11/9/2001 – O ASSOMBRO DO POETA GRAPIÚNA

postado por Jary Cardoso @ 11:13 AM |
10 de setembro de 2011

O poeta e jornalista Florisvaldo Mattos nasceu em Ilhéus, cursou o ginásio em Itabuna e formou-se em Direito pela Universidade da Bahia em 1958, mesmo ano em que integrava a primeira equipe do Jornal da Bahia. Glauber Rocha era o editor de polícia e foi quem mais apostou no talento do jovem grapiúna, levando-o a trocar a advocacia pelo jornalismo e pela poesia. Sob a liderança de Glauber, Florisvaldo participou do grupo literário que editava a revista Mapa.

No dia 11 de setembro de 2001, Florisvaldo viveu o atentado às Torres Gêmeas de Nova York como jornalista e como poeta. Nove dias depois ele gerou o poema Sísifo, o fogo e as essências, publicado então no suplemento semanal que ele editava magistralmente no jornal A Tarde, de Salvador, o A Tarde Cultural. Este blog republica o poema dez anos depois para marcar a data com um jeito baiano de ver o fato histórico.

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SÍSIFO, O FOGO E AS ESSÊNCIAS


Florisvaldo Mattos

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Aos mortos do World Trade Center de Nova York (Terça-feira, 11 set. 2001)

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Et par le pouvoir d’un mot

Je recommence ma vie

Je suis né pour te connaître

Pour te nommer

………………………………………….. Liberté.

(Paul Éluard, Poésie et Verité, Paris, 1942)

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Grandes e estranhos pensamentos

francamente trafegam pelas

rotundas da noite. Desperto

de longínquas esferas, ardo.

Propenso a inundar-me do ar da noite,

absorvo mapas de passado grávidos.

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Só a noite, sim, me recupera os tendões

nervosos que me amarram a almejadas

glórias, as que me faziam anjo

pairando sobre mantos estelares

e, súbito, perdi. Tateio entre ventres,

entre seios, flores murchas de olor sugado.

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Não estou nada feliz. No mar revolto

de sonhos desvanecidos, resta-me,

de meu posto, aguardar o êxtase tempestuoso.

Gêmeas torres sem alegrias, imponentes,

diáfanas: o orgulho traspassa constelações,

a enrijecer, petrificar corações em febre.

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Tudo se parece com o mar: profundidade

e sobressalto. Outrora eram desertos,

fecundas areias de canto e idílio

nostálgicas. Ou, antes, com céu propício

a viagens, ao sopro de ventos perenes,

navegações de alma, semblantes nômades.

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E, assim, marcho para a noite de estilhaços,

onde submerjo. Sobrevieram devastações.

Mal os pássaros acordavam, quando tudo

transmudou-se em frágua vertical, depois ruiu,

poeira e pedra no descambo caçando Sísifo,

solerte adubação, solo propenso a iras.

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Ó pranto hereditário de Velho Oeste

sem anjos, fogo de revólveres pedagógicos,

terras (disseram) de glorioso fundamento.

Metralhadoras em noites de ritos fumegantes,

ó didático pragmatismo do aço, sangue e balas,

moedas de fel sobre relva de surdos passos!

.

Decididamente, perco-me entre grossas

cordilheiras de fumo, de caliça e ferro

retorcido; corpos de forma e cor nenhuma.

Decididamente, o caos se fez medo e escombros,

ante rostos atônitos, bocas empedernidas.

De novo Guernica? De novo Nagasaki?

.

Pássaros cegos descreveram linhas rubras

no céu da manhã, refletidas na água verde

do rio que segue indiferente destino

sob grandes pontes. No chão, decididamente,

em letras de cimento e alumínio, a mão do anjo

escreve: “Humanidade, vergonha é o teu nome.”

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(Salvador, 20 set. 2001)

N. do Autor: poema constante do livro Poesia Reunida e Inéditos (São Paulo: Escrituras Editora, 2011, 352 págs.)

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[N. do Editor: veja mais informações sobre esse livro de Florisvaldo Mattos neste blog, no post http://jeitobaiano.atarde.uol.com.br/?p=2780]

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2 Responses to “11/9/2001 – O ASSOMBRO DO POETA GRAPIÚNA”

  1. Amelie  Says:

    Hola, Me ha dejado anonadado este blog. Podrias seguir haciendo cosas asi. Te dejo mi blog para que lo leas Poeta Mexicana y me digas que opines porfa . Ciaooo, Amelia.

  2. Janete Maia  Says:

    Maravilhosa a sua poesia sobre o 11 de setembro. Ainda não havia lido nada sobre essa data em forma de poesia.
    Aprecio os poemas de Cruz e Sousa e achei sua escrita semelhante.
    Parabéns!
    Um abraço
    Que Deus o abençoe.

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