DIA DO REGGAE EM SALVADOR

postado por Jary Cardoso @ 10:35 PM |
11 de maio de 2011
A paixão pelo mito Bob Marley é muito forte na Bahia, como mostra esta cena da plateia durante o show “República do Reggae”, no Wet’n'Wild, em Salvador. Foto de WALTER CARVALHO – 20.11.2010

O canto de Bob
na cidade negra

texto de Zédejesusbarreto*

Rolava o ano de 1978 quando ouvi pela primeira vez aquele som diferente, aquela voz negra rouquenha que parecia arrancada do mais fundo das entranhas, um ritmo latejante, o fraseado em inglês que pouco me interessava o significado, aquela guitarra baixo pulsando como o coração no peito, feito o vaivém do mar, o respirar da vida… Tomado por aquela sonoridade, desviei-me de tudo e parti em direção àquele canto encantado, que vinha de uma loja, ali bem perto.

Era a mesma sensação que já sentira quando ainda menino ouvi Luís Gonzaga, mais tarde adolescente ouvi pela primeira vez Beatles, João Gilberto, depois Bethânia cantando ‘É de manhã!’ e, mais tarde, Caetano pregando ‘Alegria Alegria’… São instantes na vida em que sentimentos afloram sem controle a partir dos ouvidos e a alma se enche de uma agonia feliz, inesquecível, e temos a certeza de que jamais seremos os mesmos depois de escutar aquilo.

Era Bob Marley executado em disco, o LP ‘Kaya’ girando na vitrola da lojinha da esquina da Rua d’Ajuda, quase defronte da antiga livraria Civilização Brasileira. A canção primeira que ouvi de Bob, um dos gênios da música do século XX, naquele dia, foi ‘Time Will Tell’ e a ‘fender bass guitar’ que me tirava o fôlego era executada por Aston ‘Family man’ Barret, da banda The Wailers, a cozinha do astro (cantor e compositor) jamaicano. ‘Kaya’ me arrepiou, então, e guardo esse vinil comprado no ato como relíquia.

Naquele tempo – Deus meu, parece uma era bíblica –, trabalhava como repórter na sucursal do jornal Estado de S. Paulo, uma redação com sete jornalistas, situada no prédio alto da rua estreita que liga a Rua Chile à Ajuda, centro e agito da cidade, onde tudo acontecia, então. Livrarias, lojas, farmácias, cafés, bares, restaurantes, o Adamastor, os hotéis Chile e Palace, a Sloper ditando modas, a loja Duas Américas cheia feito um shopping, o frenesi e as fofocas da política na Praça Municipal, o terminal de ônibus na Praça da Sé, anos em que os trios elétricos ainda desciam a Rua Chile e paravam na Praça Castro Alves no Carnaval e os blocos afros com seus tambores eram a grande novidade cultural da cidade negra.

Um ano depois o reggae de Bob apontava caminhos novos: Gilberto Gil gravando o sucesso ‘No Woman, No Cry’ , a ditadura militar se esvaindo, as cores e o fumo da Jamaica, Caribe-África fazendo cabeças em nome de Jah, gorros e atitudes, Pelô, Calabar e Curuzu dançando Jimmy Cliff, Peter Tosh, Alpha Blondy, Muzenza, Olodum, Malê, Ilê, Badauê… A sonoridade urbana jamais seria a mesma.

Em 1981, quando Bob Marley morreu, negros e brancos choraram e fumaram juntos repassando as letras, a poesia de suas canções, cujas mensagens de paz e igualdade entre os homens nos tocavam a todos, embora minha alma libertária sempre se opusesse ao culto rastafariano direcionado ao ditador Hailê Sellassiê. Nada é perfeito, afinal. Os americanos espalharam que, ao morrer de câncer no cérebro num hospital dos EUA, os médicos teriam encontrado mais de treze espécies diferentes de piolhos aninhados nos ‘dread’ de Bob. Vi muito branco rindo. Como se piolhos pudessem macular o ser humano, o artista, a lenda… Coço a cabeça em lêndeas.

Trinta anos depois, o CD ‘Catch A Fire’ (guardo o vinil de 1978) a tocar no carro, revejo aquelas mesmas ruas do centro da cidade amada, maltratada, agora abandonadas. Ouço ‘Stir it Up’, uma das canções mais belas do repertório de Bob, emociono-me com o contraponto sonoro de Peter Machintosh nos teclados, entristecido com o que vejo em volta: a Rua d’Ajuda virou um deserto fedorento, dá medo; a Rua Chile está às moscas, o Adamastor fechado, lojas e hotéis de um lado e outro, da Rua do Pau da Bandeira até a Praça Castro Alves de portas arreadas, os passeios esburacados e imundos, molambos humanos arrastando-se em direção ao nada, sacis. O grito de liberdade e de respeito ao homem de Bob Marley está vivo, mais que oportuno. Calado e só, choro pela minha cidade, Mãe Preta!

*Zédejesusbarreto, jornalista e escrevinhador (11 mai/2011)

***
MARLEY, MORTE E VIDA AOS 30 ANOS

texto de ANTONIO GODI*

“Tempo, tempo, tempo”: 30 anos após a passagem gloriosa de Bob Marley, Rei do Reggae, é preciso pensar no movimento cíclico do nascer e morrer. Em Salvador a cada 11 de maio, “Dia do Reggae”, tudo se resignifica. Vida, morte e a continuidade reconstruída de uma cultura contemporânea plural e inusitada revitaliza-se.

Marley é como um cometa que por aqui passou destinando para a humanidade um legado filosófico e estético inigualável. Messias da paz e do amor, amante do outro e das diferenças. Militante da sustentabilidade de nós e do planeta ele apontou suas balas musicais na direção de tantos corações. Através da batida cardíaca do reggae roots ele sacou que ritmo e tempo dão conta do movimento de nosso corpo e do mistério do planeta. Talvez por isso tenha viajado tão rapidamente no feminino mês de maio.

O conhecimento temporal é uma conquista determinante da humanidade plural. Através dele buscamos acompanhar o movimento de nossas andanças existenciais. É certo que a cultura ideológica eurocêntrica e colonizadora utilizou a lógica dos calendários como instrumento de dominação. Os calendários da colonização e do capitalismo imprimiram ações ideológicas de dominação e poder sobre os aparentemente submetidos. Os calendários gregoriano e litúrgico são exemplos cruciais dessa estratégia. Que desde o início da modernidade capitalista insiste em administrar o movimento de nossas vidas e subjetividades.

Ao curso de cada ano vivemos imersos em dias e meses datados por símbolos históricos dos pretensamente poderosos. Datas cívicas e religiosas como fantasmas no decorrer de cada ciclo anual em nossa existência. Eis que no século XX com mudanças políticas, tecnológicas e comunicacionais desenham-se novas datas. E o mês de maio na Bahia e no Brasil contextualiza-se de forma inusitada. Maio, mês das Marias católicas e das mães do capitalismo comercial. Um mês diferenciado para todos que ao longo do tempo lutam por igualdade e liberdade. O primeiro dia de maio, longe de ser o dia do trabalho, é o dia de luta do trabalhador. Assim como 13 de maio é a datação ideológica de uma libertação fantasmagórica.

Já o dia 11 de maio é uma datação diferenciada de nossa contemporaneidade. Conquista simbólica de história recente nas comemorações e rememorações das nossas lutas étnicas e culturais. É como o 20 de novembro, dia da morte de Zumbi. Datado hoje como o Dia da Consciência Negra no Brasil. O 11 de maio reverencia a morte do Rei do Reggae, Bob Marley que, através do rápido mercado eletrônico do rádio, do disco e, ultimamente das redes de informática, influencia e continua contaminando novas gerações, reafirmando a cristalização de uma Diáspora Afro-Cultural para além das fronteiras do capitalismo babilônico. Com o decreto do “Dia do Reggae”, o Rei passa a ser cidadão soteropolitano, baiano e brasileiro. Um monarca de uma atualidade cultural e estética longe da verticalidade, geografia e prepotência da Babilônia. Um Rei igual aos seus iguais: “I and I” é a soma de nós. Viva o Rei que não teme ser visto nu.

*Antonio Jorge Victor dos Santos Godi – Ator, antropólogo e Prof. Da Universidade Estadual de Feira de Santana-UEFS/DCHF/NUC

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4 Responses to “DIA DO REGGAE EM SALVADOR”

  1. Leandro  Says:

    Esse evento será um evento bom para quem gosta e quem curte reggae, eu particulamente gosto, mas para escutar em casa, ir ao evento não, acho muito pesado e agraciso, bom para quem gosta aleuuuuuuuuuu

  2. ArmundoAlves  Says:

    Morando no interior da Bahia lá pela segunda metade dos 70, não sei de onde ou através de quem, me apareceu no clube do Banco do Brasil o disco “Catch a Fire”. Como a capa original (Bob tacando fogo no morrão pra lá de fumegante) havia sido proibida, bolaram uma ideia ótima, bem superior à original: uma capa em forma de isqueiro, que realmente abria na parte de cima para a saída do vinil.

    O disco tinha sido lançado em 73, mas àquele momento foi uma surpresa e tanto. Em termos de música jamaicana, ninguém mais dava a menor pelota para Obla-Di, Obla-Da. Bahia Comigo, de Paulo Diniz, tinha passado despercebida e eu não lembro se Negra Melodia, de Jards Macalé, em homenagem a Bob Marley, já havia sido lançada.

    Guitarra fazendo base no contratempo, um baixo com incrível mobilidade, percussão inovadora e uma voz singular, superexpressiva. As composições, ótimas composições, disparavam petardos furiosos: Concrete Jungle (talvez a minha preferida), 400 years, Stop that train, Slave Driver, Stir it up, No More Trouble (outra das minhas prediletas) e por aí vai. Bob e Peter Tosh compondo na veia.

    Diferente do punk-rock, do rock-progressivo, a léguas de distância da discoteca, naquele momento era o som que faltava. Logo vim para Salvador e fui adquirindo os outros discos, Rastaman Vibration, Kaya, Exodus, Survival, um ao vivo em que, apesar de chapadão, ele dá uma interpretação pungente de No Woman no Cry,’ e o último Uprising, com a canção-testamento Redemption Song.

    Morreu muito cedo o cara, mas a sua marca é indelével no sentido de que foi um grande músico e líder. Com ele, uma música gerada no Terceiro Mundo ganhou espaço e credibilidade sem recorrer ao elemento exótico.

    Quanto a suas ideias políticas, digamos assim, não despertaram (e não despertam) a mesma cumplicidade. Talvez fossem um tipo de radicalismo novo para enfatizar a revolta ao mesmo tempo que despertava consciências. Nisso, foi razoavelmente bem sucedido, já que a cultura rastafari, seja sincera ou de butique, é plenamente visível mundo afora.

    Mas o uso da maconha como terapia e elevação, a volta dos negros para a África, o cabelo em dreadlocks, a exaltação de supostos descendentes do Rei Salomão com a Rainha de Sabá, cujo principal herdeiro seria Hailé Selassié e outras coisas são um pouco demais para mim.

    Mas a música era (e é) do caralho.

  3. Rafael Chamadoiro Vilan  Says:

    Muito bom!!! Parabéns pelo blog.

    http://iuribarrosdefreitas.blogspot.com/2011/05/sem-bob-marley-o-mundo-ficou-sem-cor.html

    Sds

  4. Jary Cardoso  Says:

    Mensagem estimulante! Obrigado, Rafael. Um forte abraço, Jary

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