INDEPENDÊNCIA DO BRASIL NA BAHIA-1

postado por Jary Cardoso @ 8:36 PM |
30 de junho de 2009

O caboclo em seu carro na Lapinha. Foto: Xando P. | Agência A Tarde

O caboclo em seu carro na Lapinha. Foto: Xando Pereira | Agência A Tarde

O CABOCLO NO MEIO

por MILTON MOURA*

Autores consagrados disseram, nas últimas décadas, que o caboclo é um resultado. Alguns deles garantem que é um híbrido. Outros, que é produto de um sincretismo. Outros ainda, que é uma síntese de elementos da brasilidade, uma mistura de perfis. Reconheço a procedência das frases e a verossimilhança das afirmações. Por outro lado, temo que, em dizendo assim, estejamos querendo roubar do caboclo aquilo de que ele parece gostar mais: estar no meio, ser o meio. O que não é a mesma coisa.

O caboclo flui e escapole, tangencia e adentra ao mesmo tempo. A ele não se presta um culto imponente, cheio de cobranças de coerência, posto que não é um deus. Quem vai controlar o caboclo, se ele já aparece feito, não sai de camarinha? Quem sabe é um espírito, um duende astucioso e engraçado, um gnomo que desata nós, tão perspicaz e indecente, adivinhão e surpreendente, provocando admiração e embaraço, temor e alívio. O caboclo habita os meandros das inconsistências, escorrega por entre as arestas das identidades.

Recorrer a um caboclo, ou mesmo ser um caboclo, é um meio. Meio de fazer sentido ou escapar do absurdo de ter que fazer sentido pelo sentido imposto pelos outros. Caboclo é estratégia, jeito, postura de gente sabida. Caboclo é quem escapou do extermínio, da escravidão e da servidão e ainda arranjou como fazer uma tenda onde vêm ter os seus senhores de antanho, em busca de conselho e solução. Até no calendário o caboclo está no meio.

Com exceção do caboclo Tupinambá, que sai em cortejo no 7 de janeiro de Itaparica, os caboclos da independência da Bahia passam no 2 de julho, precedidos de uma semana pelo de Cachoeira, que passeia pela beirada do Paraguaçu já no 25 de junho. São vários, de diversos tamanhos, caboclos e caboclas. Há deles e delas também em Valença, Saubara, Maragogipe, Santo Amaro, São Félix, Jaguaripe, Itacaré e Salinas da Margarida. Com a saída dos portugueses da sede da Bahia, foi preciso inventar um personagem que pudesse ser, quem sabe, o brasileiro. E entronizaram um caboclo num carro de guerra. Ontem (2.7.2007), saíram de novo pela Bahia afora.

Ainda não sabemos direito o que somos, nem para onde podemos ir. Sequer temos certeza de que a sociedade civil, ou a própria democracia, sejam uma aventura apropriada para uma província, capital do passado, ex-poderosa, ex-tanta coisa, êxtase de um Brasil que acaricia seu umbigo preto. Entretanto, quando vemos os caboclos passarem em seu cortejo magnífico, é como se por alguns instantes pudéssemos sonhar em sermos interfaces de nós mesmos, no meio de nós, no meio da rua.

*Milton Moura – professor de Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBa), coordenador do grupo de pesquisa “O Som do Lugar e o Mundo”

(Publicado no jornal A Tarde, de Salvador, em 3 de julho de 2007)

Tags: , ,

Leave a Reply



Grupo A TARDE

empresas do grupo

jornal a tarde | a tarde online | a tarde fm | agência a tarde | serviços gráficos | mobi a tarde | avance telecom | massa!

iniciativas do grupo a tarde educação | a tarde social


Rua Prof. Milton Cayres de Brito n° 204 - Caminho das Árvores - Salvador/BA, CEP-41820570. Tel.: 71 3340-8500 - Redação: 71 3340-8800


Copyright © 1997 - 2010 Grupo A TARDE Todos os direitos reservados.