MAIS DA FESTA PELOS 70 ANOS DE CAPINAN

postado por Jary Cardoso @ 8:22 PM |
27 de fevereiro de 2011

José Carlos Capinan, sentado à direita, e Jorge Portugal, ao seu lado, acompanham a performance do artista plástico e escultor italiano Giuliano Otaviani, que usa café servido na xícara como tinta para realçar um desenho inspirado no Pelourinho e dedicado ao poeta aniversariante. Foto de VILMA NASCIMENTO – 19.2.2011

OTAVIANI e CAPINAN. Foto de VILMA NASCIMENTO

O post anterior contém modesta homenagem ao poeta José Carlos Capinan nos seus 70 anos de vida. Uma homenagem mais à altura desta personalidade demandaria muitos posts, ou melhor, uma enciclopédia virtual em permanente construção.

Posto agora a entrevista com Capinan publicada no Caderno 2+, de A Tarde, no dia dos seus 70 anos. É uma entrevista que dá o que pensar, propaga altas sabedorias deste baiano de Esplanada que foi uma das cabeças da Tropicália.

Pois ao chegar à festa, em Itapoã, em que Jorge Portugal homenageou Capinan, eu estava acompanhado do colega jornalista zédejesusbarrêto e nós dois fomos imediatamente convocados a dar um depoimento em louvor ao aniversariante para um documentário sobre ele no momento em que se tornava setentão.

Sou péssimo para falar em público e pior ainda diante de uma câmara, mas mergulhei nessa viagem e fui logo confessando que devo a vida a Capinan e a seus companheiros da Tropicália. Contei que eu era um combatente clandestino da ditadura militar, em meados de 1960, quando o movimento tropicalista me balançou a mente e o coração. Vivia na clandestinidade como militante marxista-leninista disciplinado, porém angustiado, inquieto, querendo explodir, transcender para uma vida mais amplamente revolucionária, mais além da mera “luta de classes”, por uma verdadeira revolução cultural, ou contracultural – era o que a Tropicália sugeria, abrindo as portas da consciência.

E um dia, duas semanas depois do Ato Institucional nº 5, baixado em 13 de dezembro de 1968, eu me dirigia à reunião da direção nacional da Polop, uma organização da esquerda revolucionária, a mesma onde a presidente Dilma Rousseff se iniciou na política, eu caminhava pelas imediações da Avenida São João, no centro de São Paulo, Rua das Palmeiras, quando vi dentro de um camburão da época, a inconfundível perua Chevrolet C-14, Caetano Veloso e Gilberto Gil, evidentemente presos.

A cena presenciada ocorreu justamente no dia da prisão de Caetano e Gil. Naquele momento os agentes da repressão procuravam por Geraldo Vandré com a intenção de matá-lo, conforme Caetano revelou há poucos dias no documentário de Geneton Moraes Neto sobre o exílio dos dois baianos.

E aquela cena dos dois tropicalistas presos funcionou para mim como uma iluminação no sentido budista. Cheguei em transe à reunião clandestina, botei um disco dos Beatles na vitrola e comecei a dançar enlouquecido, e só parei de dançar no dia seguinte, já desbundado, não mais quase guerrilheiro que logo poderia ter sido morto a tiros ou sob tortura.

A Tropicália salvou minha vida e aproveitei a oportunidade do depoimento ao documentário sobre os 70 anos de Capinan para agradecer a ele e ao movimento que ele ajudou a criar.

E depois de mim, zédejesusbarrêto prestou depoimento reforçando minhas palavras, ao dizer que a Tropicália foi um movimento revolucionário político e cultural muito mais efetivo e realizador do que a esquerda revolucionária militante jamais conseguiu.

Nesse depoimento, também agradeci a Capinan pelas belas palavras, de alto astral, lançadas na entrevista que reproduzo abaixo.

No final deste post, está a letra de Movimento dos Barcos, de Jards Macalé e José Carlos Capinan, seguida do YouTube dessa música interpretada por Maria Bethânia no histórico show Rosa dos Ventos, de 1971, dirigido por Fauzi Arap (antes de cantar a música citada na entrevista de Capinan, Bethânia diz um texto de Clarice Lispector):

-) Caderno 2+ de A Tarde,19/02/2011:

Capinan:

NUM POEMA

VOCÊ NÃO ENFRENTA BUROCRACIA”

texto de MARCOS DIAS

O poeta José Carlos Capinan faz 70 anos neste sábado, 19. A MPB lhe deve muito. Poeta intuitivo, também é membro da Academia de Letras da Bahia, estava no centro de tudo quando o Tropicalismo aconteceu e afirma sentir-se muito à vontade com “poéticas”.

Vê o mundo assim, inclusive a religião, como uma poética, e nutre o desejo de se iniciar nos mistérios do candomblé. Desde 2002, como presidente da sociedade Amigos da Cultura Afro-brasileira (Amafro), batalha com a burocracia para concluir um magnífico projeto: o Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab), em Salvador.

AT – Em meio às planilhas e batalha pelas verbas para concluir o Museu da Cultura Afro-Brasileira, como fica o poeta?

JCC – Eu mergulhei nesse projeto como se fosse mergulhar num poema. E fazer um poema é como se você tivesse que enfrentar o que vier. Quando eu vou escrever, tomo a palavra como um orixá. Me preparo para incorporar e nesse projeto eu incorporo, faço como um poeta. Tenho dificuldades imensas porque num poema você não enfrenta burocracia, mas aí tenho que navegar com essas coisas porque, em última instância, eu sou o responsável.

AT – Na esfera pessoal, hoje, há algum desejo?

JCC – Faço 70 anos agora. Lembro que, quando era garoto, eu costumava perder horas olhando o teto e tentando pensar o que eu estaria fazendo 50 anos depois ou o que quer que seja. Na verdade, eu tinha um medo muito grande de nem estar aqui. Meu plano pessoal agora é renascer, perder muita coisa, camadas que vão sendo colocadas sobre você. O que mais desejo hoje é estar num palco, rolando no chão, plantando bananeira, tirando a roupa, recitando poemas, e estou com isso para detonar a qualquer momento.

AT – Aos 70, o que há de tropicalista em você?

JCC – Eu sou mais do que tropicalista. O que o Tropicalismo pode fazer não é propriamente uma invenção tropicalista em si. É um desejo que foi sabotado pela ditadura, que o tropicalismo mantém e coloca esse desejo na rua, não escamoteia, com o cabelo, as roupas, a sexualidade, a questão de não estar preso a códigos estéticos. Tudo isso já estava detonado pelos modernistas no Brasil. Acho que os tropicalistas são filhos dessas revoluções que foram interrompidas. E o século 20 foi de uma riqueza incrível no sentido de se libertar das ortodoxias. É incrível, porque acho que o século 21 é muito conservador em relação aos discursos e propostas do século 20. É um retrocesso.

AT – Certa vez, disse que a poesia havia lhe abandonado com o fim do Tropicalismo.

Isso aconteceu exatamente quando escrevo uma canção chamada Movimento dos Barcos. Nesse discurso, eu penso muito em Beth, minha primeira mulher, que era, assim, minha companheirona. Na época da ditadura, ela me ajudou a imprimir um livro, Inquisitorial, que circulava clandestinamente. Depois me vi redescobrindo coisas que eu não percebia enquanto perdia minha ligação com a potência da palavra. Era como se eu tivesse perdido o direito de receber esse orixá. Lembro muito bem que, quando percebia a armadilha em que eu estava, cantava: “Sofrer, não faço outra coisa na vida” (parceria com Paulinho da Viola), e é uma progressão da questão que vem com Movimento dos Barcos(*), que fiz com Macalé. Eu nunca cantei a ideia de estar sofrendo, cara! Porque a ideia disso é a ideia da premonição. Se você diz algo, você é cavalgado por essas palavras. Essa coisa foi fundamental entender para que a potência um dia retornasse como uma estratégia, e que foi: ”Cores do mar, festa do sol, vida é fazer todo sonho brilhar”… quer dizer, que se dane sofrer, que se dane morrer…

AT – Chegou a fazer medicina. Por que a psiquiatria?

JCC – A loucura sempre me preocupou. Mas quando vi alguém numa crise eu sofria tanto que não consegui.

AT – Não lhe passa pela cabeça que a humanidade possa estar num estágio assim, maníaco?

JCC – Acho que está. Acho que a humanidade enlouqueceu mesmo, sem retorno, porque você tem que se segurar na fé, na religião. Há sofreres que assolam o cotidiano da sociedade e não tem escuta pública, escuta social. Crio as minhas escutas: falo com minhas plantas, minhas pedras, porque sou muito solitário, vivo só, mas converso muito com meus netos, eles são lindos mesmo, figurinhas que me reabrem portas que eu deixei, pontes esquecidas. Sei que fui ferido muito, sou um São Sebastião (risos). Acho que as flechas nem sempre a gente consegue arrancar, mas quis ser médico por querer entender a dor também. Tenho muito medo da dor, não gosto de sofrer.

AT – Quase ninguém…

JCC – Sou um homem do mato ainda, um caboclo do mato. Isso quer dizer que gosto de andar sem camisa, gosto de andar de pé descalço, gosto de andar colhendo cajus, de namorar, namorar a vida, gosto de cair no mar, de água de coco, de rede, sou índio, negro e branco, então não posso perder essa coisa de estar em contato com o que é vivo, com a sexualidade, a loucura, tudo isso está muito próximo de mim, sou muito lúdico, gosto das poéticas do humor, isso tudo é muito alegre. É bom encontrar pessoas criativas, meus amigos santoamarenses são todos muito inteligentes, divertidos, iconoclastas, em enterros, missas… Meu povo de Baixios, que conta histórias e adora beber, comer, namorar…

AT – Como escolhe suas parcerias?

JCC – Solidariedade, encontro de cabeça. Não me imagino fazendo música com um reacionário, preconceituoso. Não consigo fazer música com pessoas de direita, que não amem a vida, Meus parceiros têm que ser, inicialmente, pessoas libertárias, que estejam no jogo da vida como autênticos recriadores e buscadores. Esses são os fundamentos para a gente começar a conversar.

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(*) MOVIMENTO DOS BARCOS

(Jards Macalé e Capinan)

Estou cansado e você também

Vou sair sem abrir a porta

E não voltar nunca mais

Desculpe a paz que eu lhe roubei

E o futuro esperado que eu não dei

É impossível levar um barco sem temporais

E suportar a vida como um momento além do cais

Que passa ao largo do nosso corpo

Não quero ficar dando adeus

As coisas passando, eu quero

É passar com elas, eu quero

E não deixar nada mais

Do que as cinzas de um cigarro

E a marca de um abraço no seu corpo

Não, não sou eu quem vai ficar no porto

Chorando, não

Lamentando o eterno movimento

Movimento dos barcos, movimento

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