continuidade à série “Cenas Baianas – Cabeça feita”, com fotos tiradas pela cantora VILMA NASCIMENTO, primeira-dama deste blog. Essas imagens estão em dois posts de junho de 2009:

http://jeitobaiano.atarde.uol.com.br/?p=376

http://jeitobaiano.atarde.uol.com.br/?p=366

Mario Neto – esse o nome do rapaz de cabeça bem feita – topou fazer as fotos, tendo como pano de fundo a parede da fachada da igrejinha. Confira:

Mario Neto tem 17 anos, é morador do Curuzu, cursa a 8ª série e sua cabeça foi feita pelo cabeleireiro Mé. Parabéns para Mario e parabéns para Mé!

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Depois da missa e batizado oficiados somente por mulheres sacerdotizas, cerimônias que lotaram o pequeno templo – também conhecido como Igreja Católica Ortodoxa do Brasil –, fomos para a casa de Nicole, ali perto, em Santa Mônica. Nos dois locais, Vilma fez outras fotos:

Barbearia do bairro de Santa Mônica, na região da Liberdade

O corte moicano de Neymar revisitado por Cleiton, morador de Santa Mônica, na região da Liberdade

Os cachos de Talita, pequena moradora de Santa Mônica, encantaram a fotógrafa

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Por fim, uma foto tirada dentro da Igreja de São Lázaro pela minha cunhada, WALESKA NASCIMENTO, em que aparecem, à esquerda, a minha sobrinha, VICTORIA NASCIMENTO (para quem não sabe, Vilma, Waleska e Victoria são mineiras da família de Milton Nascimento radicadas no jeito baiano de viver), e, à direita no banco, a grande homenageada do dia, nossa afilhada NICOLE:

Como post scriptum, acrescento esta foto produzida em pleno reino da Liberdade, um dia depois do Dia da Consciência Negra (que também poderia ser o Dia da Consciência Mulata, como propõe o historiador soteropolitano Cid Teixeira):

A madrinha VILMA NASCIMENTO em amores com NICOLE, na foto de WALESKA. A propósito do tema cabeça feita, Vilma foi uma das primeiras pessoas no Brasil a usar o cabelo pixaim trançado

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Como post scriptum nº 2, repasso a pesquisa que fiz no Google para os temas “Bairro da Liberdade” e “Igreja de São Lázaro na Liberdade”. Os textos foram extraídos da Wikipédia e do site “Salvador Cultura todo dia”, da Fundação Gregório de Mattos, órgão da prefeitura

(http://www.culturatododia.salvador.ba.gov.br/index3.php).

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IGREJA DE SÃO LÁZARO

A Igreja Católica Ortodoxa do Brasil/Igreja de São Lázaro, localizada na Rua Lima e Silva, a principal do bairro da Liberdade, em Salvador, realiza missas toda segunda-feira, às 8 horas, com intensa participação popular. A maioria dos fiéis busca um alívio para as dores com o óleo da unção, ou apenas uma proteção com a água benta jogada logo na entrada. Os que estão de passagem entram, recebem a água benta e retornam para recarregar as energias para enfrentar a vida. São homens e mulheres, crianças e velhos, todos eles bastante simples.

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BAIRRO DA LIBERDADE

Antiga Estrada das Boiadas, a Liberdade era passagem dos bois que vinham do sertão e eram comercializados na Feira do Capuame. Em 1823, por ali entrou o exército libertador e então, a Estrada das Boiadas passou a ser chamada Estrada da Liberdade. Considerado como o bairro mais populoso da cidade de Salvador, e representativo da cultura negra, o fez ser considerado pelo Ministério da Cultura como o território nacional da cultura afro-brasileira. O povoamento da Liberdade se deu logo depois da abolição da escravatura, com a ida de negros libertos e ex-escravos para o local.

A Liberdade não é só o bairro mais negro de Salvador e do Brasil. É especial. É único. É um país, onde a negritude é a maior referência, a espontaneidade é uma lei, e a manifestação artística é a principal linguagem de expressão.

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DEPOIMENTOS

Cid Teixeira, historiador (www.cidteixeira.com.br):

Liberdade… Aí era a estrada das boiadas. O boi que descia do sertão era comercializado na feira do Capuame, feira de gado, Capuame, que depois mudou o nome para Dias D’Ávila, hoje é a cidade de Dias D’Ávila, ali estava a feira do gado. Esse gado era trazido para o abate. O abate da cidade estava onde hoje é o terminal da Barroquinha, ali é que era o matadouro da cidade. Por isso que o rio se chama de rio das Tripas, porque os dejetos, as sobras do sacrifício dos animais eram jogadas no rio das Tripas. O rio das Tripas está lá, a Baixa dos Sapateiros não existe, ela é um rio canalizado, você anda por cima do extradorso da abóbada que cria a Baixa dos Sapateiros, o rio das Tripas está lá. Então, este gado vinha pela estrada que você chama da Liberdade, que era a estrada das boiadas. Em 1823, por ali entrou o exército libertador e então, a estrada das boiadas passou a ser chamada estrada da Liberdade.

[A negritude associada ao Bairro da Liberdade é um fenômeno...]

…recentíssimo. Eu que estou falando aqui, sou do tempo em que a Liberdade eram quatro ou cinco roças, roças com bois e vacas e essas coisas. Essa concentração de pobreza e negritude na liberdade é coisa de quarenta ou cinquenta anos para cá, não é muito antiga, não. Outros bairros se embranqueceram, por exemplo, um bairro onde só tinha negro mesmo, que era o Caxundé; hoje ninguém mais sabe nem onde é o Caxundé quanto mais falar em negro lá dentro. Corresponde hoje ao Jardim de Alá, ali, na Pituba. O trator chegou, urbanizou tudo, fez casinhas bonitinhas e acabou com a negritude de lá. A Liberdade não tem essa história negra, não; eram roças. Seu Chico Mãozinha era dono de tudo o que é hoje, Corta braço, Pero Vaz era a roça dele e eu conheci, eu estive lá, na roça dele, eu que estou aqui; portanto, não é coisa do século XVII, não. Eu vi, andei lá, como andei na Pituba com medo das vacas, com medo dos bois correndo atrás da gente.

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Hilda dos Santos (Mãe Hilda) – Comunidade do Ilê Aiyê – Curuzu:

Cheguei na Liberdade com meus pais em 1930. Tinha sete anos. Isso aqui tinha todas as aparências de quilombo, desses que você só ouviu falar. (…) Todos os moradores eram negros. Algum escravo liberto, tinha muitos que eram africanos mesmo, mas a maioria era filhos deles, os filhos da escravidão.

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Zebrinha – Balé Folclórico da Bahia:

Na Liberdade comecei a aprender a ser eu mesmo, a perceber o que é ser negro. Vi que eu fazia parte de uma comunidade não privilegiada, ou melhor, totalmente desfavorecida. Percebi que para ser alguém eu iria ter que ralar pesado ou então dançar. E acabei dançando!

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Lucy Antônia – Grupo Integrado de Adolescentes GIA – Liberdade:

“Eu vejo um futuro melhor. Vejo pessoas inquietas, questionando uma cidade e essa cidade vai ter que dar uma resposta a essas pessoas. Vejo adolescente que se mobilizam e se interligam, sabem que não podem andar sozinhos e que vão dar uma cara nova a essa cidade.

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One Response to “CABEÇA FEITA NA LIBERDADE”

  1. victoria  Says:

    Looks maravilhosos, trabalhosos, feitos em suas comunidades ou em seus próprios lares sem a necessidade de gastos exorbitantes em salões caríssimos, onde se paga a localidade, sem tirar o mérito dos profissionais, é claro…

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