VIVALDO DA COSTA LIMA: 4 LIVROS E 1 FILME

postado por Jary Cardoso @ 12:47 PM |
14 de fevereiro de 2011

Nesta segunda-feira, dia 14 de fevereiro de 2011, a partir das 19 horas acontece na Cidade da Bahia uma programação imperdível para os amantes da cultura baiana, especialmente a cultura afro-baiana: o lançamento, pela Editora Corrupio, de quatro livros do antropólogo VIVALDO DA COSTA LIMA (1925-2010), incluindo a reedição de seu clássico A Família de Santo nos Candomblés Jejes-Nagôs da Bahia, e mais a exibição de Diálogo – Vivaldo da Costa Lima, um filme-entrevista inédito, realizado por Geraldo Sarno em 2006 com a participação do professor Cláudio Pereira, amigo e discípulo de Vivaldo, ambos presentes ao evento no Espaço Unibanco de Cinema – Glauber Rocha e Galeria do Livro.


O blog Jeito Baiano homenageou Vivaldo da Costa Lima alguns dias depois de seu falecimento, ocorrido em 22.9.2010. Veja o post:

http://jeitobaiano.atarde.uol.com.br/?p=2505 que contém seis textos sobre ele e indica posts anteriores do blog que o citam.

Este novo post traz informações sobre os quatro livros e o filme e mais três artigos exaltando a figura deste que é um dos mais importantes intelectuais da Bahia.

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CORRUPIO APRESENTA

OBRAS DE VIVALDO DA COSTA LIMA

Editora lança trabalho inédito do antropólogo – em que entrevista Olga de Alaqueto – reedita clássico e apresenta dois volumes com artigos

Conhecedor da cultura baiana, o antropólogo Vivaldo da Costa Lima morreu em 22 de setembro de 2010, ciente de que sua obra seria perenizada. Ainda em vida, ele fez as últimas notas do livro inédito A Comida de Santo Numa Casa de Queto da Bahia, cuja autoria atribuiu a Olga Francisca Régis (Olga de Alaqueto).

O estudioso também já havia conferido as versões editadas de A Anatomia do Acarajé e Outros Escritos e de Lessé Orixá – Nos Pés do Santo, ambos da coletânea Ephemera. Esses livros estão sendo entregues às livrarias pela editora Corrupio, que antes já havia disponibilizado para o público a terceira edição de A Família de Santo nos Candomblés Jejes-nagos da Bahia: Um Estudo de Relações Intragrupais, um clássico do autor.

Quatro meses após a morte do Professor Emérito da Universidade Federal da Bahia e Obá de Xangô do Ilê Axé Opô Afonjá, as quatro publicações são apresentadas ao público em forma de coleção de textos de Vivaldo da Costa Lima. A realização do projeto editorial conta com o apoio financeiro do Fundo de Cultura, Secretaria de Cultura do Estado da Bahia.

Desde o ano de 2005 que a editora Arlete Soares havia convencido Vivaldo a publicar os seus trabalhos, como um marco que comemoraria os 30 anos de fundação da Corrupio. A proposta foi viabilizada graças aos esforços de Rina Angulo para obtenção de recursos e seu gerenciamento.

A Corrupio já havia feito, do autor, A Família de Santo nos Candomblés Jejes-Nagôs da Bahia: um estudo de relações intragrupais (segunda edição, de 2003) e ainda Cosme e Damião: o culto dos santos gêmeos no Brasil e na África (2005).

O convívio nos fez aprender muito sobre o antropólogo – diz Arlete Soares, diretora da Corrupio.

Estilo inconfundível

Editora das publicações, Cida Nóbrega conviveu estreitamente com o pesquisador, desde o momento em que recebeu os primeiros artigos para digitar até os últimos encontros. Ela considera que a importância da coleção reside em proporcionar a visão de conjunto da obra do autor, uma referência na antropologia baiana, a partir de sua tese sobre A Família de Santo nos Candomblés da Bahia, que teve primeira edição pela Universidade Federal da Bahia, em 1977.

Os trabalhos de Vivaldo da Costa Lima “são escritos num estilo inconfundível, em linguagem culta, com senso crítico apurado e erudição”, analisa a editora, que ainda destaca que a coleção cobre cinco décadas de produção do autor, eminentemente um professor, que tinha a preocupação de gerar textos com função didática.

Seus trabalhos, mesmo os roteiros de aulas, são preparados começando sempre por uma definição do tema, da metodologia, uma revisão bibliográfica importante, em alguns casos exaustiva, indicando o que existia escrito sobre o tema em questão nos autores nacionais e estrangeiros e não apenas em livros, mas em revistas e anais.

O desejo do antropólogo era reunir seus escritos (preparados para fins diversos como aulas, conferências, palestras, participação em congressos e alguns publicados em coletâneas) numa publicação, de modo que pudessem ser apreciados em seu conjunto, organizados por ordem de produção.

Muita coisa ainda restou em seus arquivos e merece ser examinada com vistas a publicação – avalia Cida.

De Nina a Amado

No seu trabalho, Vivaldo da Costa Lima faz referência a nomes como Edison Carneiro, Nina Rodrigues, Manuel Querino, Câmara Cascudo.

São autores que criaram uma obra importante sem ter os recursos dos autores de hoje que dispõem de acesso a uma vasta literatura sobre os temas que trataram de modo profundo, abrangente e corajoso – diz Cida Nóbrega, justificando a citação dos escritores.

Jorge Amado é uma constante também, talvez pela ligação com a cultura de sua terra, que conhecia profundamente, incluindo o Candomblé, de onde tirou inspiração, acrescenta a editora.

Um dos pioneiros do Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO), ali Vivaldo se dedicou a estudos sobre a Linguagem do Candomblé, de 1967 a 1969. Em 1971/1972, desenvolveu pesquisa para elaboração de sua tese – A família de santo –, para a qual entrevistou os principais líderes de 23 terreiros dos mais significativos e de várias nações encontradas em Salvador.

Agora a Corrupio traz à tona a inédita pesquisa sobre a cozinha sacrificial do terreiro do Alaqueto, com D. Olga Francisca Régis, então mãe de santo da casa (1965).

Amizades

O antropólogo Peter Fry, na quarta capa de A Família de Santo, da Corrupio, afirma que a “clareza de exposição e a erudição do autor dão ainda ao texto um valor maior. É um depoimento engajado de um pesquisador de mão cheia, um membro de longa linhagem de grandes intelectuais baianos, para quem o Candomblé é muito mais que um simples objeto de estudos ou curiosidades étnicas”.

Vivaldo nutria admiração e amizade por muitos líderes dos candomblés da Bahia: Mãe Aninha, Mãe Senhora – que conheceu bem –, Olga do Alaqueto, Mãe Stella, Mãe Menininha, Moacir de Ogum. Em alguns terreiros ele teve cargos, como Obá de Xangô do Axé Opô Afonjá, e respeitava as responsabilidades do cargo.

Ele estudava, admirava a cultura, as tradições, principalmente seus líderes e dava o retorno que dele se esperava – diz Cida, que cuidou para que as quatro publicações chegassem às livrarias do país com a ortografia ajustada ao acordo ortográfico de unificação da língua portuguesa.

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OBRAS DE VIVALDO DA COSTA LIMA

A foto da capa é de PIERRE VERGER. O antropólogo VIVALDO DA COSTA LIMA está à direita com a família do Alaqueto, carregando nos braços Nilsinho, filho de Olga do Alaqueto, que hoje é babalorixá em Portugal

* Inédito:

A Comida de Santo Numa Casa de Queto na Bahia – de Olga Francisca Régis, introdução e notas de Vivaldo da Costa Lima. Esse volume traz a publicação de um trabalho de pesquisa realizado pelo autor em1965, no terreiro do Alaqueto, em Salvador. O tema é a comida sacrificial praticada naquele terreiro, analisada pelo autor nos aspectos significativos da simbologia, da mitologia e da tradição religiosa, da etno-história e etnolinguística.

O livro traz um texto básico – que é a transcrição integral das entrevistas com a ialorixá Olga Francisca Régis, morta em 2005, sem correção nem edições. O antropólogo VCL assina as notas, em cujo conteúdo pretende esclarecer, informar e sugerir suas próprias interpretações, indicar fontes utilizadas para a compreensão do texto áureo.

A originalidade dessa publicação reside no fato de o tema ser abordado de uma forma mais completa, com referência ao significado de certos ingredientes, ligados à mitologia e à liturgia do culto aos orixás, e sobre sua preparação. Os trabalhos existentes sobre o assunto se limitam a uma abordagem classificatória ou seguem o estilo “livros de culinária” com ingredientes, quantidades.

Ilustrado com 12 fotografias em preto e branco. Páginas: 124/ Preço: R$ 40

OLGA DO ALAQUETO. Foto de ADENOR GONDIM

Trechos:

De Exu, me disse Olga: ‘Exu come de tudo. Come com os outros santos. Todos os santos que comem dão um quinhão a Exu’”

O texto de Olga está aí, na sua rica expressividade, com suas variantes dialetais e seu estilo muito pessoal – falando dos orixás de sua casa como de seres com quem, sempre, desde menina, manteve uma interação cotidiana, no conhecê-los bem e no servi-los com dedicação e rigor”.

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* Coletânea Ephemera:

1 – Lessé Orixá: Nos Pés do Santo. Reúne 19 textos sobre temas diversos dos estudos da cultura afro-baiana e brasileira, sempre numa abordagem antropológica, etno-histórica ou etnolinguística, em que o autor analisa conceitos, simbologia, mitos, ritos, costumes e tradições, tratando os temas nas suas manifestações no Brasil e nas nações africanas de onde foram trazidos e com o rigor e aprofundamento característico da obra de Vivaldo da Costa Lima.

Foto da capa é de PIERRE VERGER. O antropólogo VIVALDO DA COSTA LIMA aparece ao lado de MESTRE DIDI em frente ao ILÊ AXÉ OPÔ AFONJÁ

O simbolismo da direita e da esquerda no Candomblé da Bahia, Os Obás de Xangô, Transe e possessão, Candomblé da Bahia na década de trinta, Candomblé no Centro Histórico e As festas no Centro Histórico são alguns dos temas tratados neste volume.

Páginas: 328/ Preço: R$52

Trecho:

É preciso proclamar a necessidade da morte, coisa que, como vimos, muitas culturas sempre souberam e acataram e que a ciência moderna terminou por encontrar. Na verdade, a morte, para o biologista, é o que torna diariamente possível a sobrevivência da espécie e assegura, com sua renovação, as chances de mutação” (de A Morte e o Morrer)

2 – A Anatomia do Acarajé e Outros Escritos. Esse volume reúne os escritos do autor sobre culinária, alimentação, mais propriamente a cozinha baiana e seu enraizamento nos cultos dos orixás e voduns – a comida dos santos.

Seria mais adequado falar de etnoculinária, resultado dos estudos a que se dedicou o autor nas últimas décadas – a culinária, a alimentação em seus aspectos socioantropológicos, socioeconômicos, etno-históricos, os simbolismos, os ritos e costumes, variantes regionais etc., acrescidos de uma exaustiva revisão bibliográfica sobre o assunto, entre autores nacionais e estrangeiros.

A obra se constitui de 12 artigos escritos para cursos, palestras, participação em congressos nacionais e internacionais, publicação em revistas especializadas, aulas inaugurais etc.

Páginas: 180/ Preço: R$40

A capa reproduz a aquarela de SANTE SCALDAFERRI que decorava a sala de entrada da casa de VIVALDO DA COSTA LIMA, segundo informação de seu amigo e discípulo, o antropólogo CLÁUDIO PEREIRA

Trecho:

Estranhei aquela história de pimenta misturada com a massa ainda crua. Estava já me preparando para audaciosas análises estruturais sobre a pungência e a fritura, quando lá, em seguida, em nota ao texto, leio: ‘Se preferir, a pimenta pode ser frita separadamente no azeite para fazer o molho [...]’ . E a antropologia perdeu aí uma brilhante análise estrutural do nosso acarajé.” (de A Anatomia do Acarajé)

* Reedição:

A Família de Santo nos Candomblés Jejes-Nagôs da Bahia: Um Estudo de Relações Intragrupais. Reedição da obra clássica do autor, que teve uma primeira publicação facsimilar pela própria UFBa, em 1977; uma segunda edição, com revisão completa do texto, notas e referências, saiu pela Corrupio em 2003 e já se encontrava esgotada.

O livro trata da organização interna dos terreiros de Candomblé, pautada no parentesco engendrado na iniciação ritual; a estratificação baseada no princípio da senioridade e hierarquia; formas de liderança e sucessão, as relações intragrupais, conflitos e tabus.

Páginas: 216 p./ Preço: R$ 45

Foto da capa é de PIERRE VERGER: Maria Bibiana do Espírito Santo (1890-1967), SENHORA, ialorixá do AXÉ OPÔ AFONJÁ, acompanhada de suas filhas de santo

Trecho:

O rito de iniciação constitui o primeiro e decisivo momento da integração das pessoas no candomblé e estabelece uma relação permanente que é a própria essência da organização social do grupo. A iniciação, em suas várias formas, além dos aspectos psicológicos que envolve, por ser o meio pelo qual as pessoas se identificam com seus orixás, provê, ainda, o mecanismo de agregação no grupo em que se poderá, eventualmente, atingir uma completa participação nas hierarquias dirigentes”.

SOBRE O AUTOR:

Vivaldo da Costa Lima nasceu em Feira de Santana, em 1925. Com 19 anos, se formou em odontologia e em seguida se especializou em cirurgia da boca, em São Paulo. Ao retornar para a Bahia, passou a se interessar pelas ciências sociais, dedicando-se, especialmente, à cultura afro-brasileira.

Criou, ao lado de George Agostinho da Silva, o Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO/UFBa), fundado em 1959, e foi o primeiro antropólogo baiano a viajar para a África, onde fez pesquisas de 1960 a 1963.

Em 1966, ingressou como professor substituto de Thales de Azevedo na cadeira de Antropologia, na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia.

Intelectual que vivia as mudanças no cenário baiano, naquela década, VCL convivia com artistas, personalidades e intelectuais, tendo recepcionado, por exemplo, Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir quando o casal francês visitou a Bahia. Levou os escritores para uma visita ao terreiro do Opô Afonjá.

Foi o primeiro diretor do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia – IPAC (fundado em 1967). Estava no cargo quando coordenou o processo de restauração do Pelourinho.

Jovens que até os anos 80 nunca tinham ido ao Centro Histórico lotavam os bares do Pelourinho. Isso deu ao baiano uma nova autoimagem”, anotou em artigo o cantor e compositor Caetano Veloso.

Em 2005, aos fazer 80 anos, recebeu o título de Professor Emérito da Universidade Federal da Bahia, a Medalha Roquette Pinto da Associação Brasileira de Antropologia (ABA) e proferiu conferência sobre a trajetória da alimentação na Bahia e o acarajé.

Dono de uma biblioteca sobre cozinha com origens africanas, dedicou-se a estudar e a falar sobre a gastronomia do seu Estado, especialmente sobre as comidas de santo. É respeitado como um estudioso pioneiro da formação do povo brasileiro.

Este livro, que pode servir como iniciação à obra de VIVALDO DA COSTA LIMA, foi organizado por JEFERSON BACELAR e CLÁUDIO PEREIRA e contém 14 ensaios sobre as várias vertentes das pesquisas vivaldeanas. Entre os autores aqui reunidos, estão Waldir Freitas Oliveira, Yeda Pessoa de Castro, Júlio Braga, Armindo Bião e Peter Fry

 
 
 

 

 
 

MESTRE DIDI, PIERRE VERGER E VIVALDO DA COSTA LIMA em foto do Arquivo analógico de A Tarde, cuja digitalização foi produzida por Cleidiana Ramos para seu blog MUNDO AFRO

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ARTIGOS SOBRE VIVALDO DA COSTA LIMA:

VIVALDO DA COSTA LIMA segundo ilustração de ANITA DOMINONI

 

AO MESTRE, COM CARINHO

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texto de ANTONIO RISÉRIO*

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Vivaldo da Costa Lima nunca foi meu professor, em curso algum. Mas, entre inícios da década de 1970 e finais da de 1990 – quando compromissos políticos e profissionais foram me afastando fisicamente, sempre mais, da Bahia –, me ensinou muito e sobre os mais variados assuntos. Foram conversas e mais conversas, em algumas reuniões, alguns encontros, algumas festas, mas principalmente circulando pela cidade, entre petiscos e bebidas, do centro histórico a Itapoã, passando, sempre, pelo bairro do Rio Vermelho.

Não quero chorar ou lamentar nada – nem dizer coisas do tipo “a Bahia ficou ainda mais pobre sem ele”. Apenas lembrar uma coisa. Vivaldo foi raro exemplo de homem de pensamento e ação. Era nosso antropólogo maior. E, certamente, um dos maiores antropólogos brasileiros. Mulato culto e sofisticado (no mais das vezes, dizia-se “branco baiano”, citando a classificação de Peirson), leitor de Mauss e Proust, foi, entre outras coisas, uma espécie de “intelectual orgânico” do candomblé. Gostava de beber (em um de nossos últimos encontros, no Gantois, me disse que o médico tinha-lhe proibido o consumo de cerveja – e que, portanto, por recomendação médica, ia passar a beber uísque), ler, conversar e comer, juntando o útil ao agradável em seus estudos de antropologia da alimentação. Era irônico e autoirônico. Para tudo, inclusive para si mesmo, tinha um olhar ao mesmo tempo cortante e generoso.

Como homem de ação, esquerdista em governos carlistas, foi quem de fato meteu a mão na massa em defesa da riqueza histórico-arquitetônica da Cidade da Bahia e do Recôncavo. Claro: antes dele, alguns intelectuais tinham protestado contra a demolição da velha Sé. Em 1935, a Semana de Urbanismo, realizada em Salvador, ressaltou a importância de nosso patrimônio. Caymmi não tomou conhecimento da modernização da cidade, celebrando, antes, as sacadas dos sobrados coloniais ou imperiais. Adiante, Diógenes Rebouças, elegantizando o traçado da Avenida de Contorno, evitou que aquela via destruísse o Solar do Unhão. Etc. Mas foi com Vivaldo à frente que a questão da memória arquitetônica e urbanística ganhou, entre nós, outra densidade e visibilidade. Na época em que ele defendia o patrimônio de Salvador, seu amigo Roberto Pinho fazia um cadastramento, casa por casa, de Cachoeira, que serviu de base para o tombamento da cidade. Foi graças a Vivaldo, enfim, que o Pelourinho foi considerado “patrimônio da humanidade”.

Com todo seu destempero e sarcasmo, era homem fino, educadíssimo. Amante, embora quase nunca o confessasse, da civilidade, do trato gentil, das normas e mesmo da etiqueta (fosse ela “vitoriana” ou candomblezeira – como Verger, aliás, que admirava o sentido hierárquico das relações dentro do terreiro de candomblé). Nunca me esqueço de um encontro nosso, começo de noite, na Cantina da Lua. Quando ele veio em direção à minha mesa, levantei-me para abraçá-lo e beijá-lo. Ele então falou alto, para o bar inteiro ouvir: “Sigam o exemplo! Aqui está uma pessoa educada. Uma pessoa que sabe se levantar para cumprimentar um amigo!”. Fiquei morrendo de vergonha, mas adorei. E, assim como sabia brigar, sabia desfazer brigas. Fez as pazes entre mim e o antropólogo Júlio Braga, por exemplo. Com um argumento sensacional: “Um já mandou o outro à puta que pariu – agora, podem se abraçar”.

Vivaldo não publicou – mas escreveu – muito. Tinha um senso quase destrutivo de autocrítica. Sempre que eu comentava isso, citava uma carta de Saussure, onde o grande linguista confessava “horror à pena”, dizendo que escrever era um “suplício inimaginável”. Vivaldo, não. Curtia escrever. O problema, para ele, era publicar. Vivia retocando e nuançando tudo, sempre em busca do rigor maior. Mas deixou muitos escritos. Sobre candomblé, culinária, questão indígena, etc. Coisas e mais coisas, que seus interesses eram variadíssimos. Devemos ver o que faremos, agora, com todos esses escritos. Com o baú fernandopessoano que Vivaldo nos deixou. É um tesouro que a Bahia tem em mãos. Saberá cuidar dele?

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*Antonio Risério – Escritor (publicado originalmente em Opinião de A Tarde, 30.10.2010)

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AXÉ VIVALDO,

PROFESSOR EMÉRITO

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texto de LUIZ MOTT*
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Conheci Vivaldo da Costa Lima há mais de 30 anos, ambos antropólogos e professores da Ufba. Visitamo-nos reciprocamente algumas vezes. Generoso, ao fazer uma limpa em sua rica biblioteca, ofertou diversos livros sobre sexualidade ao Grupo Gay da Bahia.

Vivaldo foi um homem reconhecidamente contraditório. Intelectual sério, pesquisador minucioso, seu perfeccionismo impediu-o de publicar mais, não chegando a concluir o doutorado em antropologia iniciado na Unicamp. Alguns de seus artigos e livros tornaram-se referência sobretudo nos estudos sobre família de santo no candomblé e comida afrobaiana.
Sempre tomei a benção a Vivaldo por sua cultura antropológica, pela acuidade de sua argumentação, por seu eruditismo enciclopédico. Sua memória era invejável: certa vez, ao telefone, citei Schoppenhauer, que resumiu realisticamente o casamento como “de dia troca de maus humores, de noite, maus odores…” Intempestivamente Vivaldo pediu que eu esperasse um instante, e em menos de um minuto já tinha encontrado em sua vasta biblioteca o livro e a página exata de minha citação, brindando-me com sua leitura em francês escorreito. Aliás, por seu poliglotismo e profundo conhecimento da cultura baiana, conviveu e foi o cicerone de diversas celebridades que visitaram Salvador na segunda metade do século XX, entre estes, Sartre e Simone de Beauvoir.
Consta, na memória oral da Faculdade de São Lazaro, que o Prof.Vivaldo peitou alguns militares quando invadiram nossa faculdade na época da ditadura. E que na juventude, deu porrada em mais de um homófobo metido a besta, quando alvo do humilhante “tibum” com que identificavam antigamente nas ruas da velha Bahia aos suspeitos de praticar do amor que não ousava dizer o nome.

O lado contraditório de Vivaldo, verdade seja dita, foi seu temperamento explosivo, “dando baixa” e dizendo poucas e boas a quem discordava, nem sempre coberto de razão. Genioso, ciumento, vaidoso, brigou ruidosamente com diversos de seus amigos e colegas. Consequência de seu perfeccionismo: severo consigo e também com os outros. Axé, Vivaldo, professor emérito!

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* Luiz Mott – Professor titular de Antropologia da UFBa (Publicado originalmente em Opinião de A Tarde, 27.10.2010)

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PARA VIVA, COM CARINHO

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texto de ARMINDO BIÃO*

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O filme cult com Sidney Poitier é de 1967, mas só conheci Vivaldo da Costa Lima em 1968. O filme trata de alguém que vira professor e vence preconceitos, assim como Viva. Antonio Risério, que lhe dedicou texto com título similar, também não foi seu aluno, mas eu tive a honra de aprender com ele metodologia de pesquisa e algo de seu rigor. Por estar pensando nele, sempre reescrevendo, em 22 de setembro de 2010, quando recebi a notícia da indesejada das gentes, enquanto, após analisar uma dissertação, eu escrevia para seu autor, registro esse momento agora.

Aprendi com ele em Salvador e Paris, até tomando Marc (destilado de resíduos de pressage) e comentando a obsessão por ordem e método, a intuição e eventual rabugice dos inspetores de ficção Poirot e Maigret. Aí se revelava seu apreço à investigação e à imaginação e, sobretudo, sua tolerância com a complexidade humana. Mas também me recordo de uma aula, nos anos 70, numa pequena sala, na UFBa, em São Lázaro, onde fui curioso das Áfricas e ele ampliou e complicou meu parco entendimento.

Dos anos 80, lembro-me de nosso convívio doméstico, por uns dois meses, quando eu ouvia sua leitura, quase diária, de textos se construindo, com método, intuição e complexidade. E guardo a generosidade do anfitrião, mais recentemente, de nossos encontros a dois de sábado no final da tarde e de almoços com amigos. Quantas dúvidas Viva me ajudou a dissipar e quantas fontes me abriu! A mim e a tantos que pudemos desfrutar de seu conhecimento, ele nos prodigou ao vivo o que a outros legou em publicações, algumas já em editoração por Arlete Soares, com quem vinha trabalhando.

Registro duas de suas revelações, além do conhecimento, de mais de 25 anos, de pessoas gratas e gradas como Michel Maffesoli, Edgard Morin, Regina e François Benhamou e Gerson Sena Marques. O encontro com seu afilhado, Nilsinho, caçula de Dona Olga do Alaketu, que mantém um terreiro em Portugal, há 21 anos, que costumo visitar há sete e onde me sinto bem. E um texto seu de 1960, que ele me deu há 10 anos: “Nota sobre três peças de culto afro-brasileiro expostas na Escola de Teatro da Universidade da Bahia”. A uni-los, nossa história oral e sua complexidade. Como compreender as relações do pai de santo Procópio do Ogunjá com o chefe de polícia de quem era irmão de santo, Pedrito Gordo? Como avaliar o perfil de Martim Gonçalves, criador da Escola de Teatro da Universidade da Bahia?

Viva e Martim incluíram esses três objetos na memorável exposição de 100 dias “Bahia no Ibirapuera” de 1959, em São Paulo, valorizando a arte do cotidiano e que trouxeram, em parte, depois, para a Escola de Teatro. Essas peças pertenciam ao Alaketu, mas haviam desaparecido do candomblé de Procópio, onde estavam por obrigação ritual. Por causa de uma abóbora, quizila do santo do religioso, também dono de quitanda, e do policial, esses objetos acabaram sendo “doados” por Pedrito ao Instituto Histórico e Geográfico da Bahia. A narrativa de Nilsinho sobre isso, de seu ouvir falar, é primorosa. Um dia, quero publicar o texto de Viva e uma possível entrevista com Nilsinho. E relembrar sua importância na liberação dos candomblés da obrigação de pedir permissão à polícia para suas festas públicas.

Agora, tento recompor o que eu escrevia, pensando nele, sobre aquela dissertação, na qual se dizia os portugueses haverem raptado os africanos para escravizá-los: os portugueses, assim como outros europeus e brasileiros, compraram africanos de outros africanos, num processo comercial de larga escala de produção de escravos para exportação, que, em boa medida, induziram, com a participação de poderes locais e regionais, e que substituiu o sistema tradicional, doméstico e tribal, de manutenção de cativos, resultante de disputas étnicas e familiares. Esse horror, o maior crime de lesa humanidade de todos os tempos, que modernizou a Europa e enriqueceu o Brasil, ainda pode persistir na simplificação de sua complexidade. Mas o que eu queria mesmo era mostrar aquela frase a Viva, esperando sua ajuda para fazê-la melhor…

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*Armindo Bião – Pesquisador do CNPq e professor titular de artes do espetáculo da UFBa (Publicado originalmente em Opinião de A Tarde, 27.10.2010)

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MORREU

O GRANDE MESTRE

DA ANTROPOLOGIA

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texto de MARLON MARCOS*

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A primeira vez que ouvi falar sobre antropologia foi, aos 7 anos de idade, da boca do próprio professor Vivaldo da Costa Lima, simbolo da antropologia brasileira, que foi “bater um papo” com os alunos do antigo primário de uma escola pública, situada no bairro do Maciel – Pelourinho, que levava o nome deste grande mestre. Eu, ousadamente, já era aluno do 2º e estava entre os mais curiosos e lhe fiz, na época, várias perguntas… A antropologia me mordeu ali, e desatento, não entendi que esta disciplina, em algum tempo, seria minha maior linha de ação e interesse profissional. Perdi muito tempo. Em 1990, fui aluno do professor Vivaldo no curso de Ciências Sociais, na UFBA, quando, tive contato com sua arrogância , e na mesma proporção, com sua maestria e generosidade intelectual.

Vivaldo se foi… Nesta quarta-feira, dia 22 de setembro; o sol quente dos trópicos e a Primavera iniciando. Se foi deixando discípulos e livros, leituras expressivas sobre a diversidade cultural humana à luz das mais importantes teorias antropológicas que circularam nos meios acadêmicos no mundo. Se foi cumprindo uma vida como homem, intelectual e político – que será para sempre lembrado na cidade e no País que ele tanto contou história, preservou a memória e dignificou o filão dos que usam a ciência como forma de melhorar o mundo explicando a necessidade da coexistência entre os diferentes, e lançando luz sobre os feitos culturais dos que foram submetidos pela escravidão ou pela pobreza social.

E eu aqui: aquele menino descobrindo o termo antropologia em 1977… hoje, um jovem senhor, em 2010, continuo querendo querendo querendo descobrir a antropologia captando e exprimindo a poesia que há nela e que senti pela primeira vez na fala de um dos mestres maiores que esta ciência produziu no Brasil.

Oyá veio buscá-lo… O senhor foi o melhor intérprete do Afro-Brasil… Ogum que lhe dê assento no Orum entre os ventos nobres e negros do povo que o senhor tanto estudou. Olorum modupé e minhas saudades sinceras!!!

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*Marlon Marcos – Jornalista, mestre em Antropologia (texto escrito no final de setembro de 2010)

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