ROBERTO MENDES LANÇA LIVRO E DVD SOBRE A CHULA

posted by Jary Cardoso @ 5:07 PM
31 de março de 2011

ROBERTO MENDES RESGATA

A CHULA DO RECÔNCAVO BAIANO

PARA REAPRESENTÁ-LA AO MUNDO

Pesquisa de mais de três décadas do cantor e compositor vira livro com DVD que será lançado hoje, dia 31 de março, em Salvador

(veja o endereço no final deste post)

Durante três décadas de intensa pesquisa, o compositor Roberto Mendes imergiu em suas raízes, fincadas no Recôncavo baiano, para estudar e resgatar a chula, mãe do samba de roda e base dos outros sambas. O resultado é o livro com DVD intitulado Sotaque em Pauta – Chula: o canto do Recôncavo, com o objetivo de reapresentar o ritmo ao mundo que será lançado em Salvador, no dia 31 de março, a partir das 20h30, no B23 Lounge Music Bar (Rua Anísio Teixeira, 161, Boulevard 161, Itaigara).

Após apresentar seu novo trabalho no Rio de Janeiro e São Paulo, Roberto Mendes recebe os amigos em Salvador para divulgar a chula, a verdadeira origem do samba. O compositor receberá os convidados para autógrafos e, na sequência, presenteará o público com um show de chula.

Popularização da chula

Compositor cujas músicas ecoam por todo o Brasil e estão eternizadas na voz da conterrânea Maria Bethânia, Roberto Mendes presenteia o público com uma obra cuja intenção é popularizar a chula, definida por ele “como um belíssimo canto português com letras compostas organicamente em redondilhas menor e maior”, ou seja, em versos de cinco e sete sílabas.

Presente apenas no Recôncavo baiano e no norte de Portugal, a chula – canto violado do Recôncavo – foi declarada obra-prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade em 25 de novembro de 2005. O livro possibilita o estudo dos fenômenos lingUísticos ocorrentes na letra das músicas e, o DVD, mostra o modo peculiar como a chula é tocada. O trabalho foi apresentado no Rio de Janeiro e São Paulo.

Sobre o livro

Fortemente influenciado por Guimarães Rosa e Mário de Andrade, o livro nasce do encontro entre Roberto Mendes – natural de Santo Amaro da Purificação, cidade do Recôncavo baiano banhada pelo Rio Subaé – e Nizaldo Costa – natural de Xique-Xique, cidade às margens do Rio São Francisco. Juntando os sotaques, as lembranças e as histórias contadas à beira das águas “doces como a cana” dos dois rios, eles compuseram músicas e escreveram o texto povoado de personagens reais e fictícios.

A obra, ricamente ilustrada por fotografias de Marcelo Bruzzi, traz um estudo sobre versificação e análise dos fenômenos verificados na letra das canções compostas por Roberto Mendes, tais como crase poética, anadiplose (repetição da última palavra ou expressão de uma oração) entre outros. Traz, ainda, as letras e as partituras elaboradas por Marcos Bezerra.

Bilíngue (português e inglês), o livro vem acompanhado de um DVD no qual Roberto Mendes apresenta um verdadeiro show de chula com violão e voz e, ainda, ensina a técnica do ritmo por meio de imagens concentradas em suas mãos. O material também traz entrevistas de antropólogos, músicos e poetas, além de imagens dos locais e das pessoas que serviram de fonte para a pesquisa.

Sobre a chula

Os mais antigos registros sobre uma música típica do Recôncavo Baiano remontam ao século XVIII e são depoimentos de viajantes que descreveram uma manifestação musical na qual homens negros tocavam instrumentos de percussão e cantavam, num ritmo que remontava às raízes africanas.

A chula é sempre ritualística. Homens e mulheres têm os seus papéis definidos. Na roda que se abre para as apresentações, somente homens em pé tocam e um deles puxa o canto que soa como uma declamação. As mulheres só entram na roda quando o “comandante” da chula concede a permissão. Assim, começa a roda de dança, na qual apenas as mulheres podem entrar, uma de cada vez, reverenciando os tocadores até que tudo se transforme em uma grande festa.

A parte litúrgica tem os homens como protagonistas exclusivos, que cantam nos desafios das duas parelhas (formada cada uma por duas pessoas), na qual uma canta e a outra responde. Às mulheres cabe apenas observar e se deixar levar pelo canto e pela harmonia envolvente da viola.

Sobre Roberto Mendes

Natural de Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo baiano, Roberto Mendes nasceu em 22 de novembro de 1952. Com mais de 30 anos de carreira, tem suas composições gravadas pelos conterrâneos Maria Bethânia e Caetano Veloso, por Gilberto Gil, Gal Costa e tantos outros. É, inclusive, quem mais compôs para Maria Bethânia depois de Caetano e Gil.

Entre os sucessos gravados por Bethânia estão: A Beira e o Mar, Esse sonho vai dar, Resto de mim, Vila do adeus, Iluminada, Saudade dela, O nunca mais, Massemba, Filosofia pura, Lua, Beira-Mar, Memória das águas, Francisco, Francisco, Yorubahia, Sino da minha aldeia, Quadrinhas, Ofá, Noite de Estrelas, Vida vã, Louvação a Oxum, Búzio e O nunca mais.

Discografia de Roberto Mendes:

Cidade e rio (2008)

Tempos Quase Modernos (2005)

Flor da Memória (2003)

Tradução – Roberto Mendes & Convidados (2000)

Minha História (1999)

Voz Guia (1996)

Roberto Mendes (1994)

Roberto Mendes & Baianos Luz (1994)

Matriz (1992)

Flama (1988)

Salvador

Data: 31 de março

Local: B-23 Lounge Music Bar

Rua Anísio Teixeira, Boulevard 161, Loja 23 S, Itaigara

Horário: 20h30


ENTREVISTA COM ROBERTO MENDES

posted by Jary Cardoso @ 9:51 PM
19 de outubro de 2009
ROBERTO MENDES em foto de WELTON ARAÚJO | Agência A Tarde 5.6.2008

ROBERTO MENDES em foto de WELTON ARAÚJO | Agência A Tarde 5.6.2008

NÃO NEGOCIO OS MEUS COSTUMES”

 

por CLARISSA BORGES*

 

O músico, compositor e pesquisador Roberto Mendes é um divulgador da cultura de Santo Amaro da Purificação, município do Recôncavo Baiano. Mais do que isso, personifica os valores e tradições do lugar como alguém que se funde com a própria terra. Essa fusão se traduz na busca da preservação e disseminação da chula em todas as suas vertentes, sua principal contribuição à música brasileira.

Admirado e gravado por Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa, tem em Maria Bethânia sua maior incentivadora e a quem confere o título de “estímulo da minha canção”.

Mas o artista prefere atribuir créditos pelo seu sucesso a chuleiros de Santo Amaro, como Zé do Boi, que lhe garantiram “respaldo para brilhar”. A cultura de sua terra também forneceu material para escrever, com Waldomiro Júnior, o livro Chula – Comportamento Traduzido em Canção.

O apego às raízes não impede, entretanto, que Roberto Mendes busque sonoridades diferentes daquelas originadas no Recôncavo. No disco mais recente, Cidade e Rio, convidou Guinga, Alcione, Lenine, Mário Ulloa, Marco Pereira e Pedro Luiz, sem dispensar a presença de seu parceiro mais constante, Jorge Portugal.

Em entrevista concedida à série Memória da Bahia (publicada aos domingos pelo jornal A Tarde e por A Tarde On Line), Roberto Mendes fala sobre matrizes culturais, sua identificação com a cantora e conterrânea Maria Bethânia e critica a postura do Estado em relação à cultura.

 

Sua identificação com Santo Amaro da Purificação é decisiva na sua música. Como foi a infância no município?

ROBERTO MENDES – Basicamente eu sou santo-amarense. Isso é o que me faz ser eu, o resto é consequência de morar na cidade, de nascer e debruçar na memória e viver 24 horas na memória. Não acredito em futuro, não vejo possibilidade de futuro existir na vida de ninguém. Eu penso o aqui e agora, respaldado na memória. A infância foi muito boa. Santo Amaro é uma cidade extremamente provinciana. O Recôncavo é privilegiado porque, quando houve a falência da monocultura de açúcar, até geograficamente, não teve a possibilidade da invasão da indústria moderna. Faliu a cana-de-açúcar, mas ficou a cultura viva. Poucas regiões do mundo têm essa unidade comportamental que tem o Recôncavo, por não ter essa invasão.

 

Quando a música entrou na sua vida?

RM – Em Santo Amaro, fazia parte do código de postura da cidade o canto orfeônico. Então fazer música em Santo Amaro nunca foi nada de absurdo. O primeiro disco gravado no Brasil, quem gravou? Um santamarense, baiano, nas Casas Edson, em 1902. Gravou uma canção de Xisto Bahia, um lundu, quem gravou foi Manuel Pedro dos Santos. O primeiro samba, que se supõe que foi gravado também, com este comportamento de samba, definido como samba, foi Pelo Telefone, gravado por Dunga, que era criado por Tia Amélia, prima das Ciatas, de Santo Amaro. Então Santo Amaro tem essa herança. A família que tinha dois filhos, um tinha que ser padre, o outro, músico. Na minha, todo mundo tocava.

 

Como era a presença da música na sua família?

RM – Minha irmã, que me criou, estudou música com a leitura mais acadêmica da canção. De certa forma, ela influenciou a mim e a César – meu irmão – a ter noção da razão musical. Mas, logo depois, eu me encontro com outro tipo de música, que é a música orgânica, onde não se exigia tanto do comportamento, e era uma música mais livre, como as chulas, o canto do maculelê, a barquinha, a burrinha, a marujada. Aí você vê exatamente a interferência da língua no canto.

 

Diferente de alguns conterrâneos, você não saiu de Santo Amaro. Por que ficar?

RM – Eu acho que eles saíram para eu poder ficar. Eu não sinto saudade, nunca senti a dor da saudade que eles sentem. No fundo, eu sempre achei perigosa a situação de sair da sua terra e ter que negociar os seus costumes para ter uma boa convivência na terra dos outros. Não gosto da terra dos outros, gosto da minha. Eu posso ir na terra dos outros para levar a minha, em visita, mas não tenho pretensão nenhuma de sair e viver negociando os meus costumes com os costumes alheios. Talvez seja isso que me faz até hoje estar lá.

 

As próximas gerações terão acesso às tradições que você tem preservado? O governo tem cumprido este papel?

RM – Não, o governo não tem interesse nenhum nisso. Primeiro que o governo é totalmente desinformado. O Ministério da Cultura não pode cuidar de arte, fomentando artista nem produto artístico, não tem cabimento. Por outro lado, não pode estar colocando dentro de um avião pessoas, as matrizes de seu País, e mandando fazer lavagem no inferno, sei lá, na França. Isso é uma mediocridade singular. É tornar aquilo que é regra exceção e torná-la folclórica. É incompetência, burrice do Estado, que não sabe nada de cultura. A cultura é para ser preservada, os costumes. O que é cultura, na realidade? Herança de costumes que definem o comportamento de um povo. Qual é o binômio de sustentação de um povo? A maneira de falar, que é o canto, e a culinária. Então isso é a obrigação do Estado.

 

Acredita, então, que a chula não será preservada?

RM – Nós temos a cultura de que o bom sempre está do outro lado do rio. E eu digo isso muito à vontade, porque me considero um grande artista porque consegui brilhar na minha terra, seduzi as minhas matrizes, fiz um dia com que o meu vizinho pedisse silêncio para me escutar. Eu me sinto bem, não porque o jornalista diz sobre mim, porque o jornalista não sabe nada, não é porque o crítico diz, porque o crítico sempre foi equivocado, não sabe nada. Quem me respalda a estar aqui dando entrevista hoje é dizer que eu sou amigo de João do Boi, de Zeca Afonso, chuleiros que me deram essa formação. Não sei se isso será preservado porque os meninos não terão essas matrizes mais, e o Estado cinicamente não preserva isso, ele tem vergonha de mostrar o Brasil real.

 

Maria Bethânia se refere a você como um artista fora do comum. Como surgiu essa relação com ela?

RM – Bethânia é a pessoa que me dá a voz, é o estímulo da minha composição. Eu era menino em Santo Amaro e já tinha Bethânia como uma grande força. Nós tínhamos Caetano, Gil, Bethânia, essa geração, como o grande sustentáculo do pensamento da indústria fonográfica brasileira. Mas Bethânia, mesmo morando no Rio, mesmo vivendo fora, tem uma coisa que me impressiona muito. Ela é provinciana. Ela está no Rio, mas Santo Amaro está dentro da casa dela. Eu não tenho nada contra quem está em outros lugares, querendo o mundo. Eu não tenho é a capacidade de entender isso. E eu entendo mais rápido Bethânia talvez porque Bethânia se permita a esse patamar de entender um provinciano.

 

*Clarissa Borges é repórter da Web TV A Tarde 

 Foto: Abmael Silva | Agência A Tarde  

Veja os vídeos desta entrevista através dos seguintes links:

http://www.atarde.com.br/videos/index.jsf?id=1257660

 

http://www.atarde.com.br/videos/index.jsf?id=1257654

http://www.atarde.com.br/videos/index.jsf?id=1257653

 

Agora, uma contribuição do YouTube para esta discussão: samba-chula gravado em São Francisco do Conde, no Recôncavo Baiano, com Milton Primo tocando a viola machete ao lado de Zé de Lelinha do Samba Chula Filhos da Pitangueira.

 

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=ou5DyJ211fM&hl=pt-br&fs=1&]

 



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