BAIANOS, GRAÇAS A DEUS, SIM SENHOR!

postado por Jary Cardoso @ 3:51 PM |
25 de setembro de 2009
ILUSTRAÇÃO: BRUNO AZIZ

ILUSTRAÇÃO: BRUNO AZIZ

por EDMUNDO CARÔSO

É fato: somos o que o que somos e não importa o quanto se filosofe sobre o assunto ou quais teorias sejam escritas sobre nós nas bolachas de chope do Leblon (ou com a flexibilidade dos espaguetes das cantinas do Bixiga), o baiano vai ter seu jeito próprio e inconfundível de ser até morrer atrás do trio, com a lata de cerveja na mão, vibrando nos acordes de elétricas guitarras.

Mas, como a Bahia não vai morrer nunca, a passagem desse bastão de lata, dessa malemolência, desse sabor de tarde amortecida, dentro da casa grande e da senzala, graças a Deus – para o seu desgosto ou confusão, caro estrangeiro – não vai findar. É nossa marca, nosso orgulho nacional. Nacional, sim senhor! É isso mesmo que você ouviu (ou leu) pois a Bahia nada mais, nada menos é do que um país de tantas facetas e lados, que os imprudentes teimam em chamar de estado.

Estado… Pois sim! A Bahia é universal e disso só não sabe quem nada perguntou a Edil Pacheco.

Portanto, recomendo: Para melhor compreender o que somos e podemos, desconfio que a solução talvez não esteja em mudar o jeito baiano de ser, mas em forçar um giro de 180º na forma que as pessoas veem como o baiano é.

Pra começar, o cara que não entende a Bahia é porque, quando ele vinha, a gente ia. E aqui é um lugar tão especial que você já começa a chegar a Salvador na hora em que compra a passagem.

A seguir, listo algumas modestas contribuições que podem ajudar aquele que é de fora a compreender como somos aqui dentro.

Primeiro. Ser baiano não é só uma questão de geografia. Alguém pode ter nascido, agora, tranquilamente, em Copenhague. Se quando ele chorar você escutar uns atabaques, é porque nasceu mais um baiano de verdade.

Outra lenda que o bom senso manda jogar por terra é essa de que – mesmo com a nossa história plena de realizações em todos os campos da produtividade, desde o braçal até o intelectual – não trabalhamos. Trabalhamos sim, e muito! E trabalhar além do que já fazemos seria mais redundante do que tentar pôr trança em rastafari.

Está certo, tenho de admitir, se trabalho fosse bom, Caymmi teria nascido em São Paulo, mas essa constatação não nos torna eternos bronzeados, deitados numa rede, tomando água de coco. Quem é de fora precisa, definitivamente, compreender uma coisa sobre nós:

Acredite, na maior parte do tempo o baiano trabalha muito. No tempo que sobra, já que ninguém é perfeito, ele se dedica, com afinco, em pensar como resolver, urgentemente, esse problema.

E, se você quer saber a razão de tanta festa, a Bahia só faz festa o ano inteiro porque ficou combinado que trabalhar seria atribuição dos outros. Só que ela, dentro de sua nobreza, não cumpre isso; e até mesmo festejar, meu nego, dá um trabalhão danado. Experimente e você vai saber do que falo.

Outro fator que contribui pra essa festança é que a baianidade será sempre uma linha traçada sobre a distância mais curta entre o cérebro e a cintura. E se isso, algumas vezes, pode ser o nosso abismo, também é a nossa salvação, aquilo que nos difere de outros povos da Terra Brasilis. E é em cima dessa linha esticada que a representa (e que já é ela mesma) que a baianidade se equilibra. Mais coerente impossível.

De uns tempos pra cá, ranzinza como sou, tenho reclamado que, musicalmente, na Bahia, sabe-se lá por qual capricho da estrutura, parece que a maioria dos cérebros desceu para cintura. Mas essa é uma via de mão dupla onde cada chacra, seja o de baixo ou o de cima, nunca perde por esperar. Não em Salvador, terra em que a cortina sobe e desce o tempo inteiro para mais um espetáculo da excelência do improviso.

Mas temos também nossos pontos negativos, não vou tapar o Farol com a frigideira. Só que, até isso, como aquela melequinha de Gisele Bündchen flagrada na revista de famosos, faz parte do Belo de nossa grandeza. Nada há sem o lado B, nem você.

Daí que convém ficar atento a algumas recomendações:

1. Quando se chega antes a um encontro, na Bahia, duas coisas há que se ter sempre em mente: esqueça o relógio e sente. Baiano que é baiano marca um encontro pra hoje, mas só chega para o ano. Somos o rei do estamos indo e faz parte de nosso sangue não admitir isso. Mas, quer saber? Pra você ter uma idéia, se tivesse sido criada na Bahia a expressão per saecula saeculorum seria grafada como é pra já. Só que vocês não vão entender nunca, já que existem coisas por aqui mais importantes do que a pontualidade – e chegar atrasado é uma delas. Como sublinhou Risério, não dá pra largar a conversa só pra cumprir o relógio. E o baiano só não é pontual porque tem, aí sim!, preguiça de fazer frente à concorrência de Londres.

2. Tampouco estranhe muito esse costume “detestável” que o baiano tem de fazer xixi nas ruas, pois, de certa maneira, não deixa de estar coerente com as políticas, aqui, implementadas – de Educação, inclusive. Daí que, a cada logradouro que é pavimentado em Salvador, a Saúde agradece ao Erário a melhoria das condições de seus públicos sanitários. É só outra forma do governo exercer o saneamento. Entre um pipi e outro, pense nisso e vá relevando.

3. Onde come um come um exército. Na Bahia, esse é o credo. Portanto, fique atento. Aqui, quando você convida, seu único convidado se acha no direito de levar junto um regimento bem maior do que a comida. Não pode dar conta de um batalhão? Então não convide nem unzinho, sequer, para o feijão.

4. Outra coisa: eu posso falar mal de Salvador, mas você não. Faz favor!!!!

Por fim, Se você não é universal, não queira entender a Bahia porque vai se dar mal. E lembre-se: baiano, que tem tanto carisma que já nasce com empresário, só filosofa sentado porque o copo fica melhor acomodado.

E como sou seu brother deixo-lhe um valioso adendo:

Não basta descobrir o que a baiana tem. Você tem que ter também.

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No Responses to “BAIANOS, GRAÇAS A DEUS, SIM SENHOR!”

  1. LOURENÇO MUELLER  Says:

    Tá ótimo. Uma boa resposta para a paulicéia desvairada, que adora exagerar os hábitos e práticas da baianidade e criar lendas sobre isso…

    O artigo me lembra a resposta de um amigo meu (baiano sempre repete amigo meu, tem que ser meu, não é apenas um amigo, já notaram? ‘Tenho um amigo meu’ é comum…), o padre jesuíta Fred Costa e Silva, cearense, mas baiano na alma. Um dos sujeitos mais cultos e inteligentes (porque pode ser uma coisa e não ser outra) que conheço.
    Padre Fred costumava contactar ricos nos seus países de origem (ele falava algumas línguas) e convencê-los a doações ou trabalhos comunitários em Barra, município da Bahia, onde a Igreja tinha verdadeiros latifúndios improdutivos. Coisa típica de S.Tomaz de Aquino, tirar dos ricos e dar aos pobres.
    Falando com entusiamo do Brasil algumas pessoas perguntavam por S.Paulo, se tinha cobras por perto (imaginavam que o Brasil era uma Amazônia só, isso foi há quase 40 anos e a informação não circulava em redes, como hoje).
    E Fred, muito sério, com uma pronúncia perfeita do francês, inglês ou italiano respondia que era assim: a avenida Paulista tinha duas pistas de mão única, cada uma com 6 faixas de rolamento e entre elas uma calha de alguns metros de largura, como um canteiro central, reservado para as cobras…

  2. maisa paranhos  Says:

    Com todas as críticas que faço aos que são pejorativos quando tocam as questões da baianidade (que na minha compreensão é uma realidade), os baianos, em contraposição, contribuem muito para a criação da tal “Lenda”. Serão os baianos “o povo eleito de Deus”? Também os baianos? Todos temos nossas peculiaridades regionais, culturais, e para quem está de fora, estas peculiaridades ganham formas mais evidentes, daí, acredito, surgirem os exageros.
    O mijo nas ruas não é privilégio cultural dos baianos. O carisma não pertence a todos, nem sequer à maioria dos baianos, que, percebo, fazem o complementar do “Sul Maravilha” quando vestem a camisa dos atingidos por preconceitos e, na tentativa de se autoafirmarem, terminam “sendo”, por si próprios, estereotipados. O que é natural passa a ser ostensivo, perdendo, logicamente, sua beleza espontânea, natural e peculiar.

  3. Bernadette de Freitas  Says:

    Ser baiano é a melhor coisa que existe. Amo e adoro esta terra de N.S. do Bonfim e de todos os Orixás. Ser baiano para mim é estar de bem com a vida. Porque os baianos podem falar deles, mas uma coisa em nenhum lugar do mundo tem, que é esta magia, este calor humano que o baiano tem. A Bahia tem um mistério que faz qualquer um ficar maluco, e se vai conhecer pode estar certo que voltará. Ser baiano é ter uma felicidade por dentro. Até pode estar triste mas ele na sua tristeza faz com que se transforme em alegria. Ser baiano nos parece que a vida é azul como o mar. Nos dá encanto em olhar, e as suas festas populares mostram um passado rico e cheio de história porque o Brasil se iniciou em Salvador. Viver a Bahia e estar em paz é um estado de graça, e sem tempo para contar. É esta a Bahia tão cantada em verso e prosa e que tão bem nos faz.

  4. LOURENÇO MUELLER  Says:

    Jary,
    Vou dar um toque sobre o jeito baiano de ser na palestra que farei no seminário Berlim/Salvador, na terça-feira, dia 6, em Arquitetura. Falarei também, et pour cause, no “lugar da festa”.

    Ah! Dessa vez recebi a chamada sobre o comentário novo da Bernadette.
    Abraços.

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