VALE A PENA LER DE NOVO – RENATO PINHEIRO

postado por Jary Cardoso @ 9:26 PM |
28 de maio de 2009

Quadro de Portinari que representa a chegada da família real ao Brasil – Foto: Iracema Chequer | AG. A TARDE Data: 05/03/2008

Quadro de Portinari que representa a chegada da família real ao Brasil – Foto: Iracema Chequer | AG. A TARDE Data: 05/03/2008

O PRÍNCIPE REGENTE

E OS PITUS DE POJUQUINHA

Surpreendi-me, um dia desses, a refletir sobre se o Príncipe Regente, Dom João, chegou a passar o Carnaval em Salvador com toda a corte portuguesa, há exatos 200 anos. Vai que em 1808 o Carnaval também tenha caído no comecinho de fevereiro, como em 2008. Se assim ocorreu, ele foi alcançado por Momo umas duas semanas depois de chegar em terras baianas, nas quais permaneceu com sua corte por pouco mais de um mês.

Continuei a conjecturar. Como teria sido o Carnaval de Salvador naquele ano? Já existia? Certeza mesmo só a de que os trios de então não deviam ser elétricos e a axé music ainda não andava em voga. Teria Dom João caído na folia? Teria a corte portuguesa dado um show de alegorias e adereços? Uma hora dessas vou consultar o meu amigo Antonio Risério – historiador atento, ele certamente sabe, ainda mais se tiver havido furdunço.

Dom João, aliás, já dera mostras de ter chegado animado em Salvador, onde foi logo abrindo os portos às nações amigas. Isso é o que se sabe. Se a maioria das coisas que ocorrem hoje em Salvador não chega aos registros históricos, calcule há 200 anos. Mas, nem é preciso muito esforço mental para imaginar a confusão que deve ter sido a chegada à velha Cidade da Bahia daqueles personagens exóticos da monarquia européia. Uma rainha maluca, seu estranho filho, uma princesa espanhola destemperada e mais algumas centenas de pessoas afetadas, empavonadas e fedorentas.

O que teria feito aquele povo todo enquanto zanzava por aqui? Praia estava fora de cogitação, não eram chegados a banho. Os resorts do Litoral Norte ainda não tinham sido inaugurados. Nem o Teatro Castro Alves. O Mercado Modelo ainda era o prédio da Alfândega. Até para almoçar no Iemanjá era complicado, levava uns dois dias para ir e voltar. Dona Carlota Joaquina, numa noite de absoluto marasmo, teria convidado o Príncipe Regente para jantar no Chez Bernard, no aristocrático bairro da Gamboa. Dom João teria ponderado que, embora a Gamboa já existisse, o Chez Bernard ainda não existia, mas sugeriu que podiam arriscar alguma coisa no Solar do Unhão, quem sabe…

Depois do Carnaval, então, o tédio deve ter se instalado no seio da corte portuguesa. O que fazer nos dias que ainda restavam na Bahia? Se a mim coubesse recuar no tempo, eu aconselharia Dom João e sua corte a se deslocarem em direção a Itacimirim e, lá chegando, tomar à esquerda no sentido da bela foz do rio Pojuca. Ainda hoje, aquela é uma praia quase secreta, tranqüila até nos fins de semana. Naquele tempo, não devia ter ninguém. O pessoal ia poder comer uma agulhinha frita e tomar uma cervejinha gelada na maior tranqüilidade.

Saindo de lá, eu recomendaria enfaticamente a Dom João que fosse com todos os seus viscondes, duques, marqueses, condessas e duquezas para o povoado de Pojuquinha, a uns cinco quilômetros dali, e lá procurar a Toca do Pitu, restaurante meio escondido, bastante simples, que serve a melhor moqueca de pitu dos arredores de Salvador. Dá para encomendar a moqueca e ir tomar um banho de cachoeira ali pertinho, enquanto o prato não fica pronto. Naturalmente que isso eu não iria sugerir ao príncipe, pois, como já expliquei, banho não fazia a cabeça da turma dele.

Mas, estou certo de que Dom João teria gostado do passeio. Talvez até, depois de Pojuquinha, ele pudesse ter mudado o seu hábito mais conhecido e criticado, passando a carregar nos bolsos saborosos pitus ao invés das indefectíveis coxas de galinha.

FOTO RENATORENATO PINHEIRO escreveu este texto em 2008 para a revista Viver Bahia, então editada por Vander Prata

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No Responses to “VALE A PENA LER DE NOVO – RENATO PINHEIRO”

  1. Aparecida Alencar  Says:

    Gostaria de receber no meu gmail mais textos sobre a chegada da família real no Brasil. Seu texto é ótimo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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